Humano ou divino?

Se é divino, não é humano. Uma vez que é divino, supostamente, está além de nossas capacidades humanas. Por isso me impressiona o número de pessoas que pretendem explicar o que é divino quando sequer se consegue entender o que é humano. Constate-se que na maioria das vezes são pessoas que não conseguem ser humanas e passam a dar lições sobre aquilo que é divino. 

Por que é que sou tão chata com ele?

Depois da vários relacionamentos frustrados por um ou outro motivo, finalmente ela achava que havia encontrado a pessoa com quem gostaria de dividir o restante dos seus dias. Ela o amava como nunca antes havia amado alguém. Mesmo assim, ela sentia que algo não estava fluindo do modo como deveria. Por isso, procurou a ajuda de um terapeuta de casal para poder expor a situação e pedir um aconselhamento. Depois de comentar o quanto amava o seu noivo, ela continuou:
– Não sei o que acontece. Sou simpática e atenciosa com todos os meus amigos, com as pessoas da minha família e também com os colegas de trabalho.Consigo fazer novas amizades com facilidade. Agora eu não entendo porque com o meu noivo eu sempre sou assim tão birrenta e caprichosa. Se ele é a pessoa que eu mais amo, por que é que eu tenho sido assim tão ranzinza, rabugenta e tão chata com ele?
A pergunta ficou no ar. O terapeuta observava-a em silêncio. Por fim, ele perguntou:
– Você se sente à vontade com ele?
– Sim, completamente… rapidamente respondeu ela.
O terapeuta continuou:
– Você é realmente autêntica com ele?
– É, sou sim… Respondeu e ficou pensativa.

Eu também fiquei a pensar naquilo que a autenticidade dela revelava, Ela era uma chata… 

Por que tantas vezes somos tão chatos com aqueles que mais amamos? É isso que a nossa autenticidade revela?

O registro foi de uma mulher para com um homem, mas poderia ser exatamente o contrário. 



Vai se divertir? Divirta-se…

A vida acontece exatamente naquele instante que está entre o passado e entre o futuro. O primeiro já passou. O segundo ainda não existe. Por isso viva o momento. Vai trabalhar? Trabalhe. Vai passear? Passeie. Vai jogar? Jogue. Vai se divertir? Divirta-se. Vai namorar? Esteja presente de corpo e alma…

Isso lembra-me uma piada em que o casal estava no momento de maior intimidade possível. Estavam na típica posição papai/mamãe. Ele começava a revolver os olhinhos. Ela também toda concentrada no momento que viviam. Ele deu sinais de que estava por terminar. Como ela era ativa, sussurrava:
– Ah, ah… 

Suspirou um pouco mais forte:
 Ah, ah…

De repente, ela distraiu-se um momento do que acontecia no presente, foi ao futuro e falou com toda força:


– … ah, ah, azul. Preciso pintar o teto de azul!


Cidadão ou empreendedor?

Outro dia estive num evento organizado pela CLDS de Braga com foco no empreendedorismo e cidadania. Mais do que isso, falava-se do empreendedorismo social e individual, não necessariamente com o foco empresarial. Estavam presentes representantes de algumas organizações que se dedicam ao trabalho de inclusão social e diminuição das influências negativas dos preconceitos. Também participavam pessoas consideradas com deficiência. Tinha a intenção de falar sobre o tema e de destacar que para ser empreendedor não necessariamente se precisa sonhar alto ou realizar grandes feitos. No meu ponto de vista, ser empreendedor é ter a motivação para se fazer as atividades ordinárias que produzem resultados extraordinários no conjunto da obra. Para mim, isso é superação. Fui até o evento com a missão de falar sobre o tema. Saí de lá com uma aula de empreendedorismo e cidadania. Um dos participantes demonstrou uma sabedoria tocante.

Iniciei questionando se havia um pre-requisito para que alguém seja um cidadão. Perguntei: para ser considerado cidadão é preciso que se tenham determinadas características físicas, como não ser muito gordo, nem ser muito magro; não ser muito alto, nem ser muito baixo; nem ter cabelos longos, nem ter a cabeça raspada? Para que sejamos cidadãos é preciso que se tenham determinadas características físicas? Não, respondeu a maioria. Fiz outra pergunta e a dirigi para alguns presentes:
Você se considera um cidadão?

Todos responderam que sim. Enquanto as pessoas respondiam, vi a inquietação de um participante, um jovem com deficiência intelectual. Ele timidamente levantou a mão e pediu para fazer uma pergunta. Passei-lhe a palavra. Vi-o um pouco mais agitado por trás das grossas lentes de seus óculos, mas ele não titubeou:
– Mas o que é ser cidadão?

