Arquivo da tag: drama e tragédia

A CORAGEM NOS PÕE DE PÉ!

Imagem gerada por COPILOT IA

A CORAGEM NOS PÕE DE PÉ!

Depois de um acontecimento, nada mais será como antes. Assim é quando alguém se casa, tem um filho, perde um ente querido ou sofre um acidente cujas sequelas são evidentes. No meu caso, já são mais de quarenta anos em cadeira de rodas — um acontecimento que mudou tudo. Poderia ter sido uma tragédia ou um drama. A escolha caberia a mim, e ela começou a se delinear quando fui confrontado com uma pergunta:

— O que você faria se não tivesse medo?

A pergunta veio numa sessão de fisioterapia, durante os exercícios de alongamento e mobilização das pernas para não perder elasticidade. Minhas pernas ainda carregavam muita massa muscular, mas estavam flácidas. Entre um movimento e outro, a conversa fluía com a fisioterapeuta. A tragédia da paraplegia era um acontecimento, mas quem determinaria se eu permaneceria na tragédia ou a transformaria em drama seria eu. Isso era um fato.

Antes de prosseguir, quero esclarecer o que significam acontecimento, fato, tragédia e drama neste texto, apoiando-me no pensador espanhol Francesc Torralba.

Acontecimento é algo que muda tudo, porque depois dele nada permanece igual. Fato é algo concreto que ocorre no cotidiano. Tragédia é um desastre ou desgraça, marcado como acontecimento. Drama é o processo de integrar um sofrimento à vida, seja ele originado por um acontecimento trágico ou por um fato cotidiano.

Portanto, a tragédia é um tipo extremo de acontecimento — fere, rompe e desestabiliza — enquanto o drama é a forma como a pessoa o integra na própria vida. Assim, pode-se escolher o drama como a perspectiva de integração de uma tragédia, permitindo que o fato, dado bruto do ocorrido, adquira sentido.

A tragédia de me tornar usuário de cadeira de rodas aos vinte anos era um acontecimento que não esqueceria nunca. Porém, a escolha de diminuir sua força ao integrá-lo à minha vida como um fato, transformando-o em drama, era minha. A pergunta feita a queima-roupa pela fisioterapeuta me empurrava para assumir a condução da minha própria vida. Ela escutou o meu silêncio e repetiu:

— O que você faria se não tivesse medo?

Ela percebia o meu medo, como se eu fosse um animal encurralado. A pergunta me levava a compreender que era preciso ter coragem.

A coragem é a ausência do medo? Não. O medo é uma manifestação emocional diante de uma ameaça, real ou imaginária, que prepara o organismo para aumentar suas chances de sobrevivência. A coragem, por sua vez, nos impulsiona a enfrentar a situação com firmeza, assumindo os perigos que ela apresenta.

No meu caso, já não havia predadores naturais. O único perigo vinha de dentro. O medo poderia me paralisar, me assustar ou me preparar para lutar.

Assim, embora seja o antônimo de medo, a coragem precisa do medo para se manifestar. Sem medo não há coragem. Por isso, a pergunta repetida me conduzia a encontrar a coragem necessária para suplantar o medo e lutar pela vida.

Somente a coragem de integrar um acontecimento trágico poderia permitir que eu começasse a construir um drama cujo desfecho dependeria de mim.

Eu precisava parar, pensar e agir, mesmo sentindo medo. A pergunta me levou a uma pausa. A pausa me proporcionou discernimento. O discernimento me deu coragem para escolher, porque, ainda que estivesse numa cadeira de rodas, eu queria estar de pé.

Foi a partir dessa pergunta que reconheci o meu medo e, ao mesmo tempo, escolhi a coragem. Usaria o medo para ter a coragem de me mover para onde eu queria. Usaria o medo para escolher o ânimo e a vontade de seguir em frente. Usaria o medo para transformar um acontecimento trágico em um drama cujo final eu poderia escolher. Usaria o medo para optar por lutar e estar de pé.

Você tem coragem para suplantar o medo? Se tiver, escreverá um drama com final feliz, porque a coragem de enfrentar os medos nos põe de pé — e estar de pé é um estado de espírito.

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: mjrauber@gmail.com

Home: www.olhemaisumavez.com.br

Obrigado Maria do Carmo.