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E você continua a correr atrás?

O restaurante do hotel estava vazio e prestes a fechar. Mesmo assim, entrei e logo encontrei o chefe de cozinha que circulava pela área dos clientes. Perguntei se ainda poderiam me atender e, meio me desculpando, disse:

– Caramba, estou chegando meio atrasadão…

Ele abriu um sorriso e confirmou que estava tudo certo. Serviriam o almoço com o maior prazer. Enquanto eu olhava o cardápio entabulamos uma conversa que me marcou, porque ele disse:

– Olha, tem duas expressões que peço para o meu filho não usar: a primeira é para ele não dizer que está atrasado. E a segunda que não quero que ele use é, “vou correr atrás”.

Fiquei um pouco sem entender, mas em seguida ele explicou:

– Só está atrasado quem corre atrás. Não é verdade? Se você sempre está correndo atrás você está atrasado…

A conversa continuou e para mim foi mais uma amostra da sabedoria e das crenças presente nos ditados populares. Muitas delas nos impulsionam e outras, inconscientemente, podem nos limitar.

Nunca havia pensado sob a perspectiva de que correr atrás poderia trazer em si negatividade. Sempre a havia interpretado pela ótica da positividade de alguém que está em movimento buscando os seus caminhos. Porém, ao acreditar que as palavras têm sentido e que podem criar uma realidade a interpretação dada pelo chefe de cozinha é sensacional. A partir do momento em que eu admito estar correndo atrás, internalizo que não tenho aquilo que preciso. E, talvez, com isso eu esteja atrasado.

Usando esse raciocínio para a realidade individual no trabalho, na carreira e na vida, pode-se fazer alguns paralelos. No trabalho, o colaborador que está sempre correndo atrás é porque não tem conseguido ser competitivo o bastante para entregar as competências que dele eram esperadas. Falta-lhe competência para antecipar soluções que evitem problemas, portanto, está atrasado. Na carreira, na atual conjuntura que nos permite escolher diferentes caminhos ao longo da jornada, aquele que está correndo atrás não consegue identificar as tendências que podem lhe indicar as melhores escolhas. Falta-lhe a compreensão do cenário em que vive, desse modo, está atrasado. Na vida, aquele que precisa correr atrás está atrasado, porque ainda não entendeu que a vida não é uma competição e que basta estabelecer um ritmo constante de desenvolvimento pessoal para sempre estar onde se deveria estar. Não se trata de correr na frente, porque ao entender que não se precisa estar em competição não há sentido em correr atrás ou na frente de algo ou de alguém. Basta ser competitivo para tirar o melhor de dentro de si, não sendo mais necessário correr atrás e, por isso, não se pode estar atrasado. O importante é estar em movimento para antecipar soluções e fazer as melhores escolhas no trabalho, na carreira e na vida. Afinal, você está onde escolheu estar.

Enfim, o entendimento do chefe de cozinha sobre aquilo que está subjacente as expressões “estou atrasado” e “vou correr atrás” têm sua razão de ser. Pode-se entender que a nossa mente está sendo estimulada negativamente, ainda que se acredite que se esteja sendo positivo. Seria esse mais um dos truques da nossa mente? Porque a mente, muitas vezes, nos mente, levando-nos para lugares que não queremos ir. Sendo assim, que tal preparar-se para ir para onde escolheu ir e realmente estar onde escolheu estar?

Essa é a magia das conversas que desconversam e que nos revelam uma nova visão de mundo!

Moacir Rauber

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O que é uma maratona? Seres Humanos. Seres Estranhos…

Sexta-feira, final de tarde e o happy hour com os colegas e amigos de trabalho transcorre na maior alegria. Conversa vai e conversa vem. A pergunta que está no ar se refere aos planos para o final de semana:

– Ahh, foi liberada uma nova série. Vou aproveitar e maratonar!

Outros riram, concordaram, discordaram e escolheram as suas séries para também maratonar. Agora uma indagação: de onde vem a palavra e a expressão maratonar? Logicamente que vem da palavra maratona que nos remete a prova disputada nos Jogos Olímpicos da era moderna com um percurso de 42,195km, sendo considerada uma das provas mais nobres e exigentes em termos de atividade física. Diz a lenda que um percurso aproximado foi realizado pelo grego Fidípedes que correu essa distância para avisar aos gregos sobre a possível invasão do persas que começaria pela cidade de Marathon. Logo após dar a notícia Fidípedes caiu morto de exaustão.

