Evoluí! Tem certeza?


Quase vinte anos depois, tive a oportunidade de encontrar aquele menino encantador que havia conhecido e com quem havia me relacionado até a adolescência. Foram anos de convivência intensa e muitas horas alegres. As nossas escolhas fizeram com que trilhássemos caminhos diferentes. Nunca mais nos vimos, embora ainda convivesse com aquela pessoa em minhas lembranças. Fiquei feliz ao vê-lo entrar na sala, agora já um homem feito. Alto, forte, bem vestido e completamente careca. Dei um sorriso. Aproximei-me dele e o cumprimentei efusivamente. Tive a impressão de que não houve reciprocidade. Pensei que talvez fosse pelo ambiente…

Logo comentei:
– E então, tudo bem? Quando tempo? Quase vinte anos… disse de forma a expressar que realmente estava com saudades.

Ele respondeu, embora tenha me parecido que com pouco entusiasmo:
– É verdade. Muita coisa mudou…
– Diz aí, como você está?
– Está tudo bem. Evoluí muito. Sou o CEO da empresa… disse enchendo o peito num movimento de orgulho, contudo sem exibir um único sorriso.

Realmente deveria ser motivo de orgulho chegar nessa posição ainda tão jovem, mas não era sobre isso que eu havia perguntado. Ainda quis resgatar aquele menino que eu havia conhecido e brinquei:
– E essa careca? O que é isso?
– É mais prático assim. E ainda destaca a minha cara de bravo que ajuda a manter a minha autoridade… e continuou a falar sobre o trabalho em que exibir a fama de mau parecia uma exigência.

Mais algumas frases trocadas entre nós e o assunto findou. Não havia mais nada para falar. Tudo estava mudado. É natural que as pessoas mudem, evoluam, ampliem as suas competências e alcancem novas posições profissionais. Isso é parte do processo. Porém, não precisamos mudar princípios e valores. Assim, no meu ponto de vista, não havia visto nenhuma evolução na transformação do menino alegre e criativo no executivo que se orgulhava de ser bravo. Não acredito que a função de CEO de uma empresa exija de alguém exibir uma cara de bravo para ser respeitado. Acredito que as pessoas são respeitadas pelo que elas são e pelo que fazem. Gerir inspirando medo nos outros pode revelar arrogância ou medo, mas em ambos os casos sinaliza um ladrão.

O executivo arrogante acredita que a função lhe dá prerrogativas, o que não é verdade. Para os executivos competentes, a função gera responsabilidades, inclusive a de ser humano com os humanos com os quais trabalha. Assim, a verdade de um executivo arrogante é a incompetência. Incompetentes arrogantes roubam de si mesmo a humanidade, roubam dos demais a possibilidade de exibi-la e roubam da organização a produtividade. O executivo que por medo exibe a cara de bravo, da mesma forma, é um ladrão. Ele rouba de si a espontaneidade do bom humor e da alegria, assim como rouba dos outros o direito a um ambiente de trabalho salutar.

Por isso, quando vi aquele menino se apresentar para mim como um executivo que faz a sua gestão pelo medo, não vi onde estaria a evolução que ele mencionou. Se for por arrogância, é um ladrão. Se for por medo, é um ladrão. O tempo passa e as pessoas mudam, mas ainda continuamos trabalhando com pessoas e para pessoas. Não entender isso é roubar. Por isso, para mim, infelizmente, vi a involução daquele menino alegre, criativo e muito humano que se transformou num executivo orgulhoso, arrogante e ladrão de si mesmo.
Abordagem subjacente no livro Ladrão de si mesmo
Moacir Rauber

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