Hoje eu ganhei…

Moacir Rauber

Sabe aqueles dias em que você acorda e tem a certeza de que tudo vai dar certo? Pois é, hoje foi assim que acordei, apesar de ser um dia como qualquer outro. Não havia nada de especial para acontecer, exceto o final do mundo (21-12-12). Mas ele não aconteceu, pelo menos até agora… Levantei, tomei chimarrão e café com meu sobrinho e fui para minhas atividades. Abri os e-mails. Muitas mensagens de final de ano, entre elas algumas muito especiais, enviadas com todo cuidado para um destinatário específico ou como parte de um grupo exclusivo que entende uma linguagem comum. Porém, a grande maioria delas enviadas a rodo, tipo produção em massa, revelando o pensamento do autor, Enviarei uma mensagem para todo mundo e me livro disso de uma vez por todas…”. Mas o que quero contar é outra coisa. Saí por volta das 11h, uma vez que tinha um compromisso. Encontrei o senhor que trabalha no prédio ao lado com quem converso quase todos os dias. Ele me disse, O senhor já levantou? Vai sair para dar um passeio? Pela enésima vez me fez as mesmas perguntas revelando a mesma ideia, “O doentinho também precisa sair um pouco para espairecer…” Confirmei, entretanto me propus a não explicar pela enésima vez que eu levanto todos os dias antes das 7h, que o meu trabalho é feito em casa na maior parte das vezes e que eu não vou sair para passear, mas sim para atender a um compromisso assim como qualquer outra pessoa também faz. Não valeria a pena, porque no modelo mental daquele senhor com mais de 70 anos um usuário de cadeira de rodas não tem condições de fazer nada. Deve pensar, “Imagina se ele trabalha… Lógico que não!”. Troquei mais algumas palavras com ele e fui em frente. Sairia para o meu compromisso, mesmo sendo hoje um dia próximo ao Natal. Esses dias são propícios para se expressar os bons sentimentos. Já tive algumas experiências curiosas nesse período, como aquela em que a mulher me olhou, deu-me um abraço, desejou Feliz Natal e depois acrescentou, “Tão jovem, tão bonito e aleijado!”. Já faz um bom tempo, mas ficou registrado. Hoje eu estava saindo de casa vacinado contra todo e qualquer tipo de situação. Nada me tiraria do sério… Lá fui eu. Com meu péssimo senso de localização saí de casa na direção contrária da rua para onde eu iria. Fiz uma volta maior do que a necessária e peguei um trânsito congestionado. Fiquei ansioso, porque mesmo tendo saído com antecedência estava correndo o risco de chegar atrasado. Impensável na minha concepção! Compromisso assumido, compromisso cumprido… Finalmente consegui me livrar do trânsito e chegar ao local. Estava chovendo. Estacionei o carro e comecei a montar a minha cadeira, mesmo com a chuva. Nisso chega correndo um senhor oferecendo-se para me ajudar e já foi metendo a mão na minha cadeira que ainda estava sem as rodas. Disse-lhe, “Olha, pode deixar que eu mesmo monto a cadeira, porque as peças estão na ordem certa. É fácil para mim…” Ele me olhou e retrucou, “Não, não… Pode deixar que eu arrumo. A cadeira está estragada? Onde estão as rodas?” Virando para lá e para cá o chassi da minha cadeira que estava em suas mãos. Fiquei irritado, mas comentei comigo mesmo, “Calma, calma…Hoje não!” e falei para o senhor, “Não tá estragada, tá tudo certo. O senhor pode deixar a cadeira aí onde ela estava que ainda falta eu colocar as rodas nela. É rapidinho…” Ele ficou olhando para a parte da cadeira que tinha nas mãos sem entender muita coisa. Ainda tentou insistir. Retruquei que com a cadeira ele não poderia me ajudar, mas aceitaria a sua ajuda com o guarda-chuva que ele tinha. Finalmente ele pôs a cadeira de volta em seu lugar e eu pude terminar de montá-la. Por outro lado, ele pode me ajudar usando o seu guarda-chuva evitando que eu me molhasse todo.

Sim, hoje eu ganhei, porque não disse aquilo que tive vontade de dizer. Na hora me veio à mente, “Escuta aqui, se o senhor não sabe ajudar então pelo menos não atrapalhe…”. Certamente seria uma grosseira sem tamanho. Não falei. Na verdade ao não falar de forma agressiva eu ganhei, porque exerci meu autocontrole. Ao final recebi a ajuda ao não me molhar e pude contribuir com a boa vontade daquele senhor. Depois, terminamos  por ir ao mesmo lugar, onde tivemos que esperar e conversamos por um longo tempo. Fiquei sabendo que um sobrinho dele recém se tornara paraplégico num acidente de moto. Assim, também pude ajudá-lo com a experiência já acumulada nos 26 anos em que sou usuário de uma cadeira de rodas.

Finalmente posso dizer que hoje eu ganhei muito. Ganhei porque aprendi comigo mesmo. Com isso o Natal será mais feliz!!!

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