Em 2010, olhe mais uma vez…

Sempre que se cruza uma ponte, vê-se um rio, mas não se vê o mesmo rio. Sabe-se que muita água já passou por debaixo da ponte, mas nunca a mesma água. O mesmo acontece quando se olha para uma árvore, para uma rua, para uma pessoa ou para uma oportunidade. Nunca se vê a mesma árvore, nunca se vê a mesma rua, nunca se vê a mesma pessoa e nunca se vê a mesma oportunidade. Isto porque no instante em que se observa aquilo que se vê ele já não é o mesmo. A todo momento muita água passa por aquela ponte. A árvore absorve nova luz e é impactada por outros ventos. Na rua circulam outras pessoas e se abrem ou se fecham muitas janelas. As pessoas têm outros pensamentos e evoluem em diferentes direções. E as oportunidades, algumas são aproveitadas e outras absorvem luz, são impactadas pelos ventos, pelo abrir e fechar de janelas, pelas pessoas e por muitos pensamentos. Mas todos estão lá, reinventando-se. O rio, a árvore, a rua, as pessoas e as oportunidades.

Por isso, em 2010, olhe mais uma vez!

Moacir Jorge Rauber

Cada vez melhor…

Rodolfo e Arthur eram amigos desde a infância. Foram criados no mesmo bairro daquela cidade com mais de 2 milhões de habitantes. Desde criança estudaram juntos, sempre na mesma sala, na mesma turma e no mesmo horário. Quando terminaram o secundário a vida os enviou para caminhos diferentes. Rodolfo seguiu os estudos universitários, fez uma graduação em engenharia e mais tarde tornou-se empresário. Arthur parou de estudar, casou-se cedo e engajou-se na vida comunitária do bairro. Passado um tempo candidatou-se e foi eleito vereador. Os dois ainda continuavam grandes amigos, embora seus encontros fossem cada vez mais raros, porque cada um tinha a sua vida para gerir.
Rodolfo se preocupava com os seus clientes, com a qualidade dos serviços prestados, com o atendimento que deveria sempre ser impecável, porque uma ponta solta, uma situação mal resolvida com algum cliente poderia gerar grandes perdas no seu negócio. Assim, Rodolfo sempre apresentava-se bem vestido e com modos extremamente educados. Havia adotado também uma postura que demonstrava a visão positiva que tinha do mundo. Esta postura estava fundamentada em cursos, formação, nas necessidades do mercado e na alta concorrência que assim o exigia. Lembrava-se sempre, “Nada aproxima mais as pessoas do que um sorriso, do que o bom humor!”.
Por outro lado, Arthur vivia a sua roda viva de forma semelhante, embora com muito menos tempo dedicado aos estudos ou a uma formação específica. Mas para ele, “O melhor curso é a vida!” e ele acreditava que era o exemplo disto. Sem nenhum curso universitário havia formado e sustentado uma família. Seus três filhos já eram adultos e estavam na universidade. A esposa cuidava da casa e ainda fabricava doces, pães e outras guloseimas caseiras que eram vendidas de porta em porta no bairro. E ele trabalhava na associação comunitária, resolvendo problemas e atendendo as situações mais difíceis de um sem número de pessoas. Mas ele havia dedicado algum tempo para a sua formação. Logo após a primeira eleição em que concorreu para vereador e foi derrotado, aprendeu a cuidar da imagem frente ao público de interesse. Rapidamente incorporou na sua forma de ser frases positivas ao cumprimentar as pessoas, os seus “clientes”. Assim, quando lhe perguntavam como ele estava sempre respondia com presteza, “Cada vez melhor”, dava um firme aperto de mão e abria um sorriso. Sorriso este que servia para aproximar seus futuros eleitores. Com esta estratégia partiu para a segunda eleição e obteve uma vitória contundente.
Certa feita, Rodolfo estava entrando no prédio da associação comercial a qual pertencia e viu ao longe o seu amigo Arthur. Rodolfo circulava neste espaço semanalmente para resolver alguma pendência dos seus negócios, pois sua empresa funcionava a apenas alguns quarteirões dali, centro da cidade. Arthur, que ainda morava no bairro e estava participando das disputas de sua terceira eleição, parecia que estava um pouco deslocado ao olhar para as placas e letreiros, notadamente buscando alguma informação. Parecia também algo preocupado, com uma feição muito séria e até certo ponto triste. Rodolfo dirigiu-se a ele, que quando o viu, abriu um largo sorriso e veio ao seu encontro. Rodolfo disse:
– Bom dia, Arthur, que bom vê-lo! Quanto tempo? Como você está?
Arthur, como de hábito, respondeu com um sorriso no rosto:
– Cada vez melhor. E você?
Rodolfo continua:
– Também estou bem. Mas o que você está fazendo por aqui? Acho que nunca te encontrei por estes lados…
Rapidamente a expressão do rosto de Arthur se alterou, voltando aquela expressão de preocupação e tristeza anteriores. Como que caindo em si, sem saber como dizer, com a voz quase sumindo, comenta:
– Na verdade estou voltando do enterro da minha mãe, que faleceu ontem. Eu estou procurando o Cartório de Registro Civil que fica neste prédio e…
Parou de falar, porque seus olhos se encheram de lágrimas. Ele se havia dado conta que a vida nem sempre está “cada vez melhor”.
Moacir Jorge Rauber

