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Quem é você?

No texto Seres humanos, seres estranhos… qual o seu ritmo? a questão abordada é a necessidade que muitas pessoas tem em diminuir o ritmo de vida para justamente poder dela desfrutar. Uma pretensão justa, justíssima. Entretanto, um número de pessoas muito maior do que o imaginado ainda não tem o autoconhecimento necessário para saber quem realmente é. Estranho? Sim, se nós naturalmente somos como é que podemos não saber quem somos? Fácil. Temos lados ocultos que ocultamos de nós mesmos.

Proponho que faça o exercício de autoconhecimento apresentado por Bachrach (2014) e responda a seguinte pergunta: quem você é? Uma pergunta simples que, provavelmente, não tem uma só resposta. Mais uma vez pode parecer estranho, mas muitos não sabem quem e quantos são. Existe o seu trabalho, o lazer e a sociedade. Mas quem realmente você é?
O exercício consiste em que você pegue várias folhas e em cada uma delas escreva Quem sou?” e logo responda, Sou pai”, por exemplo. E assim faça em quantas folhas você entender que sejam os seus papéis, inclusive passatempos, como “Sou jogador de futebol”, sou mau cantor”, entre outros. Depois pegue as folhas com as respostas e escreva o porquê de cada uma delas. O que você gosta em cada uma das respostas? Na primeira folha, abaixo de “Sou pai”, você poderia escrever, “Pus isso porque é a experiência mais profunda pela qual já passei até este momento de minha vida e eu gosto de ser pai porque aprendo sobre mim o tempo todo, cultivo a paciência ao dar e receber carinho de uma pessoa tão especial”.Faça isso com cada uma das respostas e em seguida numere as folhas em ordem de importância para você. Qual dentre todas as identidades por você escritas é a mais importante? Finalmente, encontre denominadores comuns entre todos esses que você é.


Então, ao responder a pergunta “quem você é?” e descobrir quantos você é, você já pode definir por onde vai começar a diminuir o ritmo. Qual VOCÊ” merece mais atenção? Qual VOCÊ” tem tomado muito o seu tempo?


Exercício extraído e adaptado de Bachrach, E. (2014). EnCambio: Aprendé a modificar tu cerebro para cambiar tu vida y sentirte mejor (Spanish Edition). Penguin Random House Grupo Editorial Argentina. (Kindle).

Seres humanos, seres estranhos… Qual é o seu ritmo?

Mais e mais vejo pessoas querendo diminuir o ritmo de vida nas questões ligadas ao trabalho. Ouço-as dizerem com convicção, Quero dedicar um tempo para mim, melhorar minha qualidade de vida… entre outras justas justificativas. Realmente acredito que as pessoas queiram reencontrar-se, saber quem são, entender o que fazem, como o fazem e para que o fazem. Muitas pessoas simplesmente fazem sem saber para que o fazem. São tantas as atividades, as obrigações sociais e profissionais que terminam por perder a identidade. Finalmente começam a sentir a necessidade de dar um sentido ao que fazem e a própria vida.
Logo que se deparam com essa necessidade começam a procurar por cursos, formações e treinamentos, muitos de caráter esotérico ou de fundo religioso, que os possam auxiliar na sua busca. Inscrevem-se nos cursos aos sábados e domingos ou em horários pós-laborais e mantém as suas 40 horas semanais de trabalho, além de todos os outros compromissos familiares e sociais. Terminam por preencher um espaço que não tem com mais atividades. Desse modo, na ânsia de aprender a diminuir o ritmo de suas vidas acabam por aumentá-lo ainda mais.
Considero que as formações são importantes e tem muitas opções que podem ajudar na busca pelo caminho que o ajudará a encontrar a voltar-se para dentro de si, redescobrindo-se, uma vez que muitas pessoas perderam a conexão consigo mesmas. Entretanto, talvez antes de se inscreverem num curso ou numa formação desse gênero que visa reorientar as pessoas na busca pelo reencontro consigo mesmas, cada um deveria responder algumas perguntas: quem sou? Pode parecer estranho, mas muitos já não sabem quem são. Alguns se confundem com o seu trabalho, com os seus parceiros ou com os seus papéis na sociedade. Onde estou? Geograficamente até podem saber que estão numa ou noutra cidade, mas emocionalmente ou espiritualmente não tem a mínima ideia de onde estão, porque vivem na confusão de seus diferentes papéis sociais. Para onde quero ir? Realmente quero ir? Sim, outras duas perguntas muito simples, mas que muitas pessoas terminam os seus dias sem tê-las respondido. Reforça-se a pergunta: você sabe para onde está indo ou para onde quer ir? Encontrando as respostas para essas também deveria se perguntar: O que vou fazer? Do que vou abrir mão? Quanto isso vai custar para mim? O que vou ganhar com isso? Sim, pensar nas ações e nas alternativas para poder avaliar quais as mudanças que serão implementadas no comportamento que o poderá ajudar no caminho. Com isso entender que cada escolha feita significa que algo ficará para trás e em contrapartida ganharás outras coisas. Respondidas e avaliadas tais questões as soluções vão se revelar naturalmente. Não há necessidade de se apavorar. A vida segue. Principalmente porque o conhecimento humano descobre aquilo que a natureza já sabe: a base está no equilíbrio.

