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Cuidado com as entrelinhas…

Um caçador liga em pânico para o 190 para pedir ajuda:
– Eu estava voltando de uma caçada e encontrei uma pessoa toda ensanguentada no caminho. Acho que ela está morta!, diz ele apavorado…

– O que devo fazer?

A atendente solícitica responde:
– Fique tranquilo, vai dar tudo certo…
– Primeiro, baixe o seu telefone e veja se a pessoa está realmente morta…

Há um breve silência no telefone e logo em seguida a atendente houve um tiro. A voz do caçador retorna:
– Certo. O que eu faço agora?

A comunicação se dá com o que falamos e também com o que não falamos. A comunicação se concretiza com as ações decorrentes daquilo que aquele que ouve escuta. Cuidado com o que as entrelinhas falam!


Extraída do livro: Plato and Platypus walk into a Bar… Understanding Philosophy – through jokes (Thomas Cathcart & Daniel Klein)

Sutileza 2! O aleijadinho do seu marido…

Moacir Rauber

Tem uma prainha no litoral de Santa Catarina que minha esposa e eu costumamos frequentar. Nem sempre conseguimos ir juntos. Às vezes vai um. Às vezes vai o outro. Outras vezes vamos os dois.

Uma praia onde quase não tem gente. Só praia. Pode-se ficar um dia inteiro e não ouvir mais do que dois ou três carros passando de um lado a outro. Uma comunidade pequena. Alguns vizinhos. Pessoas que nasceram e sempre viveram nesse mesmo local. Sair de casa e ir até Tubarão, cidade mais próxima é um acontecimento. Muda-se o visual e usam-se as roupas de domingo. Pensar numa ida até Florianópolis, a 150km, é uma viagem, uma verdadeira aventura. Mas é ali que nós encontramos o que procuramos: calma e tranquilidade.

Há duas semanas a Andreia e eu estivemos juntos por lá. Eu tive que vir para casa e ela permaneceu por mais alguns dias. Temos um vizinho que tem lá seus 70 e tantos anos. Sempre curioso. Sempre pensando em comprar e vender alguma coisa. Chegou até ele o boato que estaríamos vendendo a casinha. Ele viu a Andreia caminhando pela varanda, aproximou-se e “delicadamente” perguntou:
– O aleijadinho do seu marido está?

A Andreia ficou em estado de choque. Só porque eu era um usuário de cadeira de rodas passei a ser o aleijadinho da praia… Logo teve que rir e respondeu que não, que eu já havia ido para casa.
E então, posso falar com a senhora mesmo?

Ele continuou:
Vocês querem vender a casa?

A Andreia respondeu que não. Mesmo assim ele insistiu em falar com o aleijadinho do marido quando eu voltasse, porque afinal… isso não é assunto para tratar com mulher…, deveria estar passando na cabeça dele.

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Isso sim é sutileza!!!

