Um mundo com propósito!

Aqui estamos nós, num mundo de oportunidades. Descobriu-se a infinitude do macro e do micro universo, porque se  tudo pode ser multiplicado e tudo pode ser dividido,  tem-se infinitos planos infinitos. É por isso que se acredita que há uma sucessão de oportunidades despertadas pela consciência da infinitude de nosso mundo, que não havia sido alcançada por volta do ano 1000 da era cristã. Aqui também estava eu, próximo ao ano 2000, um cadeirante aos 19 anos de idade. Seria também para mim um mundo de oportunidades? Poderia ser uma cadeira de rodas uma oportunidade para um jovem? Pense-se nas dificuldades de acessibilidade que restringem a mobilidade. Pense-se nos impactos psicológicos provocados por um trauma dessa magnitude. Pense-se no ainda presente preconceito das demais pessoas com relação as capacidades de um usuário de cadeira de rodas. Pense-se em todas as dificuldades oriundas das limitações impostas por uma deficiência física nas motivações do atingido. Depois dessa reflexão pergunte-se se uma cadeira de rodas poderia ser uma oportunidade na vida de qualquer pessoa? Certamente que não há pai, mãe, irmão, primo, amigo ou mesmo inimigo que deseje uma cadeira de rodas para o próximo, garantindo-lhe que está diante de uma grande oportunidade. Entretanto, considere-se agora diante da inevitabilidade do fato e lembre-se que a sua vida é única e instranferível. Lembre-se também do ambiente no qual viviam as pessoas por volta do ano 1000 da era cristã. Analise sob diferentes aspectos e começa-se a vislumbrar possibilidades.

Pergunte-se o que você faria se não tivesse medo? Essa pergunta pode e deve ser feita e respondida por um cadeirante ou por qualquer outra pessoa. Ao respondê-la perca o medo que paralisa o cérebro. Perca o medo que embota a imaginação. Perca o medo que  limita a criatividade. Perca o medo que tira a iniciativa. Perca o medo que rouba a motivação. Depois faça algo que o leve para aquilo que você faria caso não tivesse medo, porque a maioria dos nossos medos se reportam a problemas imaginários.

Para isso é importante buscar conhecimento sobre aquilo que o pode levar até onde você quer ir. Conhecimento que deve gerar competência. Competência que se baseia no saber, no saber fazer, em querer fazer, em poder fazer e em saber ser. Ao estudar e compreender esse ciclo consegue-se entender as próprias motivações, assim como das pessoas circundantes. Lamentavelmente a motivação tem sido tratada muito superficialmente, apresentando-se com algumas regrinhas como se fossem fórmulas mágicas que resolvem todos os problemas. Mas a realidade não é assim. A motivação e suas variáveis podem e devem ser estudadas aprofundadamente. É a partir de uma análise mais profunda é que ser um cadeirante aos 19 anos de idade pode ser uma oportunidade.


Voltando-se no tempo, no início da trajetória humana no planeta terra as motivações dos seres humanos se resumiam a terminar o dia vivo, preferencialmente bem alimentado com a ambição maior de perpetuar a espécie. Num passado mais recente as motivações humanas já buscavam premiações e recompensas, assim como o evitamento das punições. Logo, parte das atuais organizações trabalham sob a ótica do “se, então” que fica muito bem representada pela metáfora do burro e da cenoura. Para fazer com que um burro caminhe na direção desejada ofereça-lhe a possibilidade de obter uma cenoura, mas não lha dê. Mantenha na mente daquele que se quer motivar a possibilidadede alcançá-la. Caso essa estratégia não mais funcione aplique o chicote. Uma punição, sob essa perspectiva motivacional, motiva de forma contundente. E se mesmo assim o burro não for na direção desejada, troque-o. Agora aplique essa regra para a sua vida. Você se contenta com a cenoura que lhe oferecem? Pode até ser que sim. Depois pense na cenoura que se poderia oferecer para um cadeirante e você chegará a conclusão que a única iniciativa que um cadeirante deveria ter seria a de se dar um tiro na cabeça. Como alguém conseguiria se motivar na base das punições e recompensas? Alguém quer maior punição do que ser um cadeirante? E qual o motivo de tal punição?

