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QUANDO CALAR? QUANDO FALAR?

Quando calar? Quando falar?

Ele estava cansado e irritado. Chegou em casa e encontrou o sobrinho que morava com ele fazendo algo que estava em desacordo com a sua lógica. Começou a proferir impropérios contra o sobrinho. Este se calou. Não retrucou. Retirou-se e foi para o seu quarto. Ambos foram dormir sem se falar. Na manhã seguinte, levantaram-se no horário de sempre e se encontraram na cozinha para o café da manhã. Saudaram-se com um “bom dia”. O tio fez o chimarrão e o sobrinho o café. Sentaram-se à mesa para comer. Nesse momento, o sobrinho disse:

– Tio, queria falar contigo sobre o ocorrido ontem. Você me pareceu irritado, por isso não falei nada. Fiquei magoado, porque a situação não foi bem como o tio acredita… e explicou.

O tio escutou. Sentiu-se envergonhado e triste, por um lado, e tocado e feliz, por outro. A vergonha tinha origem no seu comportamento impulsivo, agressivo e arrogante a partir de suas inferências. Ele havia feito uma interpretação de algo ocorrido que não necessariamente era um fato. Sem fazer uma pausa, ele analisou a situação a partir de sua perspectiva carregado com a sua condição emocional. A partir disso, ele agiu descarregando a sua frustração em forma de agressão verbal. Agora isso o envergonhava. Igualmente, entristecia-se por saber que havia um longo caminho a ser percorrido por ele para saber gerir a suas emoções de forma positiva e saudável para ele e para as pessoas lhe eram importantes. Por outro lado, o tio se punha tocado com a maturidade emocional do seu sobrinho de dezesseis anos que soube fazer uma pausa para não reagir e soube gerir as emoções. E isso, igualmente o deixava feliz por saber que é possível alcançar a gestão emocional para se comunicar de forma autêntica e não-violenta como uma escolha deliberada em qualquer idade. É a autonomia de cada um que permite fazer as escolhas conscientes. É o livre arbítrio em que somos os responsáveis pela gestão de nossas emoções e das ações que delas resultam. Sabe-se que as emoções são naturais e incontroláveis, entretanto, a nossa maturidade emocional é que vai permitir que sentimentos que escolhemos alimentar. O que nos ensinou o sobrinho?

Entendo que o jovem nos ensinou que a pausa em prática é uma grande ferramenta para a gestão de conflitos. Ele demonstrou um alto nível de inteligência emocional na prática para se comunicar de maneira efetiva e não-violenta ao não reagir imediatamente. Ele fez a pausa. O jovem soube identificar os sentimentos de um e de outro, as necessidades de um e de outro e soube se expressar de maneira não-violenta ao falar o que precisava ser falado no momento de ser falado. O sobrinho soube calar no momento apropriado, evitando um conflito em que ambos poderiam falar aquilo que não queriam num momento inapropriado. Muitas pessoas, coloco-me entre elas, falam quando deveriam calar e escutar, exibindo uma arrogância de quem acredita que sabe mais sobre a realidade do que as pessoas com quem interagem. Igualmente, muitas pessoas se calam quando deveriam falar num ato de submissão. Acredito que o grande aprendizado que nos passa o comportamento do jovem é a humildade sem submissão, além da assertividade sem arrogância. Por fim, creio que do equilíbrio entre a arrogância e a submissão vem a humildade que permite que tudo o que precisa ser dito possa ser dito.

Como fazer? A pausa é essencial para avaliar os fatos, reconhecer os sentimentos, explorar as necessidades e fazer os pedidos com a clareza da humildade sem ser submisso e da assertividade sem ser arrogante.

Moacir Rauber

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DIREITOS E DEVERES: UMA LIGAÇÃO INTRÍNSECA

Fonte da imagem: https://turismoadaptado.files.wordpress.com/2010/12/vaga-para-deficiente.jpg

DIREITOS E DEVERES: UMA LIGAÇÃO INTRÍNSECA

Lembro-me de um período em que trabalhei numa universidade, na qual dava aulas três vezes por semana. Nesses dias, quase sempre estacionava no mesmo lugar, usando uma das vagas reservadas para pessoas com deficiência, uma vez que sou cadeirante. Logicamente que a vaga não estava reservada exclusivamente para mim, mas para todas as pessoas com deficiência, desde que disso dessem visibilidade identificando o carro com o selo apropriado. Numa determinada noite cheguei ao trabalho para aplicar uma prova. As vagas estavam todas ocupadas. Observei os veículos que ocupavam as duas vagas reservadas e pude identificar um como sendo de um aluno da universidade, igualmente cadeirante. O outro carro era de uma empresa conhecida na cidade. O vigia da universidade, que me conhecia, aproximou-se e disse:

– Olha, eu não sei quem é esse cidadão, mas ele não tem deficiência. Eu disse que ele não poderia estacionar nessa vaga, mas ele não me deu a mínima!

