Seres humanos, seres estranhos…

Por um lado, desenvolvemos tecnologia, produtos e criamos facilidades para que todas as nossas atividades sejam automatizadas para diminuir o esforço físico, deixando-nos cada vez mais sedentários. São equipes inteiras de pessoas que passam o dia pensando em como fazer para que não se precise fazer mais atividades físicas.

Por outro lado, desenvolvemos tecnologia, produtos e criamos novas técnicas para que as mesmas pessoas que tiveram suas atividades automatizadas continuem a fazer esforço físico, tirando-as do sedentarismo. São equipes inteiras de pessoas que passam o dia pensando em como fazer para que se faça pelo menos alguma atividade física.

Somos ou não somos estranhos?

A mulher do cafezinho…

Em algumas reflexões exploro a questão da valorização das pessoas na organização, independentemente da função ou da posição na hierarquia. Para esse fim, uso uma historinha contada como anedota há muito tempo, mas que tem um fundo de verdade.
 
Diz a história que uma empresa multinacional foi se instalar numa região que originalmente era habitada por tribos adeptas do canibalismo. A unidade contaria com mais de mil funcionários distribuídos em diferentes departamentos, como o de produção, manutenção, vendas, logística, recursos humanos, entre outros. O diretor da unidade resolveu implementar uma política de boa vizinhança com população local e contratou um grupo de nativos para integrarem o quadro de colaboradores da empresa. Sabedor que era que eles ainda tinham por hábito o canibalismo, convidou-os para uma reunião em seu gabinete, dizendo:
– Fico muito feliz em tê-los trabalhando aqui conosco. Sei que vocês tem como hábito secular o canibalismo, mas pediria para que não o praticassem aqui na nossa organização. Afinal, todos somos colegas e trabalhamos com objetivos comuns…
 
Continuou falando sobre a importância da presença deles para um verdadeira integração da empresa com o comunidade e, no final, obteve o consentimento de todos para o seu pedido. Que bom!, pensou o diretor. Assim fico mais aliviado!
 
Tudo transcorria na maior normalidade. A empresa prosperava, os produtos eram bem aceitos e os nativos pareciam estar muito felizes. Até parecia que estavam mais gordinhos ultimamente… Seis meses depois, um determinado dia, a mulher que era responsável pela limpeza e também pela cozinha, que diariamente servia o cafezinho, não apareceu. Também não avisou o motivo de sua ausência. O diretor estranhou, porém não falou nada. No segundo dia em que ela não apareceu a sua preocupação aumentou. O que será que aconteceu com ela? Pensava o diretor. Ela nunca teve uma falta e agora dois dias seguidos. Será que aconteceu alguma coisa mais grave? Ele não queria pensar no pior, mas também não conseguia evitar. No terceiro dia em que a mulher do cafezinho não compareceu ao trabalho ele não aguentou e chamou o grupo de trabalhadores nativos para uma nova reunião em sua sala. Estavam todos sentados a sua frente. Um silêncio sepulcral tomava conta do ambiente. O diretor não sabia como abordar o assunto para não ser acusado de estar sendo politicamente incorreto. Mesmo assim, foi falando:
Escutem, convidei-os para esta reunião porque fiquei preocupado. A mulher que faz a limpeza e serve o café não apareceu para trabalhar nos últimos três dias. Gostaria de saber se vocês sabem do paradeiro dela, se vocês tem alguma notícias de onde ela possa estar. Não estou dizendo que vocês tenham algo a ver com isso, apenas supus que talvez vocês soubessem algo…
 
Silêncio absoluto. Constrangedor. Nada se movia na sala. Caso caísse uma pena seria um estrondo… O diretor deixou a frase em suspenso. Passados alguns segundos os trabalhadores começaram a ficar inquietos. Mexiam-se nas cadeiras. Começaram a se entreolhar. Até que um deles não aguentou mais e disse:
Tá vendo, tá vendo! Eu falei pra vocês, “a mulher do cafezinho, não!” Mas vocês insistiram, não é? Nos seis meses que aqui estamos já comemos três gerentes, dois supervisores, dois vendedores, pessoal do marketing e ninguém notou nada. Mas não, vocês tinham que pegar logo a mulher do café, não é?
 
Depois de contar a história, naquele dia, naquela empresa, a mulher do cafezinho estava presente na palestra. Ela foi ovacionada pelos colegas de trabalho.
 
O exemplo não trata de remuneração, mas da importância que cada um dos colaboradores tem para a composição da organização. Cada organização somente é o que é porque conta com as características de cada um dos indivíduos que a compõem. Faltando qualquer um a organização deixa de ser o que é.
 
