Sem chances

Moacir Jorge Rauber
A faculdade é um período rico em amizades, algumas delas que se estendem pela vida. Por incrível que pareça a primeira colega que encontrei e conversei ao entrar na sala de aula no primeiro dia foi minha melhor amiga durante toda a graduação e assim continua até os dias de hoje. Passada a primeira semana de aulas, em que as pessoas vão se ajustando umas as outras, nós vimos nossa amizade se confirmar. Começamos a sair juntos em festas, bailes e baladas. Mais do que isso. Começamos a frequentar as casas de nossos pais. Mas a amizade nunca deixou de ser amizade, sendo apenas isso. Ou melhor, sendo tudo isso! Tínhamos carinho, respeito e admiração recíprocas. Frequentemente íamos aos bailes em minha comunidade no interior, local no qual todos me conheciam e eu conhecia a todos, porque mantinha nela um escritório.

Naquele sábado cheguei ao baile acompanhado pela minha amiga. Entramos de mãos dadas, depois ela permaneceu um tempo com os braços em volta de meu pescoço, apoida sobre meus ombros, uma vez que eu estava sentado em minha cadeira e ela em pé atrás de mim. Para um desavisado parecíamos namorados. Ficamos assim no período inicial em que o baile não “pegava fogo”. Mais tarde um rapaz amigo meu se aproximou e tirou minha amiga para dançar. Para mim tudo normal, porque sempre estava rodeado de amigos e também de muitas moças bonitas. Sequer me apercebi que ela havia ido dançar e que já estava dançando por um bom tempo. Nisso, aproximam-se dois clientes meus. Agricultores bem posicionados na comunidade. Lamentavelmente o único assunto que lhes passa pela cabeça é a produção de soja. Se vão a igreja o assunto antes e depois da missa é soja. Se vão a uma festa o assunto antes, durante e depois é soja. Se vão a um velório, ao mercado, as compras, enfim, a qualquer lugar que vão o assunto em voga é soja e temas ligados, como chuva, máquinas, equipamentos, inseticidas, mercado, preços, etc. Eventualmente se interessam por alguma fofoca. Quando me abordaram já sabia que pelo menos meia hora do meu baile estava condenada. Teria que ouvi-los sobre algum problema burocrático relacionado a atividade, porque para eles nada proporciona mais prazer como alcançar uma vantagem, como uma consulta gratuita num baile. Dito e feito. Ficaram por um longo período procurando por informações que lhes interessassem sem que precisassem pagar. Quando estavam se despedindo para encontrar uma nova vítima, alguém de quem pudessem tirar outro tipo de informação, fizeram uma observação que me deixou atónito. Primeiro porque demorei para entender sobre o que estavam falando. Depois porque foi de uma bossalidade sem tamanho. Um deles apertou-me a mão e disse: Olha, não fique triste, mas você não tem chance mesmo. Ele sabe sançar e você não tem como acompanhar! Entre meio desnorteado e recusando-me a acreditar que era isso mesmo indaguei O que você disse? Ao que o outro reforçou com mais detalhes, dizendo que um cadeirante dificilmente vai conseguir ficar com uma moça tão bonita como era a minha amiga, entre outras coisas. Quando realmente entendi a que se referiam dei uma sonora gargalhada, ficando eles sem entender por quê. Saíram e eu continuei rindo da ignorância deles. Abanava a cabeça, porque custava-me a acreditar no que havia ouvido. Diverti-me!

Entretanto, ficou como lição para mim que não se deve emitir opinião sobre aquilo que não se conhece, bem como a vida privada alheia não é de minha conta, a menos que me peçam para que seja. Os dois agricultores que me abordaram eram muitos qualificados em sua atividade, mas demonstraram uma total ignorância no trato com as pessoas, resultado não de um senso de levar vantagem, mas da falta de conhecimento sobre aquilo que pensaram ter visto. Nem sempre aquilo que parece que vimos é a realidade. Caso não busquemos conhecimentos em diferentes áreas realmente não teremos nenhuma chance!

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