A sociedade mudou e nós mudamos. Hábitos e costumes são alterados constantemente com uma rapidez inédita na história, com a tendência de continuar acelerando. Porém, tem alguns pontos estranhos nessa mudança e um deles se refere ao termo “maratonar”. O que é “maratonar”? Quase todos sabem o seu significado, que tem a ver com assistir aos vários episódios de uma série em sequência ou consumir algum serviço de entretenimento de forma contínua mantendo a empolgação. Assim, as pessoas maratonam uma série, um livro ou no cinema. Lembro-me de ter “maratonado” quatro filmes em sequência num único dia em que saía de uma sala e já entrava noutra. Entretanto, causa-me estranheza o que se entende por maratonar nos dias de hoje em relação a palavra que deu origem à expressão. Como vimos, maratonar tem origem na palavra grega “marathon” que nos lembra de um exercício físico extenuante. Desse modo, enquanto a maratona representa uma atividade física extenuante maratonar significa exatamente o oposto como um clássico exemplo da prática do sedentarismo. Como isso é possível? Maratonar é a maratona do sedentarismo. Onde está a prática? Mais uma vez se buscarmos o conceito da palavra prática, ele nos remete a ideia de fazer algo, execução, experiência, realização e atividade. O maratonar de hoje é passivo. Se avançarmos para a palavra atividade ela nos leva a ideia de movimento, ação, atuação e laboração, assim como exercício, desempenho e performance. A atividade do maratonar atual não nos dá isso. Desse modo, a palavra prática e seus sinônimos, assim como como a própria palavra maratonar, deveriam nos direcionar para o movimento, seja ele físico ou intelectual. Entretanto, a única coisa que aquele que maratona nas séries e nos filmes não faz é se mover. Trata-se da maratona do sedentarismo.

Nada contra a assistir uma série em sequência. Fiz e ainda faço. Porém, tudo a favor de fazer uma atividade física real que nos aproxime daquilo que maratona inicialmente representa: movimento. No entanto, nada em excesso. Assim como Fidípedes morreu por excesso de atividade física, atualmente tem gente que morre de exaustão de tanto não fazer nada.

Somos Seres Humanos. Somos ou não somos Seres Estranhos?

 

Moacir Rauber

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Expectativa ou compromisso? A saída é para dentro…

Ao iniciarmos o curso foi indagado aos participantes quais eram as suas expectativas sobre os três dias que passaríamos juntos. As palavras variaram entre conhecimento, aprendizado, sintonia, entendimento, evolução, desenvolvimento, crescimento, amadurecimento, adaptação, confiança e troca de experiência. Todos esperando encontrar isso no ambiente em que ficaríamos imersos. Em seguida, o conteúdo a ser abordado apresentado e as atividades foram iniciadas. Antes de finalizar o primeiro bloco, depois de relembrar que todos tinham uma expectativa, foi feita mais uma pergunta:

– Qual é o seu compromisso para os três dias?

O que cada um vai entregar com a sua presença e participação? Essa era a pergunta a ser respondida. Silêncio. Às vezes é difícil aguentar o silêncio quando se está no papel de facilitador ou de professor. Porém, alguns segundos depois, veio a primeira resposta de um dos participantes:

– Dedicação.

Na sequência vieram outras, como participação, frequência, compartilhamento, atitude, comprometimento, vontade, compromisso, energia, colaboração e parceria. Depois que todos falaram a sua palavra e assumiram o seu compromisso foi feita uma reflexão sobre a diferença entre as duas palavras: expectativa e compromisso. De um lado, ao se buscar um conceito da palavra expectativa, encontra-se como sendo a condição de quem espera, aguarda que algo aconteça em algum momento. Joga-se para fora a responsabilidade sobre aquilo que se espera. A expectativa daquilo que se espera não está no controle de quem espera. De outro lado, ao se pesquisar sobre o conceito da palavra compromisso, encontra-se como sendo uma responsabilidade assumida para que algo aconteça. Volta-se para dentro de si mesmo a responsabilidade de assumir o controle daquilo que se quer. Nesse comparativo fica muito claro a oposição expectativa e compromisso. Na primeira você está transferindo para o ambiente externo a possibilidade de que aconteça aquilo que você espera, desempenhando um papel passivo na busca por seus objetivos. Na segunda você está trazendo para o ambiente interno a responsabilidade de fazer com que aconteça aquilo que você espera, assumindo um papel ativo nas escolhas realizadas. Dessa forma, ficou muito claro que para quem tem a expectativa de obter conhecimento é o compromisso da dedicação que o levará até ele. Quem aspira aprendizado é por meio da participação que ele será alcançado. Quem deseja encontrar sintonia a frequência pode ser um caminho. Quem deseja entendimento poderá encontrá-lo pelo compartilhamento. Quem anseia pela evolução precisa de atitude. Quem está no caminho do desenvolvimento tem a necessidade do comprometimento. Você ambiciona crescimento e amadurecimento? A vontade e o compromisso fazem parte. O mundo nos exige constante adaptação? É fundamental dispender energia seguir em frente. Da mesma forma, aquele que quer viver num ambiente de confiança deve estar disposto a dar sua cota de colaboração, de igual maneira como aquele que planeja se beneficiar da troca de experiências precisa estar disposto a estabelecer parcerias. Enfim, trata-se de uma reflexão bastante simples em que a mudança ocorre de dentro para fora. Não há outro caminho. A saída é para dentro.

Enfim, reflexão sobre expectativa e compromisso cumpriu com o seu papel na realização do curso, fazendo com que cada um assumisse um papel ativo com o compromisso de alcançar as expectativas. Foi essa reflexão que levou a que cada um atuasse sobre a sua área de controle.

E o papel do facilitador, do professor ou das outras pessoas? Não crie expectativas sobre aquilo que não está no seu controle. Eles estão lá fora. A saída é para dentro.

 

Moacir Rauber

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