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Mas ele é cego…

Moacir Rauber
Sempre trabalho com a ideia de que se olhe mais uma vez para todas as situações com a pretensão de ver nelas oportunidades. Todos os eventos em que nos envolvemos, fortuitos ou não, com graves ou suaves consequências oferecem as mais variadas oportunidades, no meu ponto de vista. Nunca disse que as situações são sempre fáceis… Outro dia, enquanto apresentava essa ideia, um rapaz me interrompeu e disse:

– Moacir, não sei não se eu concordo muito com isso… Eu tenho um amigo cego, daí me pergunto: como ele vai olhar mais uma vez? Ele não vê nada…

Fiquei um pouco atordoado com a pergunta, não pela sua dificuldade, mas pelo ar provocativo com que foi feita. Respirei, calei os pensamentos agressivos que me vieram a cabeça e respondi:

– Muito bem, eu tenho que concordar contigo. Realmente um cego não consegue olhar nem uma vez no sentido literal da palavra. Mas o sentido de olhar não se limita a capacidade dos olhos de traduzir em imagens aquilo que está a nossa frente. Olhar mais uma vez é muito mais do que isso. Quando você leva o carro para a mecânica e pede para que o olhem certamente não é para que fiquem encarando o veículo. Quando alguém faz um check up médico e diz que deu uma olhada na saúde também não tem o sentido de ver, mas sim de analisar, examinar, investigar e observar a situação para a partir dela fazer um diagnóstico que lhe permita tomar as ações adequadas, não é isso? É esse o conceito que  está por trás da expressão Olhe mais uma vez! Em cada situação novas oportunidades. Essa ideia está descrita no final do livro em que digo:  

“É importante viver sabendo que podemos falar sem proferir palavras; que podemos ouvir sem escutar os sons; que podemos ver sem as imagens; que podemos caminhar sem mover as pernas; enfim, que podemos aprender a aprender mantendo a mente aberta e em sintonia com o mundo percebendo as oportunidades que nos rodeiam.”

Muitas vezes não se sabe quem são os cegos, os surdos e os paraplégicos entre nós. Isso depende de cada um e da amplitude das suas ideias!

Como anda a sua visão? 

Como está a sua audição? 

E a sua mobilidade?

Viver é poesia, mas não se engane…

Remar é preciso
Remar é poesia
Viver é diversidade
Viver e magia

Mas não se engane
Para cada facilidade
Encontra-se uma dificuldade
É a diversidade
É a magia,
É a vida vivida como poesia!

Moacir Rauber

E veio a barra da aurora.

Dia lindo, calmaria…
Impossível foi prever
o que este dia traria…
Nesta noite, tantas luzes,
de estrelas, dos lampiões,
de satélites, até…
e entre risos e “trovões”
nossos olhos desviavam
para um pontinho, piscando,
no escuro horizonte…
Farol Cristovão Pereira!
no nosso caminho, distante…
Na clara distância do dia
no inicio desta remada,
depois que saiu o sol
por mais que tentasse não via
mas há um jeito: remando…
é bem longe esse farol!
E fomos, contentes, confiantes,
rodeados por um ambiente
perfeito – ainda possível…
Água doce, cristalina,
vento calmo e a favor…
Bandos de cisnes, ave rara,
aqui se juntam em bandos,
e nadam à nossa frente,
depois dispersam, voando!
Na parada de descanso
acontece um imprevisto:
o vento carrega um barco
mas buscamos, sem problema,
a não ser para um rapaz…
Aos pouquinhos, no horizonte,
o farol aparecia…
um risquinho no início,
que pouco a pouco crescia…
duzentos anos de história,
logo ali, agora perto.
um descanso, o almoço,
bem merecemos, por certo…
Mas…
Da sombra gostosa do mato
não vimos o vento aumentando
e entrou o nordestão
entonado, assobiando…






Do meio dia pra tarde
ele branqueou a lagoa…
“Carneiros” pra toda parte
como dizendo: – cuidado
aqui quem manda sou eu!
Uma surpresa das brabas…

O que é isso, meu Deus?