Liderança: uma questão de bom senso

Moacir Rauber
Muito tem se debatido, estudado e analisado sobre as características do líder dentro de uma organização ou mesmo na condução de diferentes projetos. Veja abaixo uma carta de despedida quando do encerramento de um projeto linguístico realizado dentro de uma grande empresa de tecnologia.
Querida …,
Chega ao fim uma das etapas profissionais mais bonitas que já vivemos. Num momento em que todos nós estávamos precisando de um estímulo e, por que não, de um sentimento de “recompensa” por tantos anos de estudo, surge uma oportunidade única de aplicar nossos conhecimentos linguísticos em um projeto extremamente útil para os brasileiros, em uma grande empresa. Foi com muito entusiasmo que todos nós iniciamos esta nova fase, e desde o primeiro dia foi possível perceber uma energia muito positiva, um entrosamento talvez maior do que o esperado para uma primeira semana. A partir de então, vivemos juntos momentos inesquecíveis e nos tornamos uma espécie de família…
Só uma família passaria, junta, por um mico colossal como fazer ginástica laboral no meio da cantina, sem dar a mínima para os demais presentes. Ou riria, quase em uníssono, das entradas triunfais da nossa estrela-mor, que chegava “chegando” com o topete bem engomado e os óculos de sol super discretos. Sem falar dos almoços chiques no restaurante “primo rico” do começo do mês, e dos menos chiques depois no “primo pobre”, quando sobrava mês e faltava cartão. Ah, tem também o rodízio pelo sofá quando batia aquele sono irresistível no meio da tarde… Mas também nos momentos mais difíceis nossa família se uniu e ficou provado, mais uma vez, o quanto nosso sentimento é forte.
Durante este período, você nos mostrou na prática as diferenças entre ser uma chefe e uma líder. Em vez de inspirar medo, gerou entusiasmo. Em vez de dizer “eu”, sempre disse “nós”. Em vez de criticar nossas falhas, corrigiu e ensinou. Em vez de ordenar, perguntou. Soube valorizar e aplicar os talentos de cada um de nós que, somados, fizeram a grande diferença. Foi compreensiva com nossos horários malucos, pois depositou a confiança de que daríamos sempre conta do recado.
Não podemos deixar de dizer que você não é só especial como nossa líder, mas como pessoa. Você impulsionou todos nós, preocupou-se com o nosso destino pós-projeto e só se sentiu aliviada quando viu o rumo que cada um iria tomar depois desse período. Ele foi curto, sim, mas inesquecível! Vamos levar conosco todo o carinho que temos uns pelos outros para todo o sempre. E quem plantou a semente que se transformou nessa linda flor foi você, nossa líder.
Mais do que gratos pelos ensinamentos e oportunidades, estamos muito felizes por ter compartilhado com você esse período lindo que vai ajudar a compor a nossa história de vida. E desejamos a você toda a felicidade e todo o sucesso que você merece. Que sua generosidade traga a você frutos maravilhosos tanto pessoal quanto profissionalmente. E embora não nos vejamos mais com a mesma frequência daqui para a frente, estaremos sempre juntos de uma forma muito especial: em nosso pensamento e em nossos corações.
Um grande beijo, querida amiga, irmã e líder!
Não se precisaria dizer mais nada, certo? Está tudo aí… Os conceitos e a prática da liderança estão explícitos nos exemplos descritos.

Trata-se de uma carta real, escrita por um grupo de colaboradores que se despediam ao final da realização de um projeto que tinha data de início e de fim para o qual haviam sido contratados. São profissionais altamente qualificados, mas que em sua formação não tiveram conteúdos sobre aspectos de gestão, não estando assim contaminados pelos jargões e clichês de quem atua na área. Por isso a relevância desse depoimento.

Com isso em mente, tomo a liberdade de comentar o seu conteúdo porque tive a oportunidade de acompanhar o desenrolar de todo o período em que essa equipe de seis pessoas esteve reunida. Ler e analisar a carta somente confirma aquilo que presenciei no transcorrer da execução do projeto: a relevância do papel do líder se fundamenta no bom senso.

Outros aspectos são importantes destacar sobre o formato do grupo em análise. Não havia a possibilidade de permanência na organização após a conclusão do projeto. O contrato era por prazo determinado. Não havia plano de carreira. Cada um fora contratado para realizar uma tarefa específica e ponto final. Não havia estabilidade. O prazo final já estava dado. Mas pode-se depreender do texto pela fala expressa que houve comprometimento, desempenho, recompensa, trabalho em equipe, resultado e motivação. E mais, tudo feito com bom humor.

O comprometimento aparece no momento em que o relato dá destaque para os horários malucos de cada um dos integrantes da equipe. O líder que consegue inspirar na sua equipe o compromisso com o fato de cumprir com tarefas muito mais do que com horários estabelecidos certamente deu um grande passo em direção à autonomia que cada ser humano deve ter no desenvolver de suas atividades. Cada um dos integrantes da equipe sabia a importância da entrega das atividades dentro dos prazos previstos, porque elas eram interdependentes com outras tarefas. Falar de visão sistêmica? É isso. Conceituar comprometimento? Aqui é fato. A confiança depositada pela liderança nos integrantes da equipe, juntamente com a cumplicidade, fez com que a colaboração e a cooperação estivessem sempre presentes. Isso é bom senso! Ao acompanhar o desenvolvimento do projeto, ficava encantado ao perceber o engajamento de todos quando se davam conta que alguém poderia estar correndo o risco de não atingir as metas. Um alertava, os outros se mobilizavam e todos se uniam em torno do problema para encontrar a solução. O comprometimento individual para com o projeto geral existia porque todos sabiam que ninguém estava fazendo corpo mole. O bom senso da líder gerou bom senso entre os liderados.