Uau!, pensei. A pergunta parecia tão simples, mas era a pergunta a ser respondida. Por isso, não há pergunta tola, há pergunta não feita. Como você vai saber se é um cidadão se não sabe o que é ser um cidadão? Pedi ajuda para alguns integrantes da plateia que rapidamente disseram que é a pessoa que integra uma sociedade e exerce os seus direitos civis e políticos com liberdade. Cidadão é a parte individual da sociedade. Agora aquelas perguntas anteriores faziam muito mais sentido. Sim, somos todos integrantes de uma sociedade e temos nossos direitos e obrigações e não há nenhuma precondição física para que se seja um cidadão. Entretanto, a realidade é diferente. Para que se possa ser um cidadão e desfrutar da sociedade ainda há que se ter determinadas características físicas, sim. Quem não estiver dentro do que se entende como padrão terá dificuldades que não deveria ter. Inclusive, a partir da pergunta feita, pode-se questionar o próprio conceito de pessoa com deficiência. Se não há precondição para que se seja um cidadão, então não poderia haver cidadãos com deficiência, certo? A deficiência está na sociedade que não consegue atender as necessidades dos seus cidadãos, ainda que alguns deles tenham uma limitação física que lhes diminua a mobilidade, por exemplo. Quem me conhece sabe que não há nenhum ressentimento ou atribuição de culpa a outrem naquilo que escrevo aqui, mas simplesmente a intenção de lançar algumas questões sobre o tema. Considerando tudo isso, como ser cidadão e empreendedor individual nessas condições?

O participante que fez a pergunta respondeu com o seu exemplo e a sua demonstração de como ser empreendedor traçando objetivos que são desafiantes e alcançáveis. Enquanto a maioria reclama das dificuldades para se aprender um novo idioma, inclusive eu, aquele participante aprendeu inglês de forma autodidata. E ele é considerado uma pessoa com deficiência. Enquanto a maioria não desenvolve novas habilidades por medo ou vergonha de se expor, o participante considerado com deficiência aprendeu a cantar maravilhosamente e desenvolveu um senso artístico aguçadíssimo. Estranho, não é? O participante citado, na minha opinião, é um empreendedor nato, porque manteve o foco nas suas possibilidades, foi lá e fez. Aprendeu. Transformou-se e transformou. Ele, provavelmente, aprendeu e se desenvolveu muito mais do que aqueles que admiramos como exemplos de empreendedorismo, principalmente se considerarmos o ponto de partida, as suas dificuldades e até onde ele chegou. É isso que importa. Por isso, ser empreendedor é viver o dia de uma forma que lhe permita terminá-lo, encostar a cabeça no travesseiro e estar de bem consigo ao entender que o dia foi vivido em sua plenitude. Esse participante é um empreendedor individual que não viu limitações, mas sim oportunidades. Teve as suas motivações, soube geri-las e seguir em frente. Fez todas as atividades ordinárias e colheu resultados extraordinários. É a superação, fruto da motivação, que gera o empreendedorismo e cria cidadãos. Ele é também o exemplo de ser cidadão!

Empreendedorismo, motivação e superação numa sociedade que, paulatinamente, está deixando de ser deficiente ao atender todos os cidadãos.


Meus sinceros agradecimentos à Alexandra Lima e Joana Canedo pelo convite
CLDS Braga.

Estereótipos, preconceitos e conceitos

Nós todos temos os nossos conceitos. Muitos desses conceitos nos fornecem elementos que nos levam a criar estereótipos. Esses estereótipos, por sua vez, alimentam muitos dos preconceitos que  também nós carregamos. Não estou dizendo nem que é bom ou que é ruim, apenas que assim é. Até pode ser bom o preconceito surgido de um estereótipo, como por exemplo de que todo brasileiro é alegre e divertido. Porém, pode ser muito ruim o preconceito surgido de um estereótipo, como por exemplo de que todo usuário de cadeira de rodas é um coitadinho. Assim, creio que nós como cidadãos deveríamos detectar situações ruins e trabalhar para diminui-las. Por isso considero que a participação nas demonstrações esportivas da Associação Portuguesa de Pessoas com Deficiência – APD Braga tem sido o que de mais gratificante tenho feito ultimamente. Na semana passada participamos de uma atividade no CLIP, um colégio na cidade do Porto.

