QUANDO A PAUSA VIRA AMOR!

ONDE ESTÃO OS RECURSOS PARA AMAR?

Na parada do ônibus, Clara segurava seu guarda-chuva enquanto esperava. Estava de cara fechada, não por causa do clima, mas porque, a alguns metros, estava o vizinho — aquele mesmo que deixava o lixo fora do horário e que a havia acusado injustamente de riscar seu carro. Clara respirou fundo. Não queria cruzar olhares. Preferia ignorá-lo. Então viu que ele estava encharcado, sem guarda-chuva, e tremia de frio. Clara sentiu aquele desconforto que aparece quando a gente sabe o que deveria fazer, mas não quer fazer. Olhou para o guarda-chuva. Olhou para a chuva. Olhou para o vizinho. O que fazer?

A história da situação cotidiana se repete, mas, diante dela, podemos reagir ou agir de diferentes maneiras.

Reagir é o nosso instinto natural que, muitas vezes, nos afasta daquilo que queremos. Ainda que tenhamos a intenção de ser bons, ao reagir frente a uma situação ativamos os instintos de luta, fuga ou paralisia. Em Clara, nesse momento, esses instintos estavam presentes. Diante do desafeto, teve início uma batalha interna. Ela tinha as opções instintivas: podia seguir em frente, fazer cara feia ou ignorar. Porém, onde estariam os seus recursos para amar? Qual era a sua intenção? O que fazer?

Ao buscarmos os recursos para amar seguindo os passos da Comunicação Não-Violenta (CNV), surgem estratégias que nos conectam com as pessoas à nossa volta, mas principalmente com as nossas intenções mais profundas. Para isso, entendemos que é essencial fazer uma pausa, pois, a partir dela, podemos nos comportar de maneira consciente, abandonando os instintos.

O primeiro passo a que somos convidados é o de analisar o que está acontecendo, sem interpretar, julgar ou acrescentar subjetividades de situações anteriores. Qual era o fato na parada de ônibus?

Em seguida, segundo a CNV, é importante reconhecer em nós os sentimentos gerados pela situação presenciada. Ao reconhecer os meus sentimentos, posso tornar visível o que se move internamente, ajudando a diferenciar emoções de pensamentos disfarçados de sentimento. O que Clara sentia ao encarar o seu vizinho?

Aqui chegamos ao terceiro passo da CNV, em que identificamos qual necessidade cuidamos — ou deixamos de cuidar — diante da situação. Trata-se do motor interno, aquilo que nos move. Por isso, compreender a necessidade por trás de um fato permite reconhecer o que é verdadeiramente importante para a pessoa, para os envolvidos e o que ela valoriza, elementos que sustentam suas relações. A partir das nossas necessidades, podemos adotar estratégias que nos colocam no caminho da conexão com o outro. Quais estratégias Clara poderia adotar que se alinham com sua intenção mais profunda? Clara tem recursos para amar?

O que é amar? Para esta reflexão, amar é fazer uma pausa, identificar as necessidades dos envolvidos — não somente as minhas —, revisar os recursos de que disponho e agir em conformidade. Nessa perspectiva, não há espaço para orgulho, inveja ou injustiça, uma vez que o amor é uma ação intencional, nem sempre fácil.

Enfim, ao ver o seu vizinho, Clara inicialmente ativou seu estado primitivo, identificou a raiva e a irritação e quase atuou em consequência. Entretanto, ela fez uma pausa, suavizou a expressão do rosto, olhou para o vizinho e disse:

— Quer dividir o guarda-chuva?

Ele levantou o olhar, surpreso, hesitando diante do gesto dela depois de tantas tensões. Indagou:

— Tem certeza? — quase envergonhado.

— Claro. Não faz sentido você se molhar.

Ficaram sob o guarda-chuva, em silêncio no começo.

Olha… — murmurou o vizinho. — Sinto muito pelo carro. Te acusei sem provas…

Não era um pedido de desculpas perfeito, mas era um começo.

— Obrigada por dizer isso — respondeu ela.

O ônibus chegou. Subiram. Sentaram-se em assentos separados, mas algo havia mudado. Não eram amigos, mas já não eram inimigos.

Clara encontrou seus recursos para amar amando, porque amor é um substantivo que exige ação!

Moacir Rauber

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