Qual o projeto que se mantém ou se conclui sem desempenho? Não me ocorre nenhum. E mais uma vez o conteúdo da carta demonstra na prática como o papel da líder foi fundamental para que o desempenho se mantivesse impecável. Eles disseram, “Em vez de criticar nossas falhas, corrigiu e ensinou. Em vez de ordenar, perguntou”.Trata-se de uma abordagem diferente daquela comumente encontrada nas empresas em que os líderes se valem simplesmente de sua autoridade como forma de manter o desempenho. Porém, exibir o comportamento descrito não exige mais do que bom senso. Mais do que isso, um líder também deve saber e conhecer sobre a área em que atua, o que seguramente conduzirá a que o resultado final seja uma soma ampliada dos talentos individuais.

A recompensa é outro aspecto que sem o qual ninguém trabalha, não é? Você trabalharia sem essa perspectiva? Para alguns pode ser dinheiro. Para outros pode ser reconhecimento. Há uma tendência de que as pessoas aliem essas duas vertentes somando-se a elas um propósito de contribuir para algo relevante também para a comunidade. Aquilo que se produz deve fazer sentido. Também cabe ao líder deixar saber o impacto na vida das pessoas do trabalho que cada um exerce. É o bom senso que cada vez mais faz com que as pessoas compartilhem as informações e gerem ambientes mais produtivos. Isso gera recompensas imediatas e futuras. Mais uma vez os integrantes da equipe também demonstraram que a recompensa não seria algo meramente financeiro, pois o salário de todo o período já estava definido no início do contrato, ou seja, cada um sabia exatamente o quanto ganharia até o seu término. O que ainda não sabiam era o quanto o trabalho que cada um estaria realizando impactaria no dia a dia dos cidadãos. A líder conseguiu mostrar que os conhecimentos teóricos obtidos no mundo acadêmico, numa área cujas pesquisas muitas vezes não têm sentido prático, seriam finalmente postos a serviço da população em geral. O sentimento de contribuir para um propósito foi muito maior do que a simples manutenção da vaidade individual, comum entre teóricos. O conhecimento produziria algo prático. A recompensa estava garantida!

O trabalho em equipe permeia todo o relato feito pelos integrantes. O exemplo dado da prática colaborativa e cooperativa entre os integrantes do projeto deixa claro que havia uma equipe. Muitas empresas passam anos e anos de trabalho árduo para sair do estágio de grupo e alcançar o status de equipe. Muitas nunca o conseguem. Essas pessoas tinham somente o espaço de seis meses para fazê-lo. Chegaram de diferentes partes do país sem se conhecerem. Juntaram-se, reuniram-se, aproximaram-se e formaram uma equipe que produziu os resultados esperados pela organização contratante. Mais uma vez o bom senso esteve presente. E muito mais… O bom senso produziu amizades e respeito que serão levados para uma vida.

Após discorrer sobre os aspectos anteriores, já ficou claro que os resultados foram alcançados. Uma equipe com as características descritas somente poderia dar nisso, não é? Mas pode-se deduzir que na sua base a motivação esteve presente. Um líder motivado tem mais chances de conseguir realizar os projetos nos quais se envolve. Mas a motivação ser somente do líder de pouco resolve. O indivíduo deve estar motivado. Somente assim se tem uma equipe motivada. Sabe-se que não são poucos os líderes que reclamam da baixa motivação de seus liderados. Organizações gastam fortunas em eventos motivacionais. E nesse particular, essa equipe demonstrou e comprovou que a motivação é algo intrínseco, pessoal, mas que está conectada com o ambiente externo, sofrendo influência direta na maneira como cada um desempenha a sua função. Fosse o discurso da líder diferente de sua prática, qual seria o comportamento de cada um dos integrantes da equipe? Revelaria a falta de bom senso. Não houvesse uma preocupação real do líder para com os liderados, como ficaria a motivação? Quando isso não ocorre, o bom senso não está presente. Cabe a cada líder entender que o entusiamo presente no início de cada projeto faz parte de nossa motivação, mas para mantê-la ao longo do tempo é necessário bom senso. E o bom senso da líder que deu autonomia fez com que o trabalho fosse excelente na busca do propósito individual e da equipe. Por isso, o bom senso é o melhor resultado que ele mesmo produz.

