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O AMOR NOS PÕE DE PÉ!

O AMOR NOS PÕE DE PÉ!

Além das inúmeras pequenas mensagens, nossas conversas passaram a ser diárias. Por vezes, ficávamos horas falando, e o assunto não se esgotava. Não sabíamos como desligar ou encerrar a conversa. Entretanto, nada ainda havia acontecido. Nada havia sido dito que ultrapassasse a linha da amizade.

Um dia, depois de mais uma longa conversa, veio uma pergunta direta:

— Qual é a tua intenção com as nossas conversas?

Não havia como dar voltas. Era uma pergunta simples e objetiva, que exigia resposta — ainda mais considerando que não éramos mais jovens. Eu tinha mais de cinquenta; ela, mais de quarenta. Por que rodeios?

A idade não importa, porque a vida segue seu curso de maneira implacável. Ela avança de fase em fase até a última. Não há nada que possamos fazer, ainda que tentemos. Alguns pintam o cabelo, outros fazem cirurgias, mas o tempo não para. Ainda assim, acredito que em cada fase atingimos um auge e quando o amor está presente, ele nos põe de pé.

Na infância, há um momento em que tudo parece perfeito: o pai é o maior do mundo; a mãe, a mais carinhosa; os irmãos e os amigos completam esse universo ideal. O amor é o protagonista.

Na adolescência, o auge chega quando surgem as espinhas que nos constrangem diante dos amigos ou quando, ao olhar no espelho, parece que o nariz ficou gigante de um dia para o outro. Na minha adolescência, a dúvida existencial era sobre como pentear o cabelo — porque o amor me dava suporte.

Na juventude, o auge se traduzia em vigor físico e na convicção equivocada de que ele nunca acabaria. O amor assumia novas formas.

Na vida adulta, o auge reúne vigor físico, preparo intelectual e autonomia econômica. O amor se apresenta de modo romântico e, quase sempre, uma nova família surge.

Em cada fase, quando o auge vem acompanhado do amor, estamos de pé.

Entretanto, na vida adulta, o auge pode ser confundido com arrogância, fruto da pretensa autonomia dada pelas capacidades intelectuais e pela abundância econômica, que nos faz acreditar que tudo pode ser comprado. Mas a vida mostra que não é bem assim.

Ao ser confrontado com a pergunta sobre as minhas intenções, voltei alguns anos no tempo, quando estava no auge da vida adulta. Tinha estabilidade econômica, uma trajetória intelectual satisfatória e uma relação conjugal que acreditava segura. Minha busca constante por autonomia e independência — como forma de superar o uso da cadeira de rodas — já não era um problema. Mas a vida não é linear. Veio a separação, que desestruturou um mundo aparentemente equilibrado.

O auge de qualquer fase, sem amor, encontra do outro lado o fundo do poço. Como na adolescência, quando uma espinha no nariz aparece justamente no sábado da festinha com os amigos — sem amor, é o fundo do poço. Como na juventude, quando o vigor físico desaparece após um acidente que te coloca numa cadeira de rodas — sem amor, é o fundo do poço. Na vida adulta, uma separação é o fundo do poço. Sem amor não se pode estar de pé.

Mas a vida não para.

Quatro anos depois da separação, diante daquela pergunta, a vida adulta mostrava novas dúvidas, medos e inseguranças, mas pulsava. A intenção precisava ser revelada para que eu pudesse alcançar um auge pleno, seguro e firme no surgimento de um amor tardio. Eu queria estar de pé.

Fiquei tenso, encabulado e, gaguejando, respondi:

— Gostaria que… que fosse mais do que… amizade…

A tensão se desfez. O rosto dela se iluminou na videochamada. Viajei para a Argentina. Pedi sua mão em casamento. Formamos uma nova família. Agora aos sessenta anos, oxalá eu saiba encontrar o auge da vida na última fase que resta, com equilíbrio e integridade — porque o último amor eu já tenho. Mais uma vez, o amor me pôs de pé.

Em qual fase você está? Se o amor estiver presente, você está de pé — porque estar de pé é um estado de espírito.

Moacir Rauber

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Dedicado à minha esposa Romina Perluzky Rauber