Quando penso nessas questões, lembro-me a história do caipira e do executivo que se encontram nas margens de um rio. O caipira fazia o seu percurso semanal naquele rio para mais uma das suas pescarias. Chegando ao ponto onde ele sempre se posicionava para pescar encontrou um homem que tinha talvez um pouco mais de cinquenta confortavelmente sentado numa cadeira a pescar. Ao lado uma térmica com muitas comidas e bebidas. Também tinha um lindo guarda-sol posto ao seu lado. O caipira observou e não falou nada de mais, apenas cumprimentou-o:
– Tarde.

Logo, acocorou-se ao seu lado e jogou o anzol. Tranquilamente enrolou o seu palheiro e olhava para as águas do rio. O executivo a seu lado respondeu ao cumprimento e começou a falar:

– Finalmente consegui tempo para pescar. Depois de trabalhar incansavelmente por mais de trinta anos…
Ah é? Diz o caipira.
– Sim, continua o executivo. Comecei a trabalhar muito jovem. Logo fui promovido e assumi muitas responsabilidades. Fui o mais jovem executivo da minha empresa! Trabalhei aos sábados, domingos e muitas noites toquei direto, sem dormir. Conquistei meu espaço. Mas quando eu tinha quarenta anos sofri um infarto. Quase morri. O médico disse para eu diminuir o ritmo. Mudei um pouco meu estilo de vida, mas as obrigações me levaram novamente a trabalhar cada vez mais. Nesse tempo consegui mais uma promoção e agora, finalmente posso desfrutar da vida…
Terminou com o peito estufado e um ar satisfeito pela própria história de sucesso. Olhando meio de cima para baixo dirigiu uma pergunta ao caipira que estava sentado ao seu lado:
– E você? Como chegou até aqui?
– Como sempre. Nunca fiz nada disso que o sinhô tá dizendo, mas faz mais de trinta anos que eu sempre venho pescá aqui.

As soluções estão dentro de nós, nas nossas escolhas, decisões e ações. Os cursos e as formações certamente são um suporte para encontrarmos o caminho para o equilíbrio, mas cabe a cada um decidir e determinar o ritmo. Qual é o seu ritmo?

O anticurrículo

Hoje tive uma manhã especial no evento O Capital da Juventude onde assisti a apresentação do atleta de Taekwondo Nuno Costa de Portugal. De uma maneira muito simples, direta e tranquila ele expôs parte de sua rotina de treinamentos, os seus objetivos, as suas vitórias e também as suas dificuldades e derrotas. Para Nuno Costa as dificuldades serviam de motivação e as derrotas não eram derrotas, porque nessas situações é que ele mais aprendia. Usou a frase de Michael Jordan que disse, Eu perdi mais de 9000 arremessos em minha carreira. Eu perdi quase 300 jogos. Em 26 situações me foi confiada a tarefa de fazer o arremesso que definiria o jogo e eu falhei. Eu falhei muitas vezes em minha vida. É por isso que eu alcancei o sucesso! (tradução minha: I’ve missed more than 9000 shots in my career. I’ve lost almost 300 games. 26 times, I’ve been trusted to take the game winning shot and missed. I’ve failed over and over and over again in my life. And that is why I succeed!)

Depois dessa frase Nuno Costa disse que, apesar de mostrar aquilo que o levou a alcançar o título de Campeão Europeu de Taekwondo em 2010, havia pensado em focar muito mais naquilo que as pessoas não viam, como os golpes que levou, as lutas que perdeu e os seus falhanços que ficaram em segundo plano. Chamou a isso de Anticurrículo e que foi com ele que construiu seu excelente currículo.


