Moacir Rauber acredita que tem "MUITAS RAZÕES PARA VIVER BEM!" porque "MELANCOLIA NÃO DÁ IBOPE". Também considera que a "DISCIPLINA É A LIBERDADE" que lhe permite fazer escolhas conscientes, levando-o a viver de forma a "QUE POSSA COMPARTILHAR TUDO COM OS PAIS E QUE TENHA ORGULHO DE CONTAR PARA OS FILHOS".
Visitar um amigo é um prazer e quando ele tem oitenta anos se transforma num aprendizado. Minha esposa e eu chegamos no horário combinado para tomar um café e em seguida apareceu o nosso amigo para nos cumprimentar com o afeto característico. Ainda na conversa introdutória, fiz um comentário sobre o bairro em que ele residia:
– O bairro está lindo. Tinha a impressão de que era um bairro feio…
Ele não respondeu imediatamente. A sua expressão era tranquila, mas eu comecei a ficar ruborizado pela vergonha. Por quê? Porque na pausa do meu amigo tive tempo para perceber o julgamento que eu fazia sobre uma realidade que não conhecia a partir de uma interpretação minha. Quem era eu para dizer que o bairro era feio?
No tempo em que o meu amigo não dizia nada, busquei na memória as lembranças da experiência que havia tido no bairro há mais de vinte anos.
Lembro-me que estava na cidade e me enganei de rua, perdendo-me no bairro numa noite escura. Havia pouca iluminação, as ruas estavam esburacadas e sem asfalto. Senti medo e uma agitação tomou conta de mim, assim fiquei zanzando de um lado a outro pelas ruas do bairro. Para aumentar a incomodidade, furou um pneu. Podia parar, mas me resultaria muito difícil trocar o pneu na noite. As pessoas que via pareciam que estavam à espera de uma oportunidade para uma maldade. Segui rodando por um período, até que encontrei um posto de combustível e uma borracharia. O pneu furado já não tinha mais conserto, mas eu pude me acalmar.
Ao relembrar a cena vejo a carga de julgamentos presentes no meu comentário.
Talvez, se nesse tempo tivesse conhecimento da Comunicação Não-Violenta (CNV) e da Inteligência Positiva (IP), poderia ter outro registro sobre o fato na minha memória. A IP nos alerta sobre a constante e, muitas vezes, invisível presença dos sabotadores internos no nosso cotidiano. Há um sabotador regente, o juiz, que acusa o outro, culpa a situação ou se autocritica num movimento de aparente defesa que termina por ser prejudicial para o próprio indivíduo. Aqueles que têm consciência dos sabotadores podem fazer uma ação rumo ao sábio que existe em nós para ver as possibilidades em qualquer situação. O sábio interno se destaca pela capacidade de empatia, navegação e exploração de possibilidades nas diferentes situações, assim como pela capacidade de inovar e ativar o sábio para ver alternativas. Já a CNV nos oferece ferramentas para observar sem julgar, atendo-nos aos fatos, induzindo-nos a assumir a responsabilidade sobre os sentimentos, bem como a identificar as necessidades para, finalmente, fazer um pedido. Uma ação concreta. Na cena que descrevi sobre as recordações do bairro em que vivia o meu amigo, o sábio havia desparecido e o juiz acusava a todos despertando em mim o medo. A interpretação que eu fazia da realidade não poderia ser descrita de forma literal como a via, jogando para os outros as responsabilidades sobre o meu medo, confundindo as minhas necessidades, fazendo com que não fizesse as melhores escolhas.
Troquei o pneu e segui viagem sem que nenhum dos meus medos fossem reais. Assim, pude ver que beleza ou feiura está nos olhos de que vê, por isso é essencial aprender e se educar para o belo. Nesse momento, via os olhos do meu amigo que me sorria com a beleza de quem envelheceu com a juventude de espírito. Logo respondeu:
– O bairro não era feio. Teve um tempo que ele era pobre…
O meu amigo não conhecia a CNV ou a IP, porém ele tinha a mente aberta para aprendizagem e livre de preconceito de alguém que usa as informações e o conhecimento para tomar as suas decisões. O meu amigo era padre há mais de cinquenta e o seu mestre já dizia, “Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; …” (Lc 6, 37), muito antes de pensarmos que precisamos da ciência para explicar certos comportamentos.
