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O CUIDADO NOS PÕE DE PÉ!

Imagem gerada por COPILOT IA

O CUIDADO NOS PÕE DE PÉ!

Recebi em minha casa a visita de meu irmão, já com mais de sessenta anos. Logo após o almoço, a conversa estava animada, mas era meu horário de sair da cadeira de rodas e deitar-me para mudar a posição do corpo. Para continuar a conversa e respeitar as recomendações de não ficar sentado por muito tempo consecutivo, estirei-me no sofá. Meu irmão se acomodou numa cadeira ao lado de onde estavam meus pés. Em seguida, agarrou um deles e fez uma sequência de movimentos circulares no tornozelo e alongamentos nas pernas. E assim ficamos conversando.

Minha esposa olhava admirada e, à noite, antes de dormir, perguntou-me:

— Por que o teu irmão movia os teus pés enquanto você estava deitado no sofá?

Eu nem havia percebido, mas a curiosidade dela me trouxe lembranças e me fez pensar que o cuidado nos põe de pé.

O que é cuidado? Cuidado é a maneira de fazer as coisas na vida cotidiana, envolvendo atenção, presença, responsabilidade, zelo, empatia, afeto, entre outros comportamentos dirigidos ao outro, seja na família ou nas organizações. É importante também que o autocuidado esteja presente.

Logo após ficar paraplégico aos vinte anos, vários foram os cuidados recomendados pelos médicos, entre eles a fisioterapia diária, a atividade física e a advertência para não ficar sentado por longos períodos. Assim, seriam muitos os cuidados diários — pequenas ações que as pessoas sem lesão medular fazem sem nem se dar conta — que eu teria de adotar de maneira consciente. Desde então, levantar o corpo da cadeira usando a força dos braços para aliviar a pressão é um movimento repetido dezenas de vezes todos os dias, além da recomendação de sair da cadeira depois de algumas horas para mudar a posição do corpo e ajudar na circulação. Autocuidados internalizados que me ajudam a estar de pé frente à vida.

Da mesma forma, atividades físicas para evitar o ganho de peso que facilitam viver com as limitações da paraplegia. Esse hábito se manteve nos mais de quarenta anos como cadeirante, período em que joguei basquete, fiz natação e, principalmente, remo — que até hoje pratico, em média, 20 minutos diários. É o autocuidado que me mantém de pé.

Por fim, o cuidado que vem de fora também é essencial. A fisioterapia diária recomendada pelos médicos para minimizar a atrofia muscular causada pela falta de movimentos espontâneos era uma necessidade. Assim, nos primeiros meses pós-acidente, as sessões eram diárias. Porém, na década de oitenta, a fisioterapia era um tratamento caro e não disponível na rede pública. Passado algum tempo, passaram a ser em dias alternados. Nesse meio tempo, minha família aprendeu e fez os movimentos fisioterápicos com a naturalidade de quem cuida.

Foi por isso que meu irmão começou a mover os meus pés. Ainda que houvesse passado anos sem fazê-lo, sua memória resgatou uma prática diária de mais de trinta anos. Quando a família já não tinha condições financeiras de pagar as sessões de fisioterapia, meus irmãos e meus pais aprenderam os movimentos mais básicos. Cada dia os exercícios eram repetidos. É o cuidado que põe o outro De Pé.

Não sei exatamente o que significou para o meu irmão, mas, ao relembrar a cena em que ele move os meus pés num movimento auxiliar de fisioterapia, pude sentir a atenção, a presença, a responsabilidade, o zelo, a empatia e o domínio técnico na realização dos movimentos internalizados pela prática. É o cuidado expressado na atenção, na presença e no afeto que me pôs de pé.

Foi o cuidado que nos uniu ainda mais como família diante de uma dificuldade imposta por acidente que mudaria a forma de viver de um dos integrantes, impactando diretamente os demais.

Na sua família ou na sua organização, a quem você cuida?

Na sua relação consigo mesmo, como você se cuida?

Lembre-se: o cuidado e o autocuidado nos põem de pé, porque estar de pé é um estado de espírito.

