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Motorista estúpido!!!

Fonte da imagem: https://vidademotorista.com.br

Motorista Estúpido!

O trânsito, em geral, é um teste de paciência. A educação das pessoas na condução dos seus veículos parece que fica em casa. Basta estar nas ruas de grandes cidades para ver as infrações, como movimentos não permitidos, desrespeito aos sinais de trânsito e as manobras equivocadas intencionais e não intencionais. Quem está no trânsito, muitas vezes, perde a paciência. Foi o que aconteceu com um amigo meu com quem eu buscava estacionamento. Daqui a pouco aparece uma vaga, diz ele. O sinal fecha e ele para, mas outro carro avança passando ao lado de maneira tão próxima que os espelhos se tocam. Na passagem o outro buzina. A expressão tranquila do meu amigo se transforma e ele grita:

– Que sujeito estúpido!

Ele segue gesticulando de forma agressiva, procurando amparo na minha presença para lhe dar razão na sua exaltação. Na sequência fiquei pensando no ocorrido e naquilo que estava por detrás de uma situação tão corriqueira. Segundo a Comunicação Não-Violenta (CNV) de Marshall Rosemberg, um (1) fato observado gera um (2) sentimento que se origina de uma (3) necessidade que para ser atendida precisa se manifestar por meio de uma (4) estratégia. Parece simples e óbvio, mas no dia a dia não é tão fácil assim. O meu amigo observou um fato, a infração de trânsito cometida pelo outro motorista, que gerou nele um sentimento. Ao não identificar os sentimentos que surgiram em seu interior, ele não soube qual era a sua necessidade e adotou uma estratégia para se manifestar frente a situação. Primeiro, pergunte-se: que tipo de observador você é? Lembre-se que isso pode variar de um dia para o outro, porque nós somos voláteis e frágeis, podendo agir e reagir de maneira diferente frente a situações parecidas. O meu amigo, aparentemente calmo, perdeu o controle. O que você está sentindo? O desafio é identificar os sentimentos que estão presentes em você, inclusive aqueles negativos, surgidos da própria incerteza e insegurança internas. A irritação e a revolta estavam presentes nos xingamentos do meu amigo. Qual é a necessidade presente nos sentimentos? Na irritação exibida por ele, provavelmente, estava presente a necessidade de ordem ou de segurança pelo respeito as leis de trânsito. Com isso criamos e cocriamos a realidade na qual estamos inseridos. O fato, os sentimentos e a necessidade permitem que a pessoa adote uma estratégia para atendê-la, em caso de necessidade não atendida, ou para celebrá-la, em caso de necessidade atendida. Como o meu amigo se manifestou para atender a necessidade de ordem ou de segurança revelada na irritação estimulada pela infração cometida pelo outro motorista? Ele esbravejou! Foi eficaz? Talvez tenha atendido uma demanda interna, porém a estratégia não produziu nenhum resultado prático. Enfim, a CNV se propõe a diminuir a tensão, muitas vezes, presente dentro de cada um. Observar um fato objetivo sem julgar nem avaliar, identificar o sentimento que está vivo dentro de cada um, entender a necessidade própria e alheia para escolher a forma mais adequada para se manifestar. Seguir esse passo a passo possibilita que tenhamos relações mais assertivas, autênticas e amistosas ao atender as necessidades de todas as partes envolvidas.

Desse modo, é essencial que lembremos que nem sempre interpretamos aquilo que vemos como realmente é. Qual a intenção por trás da ação? Depende de cada um. Meu amigo e eu seguimos buscando uma vaga e sem que ele se desse conta fez uma conversão equivocada. Alguém poderia ter esbravejado, Motorista estúpido! Por isso, entendo que uma das maneiras mais eficazes de se diminuir a violência talvez seja a de não julgar tão rapidamente.

Moacir Rauber

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Inspirado: Miriam Moreno

A finitude é uma benção: a comunicação é uma ferramenta para (Re) Criar a Humanização!

A IMAGEM DE UMA EXPERIÊNCIA!

“Além do que é certo ou errado se estende um campo. Ali nos encontraremos (Rumí)” reflete a ideia de que o que fazemos por aqui um dia vai acabar. Particularmente entendo que ao ter essa consciência, abrem-se as oportunidades de desenvolver competências que nos permitam (Re) Criar a Humanização, tema central do ESARH 2020, e a comunicação é uma delas. O que vemos, o que sentimos, o que precisamos e o que pedimos? Como comunicamos e o que queremos comunicar? Como nos comunicamos e com quem nos comunicamos? São perguntas que nos permitem comunicar de uma forma mais humana, respeitando-nos e respeitando-os.

Na última semana participei de um programa chamado IIT – International Intensive Training promovido pela CNVC (Centro de Comunicação Não-Violenta) na Argentina que explora as ferramentas da proposta de Marshall Rosenberg sobre os princípios da Comunicação Não-Violenta. Foi uma experiência impressionante. O envolvimento das pessoas e a sua entrega na busca por um mundo melhor em que a partir da comunicação se comecem a diminuir os conflitos intrapessoais e interpessoais com reflexos em todos os níveis da sociedade. Quais são as suas dores? Quais são as suas celebrações? O mundo externo, notadamente, é reflexo daquilo que carregamos dentro de nós. Não há como ser diferente, entretanto, percebe-se uma grande dificuldade em reconhecer que o mundo é resultado das interações humanas e que está muito mais próximo de ser como cada um o vê do que algo homogêneo resultado daquilo que cada um acredita ver. Ahh, então tudo é diferente para todos? Não e Sim. Não, porque essa percepção não revoga as leis da física, da química e a exatidão da matemática. Uma tábua de madeira com dois metros continua sendo uma tábua de madeira de dois metros. Um fato reconhecido por todos continua sendo um fato. Por outro lado, sim, porque começam a ser criados mundos a partir das interpretações dos fatos e o que eles geram em cada um. São esses mundos que se inter-relacionam.