A humildade é acolher as próprias fragilidades e alargar o espaço interior para que o Infinito possa atuar livremente nas “fendas” de nossa existência. (Pe. Adroaldo Palaoro)
Cheguei naquele dia para conversar com a coordenadora sobre uma palestra que abordasse a responsabilidade no trânsito. Não a conhecia. Fui levado até a sua sala e a pessoa que me acompanhava abriu a porta. Assim, pude vê-la em sua escrivaninha com o chimarrão ao seu lado. Ao perceber que a porta se abriu ela me olhou e rapidamente se levantou para me cumprimentar. Cumprimentos feitos, fiz uma alusão ao chimarrão e ela me ofereceu um. Em seguida, saímos para conhecer a estrutura, as salas de aula e as propostas dos cursos. Por onde passávamos ela me apresentava aos professores e, por fim, à diretora. Depois retornamos a sua sala e, entre um mate e outro, acertamos os detalhes da palestra. O evento foi organizado e repetido em outros momentos. Todas as vezes que retornava à instituição lá estava ela com o chimarrão e a disposição de fazer o que tinha de ser feito com o sentido de quem sabe o que, para quem e como faz.
Numa de nossas conversas, ela destacou a importância de ter em mente os projetos em andamento de maneira que possam seguir, ainda que não se esteja mais presente, Porque um dia não estaremos aqui… disse,
Falou o óbvio, como a flecha lançada que não retorna, mas reflete um comportamento não tão óbvio.
Em muitos lugares nós encontramos as mesmas pessoas por tanto tempo que parecem perpétuas, que se transforma em problema quando as pessoas acreditam nisso. Podemos citar o porteiro identificado como patrimônio da empresa, o gestor de RH, o Diretor Financeiro, o Dono da Empresa, o Presidente do Clube ou o Coordenador pedagógico que acredita que o projeto é ele. Depois de muito tempo no mesmo lugar, algumas pessoas desenvolvem a crença de que as coisas somente funcionam porque “eu estou aqui”.
Nada é tão falso como isso, porque basta morrer para entender que a vida segue comigo ou “sem migo”. Pode parecer caricato, mas é uma realidade em que se manifesta a mediocridade de quem acredita que aquilo que se faz tem a ver consigo mesmo. São pessoas que ainda não entenderam que fazer algo somente tem sentido se o outro estiver no centro da ação.
Ela tinha a clareza de que o foco é o outro, assim como sabia que somos “eternos aprendizes”, mas que não somos perpétuos.
Com essa consciência, se assume a condição de temporalidade, afastando-nos da mediocridade e levando-nos rumo a sabedoria presente no saber de conhecer e no saber de saborear.
T. S. Eliot indagava: onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? A pergunta nos provoca e nos desperta para a humildade de que é importante o saber de conhecer, mas é essencial saber fazer; é fundamental querer fazer; é indispensável saber ser e estar com o outro, porque é no outro que validamos o conhecimento. E ao saber ser e estar com outro, permitimo-nos saborear.
A etimologia das palavras nos mostra que saber e sabor se originam em sapere. Basta olha para Portugal que usa a palavra saber no dia a dia com o sentido de saber, conhecer, e de saber, sabor. Portanto, ao ter claro o sentido daquilo que se faz tendo o outro em foco, caminhamos rumo a sabedoria em que o sábio que sabe saboreia de verdade o seu trabalho e a sua temporalidade.
A primeira conversa aconteceu em agosto de 2018. Seguiram-se outras conversas e mates com a clareza de que nada é perpétuo. Cada vez eu saía entusiasmado por alguém que escolhia se arriscar, afastando-se da mediocridade escolhendo a sabedoria de quem lança as flechas do conhecimento, da motivação e da inspiração.