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: mjrauber@gmail.com

Home: www.olhemaisumavez.com.br

Obrigado irmão Jair Eládio Rauber.

EU MEREÇO! SERÁ?

Eu mereço!!! Será?

Mais uma semana que termina seguindo a rotina. O marido passa o tempo na fazenda, trabalhando, pois é o provedor da família. Do seu trabalho dependem os três filhos e a esposa, seu núcleo familiar primário. Ele também ajuda os pais da esposa que passam por dificuldades, além de contribuir com trabalho e recursos na comunidade a qual pertencem. É a escola que demanda recursos. É a igreja que demanda tempo. Desse modo, o cansaço é grande. Muitas vezes, quando chega em casa, a única vontade que tem é a de se deitar no sofá e ver um pouco de televisão. Entretanto, nem tudo é tão simples. A esposa e os filhos querem a sua a participação nas atividades sociais que programaram durante a semana. Assim, qualquer menção por parte do cônjuge mantenedor de não querer participar ou de não querer promover uma reunião social, transforma-se em motivo de briga. Toda a argumentação é respaldada pelo fato de que haviam ficado a semana toda em casa, justificado pelo bordão: Eu mereço!

O fato chega a ser cômico, uma vez que o cônjuge que diz  “eu mereço” se autopremia com o esforço alheio. É um exemplo domiciliar com o marido e a esposa. Poderia ser o contrário, assim como se pode constatar o fenômeno nos mais diferentes ambientes. As pessoas  se autopremiam, antes mesmo do merecimento. Pode-se observar colaboradores que não colaboram tanto assim, mas se julgam merecedores de benefícios; existem donos de empresas que se beneficiam do esforço alheio, sem a devida contrapartida; há professores que não ensinam e tampouco aprendem, mas que querem o reconhecimento; se encontram pessoas que não contribuíram, mas que se aposentam; e tem jovens e adolescentes que não se autosutentam, mas se arrogam o direito de receberem uma premiação pelo esforço que ainda não fizeram. Essas são situações de pessoas que se autopremiam pelo esforço alheio. Exercer o autocuidado é uma necessidade humana que leva a que as pessoas se deem mimos e aproveitem a vida com certas regalias. Creio esse ser um norte dos indivíduos que os move em busca de melhorar a própria vida, podendo igualmente melhorar a dos demais. Entrementes, antes de proclamar “Eu mereço!” a pessoa deve saber: merece? De onde virá o prêmio? As custas de quem virá o benefício que se está auto atribuindo? Assim, usar elementos da comunicação Não-Violenta e da Inteligência positiva pode contribuir para se cuidar cuidando do outro. Logo, observo pessoas se auto premiando sem contudo se questionar por que merecem aquilo que se atribuem. Muitos se afundam em dívidas, mas não abrem mão do prêmio. É o sabotador esquivo atuando. Outros se premiam mesmo que seja as custas de ofensas, agressões e prejuízos a terceiros. É o sabotador controlado agindo. Eu também, às vezes, creio que mereço certas benesses. Porém, sempre cabe perguntar: as custas de quem? Essa pergunta ajuda a que se observe os fatos e se identifique se é uma ação sábia ou sabotadora. Por isso, uma organização, seja social ou empresairal, onde todos produzem se torna mais justa. Quando todos são, interdependentementes, responsáveis pelo esforço para se alcançar determinados resultados, também o fato de fruir dos benefícios torna-se mais legítimo. Fazer uma pausa para observar com auteticidade quais as necessidades e os sentimentos envolvidos, bem como resgatar a sabedoria com a empatia para avaliar as diferentes alternativas, diminui a violência e aumentee a positividade.

“Eu mereço!” e o outro merece. É uma reflexão resultado da prática da observação, que aponta um fenômeno que pode ser muito bom ao identificar que as pessoas estão se preocupando  consigo mesmas, dando-se o direito da autopremiação. Observe, sinta, veja as necessidades e peça com a sabedoria de quem sabe o que quer sem descuidar do outro que merece. Presenteie-se! Muito justo, desde que você mereça…

Moacir Rauber

Instagram: @mjrauber

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E-mail: mjrauber@gmail.com

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