Depois dessa informação estacionei tão próximo da traseira do carro que estava na vaga de maneira imprópria que não haveria como ele manobrar para sair antes de mim. Desembarquei, dirigi-me a sala de aulas e comecei a aplicar a prova. Passados uns 20 minutos o vigia bateu na porta da sala para me avisar que o dono do carro havia voltado e gostaria de sair. Respondi que assim que os alunos terminassem a prova eu iria tirá-lo. Passaram-se mais de 30 minutos até que, finalmente, todos os alunos terminaram a avaliação. Somente então voltei até o carro. De longe, observava o dono do carro. Lá estava ele com sua pasta executiva numa mão e na outra o celular, falando com alguém. Ele caminhava de um lado para o outro, aparentemente, nervoso. Aproximei-me em minha cadeira de rodas. Ao me ver ele se acercou e pediu-me mil e uma desculpas, dizendo que havia chegado atrasado para uma reunião da universidade que deveria ter sido rápida e que agora já estava atrasado para outra reunião. Cumprimentei-o, embarquei no carro, carreguei minha cadeira e fui embora.

Certamente que os compromissos desse senhor eram importantes para ele, assim como os meus são para mim e os seus são para você. Entretanto, isso não dá o direito para quem quer que seja de invadir o direito do outro. E mais. A reserva de vagas para as pessoas com deficiência representa um aspecto legal, proposto, discutido, debatido e regulamentado em lei, além do bom senso comum indiscutível. Em muitas situações não faço questão de me beneficiar das “vantagens” destinadas às pessoas com deficiência, mas especificamente no caso da reserva de vagas de estacionamento sempre busco esses espaços, porque senão meu veículo ocuparia dois lugares. Explico. Os cumpridores das leis sem deficiência não estacionam em vagas reservadas para pessoas com deficiência. Dessa forma, se eu, pessoa com deficiência, estacionar numa vaga convencional e deixar uma vaga reservada sem uso, ocuparei dois espaços. E isso também não é justo, assim como não foi a situação exposta acima.

Enfim, por isso entendo que direitos e deveres estão tão intrinsecamente ligados, reforçando o dito popular que o direito de um vai até onde começa o direito do outro. Nem um centímetro a mais!

Moacir Rauber

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QUEM SÃO ESSES VELHOS DAS FOTOS?

Quem são esses velhos das fotos?

Foi criado um grupo de whatsapp para resgatar as histórias, as amizades e as boas lembranças daqueles que foram seminaristas. Entrei num grupo com mais de sessenta integrantes. Pensava: “É só pra perder tempo…”. Vejo um nome e vejo outro. As boas lembranças me vêm à mente. Leio as memórias trazidas por diferentes pessoas no grupo com fotos amareladas. Abro o perfil de um e de outro nome que reconheço. Vejo um velho aqui e outro ali com filhos e netos que não reconheço. Pergunto-me:

– Quem são esses velhos nas fotos dos meus amigos seminaristas?

Fui seminarista na década de 70 e 80 como alternativa para estudar. Era uma época em que poucas pessoas tinham acesso aos estudos depois da quarta série. O Estado ainda não supria a demanda, assim os pais enviavam os filhos para que estudassem nos seminários. Os padres recebiam os garotos, entre 10 e 15 anos, na esperança de que se revelassem algumas vocações. Saíamos de nossas casas para ir ao seminário em fevereiro e até as férias de julho podíamos visitar os nossos pais uma ou duas vezes. Era um tempo sem telefone, sem internet e, para alguns, até sem energia. Durante o semestre se escreviam algumas cartas para os pais e o restante do tempo era gasto para estudar muito, rezar com intensidade, praticar esportes diariamente e trabalhar um pouco. Com isso, se criavam fortes laços de amizade com os outros garotos com quem se dividiam os medos e as ansiedades. Estudar para ser padre? Era uma hipótese, porém não a primeira. E os padres sabiam disso. Lembro-me de uma fala do Dom Egídio: “Aqueles que forem se casar, lembrem-se de encontrar alguém com quem vocês gostem de conversar, porque quando ficarem velhos…”. Parecia tudo tão distante, porém o tempo passou.