Portanto, ao observar um fato e o sentimento que esse fato gera em quem o vê, fica mais fácil identificar o que se precisa para então se comunicar com clareza por intermédio de um pedido. Aquela mesma tábua pode despertar nas diferentes pessoas diferentes reações. Para um pode ser ponte, para outro barreira. E são esses mundos das percepções e interpretações dos fatos que são fontes de conflitos e podem ser fontes de conexões. Entender as próprias dores para reconhecer as dores do outro. Assim, a comunicação pode reconectar cada um consigo mesmo, bem como permitir a conexão com o outro. A conexão entre esses mundos é que pode (Re) Criar a Humanização, resultando em indivíduos mais felizes e em organizações mais produtivas por meio de seres Humanos mais Humanos.

Foi essa experiência que vivi na Argentina. Pessoas se conectando com pessoas com respeito e auto respeito por meio de um processo humanizado de comunicação. Isso é parte do processo de (Re) Criar a Humanização em tempos da Era Digital, em que a percepção cria mundos individuais que, de uma forma ou de outra, se inter-relacionam. Esse é o nosso desafio como pessoas que tem diferentes papéis sociais, considerando-se que um dia tudo aquilo que se vê deixará de existir. Enfim, “além do que é certo ou errado se estende um campo. Ali nos encontraremos (Rumí).”

 

Moacir Rauber

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Tem pãozinho no forno…

Entrei na loja para comprar um livro entre os muitos que passam a mensagem de que as pessoas devem provar aos outros que elas são o que na realidade não são. Tem muita gente disposta a ensinar aos outros aquilo que elas não são e nem fazem. Por isso, acredito que ninguém deva ser ou fazer nada além daquilo que pretenda ser ou fazer, porque no dia de hoje lembra-se mais fortemente que tudo passa. Ao olhar para as primeiras prateleiras de livros em busca dos títulos de interesse, aproxima-se a atendente exibindo um sorriso que me pareceu sereno. Tinha algo a mais do que o sorriso profissional por trás daquele rosto jovem. Logo ela bocejou. Ahh, tinha sono, pensei. Porém, não era só isso… Ela indagou, com um tom de voz que refletia a serenidade:

– O que o senhor está procurando?

Respondi e ela me indicou por onde seguir, acompanhando-me.

Eu puxei assunto:

– Qual a razão desse sorriso e do bocejo? Tá na hora de ir para casa?

– Não, ainda faltam duas horas.

Continuamos a conversa sobre o livro, o dia e a vida. Houve uma pausa. De repente, ela olhou para os lados para se certificar de que ninguém a via, agachou-se ao meu lado, olhou-me nos olhos e disse:

– É que tem pãozinho no forno…

Fiquei confuso. Dei um sorriso sem saber o que estava acontecendo. Olhei para a porta entreaberta nos fundos da loja por onde se podia ver a cozinha. Pensei, Será que vai ter festa?

Depois do silêncio ela continuou:

– O senhor é a primeira pessoa para quem conto. Não falei para ninguém ainda, porque não sei se fico feliz ou triste. Mas na verdade eu estou feliz. Estou com medo, mas estou feliz!

Ela continuava com o sorriso que revelava a serenidade das pessoas plenas. Ela resplandecia, brilhava e emanava divindade. Foi então que entendi o que ela quis dizer quando disse que tinha pãozinho no forno: ela estava grávida. O meu sorriso se solidarizou com o dela, dando-lhe a segurança de que eu estava presente.

Meus parabéns!

– Eu soube hoje à tarde… Com o sorriso aberto.

Ela revelou um pouco de tristeza na sua expressão, sentou-se no sofá ao meu lado e começou a contar a sua história. Ela tinha quase certeza de que o pai do seu filho não o reconheceria. Ela tinha medo de contar para os seus pais, porque eles não gostariam da notícia. Ela não sabia como contar para o seu empregador, porque ela ainda estava no período de experiência. Assim, ela revelou as diferentes situações que faziam com que a gravidez parecesse algo não desejável naquele momento de sua vida. Eu a olhava em silêncio, apenas presente. Ela precisava de alguém que a escutasse. Não precisava de ninguém que a julgasse ou que dissesse o que fazer. Ela somente precisava conversar com alguém para compartilhar uma notícia que para ela era divina.

O que isso tem a ver com a Comunicação Não-Violenta (CNV) de Marshall? Considere o foco da CNV como o desenvolvimento de diálogos entre as pessoas com o estabelecimento de conexões genuínas por meio da empatia, sem julgamentos, com respeito aos sentimentos e as necessidades expressas nos pedidos dos envolvidos. Assim, quando você é ouvinte, observe sem julgamento, escute com respeito os sentimentos do outro e entenda as suas necessidades para atendê-las. Silencie em você, mantenha o foco no outro. Ela estava lá. Eu continuava presente. Assim, passaram-se mais de trinta minutos. Não precisei dizer nada, porque ela sabia que eu a escutava.

Quando saí da loja ela me deu um abraço com os olhos cheio de lágrimas de felicidade. Indagou-me se eu voltaria. Disse que sim, porque naquele dia tive a certeza de que havia praticado a Comunicação Não-Violenta ao oferecer a empatia para aquela jovem por meio da escuta.  Pude dormir em mim para acordar no outro ao entender a importância de ter pãozinho no forno.

No Dia de Finados são lembradas as pessoas queridas que já nos deixaram, mas o “pãozinho no forno” nos recorda da vida que se renova.

 

Moacir Rauber

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