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“Ajude-me a lembrar…”

Moacir Rauber

No dia de ontem tínhamos nos programado para revisar os barcos e equipamentos que serão utilizados na travessia da próxima semana na Lagoa dos Patos. A ideia era sair daqui do centro da cidade e nos deslocarmos até o clube para fazer uma última modificação no barco. Precisávamos levar a caixa de ferramentas e também a furadeira. No dia anterior, enquanto combinávamos o horário em qua faríamos os ajustes juntamente com o técnico, olhei para o meu sobrinho e disse, “Ajude-me a lembrar para que levemos a furadeira…”. Ele me deu uma olhada e a nossa comunicaçao ficou por ali. A caixa de ferramentas já estava no carro…

No dia seguinte, no horário marcado, saímos de casa, passamos pela casa do técnico e fomos ao clube. Lá chegando começamos os ajustes de algumas peças e partes do barco. Na hora de arrumar o flutuador precisávamos da furadeira. Olhei para meu sobrinho que me confirmou com os olhos aquilo que eu já tinha certeza. Havíamos esquecido a furadeira. Não, não havíamos esquecido… Eu havia esquecido a furadeira!!! Da forma como eu me dirigi ao meu sobrinho a responsabilidade continuava sendo toda minha, porque ajudar quer dizer contribuir para que alguém faça algo. Não se trata de fazer. Não transferi a responsabilidade para ele, mas ao mesmo tempo o meu cérebro se desvinculou de tal compromisso.

Por isso, pedir para ajudar a lembrar é uma maneira eficiente de se esquecer…

Hoje eu ganhei…

Moacir Rauber

Sabe aqueles dias em que você acorda e tem a certeza de que tudo vai dar certo? Pois é, hoje foi assim que acordei, apesar de ser um dia como qualquer outro. Não havia nada de especial para acontecer, exceto o final do mundo (21-12-12). Mas ele não aconteceu, pelo menos até agora… Levantei, tomei chimarrão e café com meu sobrinho e fui para minhas atividades. Abri os e-mails. Muitas mensagens de final de ano, entre elas algumas muito especiais, enviadas com todo cuidado para um destinatário específico ou como parte de um grupo exclusivo que entende uma linguagem comum. Porém, a grande maioria delas enviadas a rodo, tipo produção em massa, revelando o pensamento do autor, Enviarei uma mensagem para todo mundo e me livro disso de uma vez por todas…”. Mas o que quero contar é outra coisa. Saí por volta das 11h, uma vez que tinha um compromisso. Encontrei o senhor que trabalha no prédio ao lado com quem converso quase todos os dias. Ele me disse, O senhor já levantou? Vai sair para dar um passeio? Pela enésima vez me fez as mesmas perguntas revelando a mesma ideia, “O doentinho também precisa sair um pouco para espairecer…” Confirmei, entretanto me propus a não explicar pela enésima vez que eu levanto todos os dias antes das 7h, que o meu trabalho é feito em casa na maior parte das vezes e que eu não vou sair para passear, mas sim para atender a um compromisso assim como qualquer outra pessoa também faz. Não valeria a pena, porque no modelo mental daquele senhor com mais de 70 anos um usuário de cadeira de rodas não tem condições de fazer nada. Deve pensar, “Imagina se ele trabalha… Lógico que não!”. Troquei mais algumas palavras com ele e fui em frente. Sairia para o meu compromisso, mesmo sendo hoje um dia próximo ao Natal. Esses dias são propícios para se expressar os bons sentimentos. Já tive algumas experiências curiosas nesse período, como aquela em que a mulher me olhou, deu-me um abraço, desejou Feliz Natal e depois acrescentou, “Tão jovem, tão bonito e aleijado!”. Já faz um bom tempo, mas ficou registrado. Hoje eu estava saindo de casa vacinado contra todo e qualquer tipo de situação. Nada me tiraria do sério… Lá fui eu. Com meu péssimo senso de localização saí de casa na direção contrária da rua para onde eu iria. Fiz uma volta maior do que a necessária e peguei um trânsito congestionado. Fiquei ansioso, porque mesmo tendo saído com antecedência estava correndo o risco de chegar atrasado. Impensável na minha concepção! Compromisso assumido, compromisso cumprido… Finalmente consegui me livrar do trânsito e chegar ao local. Estava chovendo. Estacionei o carro e comecei a montar a minha cadeira, mesmo com a chuva. Nisso chega correndo um senhor oferecendo-se para me ajudar e já foi metendo a mão na minha cadeira que ainda estava sem as rodas. Disse-lhe, “Olha, pode deixar que eu mesmo monto a cadeira, porque as peças estão na ordem certa. É fácil para mim…” Ele me olhou e retrucou, “Não, não… Pode deixar que eu arrumo. A cadeira está estragada? Onde estão as rodas?” Virando para lá e para cá o chassi da minha cadeira que estava em suas mãos. Fiquei irritado, mas comentei comigo mesmo, “Calma, calma…Hoje não!” e falei para o senhor, “Não tá estragada, tá tudo certo. O senhor pode deixar a cadeira aí onde ela estava que ainda falta eu colocar as rodas nela. É rapidinho…” Ele ficou olhando para a parte da cadeira que tinha nas mãos sem entender muita coisa. Ainda tentou insistir. Retruquei que com a cadeira ele não poderia me ajudar, mas aceitaria a sua ajuda com o guarda-chuva que ele tinha. Finalmente ele pôs a cadeira de volta em seu lugar e eu pude terminar de montá-la. Por outro lado, ele pode me ajudar usando o seu guarda-chuva evitando que eu me molhasse todo.

