Sou cadeirante e tenho preconceitos, sim. E se fosse a minha filha?

A Andréia era minha amiga. Andávamos juntos sempre que podíamos. Gostávamos de conversar e de ficar próximos um do outro. Na brincadeira para lá e para cá, às vezes, ela sentava no meu colo, aproveitando a minha cadeira de rodas. Eu achava isso o máximo!  Algo estava acontecendo que ultrapassava a simples amizade. Ainda não admitíamos a possibilidade um para o outro, porém um dia isso ficou para trás. Havíamos combinado de sair para conversar após as aulas dela. Esperei-e em frente ao portão da universdade e fomos até o lago, uma linda região da cidade. Passamos um tempo agradável um na companhia do outro. Depois levei-a para casa. Os limites da amizade foram superados naquela noite. Deixei-a na porta de sua casa e fui para a minha. Estava um pouco zonzo. Fiquei pensando, Caramba, o que foi isso? Quase não consegui dormir. No dia seguinte fui cedo para o trabalho, mas a cabeça ainda estava na noite anterior. Mil e uma dúvidas na cabeça. Será que ligo para saber como ela está? Será que ela gostou do que aconteceu ontem? Estava difícil para me concentrar, mesmo assim trabalhar era necessário. Um pouco antes do meio-dia a secretária me passa uma ligação. Era ela! Eu fiquei muito nervoso, mas procurei disfarçar. Até parecia que os meus trinta anos haviam se transformado em quinze. Sozinho na minha sala eu estava ruborizado. Na conversa, ela me pediu carona para o almoço, uma vez que morávamos no mesmo bairro.
Passei no escritório em que a Andréia trabalhava. O cumprimento foi com um beijinho no rosto, como se fôssemos amigos. O trajeto do centro em direção ao bairro foi preenchido com conversas triviais. Creio que tentávamos parecer tranquilos. Pelo menos era a minha intenção. De repente, silêncio… Não me veio nada mais à cabeça para continuar nossa conversa. O silêncio estava angustiante. Minha atenção estava voltada para a direção. Estávamos justamente passando na região do lago em que precisava fazer uma curva acentuada à esquerda quando o silêncio foi quebrado com uma pergunta à queima-roupa:
Então, Moacir, estamos namorando ou não?
O impacto da pergunta foi tão forte que quase perdi o controle da direção. Minha cabeça entrou em parafuso, A curva,meu Deus, a curva…Consegui contorná-la. Milhões de pensamentos se misturavam na minha cabeça atordoada, Como? Namorando? Eu com você? Ai, ai, ai… O que é isso? Com certeza eu estava de boca aberta. Tentava manter os olhos na rua, mas sentia claramente o olhar da Andréia. Aquele olhar curioso, transparente e que parecia que podia ver através de mim. Por fim, balbuciei algo:
­- Bom… Bem… Sim, acho que sim.
Ela respondeu:
– Ôba!!!
Com a resposta, ela deu a entender que isso era assunto encerrado. Ela era minha namorada e eu o seu namorado desde a noite anterior.
Na minha cabeça estava tudo enrolado. Como assim, “Ôba!”? Pensei que fosse somente para ficar? Ela tem menos de 20 e eu tenho mais de 30… Ah meu Deus… Não falei quase nada até chegar em casa, mas muita coisa estava no meu íntimo. O pensamento voltava, Namorando, eu? Não, não, não… Isso não vai dar certo. E todas as demais questões envolvidas? A reação dos pais dela? O que achariam os meus pais disso? Namorar uma meninota de menos de 20 anos… E os meus amigos? A minha comunidade? Na realidade o pano de fundo era bem outro. Eu era um cadeirante por mais de dez anos e nunca havia namorado, publicamente, ninguém. Tratava-se do meu preconceito para comigo. Todas essas dúvidas e medos me assaltavam. Mas, por outro lado, eu deveria lembrar que eu não namoraria com os pais dela, com os meus pais, com os amigos, com a comunidade  ou com qualquer outra pessoa. Ela, a Andréia, é que seria minha namorada. E para ela estava tudo resolvido por meio de uma constatação e de uma pergunta: Eu gosto de você. Você gosta de mim? Simples,  não? As demais questões estavam na minha cabeça.
Escrevo tudo isso quase vinte anos depois. Foi a situação exposta no post E se fosse a sua filha? sobre as dúvidas e os medos daquela mãe com a possiblidade de que a sua filha única fosse se casar com um cadeirante que me fez pensar sobre tudo isso. Relembrei a reação do meu sogroe da minha sogra. Agora relembrei o meu comportamento. Voltando no tempo constato que eu tinha preconceitos e era preconceituoso. Até então nunca havia assumido uma namorada porque o meu preconceito para comigo me impedia de fazê-lo. Imagino agora se eu tivesse tido uma filha e ela quisesse, naquela época, casar com um cadeirante… Muito provavelmente eu não seria um entusiasta. Hoje, já vivi comigo como usuário de cadeira de rodas por quase trinta anos. Caso pai eu fosse, certamente, seria zeloso com as amizades e namoros de uma filha, mas as preocupações se voltariam para o caráter da pessoa e não para a sua condição física. Confesso que ainda tenho preconceitos e são muitos. Não vejo nada de errado em tê-los, porque simplesmente não se pode evitá-los. Eles são naturais do ser humano. Reconheço que tenho tantas opiniões formadas sobre assuntos que não domino o suficiente para tê-las que revelam os meus preconceitos. Entretanto, o que me diferencia hoje com relação àquele sujeito que fui há 20 anos é o que faço com eles. Caso não me interesse, deixo de lado. Caso pretenda me manifestar a respeito, esclareço-os para que não seja preconceituoso. Depois de esclarecido e entendido algo posso gostar ou não, mas aí resultado de conceitos, de princípios e de valores, mas não por ser preconceituoso.

E você, tem preconceitos? É bem diferente de ser preconceituoso…

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