Tava calmo até agora,
agora não dá pra passar…
Voltar, impossível,
pra frente, vamos ver…
Surge uma primeira ideia:
Puxando nós vamos adiante,
só assim pra resolver…
Na canoa vai o Moa,
e cada um puxa um barco.
Deu certo no trecho de praia,
mas chegamos num juncal…
água funda, onda alta,
já não dá, tem que aportar.
Volta um pouco, acha abrigo,
passar…nós vamos passar!
Logo ali está o farol,
quase ao alcance da mão,
e adiante a praia calma,
na revessa deste vento,
Pra lá nós temos que ir…
E achamos a dita praia
virada pro lado sul
faltava passar os barcos,
mas há de ter solução…
foi quando deu a ideia:
“Moacir, fica no chão,
na cadeira vão os barcos,
que nem na Revolução”!
E passamos a canoa
por banhados, campo, areal,
deu trabalho, mas passamos
que nem o Barão de Seival!
E depois os outros dois
junto com toda tralha,
chegamos à praia calma,
vencendo mais esta batalha…
Cinco horas de trabalho,
depois que vimos o vento
e voltamos a remar…
E foram “cinco quilômetros”


foram dez, quinze, vinte…

 Chegamos lá pelas onze
pelas luzes orientados,
moídos pelo cansaço…
E sentimos: depois disso
nada melhor que um abraço!
Nunca via tanta alegria
ao se encontrar encontrar
um amigo!
No fundo da alma,
o alívio!
Na casca do corpo,
o descanso!
No encontro de todos,
o sucesso!


Antonio Schuster


Insanidade Orgulhosa…

Em 2005 escrevi um texto chamado “Insanidade Orgulhosa”. Nele descrevi o orgulho dos habitantes das grandes cidades quando se comparam com os habitantes de pequenas cidades. Lembrei do texto justamente porque neste perído estou passando uma temporada na cidade de São Paulo. Tenho que concordar que é realmente uma loucura. Tudo o que você imagina é possível que se encontre nela, para o bem ou para o mal… Mas a loucura também está no quanto de tudo que se tem disponível é realmente importante. Para mim acaba sendo muito mais loucura ter tanto a disposição, mas você não preccisar de quase nada… E “nada” você também tem nas cidades pequenas, que é tudo que uma cidade como São Paulo não pode oferecer: paz e tranquilidade. Cada um é cada um, mas eu ainda concordo com o que escrevi há quase oito anos.
Vamos ao texto!
Moacir Rauber
Para muitas pessoas há um orgulho exacerbado no fato de viver numa cidade grande. Quantas vezes nós nos confrontamos com situações onde se ouve a explanação daquele importante morador da cidade grande dizendo para o nada importante morador da cidade pequena: “mas aqui não existe nada para se fazer?” Muitas vezes. Essa relação se dá frente a praticamente todas as grandes cidades, supostamente mais desenvolvidas, com relação as pequenas cidades, teoricamente com menos recursos. São muitos dos habitantes de São Paulo e do Rio que não se imaginam vivendo fora da “loucura” da vida moderna que esses centros lhes proporcionam; são muitos dos habitantes de Florianópolis que não se imaginam vivendo numa cidade do interior; e assim sucessivamente. E quase sempre a principal argumentação de um com relação ao outro continua sendo de que nas povoações menores não se tem nada para fazer. Muitas vezes me pergunto: e precisa?
Muitos dos habitantes das grandes cidades vivem em bairros mal iluminados, violentos e, muitas vezes, com pouca infraestrutura básica. Além disso, estão distantes do trabalho, o que os obriga a se levantar praticamente de madrugada. A partir desse momento, começa toda a movimentação. Toma-se um banho rápido, pega-se um ônibus, enfrenta-se um engarrafamento e depois de toda essa agitação chega-se ao trabalho, muitas vezes atrasado. Depois de um dia tumultuado, no qual não se tem tempo para pensar nas suas necessidades e nas de seus familiares e amigos, retorna-se para casa. Logicamente, depois de enfrentar novo engarrafamento. Muitas pessoas chegam a gastar de duas a três horas diárias no trânsito… Mas, em função da importância que a pessoa julga ter cada vez menos ela tem noção do que seja um final de semana ou domingo completamente sem nada para fazer. E cada cidadão tem a impressão de continuar sendo imprescindível para que tudo continue funcionando.
Essa rotina se repete em grandes cidades do mundo inteiro em que as pessoas são apenas mais uma no meio da multidão. Quando, por fim, elas têm uma semana de folga ou mesmo um mês de férias vão para um local onde não tenham nada para fazer. Uma praia, um rio ou um hotel fazenda. Outras tantas vezes vão buscar suas origens nos parentes das cidades pequenas. Nesse passeio os encontram morando na mesma rua, na mesma casa ou no mesmo sítio com a mesma rotina de 10, 15 ou 20 anos atrás. Logo que encontram os velhos conhecidos começam as conversações: E aí, como está? O que você está fazendo?  pergunta o morador pouco importante da cidade pequena. E lá vem as respostas do importante morador da cidade grande: Comigo tudo bem! Com ar entusiasmado, afinal a motivação é tudo… Estou trabalhando numa empresa e blá, blá, blá. Tem-se a impressão de que sem a presença do importante morador da cidade grande o mundo para… E continua, Começo pela manhã e trabalho até a noite, enfrento uns engarrafamentos tremendos. Às vezes chegam a durar duas horas sem se mexer. É que lá na capital tem muita gente, muitos carros e tudo vira uma loucura… Toda essa explicação acontece de uma forma totalmente orgulhosa por fazer parte do importante sistema que transforma as pessoas em necessidades e necessitados do mercado. Após essa eloquência orgulhosa vem a pergunta: E aqui vocês fazem o que?
A melhor e mais prazerosa resposta somente poderia ser Nada! Isto porque nas cidades menores e no campo ainda se tem tempo para não se fazer Nada. Ainda se tem tempo para admirar uma linda paisagem, para ouvir o canto de um pássaro, para observar as águas de um rio deslizando mansamente em seu leito ou para tirar o leite de uma vaca, sabendo que ele vai servir de alimento. Muita gente já acredita que o leite nasce na gôndola… Tudo isso porque nas cidades pequenas ainda resta tempo para ouvir o silêncio ou mesmo para não fazer Nada. Na vida no interior ainda se reserva tempo para lembrar que as atividades de uma pessoa são perfeitamente substituíveis por qualquer outra pessoa que as execute da mesma forma, mas que as pessoas são únicas e insubstituíveis. Isto enquanto milhões de pessoas perderam sua individualidade e já não sabem viver sem estar num turbilhão de ruídos, poluição e vazio, entre outras mazelas produzidas pelas grandes cidades.
Difícil de acreditar, entretanto, que a grande maioria é insanamente orgulhosa por isso!!!