Sim, hoje eu ganhei, porque não disse aquilo que tive vontade de dizer. Na hora me veio à mente, “Escuta aqui, se o senhor não sabe ajudar então pelo menos não atrapalhe…”. Certamente seria uma grosseira sem tamanho. Não falei. Na verdade ao não falar de forma agressiva eu ganhei, porque exerci meu autocontrole. Ao final recebi a ajuda ao não me molhar e pude contribuir com a boa vontade daquele senhor. Depois, terminamos  por ir ao mesmo lugar, onde tivemos que esperar e conversamos por um longo tempo. Fiquei sabendo que um sobrinho dele recém se tornara paraplégico num acidente de moto. Assim, também pude ajudá-lo com a experiência já acumulada nos 26 anos em que sou usuário de uma cadeira de rodas.

Finalmente posso dizer que hoje eu ganhei muito. Ganhei porque aprendi comigo mesmo. Com isso o Natal será mais feliz!!!

Hoje eu perdi…

Moacir Rauber

Sabe aqueles dias em que você se levanta sem muita disposição? Pois é, acordei assim hoje, apesar de ser um dia especial e que merece celebração. É especial porque meu sobrinho que mora comigo concluiu o Ensino Médio com muito bom aproveitamento. A conquista é toda dele, mas para mim é motivo de orgulho ter participado do processo. O dia tem uma extensa programação. Começa com uma missa de agradecimento pela manhã. No final da tarde tem a colação de grau. Logo após janta e festa de confraternização num dos bons hotéis da cidade. Tudo como manda o figurino. Eu havia me proposto a participar da missa e da colação de grau, mas não da festa. Assim, na festa o meu sobrinho poderá fruir com toda a liberdade da celebração de uma conquista individual com aqueles com quem ele compartilhou segredos e fofocas; sucessos e fracassos; amores e desamores, entre outras tantas histórias vividas com o entusiasmo de quem tem 17 anos.

A missa estava programada para às 10h30 na capela do colégio. Para nós somente era necessário percorrer a distância de uma quadra. Quando vimo a capela fiquei paralisado… Mais ainda do que a paraplegia me provoca. Não me lembrava do tamanho da escadaria que era a única forma de acesso. Assim como o colégio a capela estava abrigada num prédio antigo e não tinha nenhuma estrutura de acessibilidade. Fiquei baqueado. Olhei para o meu sobrinho que sempre solícito logo se dispôs a me ajudar. Faltava cruzar a rua. Olhávamos para os obstáculos de longe. A movimentação dos amigos e familiares dos formandos era intensa em frente a capela. Olhei para o meu sobrinho e disse, Vai lá. Aproveita para agradecer o ano que você teve e a tua conquista. Eu não vou. Dá uma olhada… A escada é tão íngreme que chega a ser perigoso… Despedi-me e voltei para casa. Chegando aqui senti que havia perdido a chance de compartilhar algo relevante com uma pessoa importante. Ver a escadaria como obstáculo me fez menor. Eu desisti. Desistir me proporcionou uma sensação de alívio imediato, por não ter que enfrentar as escadas e os olhares curiosos das pessoas, mas ao chegar em casa gerou-me uma sensação de frustração muito grande. Ao desistir posso ter frustrado ao meu sobrinho, mas quem realmente perdeu fui eu. Perdi para mim mesmo…

E você, está perdendo o que ao desistir?

Você está convidado!