Ela sabe que sem a sua presença o mundo segue, mas eu sei que com a sua presença o mundo é melhor, porque em cada flecha lançada por ela há amor. Como é o mundo com a sua presença?
A escolha é entre fazer um cruzeiro ou um retiro de silêncio de oito dias em que a oferta é no sistema tudo incluído.
No cruzeiro você tem que se deslocar até o porto de embarque e a partir daí não se preocupa com mais nada. As cabines são confortáveis, assim como as piscinas, a sauna, o cinema, o teatro e a sala de jogos estão disponíveis, além das constantes brincadeiras. Entretenimento o tempo todo. Igualmente estão incluídas todas as refeições, como o café da manhã com uma infinidade de variedades na mesa para atender os mais exigentes. Os almoços podem ser pedidos e escolhidos entre tantos cardápios que gera cansaço só de fazer a escolha. O jantar é outro momento de fartura. Tudo isso regado a todos os tipos de bebidas, desde água, suco, refrigerante, cerveja, vinho, espumante, whisky, até qualquer tipo de coquetel exótico que interesse.
No retiro, igualmente você somente precisa se deslocar até o local. Lá chegando, o quarto é cômodo, assim como há os caminhos pelo bosque, a biblioteca e a capela, com momentos de meditação, oração e leitura. Reflexão predominante. Da mesma forma, estão incluídas todas as refeições, como o café da manhã com frutas, pães, alguns tipos de queijo, café, leite e suco. Um cafezinho no meio da manhã e o almoço pontualmente às 12h com arroz, feijão, salada e carne. No jantar se serve sopa com torradas e frutas. Disponível o tempo todo água potável em todas as torneiras do espaço que tem o seu próprio poço artesiano.
As propostas estão postas, cabe a cada um escolher em qual viagem vai embarcar: o Cruzeiro ou o Retiro? No primeiro é o ruído que evita o silêncio perturbador. Na segunda é o silêncio que provoca o ruído que incomoda.
Ao chegar no navio, todos são recebidos com festa. Em seguida são encaminhados para as suas cabines e dela se dirigem o mais rapidamente possível para os espaços em que será possível aproveitar o valor pago. A sofreguidão está presente. Alguns vão diretamente para as piscinas, outros para a sauna e uma grande parte para os bares. As bebidas e as comidas são consumidas com voracidade. Come-se e bebe-se em meio a uma tremenda algazarra e, muitos, finalizam o primeiro dia embriagados. Para o segundo estão fritos.
Ao chegar no retiro, todos são acolhidos com carinho. Logo são encaminhados para os seus quartos, onde se acomodam tranquilamente. Alguns saem a caminhar pelo espaço, outros vão à biblioteca e a grande maioria vai para a capela. A tranquilidade reina no lugar. O retiro é de silêncio, por isso se ouvem os sons da natureza, o suave ruído de alguns passos ou, por vezes, o sussurro de uma saudação. Pouco depois, todos estão na capela para o início da festa de se encontrar consigo mesmo. Assim, todos se abrem para o segundo dia.
O cruzeiro é uma experiência que pode nos proporcionar prazer, deleite e alegria, entretanto há que se perguntar: o que quero encontrar na viagem? Há que se estar atento para que o cruzeiro não seja uma fuga de si mesmo para não se deslumbrar com o superficial de um lugar que pode ser um não lugar. Você está no restaurante de um cruzeiro, mas poderia estar em qualquer lugar… Você está na piscina do navio, mas você poderia estar em qualquer piscina… E assim, o ruído externo cala qualquer possibilidade de conversação interna.
Por outro lado, o retiro é uma experiência que vai nos provocar reflexão, questionamentos e movimento. Ao entrar num período de silêncio exterior os ruídos interiores aparecem, porque a analogia é a de que se entra numa sala de espelhos em que tudo reflete você. Não há ninguém mais nela. Assim é possível questionar-se: quais as dimensões de minha vida posso expandir? Estou acomodado ou posso entregar algo mais ao mundo?