Certo ou errado…

É errado criar uma imagem a partir das impressões que se tem de uma pessoa? É errado olhar para uma situação que nos é inusitada? É errado formular um preconceito a partir de informações que nos chegam por diferentes meios? Não se trata de certo ou errado, porque as distinções nós as fazemos automaticamente. 

O certo ou errado depende daquilo que fazemos com a informação que temos.

Remar também é poesia…

Antes de partir,
como de praxe,
tivemos que nos despedir.

Sequer havíamos começado a remar,
mas os sentimentos brotavam sem parar…

Veja a preciosidade de poesia,
escrita pelo Antonio,
daquilo que nos movia
ainda antes da travessia!
Moacir
Ela está ali, serena, majestosa…
Nos leva a pensar no que faremos,
juntos…
Ali nos espera, graciosa…

Há tempos planejamos,
simulamos, treinamos.
Agora ao alcance do seu cheiro,
do seu encanto,
aqui estamos….

Olhos atraídos por seus horizontes,
imensos…
Sentidos aguçados por sua sedução…
tensos…

Lagoa dos Patos,
Lagoa dos cisnes
Lagoa dos homens,
dos ventos, do Sol…
Lagoa do sul!

Será que ela sabia
que iríamos abordá-la?
Haveria preparado algo especial
para nós?

Por ora, a luz do lampião
e da lua
clareiam a conversa animada,
enquanto cheiros e sabores
entre risos acalmam nossos corpos…
porque nosso ser,
nosso espírito,
estes estão tremendo,
na ânsia do alvorecer!

Olho a noite:
a beleza da lua embriaga,
miles de estrelas
hipnotizam,
mas aquelas nuvens avisam:
Logo vem o Nordestão!

