Zona de conforto, habilidades e atitudes

Moacir Rauber

Numa das palestras que realizo estava eu começando a tratar sobre conhecimentos, habilidades e atitudes. Falei sobre os conhecimentos, depois passei a falar sobre as habilidades, demonstrando na prática como se consegue mais com menos. Com minha cadeira de rodas demonstrei que posso subir um degrau, descer dois ou três, empinar, dançar, enfim, fazer quase tudo que os demais fazem. Logicamente que essas habilidades não vieram de graça. Para aprender a usar a cadeira de rodas de forma ágil e dinâmica foram horas e horas de treinamento e muita prática. Enfim, não havia outra alternativa, pois ela estava sempre comigo, além de ser o único recurso do qual eu dispunha. Vivem-se situações parecidas nas empresas, nas profissões e no cotidiano. Eu estava literalmente flutuando n o palco com minha cadeira de rodas, enquanto falava sobre o tema. Logo passaria a falar sobre as atitudes. Na última manobra fiz um movimento mais radical, fui traído pela minha zona de conforto e ao executar mal o movimento eu me estatelei no chão. Ao fazer um giro de 360º, enrosquei com meus dedos nos raios da roda que travou. O meu ponto de equilíbrio foi para o espaço e eu fui para o chão. Caí de maduro no palco. Isso em frente a mais de 400 pessoas. O choque foi geral. Os olhos das pessoas se arregalaram. Praticamente todos se levantaram instantaneamente num momento de comoção. Fiquei deitado com o rosto virado para o chão. Como iria encarar toda aquela gente depois de um vexame desses? Logo percebi que algumas pessoas corriam em minha direção. Olhei ao redor e vi gente com lágrimas nos olhos, paralisadas, chocadas e com uma expressão de dó e de pena em seus rostos que chegava a comover. Alguns deviam estar pensando, O manquinho se ferrou! Também, tava querendo se exibir demais… O mesmo ocorre conosco em situações do dia-a-dia, quando vemos um amigo se estatelar em seu novo empreendimento também ficamos chocados e com dó, inicialmente. Ficamos comovidos, mas não ficamos impedidos de dirigir-lhe algum pensamento maldoso ou mesmo uma crítica aberta. Por outro lado, para quem está no fundo do poço, para quem está quebrado, falido ou estirado no chão os sentimentos provocados nos demais, aquele misto de comiseração e pena, muitas vezes servem como alívio e como estímulo para nada mais fazer. Os sentimentos de pena e dó são cruéis. Por um lado trazem abrandam a dor, mas podem fazer com que alguém não queira mais se levantar. E para sair dali de onde eu estava, no chão, no fundo do poço da minha apresentação haveria somente uma coisa a ser feita. Havia somente uma forma de sair dali dignamente e seria através da atitude. Levantei a cabeça, olhei diretamente para as pessoas que vinham em minha direção para ajudar-me e disse-lhes, Não, não precisam ajudar. Caí sozinho e vou me levantar sozinho! Girei e sentei-me. Puxei minha cadeira para perto de mim. Posicionei-me de forma a poder subir na cadeira. Fiz um movimento vigoroso e brusco subindo novamente na cadeira de rodas. Ajustei-me a ela, arrumei minhas roupas e outra vez peguei o microfone. Olhei a platéia de frente. Eles ainda estavam perplexos, exibindo feições que demonstravam um sensação de alívio, pela minha volta a cadeira, e também de vergonha alheia, pelo vexame pelo qual havia passado. Foi a partir desse momento que retomei a reflexão sobre as habilidades que nos levam para uma zona de conforto. Discorri sobre o tema, falando que da mesma forma como eu caí justamente numa manobra que faço todos os dias todos nós podemos cair em qualquer uma de nossas atividades. Sejam elas corriqueiras ou não. Entretanto, para sairmos da zona de conforto ou do desconforto em nossas quedas, somente há uma forma e ela se chama atitude. Atitude para fazer o que deve ser feito. Atitude para não aceitar o falso conforto que encontramos no fundo do poço. Atitude para mover-se em direção aos nossos objetivos. Atitude para encenar uma queda e levantar-se, sabendo que estaria pagando um mico tremendo, mas que certamente seria uma ótima forma de se demonstrar como somente as atitudes nos tiram de situações difíceis.

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