A vida vai passando e a morte vai se aproximando. Ela envia sinais no nosso corpo que envelhece e pelas vidas a nossa volta que vão desaparecendo. Assim, já se foram meus pais, muitos tios, tias, amigos e amigas. No último mês mais dois amigos se despediram sem dizer adeus. Conversa com um e conversa com outro e os comentários vão desde “vai fazer muita falta”, “era um sujeito trabalhador”, “sempre estava de bom humor”, entre outros. Um dos amigos mais próximos disse:
– Vamos sofrer muito com a sua morte!
São comentários espontâneos e naturais, entretanto carregam a perspectiva de quem segue vivo. Por isso, cabe destacar que a morte do outro é sobre o outro, não é sobre quem não morreu. Por que então, muitas vezes, comentamos sobre a nossa perda se quem perdeu a vida foi o outro?
Não se trata de uma crítica sobre sofrer com a partida do outro, que é natural, apenas uma observação sobre quem perdeu.
Lembro-me da morte da minha mãe e a dor que ela produziu em mim pela sua ausência. Porém, devo lembrar que era ela que não poderia mais desfrutar da alegria de abraçar os seus filhos, de ver os seus netos crescerem e de envelhecer junto ao meu pai. Foi ela quem teve sua vida interrompida precocemente. Igualmente, a morte do meu pai causou em mim um sentimento de desamparo típico da orfandade, entretanto foi ele que partiu deixando sem realizar uma série de planos. Hoje me pergunto: para onde foram as suas aspirações, as suas ideias e os seus projetos? Não tenho uma resposta, mas tenho a esperança de quem tem fé.
Ao lembrar dos meus amigos que partiram, primeiro me veio à mente a perda minha, porque a presença deles vai fazer falta. Entretanto, agora penso que a perda quem a teve foram eles que tinham seus filhos, suas esposas, seus pais e seus amigos. Serão os meus amigos que não poderão ver seus filhos crescerem ou ficar na expectativa de conhecer os netos. Serão eles que não poderão acompanhar as suas esposas até a velhice como haviam feito a promessa no altar. Serão os meus amigos que não poderão estar presentes na despedida dos seus pais. Enfim, serão os meus amigos que não estarão mais presentes nas confraternizações. Por isso, quem perdeu?
Dessa forma, fica o convite para que a vida de cada um seja uma perda para que aquele que parte ou para quem fica. Para os meus pais, que antes de tudo eram filhos, tenho a consciência de que nem sempre fui motivo para a sua felicidade, mas sim a razão de noites de insônia. Assim, pergunto: o que posso fazer para que aqueles que estão em minha presença possam sentir a minha ausência? Quais os comportamentos devo exibir para que eu seja uma perda para meus pais, meus filhos e meu cônjuge? Independentemente de quem parta primeiro.
Acredito que começa com o discernimento da importância do outro na sua vida, assim da sua vida na vida do outro. Quem é a pessoa mais importante do mundo para você? Quase sempre, a resposta é “eu mesmo”. Em parte, é verdade, porém essa importância por si só não basta, porque ela precisa vir acompanhada do “outro”, porque sem o outro não sou nada. Em tempos em que somos ensinados a desenvolver um amor-próprio egoísta, quando o outro morre eu fico com dó de mim. É natural sofrer com a morte de alguém querido, mas quem perdeu a vida não foi você, foi o outro.
Para aqueles que não creem em nada o que sobra é o sofrimento de quem vive somente na terra. Para aqueles que creem numa vida espiritual, resgatar as práticas do luto comedido pelo sofrimento da ausência de quem foi é um exercício para seguir em frente. Afinal, se sou cristão acredito que quem morreu não perdeu nada… ganhou a vida eterna.
Pai e filho conversavam sobre os amores. O filho de vinte anos comentava que havia encontrado a mulher da sua vida. Queria se casar o mais rapidamente possível, deixaria a faculdade e encontraria um emprego para se sustentar. O pai o escutava, entretanto estava reticente. Disse que havia passado por uma situação semelhante que se revelou como fogo de palha.