Um amigo e eu estávamos em minha casa acertando os detalhes de uma apresentação. Ao final ele disse que teríamos que nos encontrar novamente para tomar uma cerveja ou um vinho, já que naquele encontro não havia dado tempo. “Maravilha! Vamos inaugurar o teu apartamento…” disse eu, uma vez que ele havia feito a sua mudança para uma nova morada no mesmo dia. Ele me olhou um pouco constrangido e foi explicando, “Olha, lá em casa ainda tá meio bagunçado… Tudo cheio de livros e eu estou sem cadeiras…” Logo retruquei, “Não se preocupe com isso. A minha cadeira eu levo..”, usuário de cadeira de rodas que sou. Aí ele se deu conta, riu com gosto e disse, “Você está convidado!”

Ter preconceito é normal! Olhe mais uma vez…

Moacir Rauber

Imagine você ler uma manchete de jornal que diz, “As melancias são colhidas em árvores na Tasmânia”. Naturalmente a sua mente formularia uma explicação para esse fenômeno, mesmo não o conhecendo. Isso é preconceito. Uma ideia formada sem conhecer o assunto. É natural que ele surja em nossas mentes quando somos confrontados com situações desconhecidas. Não há nada de errado nisso. Pode ser errado aquilo que nós fazemos com essas explicações preconcebidas. Quando nós não as esclarecemos, quando não as elucidamos, tornando-as superstições, gerando intolerância e fixando-as em nossas mentes sem fundamentação séria ou imparcial tem-se o preconceito como comumente é conhecido. No caso das melancias eu posso elucidar o fato e saber que se trata de um embuste. Pelo menos por enquanto… Também posso aceitar a notícia como verdadeira e passar a reproduzi-la, criando um círculo vicioso de conceitos errôneos sobre um fato sem a mínima comprovação. Assim, uma ideia ou um conceito formado antecipadamente se cristaliza em nossa sociedade gerando o preconceito que pode ferir e machucar pessoas.

Criar e disseminar um preconceito como o da melancia, possivelmente, não geraria nenhum tipo de mal maior. O preconceito também é natural no mundo das ideias. Aquele insight brilhante, muitas vezes, não passa de um preconceito. As pessoas imaginam uma solução para algo que não conhecem em sua totalidade. O que você fará com essa ideia é que determinará se continuará sendo um empecilho para o desenvolvimento ou uma oportunidade de crescimento. Caso você consiga atualizá-lo concernente a realidade você está no caminho do aperfeiçoamento. Por outro lado, caso você prefira ficar se alimentando do conceito formado antecipadamente a partir de ideias sem fundamentação, aí sim adentra-se no mundo do preconceito pejorativo, com toda a carga negativa que se conhece. Ao se avançar para as preconcepções sobre pessoas com determinadas características físicas ou intelectuais entra-se numa área sensível, embora também seja normal que se criem em nossas mentes conceitos sobre quem nós não conhecemos. Ao ouvir um locutor de rádio com aquele vozeirão todo, muitas vezes, nós imaginamos um homenzarrão por trás de um microfone. Todavia, quantas vezes ao nos encontrarmos com o locutor nos deparamos com uma pessoa muito diferente daquela inicialmente imaginada. Até aí tudo bem… O malefício do preconceito não advém de tê-lo, porque isso é natural, mas do que cada um faz com ele.

Quando as pessoas usam essas ideias preconcebidas sem aclará-las, as suas manifestações terminam por exibir atitudes discriminatórias frente a pessoas, sentimentos, convicções e tendências comportamentais. Trata-se de algo, ainda, comum frente as pessoas com deficiência. Ao tratar desse assunto me lembro de uma situação vivida na minha juventude em que um amigo meu sofreu de uma enfermidade que o deixou paraplégico. O meu preconceito com relação as pessoas com deficiência, na época, era o de que a vida não valeria a pena sob estas condições. Eram pessoas que, na minha errônea concepção, obrigatoriamente seriam incapazes e infelizes. Não procurei esclarecer tal pensamento. Não fiz nenhum movimento para saber se tratava-se de uma verdade ou de uma ideia minha, sem comprovação. Perdi a oportunidade de ampliar o meu conhecimento ao não elucidar um preconceito. Vim a descobrir que uma pessoa continua sendo um ser humano integral, independentemente de ter alguma deficiência ou não, da pior maneira. Adquiri uma deficiência… Como um amigo certa feita me fez a pergunta, Desde quando você fez a opção pela cadeira de rodas? E riu… Sim, parece que a vida me deu uma nova oportunidade de elucidar o meu preconceito, permitindo-me perceber de que o que eu pensava sobre as pessoas com algum tipo de deficiência era falso. Pude me reposicionar. Pude ampliar meu entendimento. Pude olhar mais uma vez!

