O conhecimento que nos emburrece

Moacir Jorge Rauber
O acúmulo de conhecimento pela humanidade tem crescido exponencialmente, notadamente nos últimos séculos, alcançando as mais variadas áreas. Na saúde saiu-se de um mundo de feiticeiros que combatiam espíritos malignos para a penicilina, para a medicina preventiva, para as biociências que conseguiram decodificar o genoma humano. Nas comunicações deixamos um mundo em que as notícias e os fatos demoravam dias, semanas e meses para cruzar o mundo para a virtualidade que, instantaneamente, propaga as informações para todos os cantos do planeta. Nos transportes evoluímos da charrete aos veículos e aviões. Enfim, em todas as grandes áreas que englobam atividades comuns a evolução foi marcante nas últimas décadas, resultado do conhecimento acumulado pelo ser humano ao longo de sua trajetória planetária. Contrariamente, entretanto, o indivíduo que compõe a atual sociedade perde conhecimento numa velocidade nunca vista. Que fenômeno é esse?
Se por um lado a humanidade acumula conhecimento o ser humano individual de forma geral perde. Esse fenômeno ocorre porque o acúmulo de conhecimento se dá com bases tecnológicas em que este fica armazenado fora dos cérebros humanos. Enquanto no passado o conhecimento passava de geração para geração basicamente pela transmissão oral, atualmente o conhecimento é produzido e armazenado segundo convenções metodológicas nos diferentes produtos tecnológicos criados. Antes o conhecimento era dominado em sua totalidade pela pessoa que o transferia. Hoje o conhecimento é gerado por pessoas diferentes, em distintos lugares e é armazenado em tecnologias diversas, assumindo um caráter prático somente quando se junta para uma finalidade.
O resultado é um ser humano incompleto e fragmentado, que se não tiver ao seu alcance a tecnologia que o conecta ao conhecimento não mais sobrevive. As pessoas hoje são diferentes daquelas que formavam as gerações passadas, que eram auto-suficientes e sobreviviam sem dependência de apetrechos tecnológicos que não conseguiam produzir sozinhos. Assim, temos mais conhecimento na totalidade, mas temos emburrecido na individualidade.

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