O filho respondeu:
– Comigo é diferente… porque eu não sou você, pai.
O que o diálogo nos mostra? Que em termos comportamentais seguimos repetindo padrões sem, muitas vezes, aprender com eles, dando voltas ao tropeçar nas mesmas pedras que gerações anteriores já tropeçaram. Por outro lado, a tecnologia avança de maneira linear e geométrica usando os erros do passado para evoluir no presente. Assim, não precisa percorrer um caminho já feito.
A roda foi inventada e não foi preciso reinventá-la, embora a sua aplicabilidade possa ser repensada. A energia elétrica foi um marco evolutivo que mudou a história humana. O trem, o avião, o carro, os drones, a internet e toda tecnologia disponível serve de base para novas tecnologias. Para o bem ou para o mal, dependendo de quem a usa. Desse modo, todas as tecnologias podem ser mudadas, recriadas ou repensadas, sempre usando as experiências do caminho percorrido para construir algo novo e, quem sabe, melhor.
As questões comportamentais não seguem o mesmo caminho. Geração após geração são cometidos erros equivalentes que, inclusive, geram tragédias. Saímos da primeira guerra mundial para a segunda em que o holocausto parecia ser o máximo de horror que seríamos capazes de produzir. Entretanto, os genocídios e as guerras não pararam e usamos a tecnologia para provocar mais tragédias. E isso é comportamental.
Por isso, a própria literatura se baseia em dilemas pessoais, explora as mesmas dores e sofrimentos parecidos que geram tragédias ao longo da história. A filosofia igualmente reflete isso. Muitas vezes quando imaginamos que pensamos algo diferente, podemos voltar na história para saber que alguém já o havia proposto antes. A psicologia igualmente se propõe a resolver algo que de maneiras diferentes já fora tratado, seja dentro de correntes filosóficas ou de uma vertente espiritual.
Desse modo, o comportamento humano parece girar em espiral, repetindo padrões e tropeçando nas mesmas pedras em diferentes áreas relacionais.
No ambiente corporativo os mais jovens têm dificuldades de aprender com os mais velhos, porque creem que eles estão ultrapassados. Basta imaginar o conselho de um sênior para um jovem diminuir um pouco o ímpeto na abordagem ao cliente para escutar algo como “os tempos mudaram, hoje tudo é mais rápido…”. Entretanto, é essencial se lembrar que as pessoas continuam sendo pessoas com os dilemas que nos acompanham por toda a história. Assim, aprender com os conselhos e com os erros dos demais é uma das maneiras mais inteligentes, eficazes e eficientes de avançar, uma vez que você economiza tempo, dores e cicatrizes.
Na sala de aula não é diferente. Um professor já foi um aluno, porém um aluno ainda não foi um professor. Por isso, enquanto a maioria insiste em cometer os próprios erros impulsivamente, apesar de haver uma infinidade de oportunidades de aprendizagem, há um pequeno grupo que observa, escuta, estuda, aprende e avança com coragem. Note-se, há uma diferença entre impulso e coragem, assim como entre pausa e inércia. A inércia é a não-ação com os resultados que não queremos, enquanto a pausa é a coragem para buscar o discernimento de dar rumo ao impulso.
Acredito que somos seres singulares que devem experienciar um caminho único e irrepetível, entretanto aquele que desenvolve a capacidade de escutar com genuíno interesse, provavelmente vai trilhar um caminho de transformação na direção pretendida usando o aprendizado acumulado por outras gerações.
Era isso que o pai queria dizer ao filho. Era isso que o filho ainda não havia aprendido. Ao escutar que “eu não sou você” do filho ele concordou e disse:
– Sim, eu sei, você pode ser melhor…
Para isso é preciso aprender a escutar. Não é nada novo. É humano. É bíblico.