E como produzir bom senso? Um ponto sobre o qual não há consenso e renderia uma enorme discussão. Mas o que cabe destacar, realmente, é a necessidade de que um líder para desempenhar o seu papel com a humildade que o cargo requer deve entender um preceito básico: cada indivíduo é o centro do seu universo. Não há nada mais importante para cada um do que cada um. Não há líder, não há projeto, não há absolutamente nada que importe mais do que o indivíduo para o indivíduo. Entender isso gera bom senso. E bom senso tem o líder que consegue perceber que o seu papel de liderança não lhe dá direitos e prerrogativas, mas sim o compromisso de criar um ambiente em que cada indivíduo possa se realizar como pessoa e contribuir para o objetivo comum. Ao olhar para a sua equipe sob esta perspectiva, o líder também cumprirá com o seu papel em si, uma vez que ele também é o centro do seu próprio mundo. Basta caminhar juntos. Mais uma vez se fala em bom senso.

Poderia um líder esperar recompensa maior do que a descrita no relato? E os liderados encontraram a sua própria recompensa? Precisa-se de outra definição para o papel de um líder como a descrita no texto?

Certamente o líder que conseguir alcançar o que foi descrito nesta breve carta será o líder estratégico, o líder visionário, o líder gestionário ou qualquer outro conceito que são revelados em palavras como sendo o ideal de liderança.


Não passa de bom senso!
Não ande atrás de mim,
talvez eu não saiba liderar.
Não ande na minha frente,
talvez eu não queira segui-lo.
Ande ao meu lado,
para caminharmos juntos.
Provérbio Ute

Sutileza…

Uma mulher processou um homem por difamação, acusando-o de tê-la chamado de “Vaca”. O homem foi julgado culpado e teve que pagar uma gorda indenização para a mulher que o processara, a Sra. Harding. 

Assim que termina o julgamento o homem faz uma pergunta ao juiz:
– Seu Juiz, isso quer dizer que eu não posso mais chamar a Sra. Harding de “Vaca”, certo?

O juiz responde:
– Exato.

O homem continua:
– Mais uma dúvida. Então eu também não posso chamar a minha vaca de “Senhora Harding”?

É diferente! diz o juiz. –  O senhor é livre para chamar a sua vaca como o senhor quiser. Não há nenhum crime nisso…

O homem olha nos olhos da Sra. Harding e diz:
– Boa tarde, Sra. Harding!


Sutileza nada sutil!!!

Extraída do livro: Plato and Platypus walk into a Bar… Understanding Philosophy – through jokes (Thomas Cathcart & Daniel Klein)

Viva as coincidências!!!

Moacir Rauber
O evento estava caminhando conforme o programado. O público estava em sintonia com os palestrantes e os diferentes conteúdos apresentados. O Flávio e o Léo da showzfaziam do cerimonial uma atração especial. Música, ludicidade e bom humor a serviço do evento por meio de conexões sensíveis e profundas com os conteúdos. Muito bacana! Era chegada a hora do palestrante Rafael Baltresca. Enquanto ele se aproximava do palco o mestre de cerimônias conclamava que os presentes o saudassem com chamadas de “liiindo!”. As vozes femininas foram acionadas. Palmas e assovios. Eu também falei mais alto para entrar na onda, “lindo!!!”. Assim se sobressaiu uma voz masculina. A descontração era contagiante.

A minha participação fez com que uma moça que estava duas fileira na minha frente olhasse para trás. Ela me deu um sorriso que foi prontamente retribuído. A palestra começou e terminou. Foi show de bola, assim como de conteúdos e mensagens! Ao final o Rafael cumprimentou os participantes. Também cumprimentei-o. Em seguida é anunciada a nova atração para finalizar as atividades do dia. Um karaokê entre os participantes. Muita animação, mesmo depois de mais de  dez horas de trabalho. Estava ali observando e acompanhando a animação feita pelo Flávio, Léo e equipe. Nisso se aproxima de mim aquela moça que antes me havia dirigido um sorriso. Cumprimentamo-nos e apresentamo-nos. Ela era a Débora, Secretária Executiva da Fiotec, que falou:
– Olha, você me lembra muito um palestrante de Florianópolis… Ele se chama Professor… Professor… Não lembro bem o nome, mas lembro da sua palestra em outubro do ano passado. Ela me marcou muito. Foi um divisor de águas para mim…

Enquanto ela falava não pude deixar de pensar, Palestrante de Florianópolis que tem no nome Professor… Não acredito. Será isso possível?

