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VOCÊ SABE COMUNICAR?

Fonte: Pixabay

VOCÊ SABE COMUNICAR?

O diretor chega à empresa para começar o dia e, como sempre, reúne a equipe para revisar as tarefas delegadas, as responsabilidades assumidas e os resultados a serem entregues. Cada um dos membros está ciente de seus afazeres, que estão alinhados com as suas competências. Em uma das interações, ele pergunta:

— O que aconteceu com a entrega prevista para ontem, que não foi feita?

O responsável começa a responder:

— Parece-me que houve…

E segue com uma explicação baseada no entendimento daquilo que supostamente havia ocorrido, segundo a sua interpretação dos fatos. Qual é o problema desse tipo de explicação? Ela nos afasta da realidade objetiva. O que se pode fazer para melhorar a comunicação organizacional? O essencial é saber diferenciar fatos de interpretações.

Em tempos de dados, informações e conhecimento abundantes, não há espaço para divagar sobre acontecimentos que impactam os resultados organizacionais. Em primeiro lugar, é preciso apurar os fatos para depois passar às interpretações. Mas qual é a diferença entre fatos e interpretações? Com relação à pergunta do diretor, o membro da equipe, ao começar a explicação com “Parece-me…”, notadamente invocou uma interpretação, uma vez que se tratava daquilo que ele pensava que poderia ter acontecido. Um fato se refere a algo que, uma vez descrito, pode ser comprovado por qualquer membro da organização. Por exemplo, o que aconteceu para que a entrega não fosse feita? “O caminhão quebrou…”, “O motorista faltou…” ou ainda “Os produtos não estavam prontos…” são fatos. Entretanto, muitas vezes não apuramos os fatos e seguimos com as nossas interpretações, que podem ser diferentes das dos demais membros, gerando conflitos.

Destacam-se também as diferenças entre observações e opiniões; notícias e narrativas; convites e intimações; pedido e exigência; e, por fim, que um aviso não é improviso. Não saber a diferença atrapalha a comunicação.

Para este texto, observação refere-se a um estudo, a uma pesquisa ou a uma análise que pode ser atestada por outras pessoas, enquanto a opinião é derivada da compreensão individual do fenômeno observado.

Notícia deveria ser somente o fato em si, e não uma narrativa em que o jornalista conduz a fala de modo a endossar as suas crenças sobre o ocorrido.

Entendo que, para melhorar a comunicação, é essencial ter clareza sobre essas diferenças, para poder começar a falar com base em fatos, observações e notícias que possam ser comprovadas por qualquer pessoa. Depois de uma descrição comprovável, a interpretação será bem recebida, a opinião será respeitada e a narrativa poderá ser construída em equipe. Com essa abordagem, a realidade é a mesma para todos, respeitando-se o direito de cada um de vê-la em conformidade com as suas crenças.

Outras diferenças importantes que permitem melhorar a comunicação: convite e pedido não se referem a intimação e exigência, uma vez que os primeiros aceitam um “não” como resposta, enquanto os segundos não. Nas organizações, um convite e um pedido tendem a ser mais efetivos que as intimações e as exigências.

Por fim, aviso não é improviso.

Um ponto central no processo comunicacional é que, ao se dar um aviso, fazer um comunicado ou delegar uma tarefa, alguns elementos devem estar claros: quem, para quem, o quê, quais as condições e quanto tempo para atender ou realizar aquilo que foi avisado, comunicado ou delegado. Por que destaco isso? Porque são inúmeros os líderes que começam a dar um aviso, a fazer um comunicado ou a delegar uma tarefa e terminam emitindo a sua opinião em uma improvisação que se afasta da objetividade necessária para o assunto.

Finalmente, ao participar de uma reunião organizacional, tenha em mãos dados, informações e conhecimento que sejam fatos, observações e notícias comprováveis. Em seguida, caso necessário, faça a sua interpretação, dê a sua opinião e desenvolva sua narrativa. Por fim, faça um convite ou um pedido sabendo que o “não” será bem-vindo. Desse modo, os confrontos e os conflitos desaparecem enquanto a comunicação floresce.

Por isso, tenha tudo organizado, porque avisar, comunicar e delegar não é improviso — é competência comunicacional.

Moacir Rauber

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Quem é o bobalhão correndo?

Quem é o bobalhão correndo?

Nas viagens sempre estou no local antes do horário previsto para embarcar, afinal um usuário de cadeira de rodas, às vezes, demanda mais tempo. Com isso aproveito para observar os atrasados correndo para chegar a tempo de embarcar. Alguns conseguem. Outros não. O desespero toma conta das pessoas que perdem o voo. Eu observo, penso e julgo, “Quem é esse bobalhão correndo?”.

Há alguns anos, estava no aeroporto com bastante antecedência para um voo doméstico. Aproveitei para almoçar com um amigo. O relógio marcava 13h24min, “Ah, tenho bastante tempo, meu voo somente será às 15h. Mesmo assim é hora de ir, pensei. Comecei a relembrar para onde eu iria e percebi que os horários de saída e de chegada estavam muito próximos. Resolvi olhar a passagem e não acreditei no que vi. A hora de decolagem seria às 14h e não às 15h. Saí a toda a velocidade que a cadeira de rodas permitia pelo saguão de um terminal ao outro até o balcão da companhia aérea. Fila. Todos as posições ocupadas. Agitei meus braços. Consegui a atenção de uma das atendentes. Ela disse:

– Acabou de fechar. Não embarca mais…

– Não é possível. Não é possível… repeti desesperado.

Havia perdido o voo. Agora eu sentia na pele aquilo que eu via os outros passarem quando se apresentavam alguns minutos atrasados no balcão de embarque. Era minha a falta de organização que complicava a minha situação. Eu deveria chegar às 16h no destino para um compromisso às 19h. Quantas pessoas seriam atingidas pela minha desorganização? Ao não cumprir o horário do primeiro compromisso, o embarque, deixaria de cumprir o segundo compromisso, o evento. Ao não atender o segundo compromisso criaria problemas para as pessoas que haviam me contratado para o evento que haviam organizado. Seria uma frustração moral, além dos prejuízos financeiros que também estariam envolvidos. Mas o que fazer? O que estava ao meu alcance fazer naquele momento? Nada…

Tudo isso passava pela minha cabeça, quando novamente olhei para a atendente e a vi falando com alguém no comunicador. Ela desligou e olhou para mim:

– Se nós chegarmos até lá em dez minutos eles te embarcam. Siga-me … disse ela e saiu correndo.

Fui atrás. Corri feito um louco, passei pela alfândega e cheguei ao portão. Tão logo embarquei as portas do avião se fecharam. Relaxei pela emoção de ter conseguido viajar. Foi então que me dei conta de quão injustos sempre foram os meus julgamentos. Como poderia eu julgar sem saber o que realmente acontecera com as pessoas que chegavam atrasadas ou em cima da hora? O meu motivo fora realmente fútil, mas quais seriam os motivos dos outros que eu sempre observara e julgara? Pensei comigo, “Julgue menos. Você não sabe o que o outro está passando…”. Faltava-me a humildade para praticar a empatia. Competências socioemocionais que podem validar muitas de nossas competências técnicas.

Por fim, coloquei-me no lugar das outras pessoas que naquele dia estavam com antecedência no aeroporto. Caso algum deles tenha me observado correndo desesperado pelo saguão do aeroporto pode ter pensado, “Mas quem é esse bobalhão em cadeira de rodas correndo de um lado para o outro?”. Naquele dia o bobalhão fui eu.

Moacir Rauber

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