Maria passa por um momento difícil. Ana, sua amiga, se vê como uma pessoa empática, sensível e disponível para ajudá-la. Por isso, toma algumas decisões para contribuir com Maria nas suas dificuldades. Desse modo, ela dá conselhos e tem atitudes para resolver os problemas de Maria. Contudo, Maria não se sente cômoda com as ações de Ana, por isso comenta que ela está sendo invasiva e pede para que se afaste. Ana fica na defensiva e diz:
– Não era a minha intenção. Eu só queria ajudar…
Alguém já presenciou ou viveu alguma situação semelhante? Entendo haver um desalinhamento entre as intenções, boas de Ana, e as ações, não tão boas percebidas por Maria.
O exemplo é trivial, entretanto as situações se repetem nos diferentes ambientes. Pode ser o diretor que diz incentivar a criatividade, mas as ações percebidas são de pressão e vigilância. Pode ser o pai que deseja ver seus filhos desenvolverem a autonomia, porém eles se sentem controlados e cerceados. Enfim, basta lembrar do ditado “de boas intenções o inferno está cheio” para percebermos como o desalinhamento entre as intenções e as ações são frequentes. O que fazer para alinhar as intenções com as ações?
Talvez seja essencial aprender a olhar para dentro de si mesmo e avaliar qual é a verdadeira intenção de uma futura ação, para isso precisa-se de pausa e de paciência. A pausa deve ser entendida como a tomada de consciência para escolher o movimento com a plenitude da presença, não se trata da inércia. E a paciência é uma das virtudes que nos permite entender o significado da intenção e as estratégias que podem nos levar às ações correspondentes.
Na pausa e com paciência se pode indagar: quais são as suas intenções? Entender que a intenção traz em si um propósito mais profundo, como as nossas aspirações individuais. Nos Exercícios Espirituais (Santo Inácio de Loyola, 1491-1556) praticados na pausa de um retiro e com a paciência da solidão se identificam as “moções”, estado anterior as emoções que mostram as reações e movimentos, podendo ser de expansão ou de retenção.
Desse modo, na pausa e com paciência podemos descobrir o espaço a ser trabalhado entre a intenção profunda e a ação visível. Antes de dar um conselho ou de tomar uma atitude, seja paciente e faça uma pausa. É nesse espaço que está a possibilidade de alinhamento entre a intenção e a ação. Na pausa e com paciência, observe e indague-se: o que me move? O que pretendo com a minha ação? Entenda-se que a pausa nos conduz a presença plena e a paciência faz com que possamos discernir com clareza a nossa intenção para escolher de forma consciente a ação.
Existem várias maneiras de se educar na pausa e de desenvolver a paciência como competências de discernimento que nos levam a fazer melhores escolhas. Podemos fazer pausas estratégicas, pausas programadas e pausas de alinhamento. Para isso é preciso paciência, a virtude de não se exaltar frente aos incômodos ou aos dissabores sem se revoltar ou se queixar.
Na situação exposta, os dissabores de Maria fizeram com que Ana a quisesse ajudar. Sem pausa e com pouca paciência as ações de Ana foram percebidas como invasivas. A resposta de Maria gerou dissabores em Ana. Nossa proposta é fazer a pausa de alinhamento, sendo a meditação uma das formas de alcançar este objetivo. A palavra “meditação” tem sua origem latina em meditare que nos convida a voltar para o centro, para si mesmo. Numa desconstrução não etimológica da palavra, podemos encontrar “medita” + “ação” que resulta no exercício da pausa com paciência que nos leva ao discernimento.
Na meditação nós podemos nos encontrar com nosso estado mais profundo, as moções, aquilo que nos move para adotar as estratégias apropriadas em que as intenções se reflitam nas ações. Por isso, a pausa e a paciência podem nos ajudar a ajudar e enfim dizer com alegria: “era essa a minha intenção!”
As duas equipes estavam no mesmo grupo corporativo e a empresa organizava um evento numa cidade turística com ingressos limitados. Um dos gerentes foi orientado a manter contato com o outro para obter os passes para a sua equipe e o fez através do grupo. Pediu ingressos para todos os integrantes de sua equipe. Logo, recebeu a informação de que o evento não era aberto para todos e que teria somente um ingresso para a sua equipe. O gerente agradeceu a informação, porém fez o pedido para obter pelo menos quatro ingressos mais. A resposta foi negativa seguida do comentário:
– Querido, não compartilhe informações equivocadas com os membros da sua equipe, porque o organizador do evento não autorizou a adição de mais ingressos… … preste atenção ao trabalho das equipes e não crie pontos de confusão.