Valorize-se!

Sir Gawain e o Cavaleiro Verde


A corte do Rei Arthur estava reunida em uma de suas sessões, quando entra porta adentro um enorme cavaleiro montado em seu cavalo verde e diz: 
– Eu proponho uma aventura para vocês, Cavaleiros da Távola Redonda! Desafio a qualquer um aqui a pegar este machado e a cortar a minha cabeça. Mas daqui a um ano, aquele que o fizer, deverá me encontrar na Capela Verde no interior da floresta para que eu lhe corte a cabeça… 

Os cavaleiros se entreolharam com aquela estranha proposta. Gawain aceitou o desafio. O Cavaleiro Verde desceu do cavalo e esticou o pescoço, enquanto Gawain pegou o machado. Olhou para um lado e para outro. Deu um sorriso pensando, Se eu lhe cortar a cabeça como poderá ele cortar a minha? Nisso pensando, levantou o machado e num só golpe cortou a cabeça do gigante. Para surpresa de todos o gigante se levantou, pegou a cabeça e disse-lhe:
– Vejo-o daqui a um ano… Montou em seu cavalo verde e foi embora.

Durante aquele ano todos os cavaleiros e habitantes do local trataram a Gawain muito bem. Quando faltavam três dias para terminar o prazo ele foi em busca da Capela Verde. No interior da floresta estava em frente a cabana de um caçador e perguntou:
– Onde fica a Capela Verde? 

O caçador lhe disse que ficava bem perto, a uns duzentos metros da casa. Gawain contou-lhe o ocorrido. O caçador convidou-o para ficar hospedado em sua casa nos próximos três dias. Disse-lhe também que todos os dias ele sairia para caçar e lhe daria tudo o que conseguisse, desde que ele retribuísse com tudo o que conseguisse durante o dia. Trato feito. Na manhã seguinte o caçador saiu para caçar. Gawain ficou em casa em companhia da linda esposa do caçador. Ela se aproximou, insinuou-se e convidou-o a fazer amor. Gawain era um cavaleiro da corte de Arthur e jamais faria isso. Ela foi bastante insistente, mas ele manteve a sua posição. Muito contrariada, por fim ela desiste, mas pediu para que pelo menos ele aceitasse um beijo. Gawain assentiu e recebeu o beijo. No final da tarde o caçador retorna com diferentes tipos de caça e os oferece para Gawain. Este, em contrapartida, lhe dá um beijo. Ambos riem. Na manhã seguinte a cena se repete. O caçador sai para caçar, enquanto Gawain recebe dois beijos da sua linda mulher. No final da tarde o caçador retorna com muito menos caça e Gawain lhe dá dois beijos. Novamente ambos riem. No terceiro dia a mesma cena. O caçador sai para caçar e Gawain permanece em casa com a sua esposa. Ela novamente se insinua… Para Gawain seria a última oportunidade, porque no dia seguinte ele iria para a Capela Verde e teria a sua cabeça cortada. Mesmo assim ele resiste. A esposa do caçador então lhe dá três beijos e uma parte de sua cinta liga, dizendo:
– Isso o protegerá contra qualquer perigo… 

O Caçador retorna com somente uma raposa e a oferece para Gawain, que lhe dá três beijos, mas não a cinta liga. Novas risadas.

Assim chega o dia de Gawain ir até a Capela Verde. Ele se aproxima da porta e ouve o barulho de alguém amolando o machado. Mesmo assim ele entra na Capela. Não há dúvidas, é o Cavaleiro Verde. O gigante pede para que ele estique o pescoço sobre um banco. Gawain apoia o pescoço na posição para que o gigante lhe corte a cabeça. Por três vezes o Cavaleiro Verde pede para que ele estique um pouco mais o pescoço. Por fim, desce o machado até o pescoço de Gawain, porém lhe faz somente um pequeno corte e diz: 
– Isso porque não me deste a cinta liga…

Pode-se perceber quais são os testes para o cavaleiro? 

Gawain é um cavaleiro que transcendeu o medo da morte e o desejo pelos prazeres fugazes da vida, representadas na fábula por coragem e sexo. A moral é que a sua felicidade vem do seu verdadeiro eu, quando você deixa de lado as preocupações com os momentos efêmeros, os terrores momentâneos, tentações passageiras e exigências da vida. Você simplesmente deve vivê-la!