Vamos dormir com a certeza
do encontro marcado com ela,
Lagoa dos Patos, costa leste,
simplesmente bela…

Antonio Schuster


 Precisa dizer algo mais?


Justo… Muito justo!

Os aeroportos oferecem um ambiente bonito, confortável e acessível para usuários de cadeiras de rodas. Por isso, cada vez mais é comum ver pessoas com deficiência circulando tranquilamente por eles. Num aeroporto eu me desloco como qualquer um. Sinto-me um igual e isso é maravilhoso! Embora tenha gente que faça de tudo para parecer diferente o que os deixa iguais, uma vez que diferentes nós somos naturalmente. Xiii, viajei… Isso é outra conversa!

Ao entrar na área de embarque a fiscalização também é feita regularmente. Os procedimentos são um pouco diferentes, mas são feitos. Tenho que passar ao lado do detector de metais e sofro uma vistoria isolada. Às vezes sou levado para um quarto separado onde dois agentes me revistam. Outras vezes fazem a revista ali mesmo, à vista de todos. Normal e necessário, porque nunca se sabe que tipo de psicopata pode se esconder numa cadeira de rodas… Quase me senti um na semana passada. Cheguei no raio-x e despachei minha  inseparável mochila que vai dependurada na parte de trás da cadeira. Eu fui chamado pelo agente para a vistoria. Passa o detector de metais, a mão nas costas, nas pernas, verificam a barriga e os braços. Tudo certo. Voltei para o lado de onde a mochila saiu da esteira para pegá-la. Nisso um agente olha pra mim e diz, Espere um pouco. O senhor tem uma faca na mochila. Eu fiquei espantado, porque não carrego facas comigo. Respondi, Não, não pode ser… Pensei um pouco, Ah, pode ser a bomba… de chimarrão… Logo me lembrei de uma piada que sempre se conta sobre esse episódio. Mas ali era real. Não fosse o ocorrido ser em Porto Alegre, provavelmente, minha resposta seria constrangedora. Ali somente a situação era. Eu levava uma cuia e uma bomba na mochila. Ele respondeu, Não, é uma faca com cabo e lâmina. Por favor, retire-a da mochila!, falou dirigindo-se a outro agente. Eu ali me sentindo completamente o próprio terrorista imaginando o que se passava na cabeça dos agentes e também das pessoas que acompanhavam a cena. Deveriam imaginar que eu bem poderia ser um maluco… Um usuário de cadeira de rodas que andava com uma faca na mochila… Não seria nada de mais se também carregasse literalmente uma bomba na cadeira… O agente começou a revistar a mochila e apareceu a bomba do chimarrão. Só pode ser essa coisa… Pensei comigo. Ele continuou verificando-a e meteu a mão até o fundo e trouxe de lá uma faca com bainha e tudo. Eu não acredito…É a minha faca preferida. Como ela está na mochila? Foi então que me lembrei que eu a  levara para o acampamento da semana anterior e eu não a retirara da mochila. Na pressa para arrumar as malas para viajar peguei a mochila e meti algumas roupas e outras coisas dentro.

Assim, passei por apuros como qualquer outro no aeroporto.

E ainda por cima perdi a faca. Justo… Muito justo!

REMAR É PRECISO! A expedição…

O processo de transformar uma simples ideia, um devaneio ou um sonho em algo palpável é interessante. Exige esforço, dedicação e trabalho em equipe. Qualidades e cuidados que sempre estiveram presentes na concepção, no desenvolvimento, no planejamento e na execução da Expedição Remar é Preciso! Viver é Diversidade!

  
Por que
Remar é preciso, viver é diversidade?
Porque se cumpriu com um desafio integrando pessoas com e sem deficiência e jovens e adultos ao percorrer um trajeto de mais de 200km em barcos a remo na Costa Leste Lagoa dos Patos. A pluralidade do grupo demonstrou que é justamente na diversidade que reside a força e o diferencial de Ser Humano. A precisão requerida no exercício da remada em harmonia com a aceitação da diversidade foi fonte e estímulo de vida e de superação!
 Precisa-se de Planejamento!!!
Onde estamos?
Para onde  queremos ir?
Sim, para cumprir com um desafio dessa envergadura se faz necessário o cumprimento de alguns passos. Considere-se que o objetivo principal sempre foi o lazer, devendo ser, portanto, divertido sem abrir mão da segurança. Para esse fim o planejamento é fundamental!