E concluiu:
– Ficamos felizes em ter sua equipe nas atividades, por favor, respeite os esforços que fazemos. Peço que da próxima vez você melhore suas habilidades de comunicação. Agradeço a sua compreensão, desejo-lhe um bom dia e que seja feliz!
Pelo visto, começava uma guerra, porque o outro gerente respondeu que entendeu que não havia ingressos para todos e complementou no mesmo grupo:
– … talvez devêssemos aprender a nos comunicar melhor com os outros, vamos trabalhar nisso. Muito obrigado e desejo que você seja feliz tanto na vida quanto no trabalho.
Não sei vocês, mas a mim parece ser um diálogo agressivo em que “querido” não tem nada de bem querer, assim como o desejo de uma vida feliz talvez não seja tão genuíno.
Considere-se que os dois gerentes tinham boa formação em áreas como inteligência emocional, psicologia positiva e suas aplicações. Porém, por que travaram um diálogo agressivo, expondo as equipes a uma situação incômoda? O que poderia ter sido feito? Quais as ferramentas que poderiam aplicar?
Da perspectiva comunicacional, pode-se apontar caminhos para evitar os conflitos. Defende-se ser essencial definir o canal apropriado para cada tipo de mensagem. Por isso, ao receber o pedido público dos ingressos para uma equipe inteira de um gerente que não sabia da limitação de vagas, a comunicação deveria ter migrado para um canal privado. Igualmente, é fundamental escutar ativamente para saber a diferença entre o que se fala e o que se ouve. Por fim, é indispensável escolher o discurso adequado para cada canal utilizado.
No diálogo, acredito que os gerentes não definiram o melhor canal, não se escutaram e não escolheram o discurso adequado. Por isso, penso que poderiam utilizar duas ferramentas práticas para resolver e evitar conflitos: a InteligênciaPositiva (IP) e a Comunicação Não-Violenta (CNV). Como? Primeiro, faça uma Pausa.
Entenda-se pausa como um ato voluntário de tomar consciência daquilo que é fato ou interpretação. Nos diálogos em que há divergências, uma curta pausa nos dá a possibilidade de fazer a melhor escolha. É a pausa que nos permite definir o canal apropriado, escutar ativamente e encontrar o discurso adequado. A partir da pausa podemos identificar os interesses individuais e coletivos, controlando os impulsos instintivos de responder com agressividade a uma suposta ofensa. Diz-se suposta, porque somente cada um pode dar poder ao outro de que as palavras representem uma ofensa. Portanto, a pausa consciente nos ajuda a identificar as armadilhas dos sabotadores (IP) internos que respondem à violência com mais violência. A pausa nos aproxima dos poderes do sábio(IP) que habita em nós, fazendo com que sejamos empáticos; que exploremos a situação ao navegar por outras soluções, inovando a partir da mentalidade ativa que consegue fugir da violência. A pausa nos faz observar sem julgar; nos permite registrar os próprios sentimentos com a identificação de necessidades que se busca atender. Finalmente, a pausa nos oportuniza conversar(CNV) de maneira a verter no mesmo canal (São Inácio de Loyola). Os gerentes estavam na mesma organização, portanto deveriam conversar!
Por fim, os gerentes envolvidos no diálogo acima não souberam conversar, porque se deixaram dominar pelos egos inflados em que chamamos o outro de “querido” sem que seja verdade e desejamos felicidade sem que seja a real intenção.
