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QUANDO CALAR? QUANDO FALAR?

Quando calar? Quando falar?

Ele estava cansado e irritado. Chegou em casa e encontrou o sobrinho que morava com ele fazendo algo que estava em desacordo com a sua lógica. Começou a proferir impropérios contra o sobrinho. Este se calou. Não retrucou. Retirou-se e foi para o seu quarto. Ambos foram dormir sem se falar. Na manhã seguinte, levantaram-se no horário de sempre e se encontraram na cozinha para o café da manhã. Saudaram-se com um “bom dia”. O tio fez o chimarrão e o sobrinho o café. Sentaram-se à mesa para comer. Nesse momento, o sobrinho disse:

– Tio, queria falar contigo sobre o ocorrido ontem. Você me pareceu irritado, por isso não falei nada. Fiquei magoado, porque a situação não foi bem como o tio acredita… e explicou.

O tio escutou. Sentiu-se envergonhado e triste, por um lado, e tocado e feliz, por outro. A vergonha tinha origem no seu comportamento impulsivo, agressivo e arrogante a partir de suas inferências. Ele havia feito uma interpretação de algo ocorrido que não necessariamente era um fato. Sem fazer uma pausa, ele analisou a situação a partir de sua perspectiva carregado com a sua condição emocional. A partir disso, ele agiu descarregando a sua frustração em forma de agressão verbal. Agora isso o envergonhava. Igualmente, entristecia-se por saber que havia um longo caminho a ser percorrido por ele para saber gerir a suas emoções de forma positiva e saudável para ele e para as pessoas lhe eram importantes. Por outro lado, o tio se punha tocado com a maturidade emocional do seu sobrinho de dezesseis anos que soube fazer uma pausa para não reagir e soube gerir as emoções. E isso, igualmente o deixava feliz por saber que é possível alcançar a gestão emocional para se comunicar de forma autêntica e não-violenta como uma escolha deliberada em qualquer idade. É a autonomia de cada um que permite fazer as escolhas conscientes. É o livre arbítrio em que somos os responsáveis pela gestão de nossas emoções e das ações que delas resultam. Sabe-se que as emoções são naturais e incontroláveis, entretanto, a nossa maturidade emocional é que vai permitir que sentimentos que escolhemos alimentar. O que nos ensinou o sobrinho?

Entendo que o jovem nos ensinou que a pausa em prática é uma grande ferramenta para a gestão de conflitos. Ele demonstrou um alto nível de inteligência emocional na prática para se comunicar de maneira efetiva e não-violenta ao não reagir imediatamente. Ele fez a pausa. O jovem soube identificar os sentimentos de um e de outro, as necessidades de um e de outro e soube se expressar de maneira não-violenta ao falar o que precisava ser falado no momento de ser falado. O sobrinho soube calar no momento apropriado, evitando um conflito em que ambos poderiam falar aquilo que não queriam num momento inapropriado. Muitas pessoas, coloco-me entre elas, falam quando deveriam calar e escutar, exibindo uma arrogância de quem acredita que sabe mais sobre a realidade do que as pessoas com quem interagem. Igualmente, muitas pessoas se calam quando deveriam falar num ato de submissão. Acredito que o grande aprendizado que nos passa o comportamento do jovem é a humildade sem submissão, além da assertividade sem arrogância. Por fim, creio que do equilíbrio entre a arrogância e a submissão vem a humildade que permite que tudo o que precisa ser dito possa ser dito.

Como fazer? A pausa é essencial para avaliar os fatos, reconhecer os sentimentos, explorar as necessidades e fazer os pedidos com a clareza da humildade sem ser submisso e da assertividade sem ser arrogante.

Moacir Rauber

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Na hora da raiva…

Na hora da raiva…

Escutar o desabafo de uma enfermeira revela como não controlar as emoções pode afetar a própria saúde física e mental. Ela dizia que estava finalizando o seu árduo dia de trabalho e teria um atendimento ainda por fazer. Diagnóstico? Covid. Sintomas? Nenhum. Ainda assim, ela deu uma aula sobre a transmissão e os cuidados para evitá-la, destacando a importância do isolamento. A enfermeira alertava sobre os riscos para si e para os outros na atual situação de falta de leitos para internamento. Por fim, a pessoa agradeceu e saiu. A enfermeira encerrou o trabalho e fez todo o procedimento de higienização com o máximo de cuidado para evitar qualquer possibilidade de contagiar-se ou de contagiar a outros. Agora ela iria para a sua vida familiar. Assim, ela passou pelo supermercado e qual não foi a sua surpresa ao se deparar com a pessoa que ela recém havia atendido, diagnosticada com COVID? A pessoa estava no quiosque do supermercado tomando um sorvete, conversando com o atendente e com as pessoas a sua volta. Foi então que a enfermeira não se conteve. Explodiu:

– Irresponsável!!! Criminoso!!! Não acabei de lhe falar para ficar em casa? Quem você pensa que é?…

Confusão armada. Outras pessoas intervieram para acalmar a enfermeira, enquanto se afastavam do portador do vírus. Provavelmente eu faria o mesmo, porém a enfermeira se colocou em risco físico ao perder o controle de suas emoções. A raiva venceu. A ira a dominou. O resultado? Ela se exaltou, a cólera governou, a indignação a arrebatou e, certamente, o seu corpo e a sua alma sentiram os efeitos negativos desse comportamento. A enfermeira terminou por se prejudicar e por não adotar a melhor estratégia para resolver a situação. A gestão das emoções é um dos grandes desafios individuais e organizacionais, porque elas são naturais e nos acometem em diferentes situações. Não se pode saber qual o momento que seremos confrontados com algo que vai nos provocar raiva. Entretanto, cabe a cada um de nós saber gerir a raiva ou a ira para não nos deixarmos dominar por elas. Ira ou raiva, sentimentos de ódio, fúria, cólera ou indignação dirigido a uma pessoa ou a uma situação, tendem a produzir resultados trágicos quando não controlamos as ações resultantes deles. Ressalte-se que a solução não está no seu extremo, onde se posiciona a passividade. Passivo é aquele sujeito que já não se indigna, não se incomoda e não se mobiliza por nada. É alguém que não age e nem reage frente aos maiores descalabros que estão ao seu alcance resolver. O que fazer frente as situações extremas? Respirar fundo para temporizar. Oxigenar o cérebro para avaliar sem julgar. Ser tolerante e agir com a firmeza de quem ainda se indigna com as situações absurdas. Frente as situações extremas, quase sempre, a melhor saída está no equilíbrio.

Ao se deparar com um paciente infectado em público a enfermeira explodiu de raiva e de indignação. Estou seguro de que manter o equilíbrio diante de uma situação tão revoltante é um desafio emocional extremo. Não sei qual seria a minha reação. Entretanto, a enfermeira reagiu dominada pela emoção e colocou em risco a sua própria vida. Talvez, o mais apropriado seria ter denunciado a pessoa por comportamento criminoso, além de alertá-la outra vez. Desse modo, ela não exporia o outro e muito menos a si mesma. Entre a ira e a passividade está a tolerância com ação firme que revela o cuidado e o autocuidado. E na hora da raiva? Respira fundo e conta até dez…

Moacir Rauber

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