Pelo que sei, de todos os seminaristas que estiveram no seminário foi ordenado apenas um sacerdote. Para as pretensões dos padres o resultado talvez não tenha sido o esperado. Para as pessoas que foram seminaristas o impacto foi enorme, uma vez que os nossos “heróis” não tinham os pés de barro. Os padres que nos receberam eram exemplos de correção. Os professores que nos ensinaram eram e são admirados. Assim, sempre que se encontra com alguém que teve a experiência de ter estudado no seminário as lembranças são fortes e positivas. Mais de quarenta anos depois não reconheço os “velhos” que vejo nas fotos. E eles, igualmente, não devem me reconhecer. Por que perder tempo com “velhos”?

O Papa Francisco em sua catequese ressaltou a importância de se “perder tempo” com as pessoas mais velhas que, às vezes, já não raciocinam bem, assim como com as crianças, que ainda não compreendem o todo. Nas famílias, “perder tempo” com as crianças e com os idosos nos caracteriza como humanos, dando-nos uma perspectiva ampliada da vida para adultos acelerados que tem uma visão limitada. Nas organizações, “perder tempo” com aqueles que chegam e com aqueles que estão por se aposentar permite que a experiência seja aproveitada no presente, garantindo-nos o futuro. Nas relações pessoais as conversas que desconversam são as que revelam os laços mais profundos. Lembro que o grupo de seminaristas a quem me refiro não é exatamente de idosos, mas acredito que resgatar as amizades com boas conversas nos fará usar o tempo com o que importa. Idosos ou crianças? São pessoas.

Quem são os “velhos” no perfil do whatsapp? Quem são os garotos nas fotos amareladas? Não importa, porque a jornada iniciada vai ser terminada. Assim, fica o convite: vamos “perder tempo” juntos?

Moacir Rauber

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Seminário Santo Américo – Nova Santa Rosa-PR

COMO VOCÊ CONVERSA COM QUEM IMPORTA PARA VOCÊ?

Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/pai-filho-pai-e-filho-filho-de-pai-2695667/

Como você conversa com quem importa para você?

Escutava o jovem de 20 anos que falava do pai com a sensação de que ele reclamava de tudo. Quais eram as reclamações mais comuns? O pai reclamava quando ele sujava algo e não limpava. Quando ele ligava a luz e não desligava. Quando ele usava uma ferramenta e não guardava. E por aí seguiam os pequenos grandes problemas. Admitiu que, muitas vezes, o pai tinha razão. Porém, havia outras questões que o incomodavam, como as diferenças sobre sair de casa para as festas, os horários de estudo e a rigidez para se levantar, almoçar e jantar. O jovem argumentava que trabalhava e estudava, por isso podia se encarregar de sua própria vida. Era verdade. Contudo, o jovem não se lembrava de que ele vivia na casa de seu pai, assim, não pagava aluguel, água, luz, ITPU, internet, comida ou a roupa lavada. Portanto, naquela casa quem estabelecia as regras era o pai. Lembrei-o disso e emendei uma conversa que tive com o meu pai. Numa discussão, rebati verbalmente um comentário e o acusei de reclamar de tudo. Ele fez silêncio e logo disse:

– Moacir, eu tenho 44 e você tem 20 anos. Tem algumas coisas que ainda que você queira não pode saber porque são coisas que só a experiência pode ensinar. Pode parecer que reclamo de ti, mas são orientações! Às vezes, me exalto porque repito e repito as mesmas coisas. Agora quero te dizer para você se preocupar o dia em que eu não reclamar mais contigo, porque a partir desse dia o que você fizer ou deixar de fazer já não me importará mais porque eu não me importarei mais contigo.