A primeira pergunta importante que nos fizemos: é viável?

A viabilidade física para o esforço que seria despendido na realização do percurso: estaria ela dentro dos limites daqueles que pretendiam cumpri-lo?
Com isso em mente desenhamos nossa primeira aventura, que no Rio Grande do Sul se traduz por Indiada. Ela foi realizada em maio de 2012 e está registrada Indiada 1: Remar 40km num dia…

A viabilidade de recursos foi a segunda pergunta: teríamos nós recursos financeiros, materiais, de equipamentos e de conhecimento para cumprir o trajeto? Os recursos com relação a equipamentos, barcos, remos e outros essenciais existiam, fornecidos pela Academia de Remo Tissot e também de propriedade do Antonio Schuster.

Depois fizemos a Indiada 2 em junho de 2012 vistoriando o trajeto e avaliando o percurso desde o ponto de partida até o ponto de chegada!
Buscamos o PONTO DE PARTIDA!!!  Indiada 2: o ponto de partida!  porque o ponto de chegada nós já conhecíamos…
Mas também teríamos que nos testar numa situação real de remadas na Lagoa dos Patos!!!
Assim fizemos a Indiada 3 em novembro de 2012 – a Lagoa do Patos registrada aqui
Também foram desenvolvidos equipamentos contando com o apoio da FREEDOM (http://www.freedom.ind.br) e experiência em mecânica e projetos do Antônio Schuster da Manivela – Acessórios para motos (http://www.manivela.com.br). Surgiu uma cadeira especialmente para o desafio. Era imprescindível!!! Veja…

Por fim, mantivemos contato com a equipe Rastro Selvagem para que fizessem o apoio por terra para a Expedição. 

Todo esse histórico de concepção, planejamento e desenvolvimento nos possibilitou a construção da expedição para que percorrêssemos os mais de 200km remando pela Costa Leste da Lagoa dos Patos. Não faltava mais nada!!! Apenas remar…

O planejado foi executado? Nem sempre…

Tivemos dificuldades? Muitas…

Foi desafiador? Extremamente…

Foi prazeroso? hum…

Cumprimos com tudo o que nos havíamos proposto? Depende do ponto de vista…

Encontramos o que procurávamos? E também o que não procurávamos…

Depois deste post apresentarei, semanalmente, os sete dias da expedição pela Costa Leste da Lagoa dos Patos. Incluirei imagens e passagens da maneira como ocorreram, a partir do meu olhar…

Eis o ponto de partida!
Daqui até o nosso ponto de chegada tínhamos mais de 200km de água…

Até breve!