Entrementes, felizmente, a humanidade evoluiu e com ela evoluíram as motivações. As pessoas já não se satisfazem com somente terminar mais um dia vivo, de barriga cheia ou simplesmente tendo recebido uma recompensa ou não sendo punido. As pessoas se deram conta da sua unicidade e da própria finitude da vida, o que a faz buscar algo mais em sua vida. Nesse cenário até para um cadeirante poderia haver motivações. E as pessoas que gerem as organizações, obrigatoriamente trabalham com outras pessoas, porque nada existe fora da natureza que não seja feito por elas e para elas. Vive-se num dos únicos momentos da história em que cada um pode ser aquilo que pretende ser, inclusive um cadeirante pode ser um empresário, um professor ou um atleta de alto rendimento. Para esse fim as pessoas devem buscar a autonomia, desenvolver a excelência e ter um propósito. Um cadeirante pode buscar autonomia, pode desenvolver a excelência e pode ter um propósito.

A autonomia dá a possibilidade da auto-direção em que todos podem conduzir a própria vida de forma a ter o destino em suas mãos. Segundo Pink (2010), as pessoas precisam de autonomia sobre o que fazem, sobre quando o fazem, sobre com quem o fazem e também sobre como o fazem. A autonomia que as pessoas precisam está expressa na construção da maior e mais popular enciclopédia produzida pela humanidade, a wikipédia, que não contrata, não remunera, não motiva com uma cenoura e não pune com um chicote. A autonomia leva as pessoas a ter iniciativa, a fazer o que deve ser feito e quando deve ser feito. A autonomia motiva as pessoas a fazerem aquilo que se quer mesmo quando não se está com vontade. A autonomia leva as pessoas a fazer aquilo que não se gosta na busca daquilo que se quer. A autonomia se aproxima da ideia de disciplina coadunada com a liberdade, porque por meio daquela você pode exercer esta. Desse modo, uma pessoa autônoma desenvolve a proatividade e a assertividade em busca dos objetivos próprios e organizacionais. Para um cadeirante a autonomia pode ser expressada por questões tão simples como cruzar a rua sem ajuda, morar sozinho ou praticar um esporte, mas que lhe abre um horizonte com oportunidades.

Pessoas que exercem a autonomia com responsabilidade vão em busca da excelência, que é encontrada em atividades que os cativam de tal modo que não percebem o tempo passar. Entram em fluxo, segundo Pink (2010). Mas ser excelente é um ideal e, portanto, inalcançável. A excelência somente se dá em pequenos e fugazes momentos que leva a que se busque um novo estado, porque ela já está em outro patamar. A excelência está sempre em mutação e é passível de melhoria contínua. Mas para alcançar esses momentos necessita-se de esforço, dedicação e prática deliberada encontrada na repetição, na observação e na mudança de padrões. O atleta busca a excelência na rotina dos treinamentos e a encontra na competição. Sim, muitos cadeirantes passaram a ser atletas por lazer, atletas amadores e também profissionais. A atual conjuntura mundial, combinada com o grau de evolução tecnológica e mudança dos padrões motivacionais permite que qualquer pessoa busque a excelência na atividade que goste. A excelência, por ser inalcançável, revela-se entre os sentimentos de frustração e sedução, mas é na sua busca que se encontra a criatividade e se desenvolvem as habilidades. O mundo tem possibilitado essas alternativas a quase todos.

Por fim, o atual estágio da motivação tem sua base no propósito. Ao se dar conta da infinitude do universo e da finitude da própria vida, a maximização do lucro, puramente financeiro, começa a dividir sua relevância com o propósito. Caminha-se, assim, rapidamente para uma mudança de paradigmas organizacionais provocada pela mudança de objetivos individuais. Logicamente que somente poderia ser assim. Não há organização sem pessoas. Ao pensar sobre as questões abordadas reforça-se a ideia defendida no texto de que se vive num mundo de oportunidades, inclusive para um cadeirante. Oportunidades essas estimuladas pelas possibilidades encontradas na motivação do indivíduo que tem autonomia para escrever a própria história. A autonomia que leva uma pessoa a procurar a excelência numa atividade até então inimaginável. Excelência que permite um cadeirante ser integrante da seleção brasileira de remo e disputar três campeonatos mundiais. É dessa motivação que muitas organizações ainda carecem, a motivação baseada num propósito. Desse modo, com pessoas que passem a dar maior relevância a um propósito do que exclusivamente ao dinheiro, a cenoura, as organizações também mudarão. Indivíduos com propósitos criarão uma nova geração de organizações que reformularão os negócios e a forma de ver o mundo. 

Um mundo repleto de oportunidades para aqueles que têm propósito!

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