O meu sangue gelou. Senti o peso das palavras no meu coração. A tranquilidade e a segurança com que foram ditas penetraram na alma. Ele prosseguiu:

– E isso se aplica na empresa em que você trabalha. Aproveite quando alguém fizer um comentário sobre o teu trabalho para escutar, analisar e absorver o que interessa. Comece a se preocupar quando o teu chefe, superior ou mentor não falar mais contigo…

Ele tinha razão. Acredito que tudo o que precisa ser dito possa ser dito sem ser ofensivo ou invasivo e sem ser assédio moral. Esse equilíbrio deve ser encontrado pelos pais, chefes, superiores ou mentores. Aquele que está do outro lado deve exercer a humildade para escutar e se abrir para aprender. Via de regra, um pai quer o bem do filho, razão dos comentários que se propõe a corrigir. Um chefe, um superior ou um mentor deve querer o bem da organização, o que exige que o colaborador desempenhe bem o seu papel. Como fazer? A Comunicação Não-Violenta (CNV) propõe quatro passos para diminuir a tensão nas relações. Ater-se aos (1) fatos: eventos que podem ser observados de maneira similar pelos envolvidos. Entender os (2) sentimentos: qual o sentimento que o evento desperta nos implicados. Identificar as (3) necessidades: o que cada um necessita naquela situação. Fazer os (4) pedidos: como cada um se expressa a partir dos fatos, considerando as necessidades e os sentimentos. Fácil? Não. Possível? Sim.

Na situação entre o pai e o filho, provavelmente, existem diferentes necessidades envolvidas. De um lado, o pai necessitava de ordem e de colaboração: como ele poderia se expressar? Por outro lado, o filho tinha a necessidade de autonomia e de reconhecimento: como ele poderia pedir? As necessidades de cada um são diferentes, por isso geram sentimentos distintos. As necessidades são conciliáveis? Aparentemente, sim. Entretanto, a comunicação entre as partes exibe uma tensão emocional que descamba para a quase violência. O lado positivo é que a tensão revela que eles se importam um com o outro. Adotar os passos da CNV pode contribuir para que você converse como quer conversar com quem você se importa.

Como você conversa com quem importa para você?

Moacir Rauber

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OCIDENTE OU ORIENTE: QUEM É MELHOR?

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Oriente ou Ocidente: quem é melhor?

Ela estava sentada havia horas esperando passar os efeitos da bebida em seu corpo e em sua mente. No corpo sentia náuseas. A mente parecia que se expandia. Ao comentar comigo ela disse:

– É impressionante, saio revigorada! Os nativos sabiam muito mais do que nós com nossa racionalidade…

O discurso da minha amiga seguia ressaltando as maravilhas das experiências que vivia. Criticava abertamente os cristãos, como seus pais e amigos, e ao ocidente com sua busca material. Sobravam louvores ao oriente, aproximando as culturas nativas das américas a este. Eu a escutei por vários anos, porém nada em sua vida havia mudado. A sua busca era genuína. A sua vida era caótica. O que faltava à minha amiga?

Em tempos de mudança cultural e comportamental são inúmeras as possibilidades que nos levam para novas direções, entre elas, outras culturas. Muitos, tratam essas culturas como a sua tábua de salvação. Não me parece real. Outros, buscam as diferentes perspectivas das religiões, da filosofia e de vida presente nas outras culturas. Parece-me muito bom. A tecnologia nos possibilita o acesso. Entretanto, quero destacar que …

é a curiosidade da aprendizagem, e não a comparação entre as culturas, que pode criar um mundo equilibrado com pessoas em equilíbrio.

Qual é o caminho?

Conhecer para aprender e, ao ser conhecido, ensinar. Teoricamente é simples propor.

Faticamente é difícil implementar. O ritmo frenético imposto pela produtividade e competitividade tem gerado conflitos internos que leva muitas pessoas a buscar alívio sem saber exatamente o que busca. A espiritualidade é uma saída e o conhecimento da cultura oriental tem destaque. Textos e metáforas com mensagens circulam pelas redes, assim como periodicamente um escritor, um estudioso ou mesmo um executivo relata suas experiências inovadoras. Todas elas trazem ensinamentos valiosos. O pensamento Hindu promove a tolerância entre as diferentes crenças, entendendo que nenhuma delas é a verdade absoluta. No Budismo os ensinamentos têm como princípios básicos o cultivo da própria mente, vivendo com moderação, preservando a vida ao fazer o bem. Sobre o Taoísmo pode-se dizer que ele dá ênfase a liberdade e a espontaneidade sociocultural. E o Confucionismo ensina que “uma pessoa deve tornar sua própria conduta correta antes de tentar corrigir ou mandar nos outros”. Certamente os ensinamentos de cada uma dessas filosofias espirituais são muito mais extensas e profundas, assim como o Cristianismo, base da cultura ocidental. Como cristão sou orientado a “amar o próximo como a mim mesmo”. Caso o fizesse, provavelmente o que está acima também se cumpriria, assim como se os princípios de cada uma das religiões, como o Judaísmo e o Islamismo, entre outras, fossem seguidos. Por isso, não há nada a comparar. Entendo que seja importante aprender e ensinar para equilibrar.