Há quarenta anos uso uma cadeira de rodas olhando o mundo de uma perspectiva diferente daqueles que estão em pé. Quando interajo com as pessoas, quase sempre, tenho que olhar para cima, com as exceções de outros cadeirantes ou pessoas de baixa estatura. Em eventos e celebrações há os momentos em que todos se põe de pé, mas eu continuo, obviamente, sentado. Na última sexta-feira fui a uma missa no seminário aqui perto de casa, em que estiveram presentes doze pessoas. A missa começou e todos se puseram de pé, exceto minha esposa e eu. Ela sempre permanece sentada em solidariedade a mim. O padre que celebrava recém havia chegado na comunidade e nos observou. A celebração seguiu e no momento de sentar todos sentaram. Em seguida, segundo o ritual, as pessoas deveriam ficar em pé, foi quando o padre disse:
– Não se levantem. Fiquem sentados.
Todos ficaram sentados, inclusive o padre.
A cena gerou em mim alegria, porque foi a primeira vez desde que sou usuário de cadeira de rodas que participei de uma missa em que estive na mesma altura dos demais. O exemplo se repete em reuniões sociais, em eventos de formação e na maioria dos encontros entre as pessoas que em sua maioria caminham. Por isso, não se trata de pedir que o mundo ande sentado, mas de analisar como um simples gesto, por vezes, pode ser representativo para o outro. Estar de pé é um estado de espirito!
Ao observarmos o ocorrido sob outras perspectivas podemos ver um gesto de inclusão, ou melhor, de não exclusão, assim como podemos detectar na cena uma atitude de humildade, de coerência e de empatia, qualidades de um líder.
Primeiro pergunto: qual a diferença entre inclusão e não exclusão? Entenda-se inclusão como o movimento que permite que as diferentes pessoas que integram a sociedade possam participar das várias dimensões do ambiente de maneira igualitária. Independentemente da condição física, intelectual ou social a pessoa faz parte da sociedade, portanto basta não excluir para que se participe nas diferentes dimensões sociais, seja na família, nas organizações ou na igreja. Entender e viver dessa maneira é uma característica da liderança que foi expressa no momento em que todos permaneceram sentados. Eu estava presente sem ser excluído. Pergunte-se: o que você pode fazer na sua organização para não excluir ninguém? Quais os ponto de acessibilidade podem ser melhorados? Há alguma prática excludente?
Em seguida falo de liderança, porque as ciências comportamentais mostram que um líder deve exibir traços de humildade, coerência e empatia, sendo essas as características mais valorizadas entre os liderados. Nas mais variadas organizações, o sucesso ou o insucesso está associado ao papel do líder, assim: a (1) humildade é uma virtude exibida por quem tem consciência das próprias limitações, produzindo comportamentos modestos e simples, essenciais para o líder. Muitas vezes, a humildade é confundida com baixa autoestima ou mesmo timidez, entretanto ela permite que a pessoa se coloque no mesmo nível dos demais, independentemente do papel social exercido. Desse modo, o verdadeiro líder está nivelado com os seus liderados. Lembre-se, líder ou liderado é circunstancial. A (2) coerência é essencial que os liderados a possam identificar nos comportamentos do líder para que o tenham em consideração, porque mostra a harmonia entre as intenções e as ações. Por fim, a (3) empatia, capacidade de colocar-se no lugar da outra pessoa, somente pode ser praticada por alguém que seja humilde e coerente. Portanto, pude ver no celebrante as ações de um líder ao exibir a humildade de colocar-se no nível dos liderados; ao mostrar-se coerente com as ações alinhadas com as intenções verbalizadas na fala; e com a empatia sendo o resultado das duas competências anteriores. Um verdadeiro líder também é um liderado!
Naquele dia, mantivemo-nos sentados num gesto de humildade ao reconhecer as limitações que nos igualam; fomos coerentes ao entender que os papéis que exercemos são circunstanciais, assim como a empatia se manifestou ao não excluir ninguém. Por fim, o gesto do padre de pedir para que ficássemos sentado nos colocou verdadeiramente de pé como seres humanos, porque estar de pé é um estado de espírito. Finalmente, foi uma real comunhão entre os presentes em que pude olhar a todos nos olhos de igual para igual. Não foi preciso incluir ninguém, porque não houve excluídos.