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Facetas!


Somos Únicos.
Somos Múltiplos.
By Moacir Rauber

Uma caixa d´água ou uma piscina?

Tenho uma amiga que é fora da caixa. Ela lê muito, fala sobre diversos assuntos, participa da vida social intensamente, luta para ter o que deseja e, principalmente, diverte-se com aquilo que tem. Lembro-me do dia em que fui visitá-la em sua casa pela primeira vez, isso há quinze anos. Estacionei em frente da casa, desembarquei e fui recebido pelo seu marido, também meu amigo. Conversamos e logo perguntei pela minha amiga. Ele disse:

– Ela está lá nos fundos. Na piscina… e deu uma risadinha meio irônica.

Não entendi muito bem na hora. Cruzamos pela garagem em direção aos fundos da casa. Era meia tarde e o sol brilhava intensamente, prejudicando a visão. Entretanto, pude ver um terreno baldio, uma pequena edícula na lateral e no meio do terreno algo parecido com um buraco cheio de água e um guarda sol. Pensei que talvez a piscina estivesse noutro lugar, mais distante, porém de repente vejo a minha amiga sair da edícula e se jogar dentro daquele buraco respingando água para todos os lados. Entre as gargalhadas ela me cumprimentou e disse:

– Você ainda não conhecia a minha piscina, não é?

E lá veio mais uma risada.

Foi assim que eu encontrei a minha amiga num dia de verão de 40 graus naquela caixa d´água de mil litros batizada de piscina.

A piscina era o desejo dela. A caixa de água era a sua realidade. Infeliz por isso? Não, nem um pouco. Criatividade e bom humor? Sim, a criatividade para transformar uma realidade não ideal na realidade em que se pode desfrutar daquilo que se tem com bom humor.

Muitos, provavelmente, ficariam tristes ou se lamentariam porque não tinham a piscina ideal para poder se refrescar no verão. O foco da maioria das pessoas sempre está voltado para tudo aquilo que elas não têm. Parece que somente poderiam ser felizes caso tivessem o ideal daquilo que desejam. Por isso, lamentam-se, “Se eu tivesse uma piscina eu seria feliz”; “Se eu tivesse um carro novo eu seria feliz”; “Se eu tivesse um emprego melhor eu seria feliz”; “Se eu tivesse uma namorada eu seria feliz”; e assim seguem as lamentações pelo que não tem sendo infelizes com aquilo que tem. E você, está bem com aquilo que tem?

Alguns poderiam dizer que sentar numa caixa d´água e acreditar que se está numa piscina é uma fuga da realidade. Particularmente entendo que não. Acredito que foi o início do processo de construção de uma realidade, porque hoje a minha amiga tem uma piscina real na frente da sua casa. Na mente dela, todos os dias ao chamar aquela caixa d´água de piscina ela fazia algum movimento para que o desejo se transformasse em realidade. Ela se refrescava na caixa e lembrava do que podia fazer para mudar essa realidade. Depois ela fazia. Era a projeção de um sonho com movimento. Eis a diferença.

Desse modo,

“É fundamental desfrutar daquilo que se tem e lutar por aquilo que se quer”.

O seu carro não é o ideal para você? Cuide daquele que você tem, usufrua dos benefícios que ele traz e mova-se em direção a conseguir o veículo pretendido. O seu trabalho não é o desejado? Dedique-se a sua função como se ela fosse o melhor trabalho do mundo que certamente você estará se movendo na direção de conseguir o melhor trabalho do mundo. Não tem uma namorada? Aproveite o que a vida lhe oferece, seja feliz com as relações que você tem e a namorada virá também.

Ser feliz com aquilo que se tem não é se acomodar com aquilo que se tem.

Trata-se de desfrutar da realidade atual e trabalhar com dedicação e leveza em direção à realidade desejada.

Um caixa d´água ou uma piscina? Depende da perspectiva. A minha amiga é fora da caixa porque ela consegue ver uma piscina numa caixa. E a felicidade? Ela está dentro de cada um.

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

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Home: www.olhemaisumavez.com.br

Hoje eu sentei e chorei… O que me faz levantar?