Ela continuava falando sobre como a palestra a havia tocado profundamente, ainda sem conseguir falar o nome, dizia:
– Sei que a motivação é algo muito pessoal, mas a forma como a mensagem daquela palestra foi passada pelo Professor… e ficou um pouco pensativa.

Foi então que me atrevi e falei:
– Professor Heinz…
– Isso mesmo!!! Professor … e não conseguia falar o nome.
Lembro que também tem o nome de Artur. Disse ela.
­Verdade! Professor Heinz Artur SchurtAcrescentei.
– Sim. A palestra foi maravilhosa! Gostei muito. Estou com o livro dele na minha cabeceira. Você o conhece? Ele é teu parente? Você me faz lembrar dele…
– Não, não sou parente dele… Mas posso te dizer duas coisas. Ontem à noite eu jantei com ele, além dele ser tio da minha esposa.

Ela se mostrou surpresa, embora não mais do que eu. Fiquei ali a pensar no tamanho da coincidência. Como poderia eu sair de Florianópolis para São Paulo para participar de um evento em que alguém olharia para mim e isso a fizesse lembrar de um pessoa com quem eu jantara na noite anterior? Incrível, não?

Ficamos conversando por mais uns trinta minutos sobre o evento e as exigências da profissão. A minha palestra seria no dia seguinte. Comentei-lhe um pouco sobre a abordagem, mas sem muitos detalhes. Isso ela veria no evento. O dia foi começou, a palestra foi realizada, o evento terminou e eu fui para o aeroporto. Cheguei com duas horas de antecedência para o voo. Congonhas, Portão 4. Fiquei ali um pouquinho e resolvi dar uma volta. Fui em direção aos demais portões. Estava eu zanzando de um lado a outro quando encontro uma pessoa conhecida. Sim, para minha surpresa encontrei a Débora mais uma vez. Ficamos maravilhados com a coincidência do encontro e do reencontro.
Seria tudo isso coincidência?

Trocamos e-mails e contatos. Compartilhamos dados e informações. E começamos uma amizade! São as coincidências que nos ampliam os horizontes. Por isso…

…VIVA AS COINCIDÊNCIAS!!!

Awdrey, Obrigado pelo convite que criou a oportunidade para as coincidências!!!

Uma Professora Doutora

Moacir Rauber

Há muitos anos eu estava aprendendo espanhol. A minha turma era formada por um grupo de seis alunos. Em outras salas outros grupos também estavam estudando. Na mesma escola eu era o diretor administrativo. A nossa aula havia começado às 8h e, apesar de ser segunda-feira, estava animada. Com a professora Clara sempre era… Ríamos de uma ou outra situação e também das diferentes expressões encontradas na língua de Cervantes. De repente ouço uma confusão vinda da secretaria. Um berreiro sem tamanho. Rapidamente saí da sala e dirigi-me para lá. No caminho encontro a secretária chorando. Ela já me procurava… Logo que me viu disse que uma senhora entrara na escola e começara a xingá-la e a ameaçá-la que se a tradução não estivesse ali em quinze minutos ela iria até a polícia. Nesse momento eu já sabia de quem se tratava…

Na sexta-feira anterior eu atendera uma professora da universidade pública da nossa cidade. Ela residia há pouco tempo em nossa cidadezinha do interior vinda da capital do estado por força de um concurso público em que fora aprovada. Ela nos procurara para fazer uma tradução de um artigo que seria enviado para um congresso no Chile. Eu lhe havia dito que já era tarde e o final de semana seria um empecilho. Além do mais, nós pedíamos pelo menos uma semana para realizar qualquer uma tradução. Ela insistiu, dizendo-me que era urgente, pois caso contrário ela não poderia viajar para participar do congresso. Dispus-me a procurar por um professor que aceitasse o trabalho. Liguei para um e para outro. Por fim, um dos professores aceitou fazer a tradução. Combinamos o trabalho, acertando detalhes de valor e o prazo de entrega. Ficou combinado que a tradução deveria ser entregue até às 11h da segunda-feira. Estranhei, porque no momento em que ela chegara a escola não passava muito das 9h. Fui até a recepção onde ela estava. Vi-a caminhando de um lado a outro, irritadíssima. Saudei-a e a convidei para que fosse até a minha sala, pois o escândalo estava sendo constrangedor. Ela me olhou com raiva e começou a gritar:

Não pense que só porque você me convidou para a sua sala isso vai ficar assim…, mas me acompanhou. Ofereci-lhe uma cadeira. Eu circundei a escrivaninha e me posicionei no meu local de trabalho. Enquanto ela se sentava voltou a gritar. Ela não falava, vociferava:

Não pense que você vai me dominar com esse olhar machista sobre mim. Eu sou Professora Doutora… e continuou falando tantas baboseiras descrevendo toda a sua formação que não me recordo. 