E você? Como estão os seus preconceitos? Sim, acredito que eles sejam normais… Porém, não é normal pautar a própria vida e a de outros sem esclarecê-los ou elucidá-los. Não é normal acreditar que as melancias são colhidas em árvores sem tentar saber se é possível ou não. Não é normal discriminar alguém pela sua condição física. Use o preconceito como uma oportunidade para crescer e melhorar como pessoa. Não há necessidade de ficar em uma cadeira de rodas para saber que o seu usuário continua sendo uma pessoa como qualquer outra. E isso se aplica a tudo sobre o que nós formamos nossos preconceitos. Olhe mais uma vez!

Indiada 3 – águas abertas

Olhar para o mesmo lugar e ver uma paisagem diferente… 
Olhar a mesma paisagem e ver um lugar diferente… 
Não é incrível?

Experimente olhar para a natureza antes de dormir…
Experimente levantar no raiar do dia e olhar a natureza…

Você jamais verá a mesma paisagem!
Você jamais estará no mesmo lugar!
Quantas vezes nós já estivemos neste mesmo lugar, olhando a mesma paisagem, mas sempre vendo algo diferente. 
Olhar e sentir!
Cada vez com uma beleza indescritível!!!


Agora imagine levantar todos os dias num lugar geográfico diferente… Certamente se terá frente aos olhos cenas deslumbrantes, porque a natureza é fascinante!


A reta final da preparação para a grande aventura no início de 2013 está a todo vapor, ou melhor, a toda remada. Serão 220km na Lagoa dos Patos, sempre vendo paisagens diferentes, deslumbrantes e fascinantes!!!
Virgiane e Antônio

Oguener


Wagner
Moacir…

É isso que procuramos com a certeza de encontrar…

No último domingo fizemos a terceira expedição de preparação e desta vez remamos por 30km, quase todos em águas abertas. Afinal, esse será o nosso ambiente durante o desafio com saída prevista na prainha de Caieiras, em Mostadas-RS e chegada programada no Centro Português, na Academia de Remo Tissot.
Para poder desfrutar dessas belezas precisa-se de planejamento, preparação e recursos, principalmente ao considerar as situações e ambientes pelos quais vamos circular…

Falaram que se parece com o Gary do Bob Esponja…
Tem um fundo de verdade, porque em comparação com os outros não deixa de ser uma lesma…

Remar em águas abertas as condições do ambiente tendem a sofrer variações mais rápidas, dificultando a remada em barcos cannoe. Por isso, a necessidade de se fazer algumas incursões menores na Lagoa antes de se arriscar no trajeto final.

Testar a cadeira Off-road, produzida pela FREEDOM (http://www.freedom.ind.br) especialmente para o desafio, também era imprescindível.

Sempre com as sugestões e o incremento do Antônio Schuster da Manivela – Acessórios para motos (http://www.manivela.com.br)

Foi aprovada! Transita bem pela areia fofa, terrenos irregulares e facilita a subida por ladeiras que serão encontradas em toda a costa leste da Lagoa do Patos, nosso percurso.

E o entretenimento também está garantido!

Fazer fogo a moda pré-histórica garantiu um bom tempo de atividades… Pelo menos fez fumaça!!!
Pescar nos momentos de folga… Mesmo que não se pesque nada!
Os nossos desafios! Cada um com o seu propósito…
O cuidado com a natureza! Desfrutar e preservar…


Cadeira de rodas off-road…

Veja só que maravilha!!!

Pode alguém se alegrar ao receber uma cadeira de rodas? Claro que sim, desde que você seja usuário dela…

Clique na imagem e veja um teste com a cadeira Todo Terreno produzida pela FREEDOM (http://www.freedom.ind.br/) especialmente para o Desafio:

No domingo teremos mais uma etapa de treinamento. Serão aproximadamente quarenta quilômetros entre ida e volta, saindo do Centro Português no Arroio Pelotas em direção a Umbu, do outro lado da lagoa.

E a Todo Terreno vai junto!!!

