Você quer ser um “Fora de Série”? E as 10.000 horas?

Tem-se lido muitas histórias de pessoas de sucesso em autobiografias e também por meio de relatos de terceiros. Muitas vezes, o êxito alcançado pela pessoa de quem se conta a história parece ter sido resultado tão somente de sua escolha e de sua vontade. Entretanto, qualquer uma das pessoas que hoje seja considerado um “Fora de Série” pela sua genialidade ou performance, deve ter a humildade para reconhecer que existem fatores fora de seu controle que os colocaram em vantagem com relação a outras pessoas que talvez tivessem as mesmas habilidades e competências.

No livro “Outliers, a história do sucesso” Malcolm Gladwell destaca que Bill Gates somente é Bill Gates como o conhecemos hoje porque ele teve algumas vantagens competitivas com relação a todos os outros possíveis Bill Gates da época. Ele não gostava da escola regular, mas como seus pais eram abastados eles o enviaram para uma escola de elite. Nessa escola foi instalado um dos poucos mainframes da época que permitia que se fizesse programação sem que fosse por intermédio dos cartões perfurados. Ser proveniente de um ambiente abastado, assim como ter a oportunidade de desfrutar de um tecnologia inovadora para a época foram situações que deram a Bill Gates possibilidades que outras pessoas com a mesma inteligência não tiveram. São questões que os Fora de Séries muitas vezes não comentam.

Entretanto, há que se ressaltar algo. Bill Gates somente é Bill Gates porque cumpriu com uma carga horária obsessiva de programção por livre e espontânea vontade. Utilizava o terminal compartilhado de programação de sua escola por horas e hora sucessivas como se fosse o mais dedicado trabalhador de uma organização. Mas ele não era um trabalhador. Ele era apenas um jovem que fazia o que fazia porque queria e gostava de fazê-lo. Bill Gates enquadra-se facilmente na regra das 10.000 horas. Gladwell afirma que não há ninguém que faça pelo menos 10.000 horas de uma determinada atividade que não se torne um “Fora de Série”.


Gladwell diz:
“A prática não é o que se faz quando se é bom. É o que se faz para nos tornarmos bons” 
(p. 49).

O que são 10.000 horas?
8h por dia
1250 dias
3 anos e 155 dias
5h por dia
2000 dias
5 anos e 175 dias
2h por dia
5000 dias
13 anos e 255 dias
Sem férias!!!
Sem final de semana!!!
Você ainda quer ser um Fora de Série?

O que fazer com o que fazem de nós?

Escutava o avô comentando sobre o seu, até então, querido neto:
– Nunca esperava isso dele. Foi uma agressão! Estou com o meu olho machucado…  

E continuou a contar a história do momento em que foi agredido fisicamente pelo seu neto de quatorze anos. As palavras mostravam a sua mágoa e o seu profundo sentimento de tristeza para com a atitude do neto que tanto o orgulhara até agora. Qualquer tipo de agressão física é absurda e injustificável, ainda mais se considerarmos um menino agredir um senhor acima de setenta anos. Não há o que justifique essa atitude, porém pode ser simplesmente o resultado daquilo que fizeram com ele, o neto.

Conheço a família desde que o neto em questão nasceu e sempre ouvi as histórias que os adultos contavam sobre ele, muitas vezes, na presença dele. Foram inúmeras as vezes em que eu a ouvia histórias sobre como o neto era duro na queda desde muito pequeno. Não levava desaforo pra casa de jeito nenhum! era uma entre tantas outras expressões usadas para caracterizar o gênio forte do menino. Em seguida vinham as histórias sobre como ele enfrentou uma professora no Jardim de Infância quando então tinha em torno de quatro aninhos; ou daquele dia em que ele partiu pra cima do instrutor na escolinha de futebol; ou ainda as inúmeras brigas e confusões com os coleguinhas. Com ele ninguém se mete. Já sabem que vão levar… falava todo orgulhoso o avô na presença dos pais e do menino, que ouvia as suas histórias serem contadas e recontadas como uma travessura que o engrandecia. Era visível o prazer que gerava no menino ser objeto da conversa da roda dos adultos, pois muitas vezes postava-se ao lado para ouvir as próprias histórias. Os fatos em si, provavelmente, teriam ficado esquecidos num canto da memória profunda que guarda as experiências da infância e não teriam maior significado para aquele menininho que enfrentara a professora ou que avançara no instrutor da escola de futebol. Porém, ao ser contada e relembrada pelos adultos, dando-lhe contornos de um ato fora de série que o caracterizava como um menino agressivo e forte, passou a ser relevante para ele. As brigas e malcriações foram premiadas com a popularidade de ele ouvir que elas fossem contada em prosa e verso. As histórias vinham acompanhadas com adjetivos como rebelde, forte ou travesso e expressões como, ninguém segura esse menino, entre outras que ampliavam em muito os fatos ocorridos. Quantas crianças não tiveram desentendimentos com professores ou instrutores? Para os adultos que recontavam a história, provavelmente, era apenas um motivo para poder falar da pessoa que eles tanto amavam;  para a criança, entretanto, que ouvia a sua história era a formação da sua identidade. Estavam a atribuir-lhe um papel que ele passou a representar em suas demais ações e atitudes. Terminou agredindo o avô.