Pessoas com deficiência funcional, uma nova categoria

Moacir Jorge Rauber
Surge no Brasil uma nova categoria de pessoas com deficiência, a funcional. O país consegue inovar em diferentes áreas, mas basicamente a corrupção é o seu forte. A esfera de sonegação fiscal é um bom exemplo, mas dificilmente consegue se equiparar a esfera governamental que surpreende pela criatividade e engenhosidade. Isto sem contar os valores que sempre extrapolam a imaginação de um cidadão comum. Porém, o mais grave de tudo isso não é somente ser corrupto, mas o grau em que se corrompe a população. Esse corrompimento da população está expresso em muitos programas sociais, quando assumem um caráter meramente assistencialistas, como o auxílio gás, bolsa família, bolsa disto e bolsa daquilo, que faz surgir essa nova categoria de pessoas, os deficientes funcionais.
As pessoas com deficiência funcional são, normalmente, saudáveis, fortes, com bom potencial de desenvolvimento, mas que vivem na condição de estado-dependentes. Para ser um estado-dependente a pessoa precisa, inicialmente, comprovar uma alegada condição de pobreza e inserir-se em um ou mais dos programas sociais do governo. Pronto, tem-se assim mais uma pessoa com deficiência funcional, que deveria ser uma condição passageira, mas que acaba por ser permanente. Deste modo, não mais deixa os programas sociais, vivendo desde tenra idade sob a tutela do estado, sem dar uma mínima contrapartida.
Ressalta-se aqui a questão da expressão do parágrado anterior de “comprovar uma alegada condição de pobreza”. Quando se diz “comprovar” seria de esperar que não pudesse ser somente “alegada”, pois se está comprovado não há como refutá-lo. Mas no Brasil é diferente. Não se comprova, alega-se e paga-se com o voto. Este é mais um exemplo do poder corrompedor do estado brasileiro.
Sabe-se que o país tem um elevado nível de analfabetos funcionais, em que os principais prejudicados são eles próprios, pois, muitas vezes, são impedidos de melhorar sua condição de vida pela limitação do analfabetismo. O Brasil também tem um grande número de pessoas com deficiência física, que ainda sofrem com a falta de infra-estrutura e outros fatores que os impedem de participar da sociedade em igualdade de condições com os demais membros. Contudo, a sociedade brasileira evoluiu a passos largos com a diminuição do analfabetismo em geral e com a melhoria das condições de acessiblidade para as pessoas com deficiência física. Porém, com o surgimento e o fomento desta nova categoria de pessoas com deficiência, em que se juntam as partes negativas de condições sociais e físicas que não foram resultado de uma escolha, cria-se o pior dos mundos. Tem-se a deficiência adquirida por livre e espontânea vontade, incentivada pelo Estado e que não tem cura. Essa capacidade de inovar é um produto genuíno brasileiro.