A Lei de Murphy ataca novamente…

Moacir Rauber
Quem  nunca ouviu pessoas dizendo, “onde tiver algo para dar errado, fique tranquilo que vai dar errado” ou “se você está bem, fique tranqüilo que logo passará”. Ou ainda aquelas situações dos pequenos azares em que o telefone sempre toca quando se está no banho, ou a informação que se precisa está no último arquivo que você olha, ou ainda a fila ao lado sempre anda mais depressa. Tudo isso é uma síntese da Lei de Murphy. E ela ataca no lugares e nas situações mais imprevisíveis.
Estávamos sentados na sala de embarque do aeroporto de São Paulo, depois de mais de quatro horas de espera estava chegando o momento… Segundo nossas contas iríamos para nossa “14ª lua de mel” em quinze anos de um excelente relacionamento. O destino era Toronto. Muitas ideias povoavam nossa imaginação. Aquelas horas de espera apenas faziam nossa sensação de bem estar aumentar. À nossa frente, naquele amplo espaço entre os portões 25 e 27, as crianças que provavelmente embarcariam num dos voos aproveitavam para brincar. Havia um menino muito simpático que chamava a atenção. Já havia dado seus primeiros passos e estava aprendendo a correr. Devia ter no máximo um ano e meio. Nada que os pais e os avós não dessem conta. Hora um, hora outro se encarregava de buscá-lo em meio às outras pessoas. Os avós felizes. Os pais cansados, mas com aquele olhar orgulhoso. O filhote não parava um segundo e no rosto aquela expressão indescritível que conquistava a todos com a arte de fazer travessuras sempre com um sorriso. Nós nos divertíamos, vendo-o. Também ocupava o lugar uma loirinha linda, um pouco mais velha, com dois anos de idade, talvez. Ela estava acompanhada somente pela mãe, uma jovem de no máximo 20 anos. Se os pais do menino expressavam cansaço no olhar, aquela mãe apresentava sinais claros de exaustão. Eu havia saído da cadeira de rodas e sentara numa das poltronas do aeroporto. A Andreia do meu lado. Ambos líamos, mas não perdíamos de vista os movimentos a nossa volta. A minha cadeira era uma atração a parte para as crianças. Estava ali, solta, sozinha, com aquelas rodas que automaticamente atraem as crianças. O menino se aproximou de forma curiosa, tocou, empurrou e me olhou com aquele olhar travesso. O avô levantou o dedo. Ele deu um sorriso para logo se afastar e se entreter com outra coisa qualquer. Em seguida, a menina também viu a cadeira ali dando sopa. Chegou chegando… Aproximou-se, empurrou a cadeira que deu um rodopio em minha frente. Verguei o corpo para frente até alcançar a cadeira e segurá-la. Dei um sorriso. A menina me olhou e continuou empurrando a cadeira. A mãe foi buscá-la. Ela abriu o bocão e o berreiro começou. Enquanto a mãe a levantava para o seu colo ela esperneava e gritava com todas as forças e com aquela potência na garganta que somente as crianças têm. A Andreia ao meu lado fingia que conseguia se manter concentrada em sua leitura, mas ela já demonstrava certa impaciência. E eu sabia o quanto ela não gostava dessas manhas de crianças… Vi a sua irritação e disse: “Você quer apostar quanto que elas vão estar sentadas ao seu lado no voo?” Ela me olhou indignada. Eu acrescentei: “Não é nem atrás, nem na frente. De um lado eu e de outro lado elas…” e dei risada.
Chegou a hora do embarque. Mães com crianças de colo, idosos com dificuldades de locomoção e pessoas com deficiência embarcam primeiro. A Andreia e eu fomos os primeiros. Os atendentes me deslocaram com aquela cadeirinha especial para transportar cadeirantes no estreito corredor do avião. A Andreia carregava a minha mochila, a dela e a almofada da cadeira de rodas. Chegamos na poltrona e nos acomodamos. Ficamos em duas poltronas no centro da aeronave. Havia sobrado uma das três poltronas. Logos depois começaram a entrar os demais. Vimos a mulher com a criança de colo se aproximando pelo lado em que havia a poltrona vazia. A mulher olhava os números dos assentos para localizar o seu. Aproximou-se de nós. Eu já sorria com uma certa maldade. A Andreia estava apreensiva. Ela chegou na nossa fileira de poltronas. Olhou e passou adiante. A Andreia sorriu aliviada e apertou a minha mão… Eu olhei para trás sobre o encosto do banco e vi que a mulher, com a criança no colo, estava voltando. Chegou até  nós outra vez. Olhou os números na poltrona conferindo-os com o bilhete para logo em seguida dizer, “Ah, é aqui…” Ganhei a aposta!
E essa é a Lei de Murphy…