E você, quais os seus testes diários? Quais valores você não abre mão?
O Poder do Mito

Joseph Campbell em entrevista para Bill Moyers

Sai daí, seu…!!!

Lá vinha eu rodando devagarinho procurando um local para estacionar. Estava numa rua paralela próxima da Catedral da cidade de Cascavel no Paraná. Um pouco mais a frente vi uma placa que identificava uma vaga para pessoas com deficiência. Ainda bem! pensei. Tomara que esteja livre… Eu já estava em cima da hora para um compromisso num local ali próximo e não havia outro lugar para estacionar. Fui me aproximando da vaga e vi que estava vazia. Estacionei. Subi o vidro. Desliguei o carro. Peguei minha pasta com os documentos no banco ao lado e coloquei no painel em minha frente sobre o volante. Nesse momento vi que havia um homem ao lado da minha porta esbravejando. Gesticulava muito. Parecia irritadíssimo. Mesmo sem olhar comecei a procurar entender o que estava dizendo. Identifiquei palavrões e uma frase mais ou menos assim:
– É por isso que esse país não funciona. As pessoas não respeitam nada nem ninguém. E o senhor aí todo engravatado acha que pode tudo. Sai daí, seu F.D.P!!!
No primeiro instante não havia entendido o motivo de tanto irritação por parte daquele senhor. Ele deveria ter lá seus oitenta anos. Inicialmente fiquei até um pouco receoso que pudesse ser um maluco, mas logo me dei conta  do que estava acontecendo. Fiz de conta que não era comigo. Comecei a me movimentar para pegar a minha cadeira de rodas que estava desmontada na parte de trás do assento do caroneiro. Peguei o quadro da cadeira, puxei-o sobre mim, abri a porta do carro e baixei-o no chão já do lado de fora. Vi de relance que aquele senhor nervoso havia parado de gesticular. Fiz um novo movimento e peguei uma roda, encaixando-a no quadro da cadeira. Fiz novo movimento para colocar a outra roda. O senhor do lado de fora deu dois passos para trás. Ajeitei a cadeira. Puxei-a o mais próxima que pude do carro para poder fazer a minha transferência do banco para a cadeira. Olhei para aquele senhor que agora já estava literalmente com o queixo caído. A cara de espanto não negava que quem não estava entendendo nada agora era ele. A mão no queixo. Ele estava completamente paralisado… Fiz um movimento brusco saindo do carro para a cadeira de rodas. Ajeitei minhas roupas, a gravata e peguei a minha pasta que estava no painel do carro. Fui um pouco para trás e fechei a porta. Novamente olhei para aquele senhor que tentava falar algo:
– Bem… Uh… Não sabia…
Eu  aproveitei para cumprimentá-lo:
– Boa tarde, tudo bem com o senhor?
Ele finalmente conseguiu falar:
– Boa tarde, tudo bem…
Em seguida o senhor ficou novamente em silêncio, com um olhar incrédulo, analisando-me de cima a baixo. Eu somente o encarei com um sorriso e disse:
– Tudo certo! Até mais…
Em seguida comecei a me locomover para dirigir-me ao meu compromisso. Foi então que aquele senhor conseguiu falar outra vez:
– Olha, o senhor me desculpe… É que eu fico aqui olhando e o pessoal que estaciona aqui não tem nada (deficiência…). Quando falo alguma coisa eles ainda dão risada e me insultam…

 – Não há nada que se desculpar. Eu é que agradeço, porque se todos fizessem assim como o senhor certamente o lugar seria respeitado. Muito obrigado!!!
Tem duas situações a serem analisadas na cena: a primeira refere-se a vaga de estacionamento e a segunda à reação daquele senhor.

Na primeira situação tem um agravante para o cidadão que respeita as leis e, consequentemente, as vagas para as pessoas com deficiência. Sou usuário de cadeira de rodas e sempre que posso estaciono nas vagas destinadas para esse fim. O problema se dá quando uma pessoa que não tem deficiência ocupa uma dessas vagas apenas por “um minuto”. As pessoas com deficiência não podem ocupar a vaga que lhes era destinada e estacionam numa vaga qualquer. Em seguida a vaga que era destinada para as pessoas com deficiência é desocupada e o carro da pessoa com deficiência, que lá deveria estar, está ocupando uma vaga comum. Desse momento em diante o carro da pessoa com deficiência passa a ocupar duas vagas dos cidadãos que respeitam as leis. Desse modo, os cidadãos que respeitam as leis não vão estacionar nas vagas destinadas às pessoas com deficiência que têm seu carro ocupando a vaga dos cidadãos comuns. E a outra vaga permanece desocupada. O não cumprimento das normas estabelecidas pela sociedade por parte de seu integrantes produz reflexos em cadeia afetando a vida de diferentes pessoas.

