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O QUE HÁ DE MAL NISSO?

Fonte: Pixabay

O QUE HÁ DE MAL NISSO?

As ofertas do supermercado coincidem com os dias de pagamento, assim estava lotado. Entre as gôndolas, era difícil se deslocar. Nos caixas, as filas se formavam. Minha esposa e eu fizemos as compras para, em seguida, nos colocarmos em uma das filas do caixa. A espera seria de trinta minutos ou mais. No caixa ao lado, outra fila. Ali estava um senhor com o carrinho vazio. Pensei: “Por que será que está com o carrinho vazio na fila?”. Dali a pouco, vi uma senhora que trazia produtos e os punha no carrinho. Saiu e voltou por várias vezes com mais produtos. Até que chegou a vez daquele senhor no caixa, o carrinho estava cheio e a compra feita sem perder tempo. “Ahh, entendi.” Qual seria a justificativa interna para esse comportamento? Talvez pense: “O que há de mal nisso?”

Aparentemente, não há nada de mal nisso, tratando-se apenas de uma estratégia inteligente para economizar tempo. Entretanto, entendo que a cena nos mostra uma atitude desonesta, desconsideração pelos demais e a escolha egoísta de obter vantagens em relação aos outros.

Por que é um comportamento desonesto? Parte-se do entendimento de que honestidade é correção, lisura e equidade. Na atitude descrita não há correção, uma vez que, se todos fizessem assim, o caos se instalaria no supermercado. Lisura exige boa-fé, igualmente ausente na atitude do casal. Equidade tampouco, uma vez que ela se fundamenta na justiça, e o comportamento exibido justo não é. Por isso, sempre que se perguntar “O que há de mal nisso?”, avalie com sinceridade, pois pode ser uma justificativa interna que nos leva ao autoengano ou mostra que o nosso ladrão está desperto. Porém, neste caso, o casal não somente roubou de si mesmo a honestidade, roubou dos outros o tempo.

É um comportamento que desconsidera o próximo, uma vez que trata o próprio tempo com mais importância. Ao observar o comportamento do casal, fiquei incomodado, pois vi desrespeito, afronta e desestima. Desrespeito porque todos nós temos as mesmas vinte e quatro horas, e o casal tratou o seu tempo como mais relevante que o tempo dos outros. Afronta ao tratar os demais, entre eles minha esposa e eu, como estúpidos ao se posicionarem como os “espertos”. E desestima porque as necessidades dos demais são tratadas com descaso, uma vez que aqueles que gastaram o seu tempo percorrendo as gôndolas também têm seus compromissos posteriores. Em suma, a empatia passou longe do comportamento do casal, em que se manifesta o ladrão interior que não exibe empatia, com efeitos negativos no exterior.

Enfim, ao se perguntar “O que há de mal nisso?”, avalie se alguém está sendo afetado negativamente pelo seu comportamento por uma vantagem obtida que não é honesta e desconsidera o outro como um igual. Se sim, mude as suas narrativas internas que justificam o que não tem justificativa, pois isso é, sim, um roubo.

“O que há de mal nisso?” pode parecer simples, entretanto revela algo mais profundo, como a desonestidade endêmica, a desconsideração naturalizada e um comportamento oportunista generalizado que nos leva a construir um país que não queremos, uma cidade difícil de viver e relações sociais conflituosas.

Finalmente, “O que há de mal nisso?” reflete uma visão reducionista da própria vida, pois viver apenas evitando o mal não basta. É importante que a forma de viver faça bem aos outros e, consequentemente, a si mesmo.

Por isso, após responder à pergunta “O que há de mal nisso?”, se, com sinceridade, não há mal nenhum, pergunte-se: isso me aproxima de um mundo melhor? Com o meu comportamento, as minhas amizades serão mais sólidas, a minha cidade estará mais segura e o país que construo vai para onde deveria ir? Qual é o legado do meu exemplo para as próximas gerações?

“Certo é certo, mesmo que ninguém o faça; errado é errado, mesmo que todos o façam.”

(Inspirado em Santo Agostinho)
Texto produzido por Inteligência Natural

Moacir Rauber

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