Paisagens ou pessoas

Na última segunda-feira o nosso grupo de amigos se reuniu para mais uma janta e mais um convívio e pude confirmar a ideia do meu amigo Camilo, de Santiago – Chile. Para ele tudo que se pode ver em viagens, como as ilhas, as estepes, as savanas, as florestas, as igrejas, os palácios, os castelos e os mares, começa por repetir-se. O que não se repete jamais são as pessoas que conhecemos e com as quais convivemos, que no final fazem toda a diferença em cada lugar que conhecemos.

Te dolu!!!

Moacir Jorge Rauber
A superficialidade está substituindo a franqueza rude daqueles que nem sempre se expressavam, mas quando o faziam era verdadeiro. Muito normal, até muito natural que os artistas, os cantores e os famosos mandem “beijos no coração”, digam muitas vezes “obrigadú!” e tenham um milhão de amigos, embora constantemente durmam sós. Mas sempre havia o outro lado. Quem não se lembra com carinho daqueles abraços verdadeiros, daqueles olhares que expressavam mais do que mil palavras, daquelas cartas que traduziam os sentimentos que realmente existiam? Esta realidade sempre foi mais frequente entre, como se pode dizer, os mais humildes, talvez os mais puros, população mais rústica, menos cult, mas muito mais verdadeira. Um abraço dado, era porque realmente havia motivo para isso. Um agradecimento feito, sabia-se que a razão para tal tinha fundamento. Uma declaração de amizade não se fazia para qualquer um. Eu te amo então estava na origem de um matrimónio. Hoje, porém, a superficialidade que graça no mundo virtual está praticamente terminando com essa realidade também entre os “mais puros”.

Ao acessar a página pessoal de uma pessoa qualquer, numa das tantas redes sociais da internet, facilmente são encontradas pessoas com 200, 300 ou 1000 amigos. Em todas elas vários depoimentos de amizade verdadeira e de amor eterno que expressam sentimentos quase impossíveis de existirem. Fotos, poses e sorrisos são postados todos os dias para que sejam comentados. As pessoas, em todas as situações, inevitavelmente estão acompanhadas de um celular com câmara fotográfica para registrar os momentos que serão vividos. Tudo é fotografado e depois carregado na sua rede. Os amigos fazem os comentários lindo, como amo essas pessoas, ela é divina, te adoro, vc é xd! entre outras tantas expressões comuns. Mas para quem fazem isso? Todos se sentem como se estivessem participando de um filme, de uma novela. Cada um é o personagem principal com milhões de fãs e amigos. O importante não é estar bem, mas parecer e aparecer bem. Enquanto declara sua amizade e seu amor virtual, nega uma ajuda real. Essa ajuda pode ser para um amigo, para um namorado, até mesmo para um filho. Fica muito mais fácil fazer um comentário numa foto Esse é meu filhão que eu amo, mas na vida real negar-lhe o carinho e o amor que estão no ato de ensinar a noção dos deveres e das responsabilidades daqueles que vivem em sociedade.

Infelizmente estamos perdendo a profundidade dos sentimentos, que muitas vezes se ocultavam por trás de expressões contidas, mas que tinham significado. A profundidade de sentimentos por trás de palavras não proferidas, mas que foram ditas. Sentimentos esses que poderiam ser expressados até por um encontrão dado num amigo, pois representava muito, mas muito mais do que declarações como Te dolu!. Uma expressão tristemente infantilizada e que esconde cada vez mais pessoas deprimidas e vazias, mesmo que tenham um milhão de amigos na internet, mas que na hora de tomar um café o fazem sozinhos.

Texto em Ponto de Equilíbrio!