A APD Braga é uma instituição que tem trabalhado para mudar conceitos, visando apequenar estereótipos que vão reduzir os preconceitos por meio dos esportes. Como assim? A APD Braga tem recebido convites de instituições de ensino para realizar apresentações da prática desportiva entre as pessoas com deficiência. Destaca-se no cenário o basquete sobre rodas, considerando-se a equipe competitiva existente em Braga, a agilidade e a competitividade do esporte e a disponibilidade de atletas em participar desses eventos. Convite recebido, a APD desloca-se até o local levando consigo cadeiras para a prática do basquete sobre rodas, bolas, atletas com deficiência e muita disposição para mudar alguns conceitos nos pequeninos que assistem ao evento. Não só assistem, participam ativamente. Sim, acredita-se que se queremos diminuir preconceitos e minimizar estereótipos, o primeiro passo a ser dado é mudar os conceitos. E quais os conceitos que precisam ser mudados nessa realidade? Entendo que há de se mudar a interpretação da relação entre sociedade e cidadão. De que maneira?

Desde que nascemos e até o momento em que morremos somos considerados cidadãos em nossa sociedade. Pode-se entender cidadão como o indivíduo que tem direitos e deveres civis e políticos dentro de uma sociedade livre. Sociedade esta que, por sua vez, deve garantir o exercício desses direitos e cobrar os deveres de cada um dos cidadãos. Nós não precisamos ter determinadas características físicas para que sejamos cidadãos. Não é o fato de usar ou não uma cadeira de rodas que vai me fazer mais ou menos cidadão. A partir desse entendimento a relação entre cidadãos que tem alguma limitação física e a sociedade pode ser mudada. A pessoa com “deficiência” é um cidadão, tendo assim os seus direitos e os seus deveres. Portanto, cabe a sociedade garanti-los e cobrá-los. Não podendo fazê-lo, onde é que está a deficiência? No cidadão ou na sociedade? Mudar essa relação fará com que as pessoas percebam que o cidadão não tem deficiências, pode ter até alguma limitação, mas o indivíduo é um  cidadão e ponto final. Se a sociedade não consegue garantir-lhe os direitos de exercer a sua cidadania a deficiência não está no cidadão, mas na sociedade. Entender essa realidade é uma mudança de conceitos que mudará os elementos que criam estereótipos negativos sobre as pessoas que tem lá as suas limitações, diminuindo com isso os preconceitos.

Olhar para as fotos desses meninos e meninas sentados nas cadeiras de rodas para jogar basquete provoca-me uma sensação de alegria indescritível. Logicamente que não é pelo fato de vê-los numa cadeira de rodas, mas sim pela inocência da ausência de preconceitos e de estereótipos. Enquanto o Ricardo, técnico, explicava como se praticava a modalidade, podia-se ver claramente o brilho nos olhos daqueles pequenos cidadãos ávidos por conhecer e ter novas experiências. No momento em que o Ricardo disse, Olha, primeiro nós vamos mostrar para vocês como se manobra a cadeira, a cadeira e a bola e depois vocês poderão jogar sentados nas cadeiras… a turma foi ao delírio. Sim, eles não só poderiam ver como se joga basquete em cadeira de rodas, mas eles também poderiam experienciar. A cada cinco minutos entrava um novo grupo cada vez mais animado com a hipótese da diversão. A felicidade estampada na cara. Aqueles pequenos cidadãos usaram a cadeira de rodas como elemento de diversão. Tenho a certeza de que alguns conceitos foram mudados na cabeça daquelas crianças e adolescentes que um dia tomarão as decisões hoje por nós tomadas. Eles serão adultos com menos preconceitos porque já não têm os estereótipos negativos sobre os usuários de cadeira de rodas.

Somos todos cidadãos.

Vamos eliminar a deficiência da sociedade!

Olhe mais uma vez!

Sabendo que podemos falar sem proferir palavras; podemos ouvir sem escutar os sons; podemos ver sem as imagens; podemos caminhar sem mover as pernas; enfim, que podemos aprender a aprender mantendo a mente aberta e em sintonia com o mundo em que vivemos, percebendo as oportunidades que nos rodeiam.
Moacir Rauber

Onde nós estamos?

No instante seguinte em que eu penso no que estou vivendo ele já é passado. O futuro é uma hipótese que quando chega já é presente e logo também é passado. 

E “aquelas” perguntas:

De onde vim?
Onde estou?
Para onde vou? Se é que vou…

Dúvidas… Porém, hoje ouvi da Andréia, pessoa com quem compartilho bons momentos da vida:

– Ah, mas nós estamos aproveitando o caminho! 

Fiquei feliz com isso!!!


