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Tomar sorvete e levar susto de carro

Tomar sorvete e levar susto de carro

Nasci e me criei na roça, com muito orgulho. Ser agricultor me dava prazer, mas não impedia de sempre ouvir umas piadas dos amigos que moravam na cidade. Diziam eles que os agricultores somente iam à cidade para chupar picolé e levar susto de carro. Essa teoria se explica. Até o final da década de setenta a maioria dos colonos não tinha energia elétrica e as pessoas tampouco possuíam carros. Mesmo aqueles que dispunham de tais luxos tinham em sua rotina poucos encontros com pessoas que não fossem do círculo familiar e não consumiam muitos dos produtos comuns para quem morava numa cidade. Muitos agricultores iam uma ou no máximo duas vezes ao mês para cidade e nessas idas encontravam mais novidades que os curiosos olhos podiam acompanhar. Com isso, a cabeça girava para todos os lados para poder admirar uma casa linda, um edifício enorme, pessoas bem-vestidas e carros, muitos carros. Eram carros novos, velhos, bonitos e feios, uma imensidão de variedades. Assim, muitas vezes ao cruzar a rua os olhos se dirigiam para o lado contrário ao fluxo de veículos, que resultava em frequentes quase atropelos e muitos sustos. Ao finalizar o dia de aventura na cidade, antes de retornar para casa, invariavelmente se comprava um sorvete ou um picolé, afinal, esse era um prazer de que não se podia usufruir na roça.

Esse sujeito que se admira com as novidades, com diferentes costumes, impressionando-se, espantando-se e apaixonando-se pela vida continua muito vivo em mim, apesar de já de ter deixado a roça há um bom tempo e circulado por muitos lugares exóticos deste nosso pequeno grande mundo. Lembrei-me desse período da minha vida com muita força recentemente. Numa saída de casa passeando com minha cadeira de rodas pelas redondezas, fiquei zanzando e admirando a beleza dos jardins e das ruas, além de observar as pessoas caminhando pelas calçadas, muitas delas ensimesmadas. Tantas coisas acontecendo que não conseguia prestar atenção em tudo. A cabeça continuava girando, ansiando por ver coisas que não havia visto ou situações não presenciadas, resultado daquela curiosidade nunca completamente saciada oriunda lá da minha infância e adolescência agrícola. Às vezes eu ia bem devagarzinho, outras acelerava minha cadeira de rodas. Numa dessas aceleradas, com os olhos buscando algum detalhe antes não percebido, as pequenas rodas dianteiras da cadeira se toparam com uma saliência na calçada. Foi um impacto e um tombo. A cadeira parou, mas eu deslizei para frente, estatelando-me no chão. Antes que eu a pudesse segurar ela correu para trás, distanciando-se uns cinco metros de mim. Lá estava eu esparramado na calçada sem alcançar a minha cadeira. Nisso vem uma mulher completamente distraída, mexendo em seu celular e chupando um picolé. Ela aproximou de mim a minha cadeira e me ofereceu um picolé.

A curiosidade pode nos causar impactos que nos assustam, mas ela nos amplia a expectativa de vida. A curiosidade nos traz conhecimento, o conhecimento nos dá alternativas, as alternativas nos fazem aprender a usar o conhecimento que se transforma em experiência. Por fim, viver é experimentar e para experimentar é essencial ser curioso. Se não se pode viver muito mais do que 80 ou 90 anos é possível experienciar mais. É preciso estar disponível para se assustar. Qual foi o susto que você levou a partir da sua curiosidade? O que você aprendeu? Nada? Então pelo menos se sente e chupe um picolé ou tome um sorvete.

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: mjrauber@gmail.com

Home: www.olhemaisumavez.com.br

Inspirado: Anthony de Mello, S. J.

Comprei uma Pós!

A conversa fluía bem com aquele jovem que estava concluindo a sua primeira graduação. Indaguei quais seriam os passos seguintes na sua vida e ele respondeu:

– Bom, trabalho eu já tenho, mas eu quero ser promovido. Por isso eu já comprei uma pós-graduação e… continuou as explicações.

A expressão ouvida sobre o jovem ter comprado uma pós me gerou estranhamento. Não que a ideia de “fazer” a pós fosse ruim, porque acredito que se vive num momento privilegiado em que o aprendizado faz parte de todos os momentos da vida de cada indivíduo. Do início ao fim da vida todos nós temos a oportunidade de continuar aprendendo. É uma dádiva! O estranhamento veio com a expressão “comprei uma pós” como uma garantia da evolução na carreira, mas sem a contrapartida da intenção de aprendizagem que poderia ser detectada caso ele dissesse “vou fazer uma pós”. Pode parecer simplesmente uma questão de vocabulário, porém entendo que há outras questões subjacentes, como a ideia de que se podem comprar coisas intangíveis, como as experiências.

Experiências não se compram.

Experiência quer dizer experienciar que significa experimentar, viver sentir, sofrer, suportar ou vivenciar, entre outros adjetivos.

Podemos pagar pelas experiências, mas elas precisam ser vividas.

Parece-me haver uma propensão a esse tipo de comportamento em diferentes áreas. Na saúde, por exemplo, a indicação para que as pessoas façam exercícios físicos, abandonando o sedentarismo com benefícios para o praticante, segue pelo mesmo caminho. Quem de nós já não ouviu um amigo ou um conhecido estufar o peito para dizer cheio de orgulho que já pagou adiantado a academia? Ou ainda que tenha se inscrito e pago as aulas de natação, crossfit ou outra atividade física? Enfim, muitos já ouviram casos assim, podendo até ter feito algo parecido. Destaca-se, porém, que depois da primeira semana da sua matrícula em vigor fica muito claro que se o indivíduo não alterar a sua rotina e inserir nela um espaço para a atividade física e realmente fazê-la nada vai mudar. Pagar a academia é o menor dos movimentos. Os movimentos que produzem efeitos são as repetições de qualquer exercício que se propõe a melhorar o seu condicionamento, a sua saúde e, consequentemente, diminuir o seu peso. Porém, esse movimento não há dinheiro que pague, porque é uma experiência. O mesmo acontece com o conhecimento. Ele é uma experiência.

Para o presente contexto adquirir e comprar não são sinônimos. Entenda-se adquirir como o ato de conquistar ou de alcançar algo por meio do cumprimento de exigências somente possíveis numa experiência, enquanto comprar como o ato de dar um determinado valor para receber um produto em troca. Não é o caso da pós-graduação. Não há dinheiro que compre a experiência de fazer uma pós-graduação que resulta na experiência de ter adquirido conhecimento. Assim como é o caso de tantos valores intangíveis que muitas pessoas gostariam de comprar, mas que se quiserem desfrutar precisarão adquirir.

Ainda não se pode comprar a criatividade para se ter uma ideia ou a capacidade de se exibir um pensamento profundo ou a aptidão para o discernimento consciente que se adquire por meio do conhecimento.

Portanto, entendo que a nossa vida é feita de experiências que expandem o conhecimento e estendem a vida.

Pague a sua pós-graduação, adquira conhecimento e viva a experiência.

 

Moacir Rauber

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