Nós estávamos sentados um em frente ao outro. Às suas costas havia um vidro que dava para a recepção. Vários alunos estavam assistindo o acesso de fúria da professora. Ela deveria ter uns 55 anos. Eu a encarava tranquilamente, sem demonstrar nenhuma emoção, embora estivesse me roendo internamente. Deixei-a continuar esbravejando:
Eu preciso da tradução, agora. Senão eu perco minha passagem para Santiago. E eu vou cobrar uma indenização de vocês!e blá, blá, blá…

Mais alguns minutos e, finalmente, ela não encontrando mais impropérios, calou-se. Eu aproveitei para perguntar:
Posso falar?

Ao que ela respondeu com mais uma saraivada de xingamentos. Parou novamente. Eu lhe disse de forma calma e segura:
Agora a senhora vai me ouvir…

Abri a minha gaveta, retirei um bloco de orçamentos, mostrei-lhe o documento que ela havia assinado e perguntei-lhe com sarcasmo:
A senhora saber ler? Pois veja o orçamento que a senhora assinou na sexta-feira. E por favor,  leia o horário que foi combinado para a entrega do serviço…

Ela aproximou os olhos do bloco para verificar as informações nele contidas. Eu continuei:
– Digo-lhe mais. Se a tradução não estiver aqui até às 11h eu lhe pago do meu bolso uma viagem para onde a senhora quiser e ainda a indenizo por qualquer tipo de perda…

Fiz uma pequena pausa para depois concluir:
– Porém, assim que eu lhe entregar a tradução eu vou lhe processar por perdas e danos morais, além de exigir uma retratação pública para todos nós aqui da empresa.

E mostrei-lhe o grupo de pessoas que estavam assistindo ao seu destempero apontando o dedo para o vidro atrás dela.

Continuei com o tom de voz calmo e forte:
Agora a senhora pode se sentar na recepção e aguardar até às 11h ou sair e voltar no horário combinado.

Ela se levantou, empertigou-se toda e saiu. 

Quando faltavam 10 minutos para o horário combinado ela estava de volta. O professor responsável pela tradução havia trazido o documento alguns minutos antes. Mostrei-lhe o documento. 

Antes de entregá-lo pedi-lhe o pagamento e complementei:
Aqui está, conforme o combinado…

E ainda segurando o documento, disse:
É muito bom que a nossa cidade receba pessoas com tamanha qualificação e educação vindas de centros maiores. Nós realmente temos muito que aprender com pessoas como a senhora…

Ela pegou os documentos. Percebeu que estava sendo assistida por umas sete ou oito pessoas. De forma meio atrapalhada, agradeceu, deu meia volta saiu. Ou melhor, tentou sair, porque deu de cara com uma porta de vidro temperado que dava para a rua. Quase caiu de costas. Recompôs-se, abriu a porta e se foi.

Naquela mesma hora telefonei para o diretor administrativo do campus da universidade, relatando-lhe o ocorrido. Ainda exigi que a professora pedisse desculpas para a secretária sob pena de ingressar com a ação judicial, conforme havia dito. No período da tarde a Professora Doutora ligou pedindo desculpas….

Esse episódio demonstra claramente que se o conhecimento não servir para melhorar as pessoas como seres humanos ele perde a sua função! Ser doutor ou doutora em qualquer área que seja não deveria dar prerrogativas, mas sim o compromisso de gerar melhorias que alcancem outras pessoas. Porque, atualmente, os doutores do saber representam a elite em seu sentido mais amplo. Não tem falta de recursos econômicos para levar uma vida digna e ainda desfrutam do status de um título conseguido como resultado de seus esforços, mas somente possível pelo acúmulo de conhecimento de toda a humanidade. Conhecimento que não produz humildade, sem ser subserviente, e respeito, sem bajulação, não serve. E pouco importa a área, a esfera social ou a organização; se a empresa é pública ou privada; ou se alguém está tratando com o presidente ou com o responsável pela faxina. 