Há trinta e dois anos uso uma cadeira de rodas, depois de uma capotagem de carro. Tinha então 19 anos e ontem tudo mudou. Recebi visitas aqui em Florianópolis e fizemos um passeio turístico pela ilha usando um ônibus com vista panorâmica. Foi sensacional. Voltamos às 18h e desembarcamos do ônibus a uns 300 metros de casa. Havia uma pequena elevação no caminho. Os meus amigos perguntaram se eu precisava de ajuda, porém eu neguei, sempre orgulhoso da minha autonomia. Na brincadeira, eles saíram correndo e eu fiquei para trás. Movi-me o mais rápido que pude, porém via-os lá na frente. A elevação da rua exigiu mais esforço, mas não pude alcançá-los. Nesse momento, ocorreu-me algo que nunca mais vou esquecer. Senti uma estranha contração nas pernas. Pude perceber meus músculos se moverem. As coxas se retesaram e uma vontade tremenda de levantar da cadeira de rodas que já me carregava por tantos anos se manifestou em mim. “E por que você não se levanta?” disse-me uma voz. Fiz um esforço e com um salto consegui sair da cadeira de rodas. Foi sensacional! Levantei-me e comecei a empurrar a cadeira e logo havia alcançado os meus amigos. Eles me olharam de maneira muito estranha. Acredito que não me reconheciam. Depois exclamaram, Meu Deus, você está caminhando!!! Nesse momento eu também me dei conta de tudo o que estava acontecendo. Parei. Apalpei as minhas pernas. Eu finalmente sentia as minhas mãos nas pernas e não somente as pernas nas mãos. Que alegria caminhar depois de tanto tempo. Uma sensação indescritível! Abracei os meus amigos. As lágrimas de alegria escorriam pelo meu rosto. Foi maravilhoso. Dei um salto e saí correndo para desfrutar da sensação que há tanto tempo não sentia. Todos nós corremos e saltamos feito malucos. Aproximamo-nos da entrada do meu prédio na maior alegria. Estava quase escuro e eu, na minha alegria, não vi um pequeno degrau. Tropecei nele e caí sentado. Foi quando acordei.  Estava sentado na minha cama. Quando entendi o que estava acontecendo ou aquilo que não acontecera, chorei. Chorei copiosamente num misto de frustração e de alegria. Havia sido apenas um sonho. Frustração e alegria? Como assim?

Crédito da Imagem: Rastro Selvagem

A frustração pode-se entender, mas a alegria? Sim, a frustração veio ao constatar tantas possibilidades não realizadas: o futebol que não mais joguei, as caminhadas que não fiz ou as valsas que não dancei. Isso me fez perceber que voltar a caminhar não aconteceu e, provavelmente, não acontecerá como num passe de mágica. Eu sei que estar numa cadeira de rodas era resultado de uma escolha equivocada e as escolhas que fazemos nos afetam e afetam outras pessoas, muitas vezes, de forma contundente. Por isso, a responsabilidade de pensar nas consequências das escolhas que fazemos.

E a alegria? Em primeiro lugar, a alegria veio pelo prazer do sonho. Foi muito bom ter tido a sensação real de ter caminhado e corrido mais uma vez. Para mim foi muito mais do que um sonho. Foi real. Foi maravilhoso. Depois,

A alegria veio pela certeza de que posso continuar vivendo bem com as possibilidades que tenho:  a lembrança de todas as vezes que viajei, dos amigos que fiz e das remadas que dei. Quais são as possibilidades que você tem?

Ainda é possível dançar!

Ainda sinto vontade de voltar a caminhar e a correr como fiz um dia? Claro que sim, porém não fiquei e não ficarei preso a esse sonho. Trata-se de um desejo que não está mais sob meu controle, por isso o foco se mantém nas minhas possibilidades.Quais são as minhas possibilidades com as capacidades que tenho? Quais são as possibilidades que tenho com as capacidades que ainda posso desenvolver? O que está no meu controle escolher e fazer? Sentar e chorar faz parte da nossa humanidade, mas são as possibilidades daquilo que está ao meu alcance que me fazem enxugar as lágrimas e levantar sempre que caio.

Caí muitas vezes e, provavelmente, outras quedas virão. Porém, a decisão de levantar e de seguir em frente é individual.

Foi assim que, com uma cadeira de rodas, pude rodar o mundo. É assim que ainda tenho muitas possibilidades pelas quais levantei hoje e vou levantar todos os dias que a vida me deixar.

E você, o que o faz levantar todos os dias?

Crédito da Imagem: Virgiane Lima Knorr
Crédito da Imagem: Rastro Selvagem
Crédito da imagem: Rastro Selvagem

Quais são as suas possibilidades?

Moacir Rauber

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