Muitas vezes, a questão é a falta de sabedoria para pôr em prática os princípios dessas filosofias, porque são desvirtuadas a partir de interesses humanos. Em nenhum lugar se criou uma ordem social que possibilitasse o equilíbrio espiritual e material. Na Índia, onde temos a predominância do Hinduísmo e do Budismo, o modelo de organização tem mantido o fosso social em que milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza. Na China, onde o Confucionismo e o Taoísmo predominam, há trabalhadores que cumprem jornadas sobre humanas de 70 horas semanais. O ocidente tem as suas próprias misérias. Enfim, toda a sabedoria oriental, assim como a ocidental, não foi capaz de equilibrar essa busca.

Por fim, destaco que não tenho nada contra a difusão e a busca do conhecimento e da sabedoria presentes no pensamento oriental, mas tenho ressalvas quando se rivalizam as culturas, ao sobre valorizar uma em detrimento da outra. E a minha amiga que detestava a forma ocidental de viver? Não alcançou o equilíbrio que tanto buscava. Não conseguia manter um relacionamento afetivo, que considerava importante. Tinha desentendimentos fortíssimos com o filho, que era o seu tesouro. Não era capaz de progredir em sua profissão, que era a fonte de sustento e aspiração pessoal. Enfim, entendo que não há que comparar. Há que ser firme, tolerante e flexível para mudar e ser mudado, transformando para ser transformado. Por isso, o equilíbrio está na soma sem rivalizar, comparar ou dividir.

Moacir Rauber

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ELA NÃO É POLLYANNA

Capa do livro de Eleanor H. Porter

Ela não é Pollyana…

Ela era jovem e com muitas expectativas para a sua vida. Queria deixar um legado! Porém, o seu trabalho estava longe de a aproximar do sonho de deixar uma marca no mundo. Era o duro trabalho de ser garçonete num bar e restaurante que abria no final de tarde com atendimento que se estendia até à madrugada. Na chegada os clientes aparentavam estar alegres e contentes. Com o passar das horas muitos se transformavam. Alguns ficavam mais alegres, às vezes abusados. Outros se punham tristes, até deprimidos. Outros ainda se mostravam corajosos, por vezes agressivos. Sabia-se que por trás da transformação estava o efeito do álcool consumido pelos clientes. Como a maioria dos bares, ele servia de muleta psicológica para muitos dos seus frequentadores. Os medos, os anseios e as pressões do trabalho e dos diferentes papéis sociais de cada um dos clientes, por vezes, eram liberados naquele ambiente. Cabia a ela e aos seus colegas garçons atender aos clientes com as suas fragilidades expostas. Ela não bebia, porque sabia que álcool e trabalho não combinavam. Os seus colegas de trabalho, quase todos, bebiam e consumiam outras drogas para manter a motivação e conseguir lidar com as carências dos clientes. Nesse cenário, ela conseguia manter o sorriso e a atenção para com os clientes. Um de seus colegas se aproximou e perguntou:

– O que você tá tomando pra tá sempre desse jeito?

Ela disse que nada. Ele não acreditou. Ela respondeu que sabia que o seu trabalho ali era temporário, mas ela acreditava que podia fazer a diferença para um ou outro. O que ela havia entendido que os demais ainda não? O sentido daquilo que se faz. Ela entendia que se muitos que ali estavam exageravam nas bebidas e nas comidas era simplesmente uma fuga para problemas não resolvidos ou não enfrentados. Não importa a função, o cargo, o glamour ou a posição que você ocupa em seu trabalho. O importante é entender que se o trabalho existe ele existe para atender alguém. Saber que você vai afetar a vida de outra pessoa impacta diretamente na maneira como você faz aquilo que faz ou deixa de fazer. A viagem é para dentro. Não, a pessoa de quem falo não é uma versão moderna da Pollyana, a menina órfã que ensinava o “Jogo do Contente”. Ela tinha todos os problemas que muitos jovens têm na sua relação com os pais. Nem sempre fazia a sua parte em casa. Porém, destaque-se que ela havia entendido que se estava onde estava era para o outro que estava. A sua alegria? Uma escolha deliberada.

O seu colega voltou a insistir que não acreditava que ela conseguia trabalhar tanto tempo com um sorriso no rosto sem ter algo a mais. Ele queria saber. Ela o olhou e respondeu:

– Eu tenho uma família que me ama e sabe que eu quero fazer deste um mundo melhor. Começo com o meu trabalho!

