CUIDADO, SIMPLICIDADE E POUPANÇA: ESCASSEZ OU ABUNDÂNCIA?

Fonte: IA BING

Cuidado, Simplicidade e Poupança: escassez ou abundância?

Ouvia o jovem casal falar sobre as dificuldades financeiras que enfrentavam depois de dois anos vivendo juntos. As carreiras de ambos ainda não haviam deslanchado, entretanto conseguiam fazer frente as despesas da realidade ordinária, pagando os gastos com moradia, alimentação, vestuário, estudos, deslocamentos e algum lazer. Economizavam, mas não o suficiente para as sonhadas viagens ou para comprar a casa própria. Ao voltar do supermercado, a esposa comentou:

– Sempre comparo os preços e levo o mais econômico. Vejo meus amigos gastando um montão de grana, mas nós não queremos gastar mais do que ganhamos…

Os dois demonstravam certa preocupação com a situação.

O que está por detrás desse comportamento? Particularmente, entendo que esse casal vive uma maturidade econômica que muitos passam a vida sem alcançar, inclusive nações. São tantos os países, entre eles o Brasil, que gastam mais do que arrecadam e, com isso, a população não sai da linha da pobreza econômica, educacional e social. Desse modo, escutar os jovens adotando um comportamento moderado frente aos estímulos de consumo a que estão expostos todos os dias é um alívio. Pode-se perceber neles o cuidado, a simplicidade e a poupança, como elementos básicos de quem tem a mentalidade da abundância, ainda que vivam momentos de escassez.

Acredito, por um lado, que a mentalidade de escassez é observada no comportamento de indivíduos que enxergam nos recursos econômicos disponíveis a fonte de felicidade. Com isso, não conseguem desfrutar do que dispõem, transformando-se em avarentos. Da mesma forma, a mentalidade da escassez está presente no comportamento da pessoa que não cuida, ostenta e desperdiça. Aqui trata-se de uma escassez emocional que se reflete no não cuidar, no ostentar e no desperdiçar. O não cuidar se manifesta ao não respeitar a si mesmo ou ao outro por meio de comportamentos exagerados; o ostentar se revela na busca desenfreada pelo luxo como forma de afirmação pela baixa autoestima; e o desperdiçar recursos, sejam eles físicos ou emocionais, confirma a mentalidade de escassez de quem não respeita e necessita se autoafirmar pela ostentação de quem compara o incomparável: as pessoas. Esses comportamentos, ainda que pareçam ter origem na abundância, tem suas raízes na escassez.

Por outro lado, a mentalidade da abundância está conectada com o cuidado, a simplicidade e a poupança. O cuidado se refere ao zelo, à atenção com as pessoas e as coisas, conectando-se diretamente com a simplicidade de não complicar a vida gastando mais do que se ganha. Assim, pode-se chegar à poupança, capacidade de economizar com a moderação de quem cuida com simplicidade. A mentalidade da abundância cuida porque respeita a si mesmo e ao outro; a mentalidade da abundância é simples porque não precisa se comparar, reconhecendo a própria unicidade e singularidade assim como a do outro; e a mentalidade da abundância poupa com o desapego da não acumulação, mas da fruição.

Portanto, ao escutar um casal jovem que foi e é exposto a todo tipo de estímulo de consumo exibir uma postura moderada, é motivo de esperança. Não se trata de não consumir, mas de consumir o que é necessário com a consciência da necessidade a ser atendida. Por isso, entendo que o cuidado, a simplicidade e a poupança são elementos essenciais de quem vive na abundância, enquanto o não cuidado, a ostentação e o desperdício são comportamentos de pessoas com a mentalidade da escassez.

Voltando ao casal de jovens que analisavam a sua situação financeira, depois do ar de preocupação veio o sorriso tranquilo de quem tem a mentalidade da abundância seguido da frase clichê:

– Não é mais rico quem tem mais, mas quem precisa menos…

No caso deles, ela refletia uma verdade, porque rapidamente saíram da preocupação com o futuro para a ocupação de quem desfruta o presente para dar uma caminhada na praia.

Por fim, creio não ser preciso ter muito para viver a abundância, porque aqueles que têm tudo, muitas vezes, não tem nada, porque vivem na escassez.

Moacir Rauber

Instagram: @mjrauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: mjrauber@gmail.com

Home: www.olhemaisumavez.com.br

VOCÊ SE PREOCUPA OU SE OCUPA?

Fonte: IA BING

Você se preocupa ou se ocupa?

O pai passa pelo quarto do filho de 25 anos e fala:

– Levanta, você tem médico daqui a pouco…

Parece caricato, mas reflete a realidade de muitos pais com seus filhos em idade adulta que não trabalham, não estudam e não estão ocupados. Apenas preocupados consigo mesmo.

Entende-se que saímos de um modelo em que tínhamos uma hierarquia definida na família, que apontava o caminho e a pessoa seguia os passos; na sociedade, na qual o indivíduo participava; e na orientação espiritual, que servia de norte ético e moral. Hoje, para muitos, está nas próprias mãos escolher se trabalha, empreende ou não faz nada; decidir se casa, tem filhos, pets ou nenhuma das alternativas; enfim, se simplesmente define passar pela vida sem estudar, aprender ou trabalhar. Parece simples, fácil e um caminho para a felicidade. Entretanto, os números indicam um aumento de pessoas deprimidas e infelizes porque não entendem o sentido da vida. O que fazer? Reconectar-se com o sentido da vida. Como?