Foi a primeira vez que ouvi a expressão Anticurrículo e ficou-me muito claro de que é a partir dele que realmente se constrói um bom currículo. Obrigado pela lição, Nuno Costa

Austeridade, por que a palavra é tão mal vista na gestão pública?

Quando se fala em austeridade muitas pessoas ficam assustadas e não deveriam. Por quê? Porque deveríamos lutar por toda a austeridade possível dentro do aparelho do Estado a que pertencemos. O interessante é que as pessoas em geral associaram austeridade com custo social, diminuição da ajuda pública ao cidadão e menos recursos para a saúde e para as demais necessidades básicas da população. Entretanto, austeridade não é isso. Exigir austeridade de um Estado perdulário e pouco cuidadoso com os recursos públicos tem a pretensão exatamente contrária. Por meio da austeridade exige-se um Estado cioso em que os agentes públicos sejam austeros, zelosos, rígidos, nobres, estoicos e incorruptíveis com os recursos canalizados da população para o Estado. Com menos desperdício, mais recursos podem ser aplicados naquilo a que efetivamente se destinam, beneficiando o cidadão sem aumento dos impostos.

Todas as pessoas querem deixar um mundo melhor para os seus filhos, isso é unanimidade com todos com quem falei até o momento. Entretanto, para se deixar um futuro melhor para os nossos filhos deveríamos começar por não lhes deixar uma dívida construída por nós, simplesmente porque nós gastamos mais do que ganhamos. Austeridade é isso, é gastar menos do que se ganha. Qualquer gestor de família ou de empresas faz isso e sabe disso. Deveríamos exigir do Estado uma gestão em que ele passe a gastar menos do que arrecada, para que nós possamos deixar um balanço positivo para os nossos filhos. Caso contrário, trata-se de discurso vazio e sem vínculos com a realidade. 

Quero apenas isso: um Estado que gaste menos do que arrecada. É pedir demais?


Você quer ser um “Fora de Série”? E as 10.000 horas?

Tem-se lido muitas histórias de pessoas de sucesso em autobiografias e também por meio de relatos de terceiros. Muitas vezes, o êxito alcançado pela pessoa de quem se conta a história parece ter sido resultado tão somente de sua escolha e de sua vontade. Entretanto, qualquer uma das pessoas que hoje seja considerado um “Fora de Série” pela sua genialidade ou performance, deve ter a humildade para reconhecer que existem fatores fora de seu controle que os colocaram em vantagem com relação a outras pessoas que talvez tivessem as mesmas habilidades e competências.

No livro “Outliers, a história do sucesso” Malcolm Gladwell destaca que Bill Gates somente é Bill Gates como o conhecemos hoje porque ele teve algumas vantagens competitivas com relação a todos os outros possíveis Bill Gates da época. Ele não gostava da escola regular, mas como seus pais eram abastados eles o enviaram para uma escola de elite. Nessa escola foi instalado um dos poucos mainframes da época que permitia que se fizesse programação sem que fosse por intermédio dos cartões perfurados. Ser proveniente de um ambiente abastado, assim como ter a oportunidade de desfrutar de um tecnologia inovadora para a época foram situações que deram a Bill Gates possibilidades que outras pessoas com a mesma inteligência não tiveram. São questões que os Fora de Séries muitas vezes não comentam.

Entretanto, há que se ressaltar algo. Bill Gates somente é Bill Gates porque cumpriu com uma carga horária obsessiva de programção por livre e espontânea vontade. Utilizava o terminal compartilhado de programação de sua escola por horas e hora sucessivas como se fosse o mais dedicado trabalhador de uma organização. Mas ele não era um trabalhador. Ele era apenas um jovem que fazia o que fazia porque queria e gostava de fazê-lo. Bill Gates enquadra-se facilmente na regra das 10.000 horas. Gladwell afirma que não há ninguém que faça pelo menos 10.000 horas de uma determinada atividade que não se torne um “Fora de Série”.


Gladwell diz:
“A prática não é o que se faz quando se é bom. É o que se faz para nos tornarmos bons” 
(p. 49).

O que são 10.000 horas?
8h por dia
1250 dias
3 anos e 155 dias
5h por dia
2000 dias
5 anos e 175 dias
2h por dia
5000 dias
13 anos e 255 dias
Sem férias!!!
Sem final de semana!!!
Você ainda quer ser um Fora de Série?