Falar com pessoas como pessoa…

Moacir Rauber
Iniciar o ano com um evento falando das expectativas das pessoas é uma ação apropriada. O evento estava programado naquela grande empresa. Tudo organizado. O público já havia chegado. Tratava-se de uma das líderes de seu setor, sendo composta por inúmeras unidades. O evento contava com a presença de mais ou menos 200 pessoas. Um pouco antes de seu início chega uma notícia extraordinária, o executivo maior da organização estaria na sua abertura. Um leve frisson toma conta do ambiente. As pessoas da comissão organizadora ficam em polvorosa. A responsável pelo cerimonial estava nitidamente nervosa. Ela se aproxima de mim e diz, Eu sempre fico nervosa na abertura de qualquer evento. Meu Deus, agora imagina como estou sabendo da presença do nosso CEO… Olhei para ela e disse, Fica tranquila. Ele é apenas uma pessoa como você e como eu… Pode até ser, mas sabe-se muito bem que o que ele representa é muito mais do que isso, pois carrega uma imagem de responsabilidade que impacta cada componente da organização por ele comandada. Ali não era diferente. A ansiedade era geral. Era um evento que tinha como foco as pessoas que de repente se transformou num acontecimento. Seria a primeira vez que o CEO visitava aquela unidade. Os organizadores estavam amontoados num dos cantos do palco. Eu, que seria o palestrante do dia, entre eles. Começou o burburinho na entrada do auditório… Logo em seguida o chefe maior da organização irrompe no auditório. Dirigiu-se diretamente até a primeira fileira, sentando-se no canto do lado oposto de onde nós estávamos. Pronto…  Ele havia chegado. O evento podia começar. A moça do cerimonial pegou o microfone e começou a falar. A sua voz tremia, mas manteve o controle. Conseguiu fazer até uma brincadeira. Apresentou o CEO. Este pegou o microfone e passou a falar sobre a importância da realização daquele evento. Destacou que a organização somente era uma líder em seu segmento porque ela era composta por pessoas. Também afirmou que ele gostaria que aqueles que estivessem nela trabalhando o fizessem por livre e espontânea vontade e não porque não tivessem outra opção. Continuou a falar por uns 20 minutos sobre a empresa, os desafios, as vitórias e as conquistas, reafirmando a importância das pessoas nessa construção coletiva. Eu observava tudo e concordava em gênero, número e grau com aquilo que ele dizia. Por fim, terminou a sua fala. Entregou o microfone para a responsável pelo cerimonial. Virou-se e foi embora… Sequer viu que havia uma pessoa por trás do microfone. Da mesma forma como entrou, saiu. Não estendeu a mão para nenhum dos presentes. Assim que ele deixou o local parece que o evento se esvaziou. Inicialmente instalou-se um silêncio absoluto. Pairava no ar uma certa perturbação. Estavam todos perplexos.  Creio que se indagavam, Será mesmo que o nosso CEO esteve aqui? Depois começaram alguns sussurros e comentários. Por fim, os organizadores se recuperaram do baque e deram sequência a programação.

Se por um lado concordei com o conteúdo da fala do CEO, em que destacou a importância das pessoas numa organização, afirmando que uma não existe sem as outras, por outro lado as suas atitudes desfizeram a elo entre o discurso e a prática. As pessoas da comissão organizadora que ali estavam esperavam a deferência de um aperto de mão. Ou no mínimo que ele as tivesse visto, feito uma saudação. Não se trata de bajulação. Trata-se de respeito. Ninguém questiona o fato de que o CEO não tenha permanecido no evento, porque afinal ele precisa fazer a máquina girar. Questiona-se a distância entre falar de pessoas e interagir com as pessoas. Ele representa a todos, sim, mas sem os representados que importância ele tem? Falar de pessoas é fácil, porém agir como um simples ser humano parece ser um pouco mais difícil, embora ninguém seja mais do que isso. 

Por isso, se for falar de pessoas para pessoas há que se comportar como tal. Caso contrário é melhor não aparecer…

Portas abertas em 2013!

Hoje pela manhã saí de casa e fui até o posto onde vou quase  todos os dias. Algumas vezes vou buscar um jornal, outras vou tomar um café ou aproveito para usar o caixa eletrônico lá instalado. Para entrar na loja de conveniência há uma porta enorme de vidro temperado com duas faces. Para um usuário de cadeira de rodas ela exige um pouco mais de esforço para ser aberta, mas nada exagerado.  Aproximei-me da porta e vi uma pessoa ao meu lado que se antecipou e abriu uma das suas faces para mim dando-me a passagem. Olhei para dentro da loja e vi outra pessoa abrindo a outra face porta oferecendo-me igualmente a passagem. Escancararam toda a porta e eu pude entrar na maior tranquilidade. Agradeci sinceramente dizendo, “Que muitas portas também se abram para vocês em 2013!”. Entrei, fiz o que tinha que fazer e ao me aproximar da porta para sair abri uma das faces da porta. Vi que se aproximava uma pessoa e foi a minha vez de oferecer a passagem. A pessoa agradeceu-me a gentileza e depois acrescentou, “Desejo que 2013 lhe abra muitas portas abertas!”. Emocionei-me… Fiquei encantado com a coincidência! Abriram uma porta para mim. Abri uma porta para outro. Dei-me conta de que as pessoas ajudando pessoas tornam a vida mais simples, fácil e prazerosa. Assim acredito que o mundo pode ser bem melhor!

Desejo que cada um possa encontrar portas abertas, mas sobretudo que possa abrir portas para os outros. Tenha a certeza de que o universo retribui!

FELIZ 2013!
Moacir Rauber