É assim que nós adultos moldamos as crianças e os outros. Pegamos um fato, por vezes isolado, o ampliamos e o repetimos a tal ponto que no final nós também acreditamos que o outro é daquele jeito que nós o descrevemos. Aquilo que na infância era uma travessura, na adolescência passou a ser rebeldia e na idade adulta pode produzir resultados ainda mais ampliados. Com certeza quase cada um de nós traz algumas lembranças de rótulos que nos eram postos quando crianças. É muito comum ouvir os adultos dizerem, Ah, o meu filho mais velho é muito educado, mas o mais novo é terrível. E lá estão as crianças a ouvirem e a serem moldadas pelas nossas palavras. As palavras têm poder. Essa cena se repete e continua tendo poder também na idade adulta. É comum ouvirmos um chefe dizer, Com Fulano posso contar sempre, mas Cicrano sempre chega atrasado…, ainda que o atraso tenha sido baseado em uma única vez. E, de repente, aquilo que era um fato isolado termina por se confirmar. As pessoas terminam por desempenhar, ainda que inconscientemente, o papel social que lhes foi atribuído. Vestem a carapuça.

Quer dizer que estamos presos àquilo que os outros querem que nós sejamos? Não, não é isso. No meu ponto de vista existe aí uma grande oportunidade que passa pela necessidade de tomada de consciência do papel que desempenhamos, daquele que nos foi”atribuído” e do papel que queremos desempenhar. O quanto antes nós tomarmos consciência daquilo que fizeram conosco vai nos permitir que sejamos aquilo que realmente queremos ser.

O que é que nós estamos fazendo com aquilo que fizeram conosco? O que é que nós estamos fazendo com os outros?


Eu sei como é usar uma cadeira de rodas…

A equipe de basquete em cadeira de rodas, normalmente, é uma atração por onde passa. Não foi diferente desta vez. Duas vans estacionaram nas vagas para pessoas com deficiência daquele centro comercial e logo começou a movimentação. Desce uma pessoa com muletas. Mais uma. Outra. Os transeuntes diminuem o ritmo e a passada para poderem observar, ainda que meio de lado, disfarçando… Depois o elevador começa a baixar um usuário de cadeira de rodas, dois, três e assim vai até que os doze atletas, todos com alguma deficiência, haviam desembarcados. Alguns já haviam cruzado a faixa de pedestres e outros ainda não. Eu estava de um lado da rua e conversava com alguém do outro lado. Nisso, uma senhora muito elegante conduzindo uma BMW para um pouco antes da faixa de pedestres. Ela dá uma olhada geral para o grupo de atletas e aponta para a minha cadeira, já que era aquele que estava mais próximo, para em seguida dizer:
– Eu sei como é usar uma cadeira de rodas. Usei uma por quase três meses…
 
Disse-o com certa dose de orgulho para talvez se identificar com o nosso problema e com a nossa tragédia. Sei que muitas vezes as pessoas fazem esse tipo de comentário para tentar uma aproximação e estabelecer contato em condições de igualdade, o que revelar uma diminuição da discriminação e do preconceito. Entretanto, falar que sabe como o outro se sente com relação ao uso de uma cadeira de rodas é de uma ignorância sem fim, porque isso só quem está na situação sabe. Provavelmente aquela senhora usou a cadeira de rodas no período em havia torcido ou quebrado um pé ou mesmo uma perna, o que é muito diferente de estar numa cadeira de rodas por tempo indeterminado e de maneira irreversível. Eu sei o que é estar numa cadeira de rodas por uma lesão medular e o que isso representa para mim, mas eu não sei o que isso representa para o outro que está numa condição similar a minha. Não sei e não há como saber o que significa para o outro, porque simplesmente eu não sou o outro. Isso depende de cada um, da sua condição psicológica, emocional e social. Cada um com os seus problemas e com a sua interpretação deles. E para nós, atletas que ali estávamos, há tempos que o uso da cadeira de rodas já havia deixado de ser uma tragédia. E mais… O uso da cadeira de rodas é a nossa solução.
 
Olhei para os meus colegas e todos ficaram assim meio sem graça. Com certo ar de deboche respondi:
– Que maravilha! Eu uso uma há 360 meses…
 
Ela deu um sorriso meio amarelo e foi-se embora.

Perguntas sem noção…

Tenho um amigo na equipe de basquete que sofreu a amputação de uma das pernas quando era ainda muito pequeno. Está totalmente integrado a vida e é um excelente profissional, além de ser muito alto astral. Isso tudo não o livra de certas perguntas indiscretas e idiotas em função da prótese que usa no dia a dia para facilitar a sua movimentação. Muitas vezes, ao verem que ele usa uma prótese, as pessoas aproximam-se como quem não quer nada e vão fazendo algumas perguntas:
– Quer dizer que você usa uma prótese no lugar da perna?
Com toda a paciência do mundo ele responde pela enésima vez que “sim”. Porém, para a surpresa dele não foi nem uma nem outra vez que ouviu uma segunda pergunta:
– Mas e… você sente o pé?

Sei que muitas vezes esse tipo de pergunta pode representar a diminuição do preconceito para com as pessoas com deficiência, mas muitas vezes também se trata de um curiosidade mórbida, comum entre aqueles que gostam de uma competição da miséria. 
Agora, com sinceridade, o que você responderia a essa pergunta?



Ficar ou sair do quadrado? Eis a questão…

Exigir que todos pensem fora do quadrado concorre com frases como “a verdade absoluta não existe”, que se coloca como uma verdade absoluta. “Não deixe o seu relacionamento cair na rotina”, que termina por ser a rotina de não se ter rotina. Por isso, a mudança em tempos de mudança pode ser não fazer nada. Da mesma forma, pensar como sempre se pensava em tempos em que todos querem pensar diferente pode ser a diferença. Porque se todos estão preocupados em ser diferentes aquele que simplesmente agir como ele realmente é já será diferente o suficiente para não estar no quadrado.

Somos únicos. Somos múltiplos.