Com relação a reação daquele senhor confesso que me diverti com a situação, logo após entender  o que estava acontecendo. Eu já ria intimamente antes mesmo de montar a minha cadeira, porque imaginava a sua expressão no momento em que ele me identificasse como legítimo usuário daquela vaga. Foi o que aconteceu. Porém, a situação que quero analisar se volta para os julgamentos rápidos que nós normalmente fazemos quando pensamos que entendemos o que está acontecendo, mesmo sem uma avaliação mais aprofundada da situação. Isso ocorre quando usamos o passado para nos fundamentar em ações presentes ou mesmo nos estereótipos que carregamos em nossos modelos mentais. No programa de formação em coaching tem um ferramenta denominada Escada de Inferências que foi trabalhada pelo Prof. “Bob” Hirsch (http://opusinstituto.com.br/com maestria. Trata-se das ações que tomamos baseadas em julgamentos que fazemos a partir da visão, muitas vezes, limitada de uma situação. Como no caso relatado, aquele senhor se baseou na observação de um fato que ocorria diante de seus olhos, escolheu alguns elementos, relacionou-os com outros acontecimentos semelhantes registrados em sua base de dados, articulou-os entre si e fez um julgamento. Fez as associações de forma rápida sem uma análise mais profunda da situação, elaborou uma proposta e partiu para ação. Esse processo ocorreu nos instantes em que ele levou entre observar o carro e partir para os insultos. Poderia se dizer que o senhor pegou o “elevador” e não usou a escada de inferências, porque suprimiu etapas. Não observou o fatos tão atentamente  como imaginara, porque se ele o tivesse feito teria visto que o meu carro tem um adesivo do símbolo universal da acessibilidade que identifica usuários com deficiência. Assim, a seleção dos dados usados para articular com outros já registrados em sua memória foram insuficientes, prejudicando todo o percurso de raciocínio que nos leva aos julgamentos que fundamentam as nossas ações. Tivesse aquele senhor dado um passo atrás, ampliado o seu campo de visão, percorrido todos os degraus previstos na escada de inferência, certamente a sua ação teria sido outra. Não teria pagado o mico de ter que se desculpar, mesmo tendo procurado fazer a coisa certa.

Desse modo, antes de falar para alguém, Sai daí, seu F.D.P.!, dê um passo atrás, amplie sua visão, rearticule o dados, analise e proponha uma ação condizente com a situação.

Nós também o somos no próximo


Sabe-se que a maioria dos pais daria a vida por seus filhos sem pestanejar. Mas o  filósofo Schopenhauer amplia essa questão ao descrever uma cena de tentativa de suicídio…

Um jovem se aproxima de um barranco, olha para o abismo, pensa mais um pouco, concentra-se e faz o movimento final para nele se atirar. No exato instante em que ele salta é agarrado por um de dois policiais que haviam se aproximado sem que fossem percebidos. O jovem suicida com o seu movimento brusco leva o policial consigo. Porém, o segundo policial, num ato extremo, consegue agarrar a ambos, salvando-os da morte…

Naquele momento, no ímpeto de tentar salvar o suicida, todos os sonhos, desejos e aspirações pessoais e profissionais do jovem policial haviam desaparecido. Não lembrou de suas obrigações profissionais e nem de sua família. Não houve espaço para dúvidas em sua mente sobre o que deveria fazer. Logo após o incidente, já em segurança, perguntaram ao policial, Por que você não o deixou pular? Você poderia ter perdido a sua vida também… A essa questão o policial respondeu, Se eu não tentasse salvá-lo eu não conseguiria viver nem mais um dia sequer… Para Schopenhauer, extraído do vídeo O Poder do Mito de Joseph Campbell, este é o avanço da percepção metafísica de que você e o outro são um só. A separação presente entre todos os indivíduos é apenas uma questão de forma antes que nos tornemos únicos outra vez.

Segundo esta história fica a pergunta: amamos ou não o próximo como a nós mesmos? Basta que nos dispamos daquilo que fizeram de nós e sejamos nós mesmos, pois esta ação é resultado daquilo que somos nós em nosso estado natural!