A humildade e o respeito fazem toda a diferença!

Estressados…

Jorge Reiner
Existem pessoas que vivem estressadas imersas em sua pseudo importância, enquanto outras se estressam sofrendo por sua suposta irrelevância. Não somos tão importantes a ponto de que o mundo não exista sem nós, mas somos sim relevantes para que o mundo seja do jeito que é simplesmente porque existimos.
Há que se buscar o equilíbrio!

Falando no modo automático…

Ríamos abertamente sobre o episódio recém ocorrido. O comissário de bordo ainda estava rubro e se desculpava mais uma vez.

Naquele dia saímos atrasados do aeroporto porque demorou até que encontrassem alguém que pudesse me ajudar a subir a escada que dá acesso ao avião. Segundo as informações, o equipamento que auxilia os usuários de cadeira de rodas a subir os degraus estava “em manutenção”. Deveria era estar estragado e ninguém se preocupara em consertá-lo. O rapaz que me acompanhava desde o portão de embarque não sabia a quem recorrer para me ajudar a subir. Falou com um. Ele não podia porque estava atendendo outra emergência. Falou com outro que também estava sem tempo. Abordou um terceiro que se recusou porque estava com problemas na coluna e não podia fazer esforço. Assim ficamos mais de dez minutos até que vieram mais duas pessoas que me auxiliaram a entrar na aeronave. Acomodei-me e finalmente todos os demais passageiros puderam entrar.

O comissário de bordo chefe da equipe me recebeu de forma muito atenciosa. A viagem foi tranquila. Não mais do que 55 minutos. Pousamos normalmente. Os demais passageiros desembarcaram. Fiquei ali observando… Primeiro, a cadeira de rodas estava demorando para subir. Segundo, sem ela eu não iria a lugar nenhum. A aeronave havia pousado afastado dos “fingers”, aquelas pontes móveis que dão acesso direto ao interior do aeroporto. Assim como subi eu teria que descer pelas escadas. 

Vi que o comissário estava um pouco nervoso. Perguntei-lhe:
– E a minha cadeira?
– Ela já vai chegar. Deixe-me ver…

Saiu e vi que falava no rádio com alguém. Voltou até mim e disse:
– Seu Moacir, o senhor aguarda aqui por alguns instantes que vou ver o que posso fazer para agilizar o seu desembarque. Parece que vai atrasar uns 20 minutos… e saiu rapidamente.

Não aguentei. Comecei a rir. A aeromoça que ainda estava cabine deu um sorriso encabulado. 

Logo eu falei rindo:
 – É, acho que ele não precisaria se preocupar de eu não esperá-lo…

Ela concordou comigo. Como eu poderia sair dali? Um paraplégico sentado numa cadeira que não tem rodas vai ficar no mesmo lugar por muito tempo.

Em seguida o comissário retornou e me informou:
– Vai demorar um pouco mais do que tínhamos previsto. Algum problema?
– Não, não. Eu espero aqui mesmo. Juro que não vou embora… respondi mais uma vez rindo, desta vez acompanhado pela aeromoça.

O comissário de bordo entendeu.
– É verdade. Desculpe-me. Sei que o senhor não poderia sair daqui. Falei aquilo sem pensar…


Muito fácil de acontecer quando falamos e estamos no modo automático, não é?

Sem tempo para pensar… nem para viver!

Ninguém pode nascer por nós.
Ninguém pode morrer por nós.
Ninguém pode viver por nós,
Mesmo assim continuamos a transferir as nossas responsabilidades e a terceirizar as nossas culpas sem assumir os nossos compromissos. Muito mais, estamos transferindo para a rede a capacidade de pensamento e de elaboração de um raciocínio mais complexo.
Poucos ainda são aqueles que leem um livro, uma revista ou um texto mais longo, mas quase todos nós lemos as frases curtas propagadas pela internet numa velocidade impressionante. São expressões e ditos populares carregados de sabedoria, mas que fora de contexto somente refletem a pobreza de espírito de nosso tempo.
Desse modo, estamos terceirizando até a nossa capacidade de pensar, delegando a própria vida para não sentir nenhum tipo de desconforto.
Assim, qualquer um pode pensar por nós, mas nós continuamos sem tempo para viver…
Incrível, não?