Então é isso… Estamos no presente! Pensou nele? Aproveite, porque já é passado…

Inteligência masculina…

Lindo dia de feriado. Levantei cedo e aguardei a carona para irmos jogar basquete sobre rodas. Fomos até um conjunto de quadras esportivas ao ar livre e abertas ao público ao lado da rodovia que corta a cidade. Chegamos ao local, montamos as cadeiras, fizemos aquecimento e começamos as disputas. Começamos com o 31, que são lançamentos individuais até que o primeiro faça 31 pontos. Depois passamos a jogar dois contra dois. Uma hora depois um dos jogadores se arrebenta um dedo que começa a sangrar. Paramos um pouco e recomeçamos. Em seguida alguém cai, mas a disputa segue, assim como as brincadeiras e as gozações. Assim, as duas horas passaram num piscar de olhos. Saímos dali e fomos ao café. Pedimos lanches, água e suco. Enquanto os pedidos não chegavam, a inteligência masculina aflorava nas conversas:

– Vocês sabem como fazer para saber quem gosta mais de você, se é o seu cachorro ou é a sua mulher? Pergunta um.

– Não, respondem alguns enquanto outros preferem não se manifestar e ficam a olhar desconfiados. Uma resposta não bem pensada pode levar a que se pague um mico. Ficar calado, quase sempre, é mais seguro.

O dono da pergunta continua:
– É muito fácil. Prenda o seu cachorro e a sua mulher no carro num dia de sol quente por duas horas. Depois vá até lá, abra e veja quem sai de lá feliz…


Acabei de almoçar…

Era um dia normal e a rotina de sempre. Os clientes entrando na tasquinha e acomodando-se nas suas mesas de costume. O ser humano é um ser de hábitos. Pode ser numa sala de aula, na igreja ou no restaurante, uma vez que que nos acomodamos num lugar, normalmente voltamos a ocupar o mesmo ponto. Creio ser uma espécie de demarcação de território. Não sei porque achamos estranho o hábito dos cães saírem por aí demarcando território… Bom, lá estava o meu amigo indo ao mesmo restaurante, sentando-se no mesmo lugar e sendo atendido pelo mesmo garçom. As piadas e as brincadeiras se repetiam. Hábitos, nada mais do que hábitos que nos dão a sensação de segurança. Entre o meu amigo e aquele garçom já havia se estabelecido uma amizade que se refletia na confiança e na cumplicidade com que faziam brincadeiras entre si. Naquele dia elas foram especialmente mais picantes e também mais alegres. Como de costume, em Portugal muitas pessoas tomam um copo de vinho para acompanhar a refeição. Naquele dia foram dois copos. O meu amigo quase nunca comia sobremesa, mas aceitou a sugestão do garçom naquele dia e pediu uma bela fatia de tarte. Para finalizar um café, senão não seria Portugal. Ainda não era o fim. Havia o “cheirinho” para terminar de matar o bicho. O que é isso? Um gole de “bagaço”, uma aguardente típica daquela região. Agora sim o almoço estava finalizado. O garçom despediu-se do meu amigo e dirigiu-se para um lado do restaurante. O meu amigo dirigiu-se ao caixa, pagou a conta e caminhava em direção à porta de saída.  Para sua surpresa, o garçom com quem brincara naquele dia, assim como em quase todos os dias da semana em que ali almoçava, aproximou-se, estendeu-lhe a mão e disse:
– Bom dia, e o senhor vai almoçar? Pode ser esta mesa?
O meu amigo olhou-o desconfiado, pensando em se tratar de uma das brincadeiras do garçom. Entretanto, pode ver que não era brincadeira. Ele estava falando sério. Com ar de espanto, o meu amigo respondeu:
– Acabei de almoçar…

O Garçom recobrou a memória e corou. Gaguejando pediu imensas desculpas e voltou para atender outros clientes. Recobrou a memória, mas garantiu a gozação. Também eu almoço no mesmo restaurante todas as sextas-feiras, ocupo sempre a mesma mesa, na companhia do meu mesmo amigo e somos atendidos pelo mesmo garçom. Entramos, o garçom nos cumprimenta e, com um ar desconfiado, pergunta:
– Vão almoçar?
– Não, não, acabei de almoçar… Vim aqui só pra te ver! Diz o meu amigo.

Há um ditado que diz, perde-se o amigo, mas não a piada. Nesse caso ela garante gargalhadas, um bom almoço e reforça a amizade. Hábitos podem ser bons e divertidos.

Fonte: Ricardo Vieira e Moraes.

Somos únicos. Somos múltiplos.