O Poder do Mito

Joseph Campbell em entrevista para Bill Moyers

De pouco serve falar bem…

Entramos na área da feira logo que permitiram o acesso. Era por volta das 10h. Um dos orientadores do estacionamento nos conduziu até os fundos do centro de eventos onde estacionamos num local tranquilo. O acesso ao pavilhão foi trás. Assim, fizemos o caminho contrário daquele feito pela grande maioria dos visitantes. No final do pavilhão os estandes ainda estava sendo abertos e os responsáveis estavam chegando. Inicialmente o ambiente estava bem calmo. Enfim, era uma feira setorizada que, normalmente, não tem um público muito intenso. Fomos avançando, olhando os estandes, identificando as empresas que estavam na feira, os produtos e as soluções oferecidas, detendo-nos naqueles que nos interessavam. Assim seguimos até que chegamos quase na metade da feira vindo da parte detrás. Conforme fomos avançando o público aumentou. Também a postura dos vendedores nos pareceu que revelava uma agressividade cada vez maior. Paramos num estande que nos interessava. Começamos ouvindo a explicação sobre o produto que nós já conhecíamos. Interrompi o discurso ensaiado do vendedor para perguntar diretamente, Afinal, quanto custa?Ele parece que não me escutou e continuou falando dos benefícios do seu produto. Começava a nos irritar. Nós o ouvimos por educação. Já não o escutávamos mais. Particularmente eu começava a ficar aflito. Olhei em frente e vi o vendedor do concorrente direto do expositor onde estávamos, observando-nos. Estava impaciente. Quando finalmente conseguimos nos desvencilhar do vendedor, sem saber o preço, vi de canto de olho que o vendedor seguinte já havia separado o material sobre o seu produto, que nós também já conhecíamos. Certamente deve ter pensado que se nos interessava o produto do concorrente o seu também deveria nos interessar… Resolvemos dobrar a esquina da feira. Fomos abordados por outro vendedor. Seguimos em frente. O movimento aumentava. Os vendedores e representantes nos abordavam aos borbotões. Mas não era uma abordagem salutar. Era invasiva, por vezes até grosseira. Nós já não sabíamos para onde ir. Não podíamos ficar em frente de um estande e simplesmente a olhar e a conversar entre nós para analisar se iríamos entrar ou não. Os vendedores não permitiam. Falei para a minha esposa, Chega, vamos embora…

Quem visita uma feira setorizada, normalmente, tem interesse e conhecimento muito maior naquilo que está em exposição em comparação com uma feira aberta ao público. Seguramente tem produtos que não se conhece, assim como novidades desenvolvidas para aqueles que já são familiares. Também se imagina que os vendedores sejam especializados nos produtos que oferecem, uma vez que são produtores e fornecedores vendendo para outros produtores e fornecedores. Não era uma feira para o consumidor final, com raras exceções. Desse modo, o conhecimento técnico profundo sobre o que se oferece é fundamental. Não foi disso que nos ressentimos na feira que visitamos. Ressentimo-nos foi da falta de preparo comportamental daqueles técnicos. Passou-nos a impressão de que tiveram uma ou duas aulas sobre técnicas de vendas e as puseram em prática com quem passava a sua frente. Devem ter ouvido que deveriam ser agressivos. Também devem ter sido alertados que em primeiro plano é necessário falar sobre os benefícios que o produto tem em relação aos demais que estão no mercado. É obrigatório descrever as características técnicas inovadoras antes de qualquer menção aos valores. Por fim, devem ter recebido a instrução reforçada de que somente se fala no preço ao final da exposição. Pareceu-nos, assim, que aos vendedores somente lhes foi ensinado falar. Eles tinham todas as informações na ponta da língua. Falavam muito bem. Descreviam tecnicamente os produtos com toda propriedade. Todavia, a impressão foi a de que os vendedores não aprenderam a escutar. Até ouviam uma pergunta ou outra para a qual tinham respostas, entretanto não sabiam escutar. Não sabiam que a comunicação somente é validada se alguém realmente escuta aquilo que se fala, assim como aquilo que não se fala. Inicialmente nós os ouvíamos escutando. Passado um instante somente os ouvíamos, porque os vendedores não escutavam as nossas dúvidas que se transformavam em impaciência. Não escutavam as nossas expressões que revelavam uma agonia desmedida. Os vendedores altamente técnicos não escutavam os gritos que nós como clientes dávamos com nossa linguagem corporal.

Por isso, de pouco serve falar bem se você não souber escutar melhor ainda. Para vender, muito mais do que falar, é necessário saber escutar, porque a comunicação apenas se concretiza no ato da escuta. E sem comunicação não há venda. 

Somos únicos. Somos múltiplos.