O tema Gestão de Pessoas tem suscitado inúmeras discussões, entre elas a sustentabilidade do processo de avaliação de desempenho. A pergunta é Quem avalia o avaliador? para refletir se realmente os responsáveis pelo processo estão preparados para este trabalho, enfim, para saber se há equilíbrio entre Respeito, Lealdade e Transparência…

O texto originalmente foi publicado em
http://www.hsm.com.br/editorias/gestaodepessoas/Quem_avalia_avaliador.php?ppag=1

Conhecer e tratar pessoas requer habilidade, e isso não é para qualquer um…

Texto – Max Gehringer

Durante minha vida profissional, eu topei com algumas figuras cujo sucesso surpreende muita gente. Figuras sem um Vistoso currículo acadêmico, sem um grande diferencial técnico, sem muito networking ou marketing pessoal. Figuras como o Raul.
Eu conheço o Raul desde os tempos da faculdade. Na época, nós tínhamos um colega de classe, o Pena, que era um gênio. Na hora de fazer um trabalho em grupo, todos nós queríamos cair no grupo do Pena, porque o Pena fazia tudo sozinho. Ele escolhia o tema, pesquisava os livros, redigia muito bem e ainda desenhava a capa do trabalho – com tinta nanquim. Já o Raul, nem dava palpite. Ficava ali num canto, dizendo que seu papel no grupo era um só, apoiar o Pena. Qualquer coisa que o Pena precisasse, o Raul já estava providenciando, antes que o Pena concluísse a frase.
Deu no que deu. O Pena se formou em primeiro lugar na nossa turma. E o resto de nós passou meio na carona do Pena – que, além de nos dar uma colher de chá nos trabalhos, ainda permitia que a gente colasse dele nas provas. No dia da formatura, o diretor da escola chamou o Pena de ‘paradigma do estudante que enobrece esta instituição de ensino’. E o Raul ali, na terceira fila, só aplaudindo. Dez anos depois, o Pena era a estrela da área de planejamento de uma multinacional. Brilhante como sempre, ele fazia admiráveis projeções estratégicas de cinco e dez anos.
E quem era o chefe do Pena? O Raul. E como é que o Raul tinha conseguido chegar àquela posição? Ninguém na empresa sabia explicar direito. O Raul vivia repetindo que tinha subordinados melhores do que ele, e ninguém ali parecia discordar de tal afirmação. Além disso, o Raul continuava a fazer o que fazia na escola, ele apoiava. Alguém tinha um problema? Era só falar com o Raul que o Raul dava um jeito.
Meu último contato com o Raul foi há um ano. Ele havia sido transferido para Miami, onde fica a sede da empresa. Quando conversou comigo, o Raul disse que havia ficado surpreso com o convite. Porque, ali na matriz, o mais burrinho já tinha sido astronauta. E eu perguntei ao Raul qual era a função dele. Pergunta inócua, porque eu já sabia a resposta. O Raul apoiava. Direcionava daqui, facilitava dali, essas coisas que, na teoria, ninguém precisaria mandar um brasileiro até Miami para fazer.
Foi quando, num evento em São Paulo , eu conheci o Vice-presidente de recursos humanos da empresa do Raul. E ele me contou que o Raul tinha uma habilidade de valor inestimável:… ele entendia de gente. Entendia tanto que não se preocupava em ficar à sombra dos próprios subordinados para fazer com que eles se sentissem melhor, e fossem mais produtivos.
E, para me explicar o Raul, o vice-presidente citou Samuel Butler, que eu não sei ao certo quem foi, mas que tem uma frase ótima: ‘Qualquer tolo pode pintar um quadro, mas só um gênio consegue vendê-lo’. Essa era a habilidade aparentemente simples que o Raul tinha, de facilitar as relações entre as pessoas. Perto do Raul, todo comprador normal se sentia um expert, e todo pintor comum, um gênio. Essa era a principal competência dele.
‘ Há grandes Homens que fazem com que todos se sintam pequenos. Mas, o verdadeiro Grande Homem é aquele que faz com que todos se sintam Grandes.’

Somos únicos. Somos múltiplos.