Simples assim. Fazer bem o que se faz, faz com que outras coisas boas aconteçam. Não tardou muito e uma nova oportunidade de trabalho apareceu que a aproximou um pouco do seu objetivo. Entendo que tudo começa ao entender o sentido do trabalho ao se colocar a serviço do outro, o que faz com que o serviço deixe de ser pesado para si mesmo. Não é preciso ser Pollyana, mas é fundamental se importar com o outro, respeitando-se. Você realmente se importa com o outro?

Moacir Rauber

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Inspirado por: Barby Perluzky

QUAL É A PARTE BOA DOS HOMENS MAUS?

Qual é a parte boa dos homens maus?

Os homens maus existem e são reais as maldades que fazem. As prisões estão cheias de homens que roubaram, estupraram, mataram, extorquiram, sequestraram ou assediaram. Nas prisões têm algumas pessoas que desviaram dinheiro, subornaram ou manipularam na gestão pública ou privada. Nessas mesmas prisões têm outras pessoas que estão nelas por um equívoco da justiça. Acompanhei a história de um homem que foi preso, injustamente acusado de ter matado a esposa. A justiça seguiu o seu ritual. Alguns elementos do processo não faziam sentido, mas tudo indicava que ele seria o criminoso. Ordem de prisão expedida e prisão efetuada. Sete anos se passaram até que apareceu o verdadeiro criminoso. Soltaram quem injustamente fora preso e lhe perguntaram como havia sido. Ele respondeu:

– Pude conhecer a parte boa de homens maus!

Escutar a sua história sem ser atingido por uma enxurrada de lamúrias pela perseguição sofrida é um alívio para a alma e traz esperança na humanidade. Não quer dizer aceitar as injustiças. Quer dizer aceitar o que não pode ser mais mudado e aproveitar para mudar o que pode ser mudado. Ele teve a sua vida dilacerada, como então se pode dizer “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça”? Parece incabível, mas quantas outras situações nos revoltam e que são igualmente injustas? Nas empresas, pessoas que se apropriam das realizações de colegas num movimento de roubo e extorsão. Nas relações, pessoas que subornam e manipulam emoções em benefício próprio. São inúmeras as situações em que alguém pode ser perseguido pela justiça ou pela injustiça. Acredito que o próprio personagem nos dá a resposta. Ao sair da prisão ele poderia dar ênfase naquilo que já não poderia ser mudado e seguir no papel de vítima. Entretanto, ele escolheu focar naquilo que aprendeu no período em foi alvo de injustiça pela justiça. Ele aproveitou para conhecer pessoas que, por suas razões, optaram pelos caminhos da violência, do roubo e das violações. Ele conseguiu encontrar nessas pessoas a bondade, a compaixão e a esperança de que poderiam ser melhores. Ele conseguiu ver o lado bom das pessoas más. Considere-se que não se trata de alguém religioso ou espiritualizado, entretanto, o seu comportamento foi uma demonstração da espiritualidade na prática. Pode-se encontrar nesse comportamento muito daquilo que nos querem ensinar com os livros de Inteligência Emocional, Psicologia Positiva, de Programação Neurolinguística ou de toda literatura que dá roupagem científica as escolhas que fazemos. Assim, bem-aventurados os perseguidos pela justiça ou pela injustiça que conseguem fazer escolhas que fazem bem a si mesmo e aos demais.

Enfim, as bem-aventuranças levadas para o ambiente organizacional e relacional extrapola qualquer dogma religioso. As bem-aventuranças são fonte de inspiração para que possamos fazer deste um mundo melhor. Ser pobre de espírito e se abrir para a aprendizagem; chorar as dores do mundo para consertá-las; ser manso e forte; ter fome e sede de evolução; ser misericordioso com a nossa humanidade; e trabalhar pela paz a partir da inquietude pode fazer com que alguém seja perseguido no ambiente social ou organizacional. Sabe-se que o mundo não é justo, mas que eu posso escolher ser justo. É isso que importa. Afinal, cabe a cada um escolher se vai manter o foco na injustiça, lamentando-se, ou se vai tomar as ações cabíveis e seguir com a aprendizagem da vida, inclusive a de ver o lado bom de homens maus.

São os homens maus ou são homens que cometem maldades?

Quais as tuas maldades?

Qual é o teu lado bom?

Moacir Rauber

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Baseada em fatos