
ANSIEDADE e ESPERANÇA
Quem é o teu público?
Escutava a adolescente comentar sobre sua última postagem. Ela acreditava ter sido a mais bonita que já fizera e estava ansiosa para ver a repercussão entre seu público. Teria de esperar um pouco: embora a internet seja rápida, uma postagem, por vezes, demora a engrenar.
No dia seguinte, nos encontramos novamente. Ela estava arrasada, triste e quase deprimida porque a publicação não resultara em tantos likes quanto gostaria. Disse:
— Não sei o que aconteceu… Foi a postagem mais bonita que já fiz!
E permaneceu verdadeiramente abatida.
A ansiedade do dia anterior havia passado pela excitação da expectativa de que seu público reagisse, evoluído para frustração e terminado em decepção. Parece drama adolescente, mas a cena revela algo presente no ambiente corporativo, social e familiar: a ansiedade gerada pelo culto à imagem, a confusão entre identidade e desempenho e o medo da desaprovação na comparação com os demais.
A ansiedade está presente nas organizações em diferentes níveis hierárquicos, realidade constatada pelo Ministério do Trabalho. Os afastamentos por transtornos mentais em 2024 e 2025 foram de 472.328 e 546.000, respectivamente. A síndrome do esgotamento profissional teve crescimento expressivo, passando de 823 casos em 2021 para mais de 7.500 afastamentos em 2025. Os afastamentos diretos por ansiedade e depressão representam mais de 60% dos casos, sintomas também presentes nas demais ocorrências. O impacto financeiro, segundo o Ministério do Trabalho, é da ordem de 3,5 bilhões de reais em 2025, gerando perdas econômicas para toda a sociedade brasileira.
Entretanto, quero destacar aspectos desse mal que não aparecem nos dados oficiais e que, a meu ver, estão no centro da crise: a falta de sentido da vida.
Ao conversar com as pessoas sobre os diferentes âmbitos da existência, percebe-se que estão ansiosas pelo estilo de vida acelerado, constantemente excitadas e incapazes de parar. Citam longas jornadas, metas agressivas, vínculos precários, insegurança profissional e hiperconectividade como causas da aceleração — fatores relevantes, mas não, creio, os principais. Um like não recebido gera ansiedade porque desmerece, desvaloriza e desaprova a autoimagem e o desempenho, criando sensação de diminuição na comparação com os demais. São razões externas.
Vejo que todos estão ocupados o tempo todo, abertos a estímulos de conectividade externa e superficial, distantes da conexão interna e profunda. Esta exige desaceleração, pausa e silêncio para que possamos compreender o sentido da vida, perguntando-nos: quem é o meu público?
A luta insana pela autoimagem comparativa nos conduz a um processo de “auto me estimo” excessivo, que nos faz comparar o incomparável: o outro e eu. Nessa luta, um like produz alegria superficial, tristeza profunda, temor existencial e falta de esperança, culminando em ansiedade doentia. Somos únicos e singulares; portanto, não há público comparativo.
É preciso desvincular-se do passageiro, efêmero e fugaz, buscando sentido na transcendência e na eternidade. Sou ateu? Não importa. A transcendência está além de mim, na importância daquilo que faço para o outro. A eternidade ganha sentido na posteridade das minhas ações, que repercutem no tempo como legado — organizacional, social e familiar. Em ambos os casos, ocupo-me do outro sem preocupar-me com seu julgamento.
E para quem crê na eternidade? Tudo se torna mais simples. O Público está acima de nós, libertando-nos da necessidade de mendigar aprovação. Like ou não like? Tanto faz. A confiança no Público acima elimina a ansiedade e nos enche de esperança.
Enfim, entendo que as políticas de saúde mental voltadas à redução de riscos psicossociais precisam, obrigatoriamente, considerar o sentido da vida e aquilo que fazemos pelo outro, num caminho de esperança. Por isso: “dance como se ninguém o estivesse olhando; ame como se nunca o tivessem ferido; e trabalhe como se não precisasse”, porque o teu Público está Acima.
Moacir Rauber
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