Atualmente, pesquisas a partir de testes no âmbito neuronal descobrem segredos para aprender mais rápido. A neurocientista Lila Landowski revela que precisamos de: (1) atenção; (2) estado de alerta; (3) sono; (4) repetição; (5) pausa; e (6) aceitar os erros para aprender. Segundo a neurocientista, que se aprofunda em detalhes, com esse passo a passo seremos mais eficazes no processo, porque “ao entender o cérebro você tem as chaves para desbloquear o seu potencial”. Concordo, entretanto, faço duas perguntas:  aprender para quê? Onde está a descoberta?

“Aprender para quê?” se refere a falta de sentido da vida para muitos, principalmente os jovens. Acredito que eles estão desconectados do sentido da vida pela falta de espiritualidade, um caminho trilhado por milhares de anos por toda a humanidade e que nos trouxe até aqui. Eram as tribos aborígenes da Austrália, os índios da América, assim como no Oriente e no Ocidente que traziam dentro de si a busca por algo maior. Não bastava ser bom para si mesmo, tinha que ser bom para a família, para os outros e para Deus. Hoje, em função de tantos estímulos tecnológicos e a abundância de recursos materiais, muitos se voltaram para a autossatisfação. Assim, não conseguem ver o sentido de aprender ou de se desenvolver como pessoa. Por isso, não estudam e não trabalham, terminando deprimidos porque estão apenas preocupados consigo sem se ocupar de nada. Nada tem sentido.

A segunda pergunta indaga sobre qual a descoberta da neurociência ao apontar caminhos para aprendizagem. Fotografar um neurônio não muda o fenômeno, apenas o registra. Vejo que as dicas das neurociências, podem ser encontradas na literatura de diferentes épocas. Resgatando os registros de Hildegarda de Bingen (1098 – 1179), ela descreveu seis Regras de ouro da Escola da Vida: (1) alimentar-se de maneira que a tua comida seja o teu remédio; (2) usar os recursos que a natureza oferece; (3) procurar a alternância natural entre sono e exercício; (4) encontrar o equilíbrio entre trabalho, leitura e oração; (5) purificar o corpo e a mente de toxinas alimentares e ambientais; (6) limpar a alma e o corpo fazendo jejum de emoções e sentimentos negativos. Como se vê, as dicas atuais, com respaldo das neurociências, apenas replicam conteúdos encontrados ao longo da história da humanidade.

Por fim, creio ser importante resgatar o sentido da vida como estímulo para a ocupação com a própria vida e da dos demais. Um homem de vinte e cindo anos deveria ser acordado pelo pai para ir ao médico? Como regra não. Acredito que ele deveria se ocupar da própria vida, assim como ser responsável por uma nova vida e, quem sabe, cuidar dos pais. Portanto, a busca pelo sentido da vida encontrado na espiritualidade pode ajudar a validar as dicas das neurociências, assim como deu respaldo às regras de ouro da escola da vida há quase mil anos.

Daí, quem sabe, o filho se ocupe com a vida e passe pela casa do pai para cuidá-lo ou simplesmente acompanhá-lo numa caminhada.

FELIZ DIA DOS PAIS!!!

Moacir Rauber

Instagram: @mjrauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: mjrauber@gmail.com

Home: www.olhemaisumavez.com.br

COMO MANTER VÍNCULOS QUE IMPORTAM?

Fonte: https://pixabay.com/pt/

Como manter vínculos que importam?

A amizade surgiu nas salas de aulas da universidade e desenvolveu-se ao longo dos anos. Visitavam-se regularmente e nas datas festivas juntavam as famílias. A amizade era sólida e assim se manteve ao longo dos anos. Entretanto, no último encontro entre as amigas, elas entraram em conflito frente a disputa por uma vaga de trabalho almejada por ambas. Na discussão foram usadas palavras agressivas. Por fim, antes de se retirar, uma delas disse:

– Você é mal agradecida!

A frase expressava que uma delas sentia a falta de reconhecimento por parte da outra. Não disse que não se importava, apenas que algo não estava bem. Naquele dia as duas se separaram e não sabiam como voltar atrás, porque assim como “a flecha lançada” não há como recolher a “palavra pronunciada”. Entretanto, nenhuma das duas queria terminar a amizade que as unia há tanto tempo.

Desse modo, frente a um conflito, a primeira pergunta é: quero resgatar e manter esse vínculo? Se sim, é essencial começar a pensar: o que fazer? Na situação acima, a primeira oportunidade ambas haviam perdido ao não fazer uma Pausa Estratégica no momento em que surgiu a divergência que culminou no conflito. Entenda-se a pausa estratégica como um ato voluntário de tomar consciência daquilo que está acontecendo para saber o que importa. Muitas vezes, uma curta pausa muda tudo, inclusive evitando que palavras sejam ditas como flechas que machucam e nos afastam das oportunidades. Porém, acredito que “as oportunidades perdidas” nos dão a possibilidade de encontrar e criar novas. A sugestão é que se faça uma Pausa de Alinhamento para analisar qual é a intenção na relação e com o vínculo.

Como fazer uma Pausa de Alinhamento? Uma oração ou uma meditação pode ser entendida como uma Pausa de Alinhamento. Aqui a sugestão para resgatar a relação com a outra pessoa é que o interessado se coloque em estado reflexivo e de conexão consigo e com o outro. Há uma meditação desenvolvida na Universidade de Berkeley que fala de nossa humanidade comum, em que somos convidados a pensar na pessoa com quem tivemos o conflito para lembrar que ela tem um corpo, uma mente e uma busca, assim como você; ela tem sentimentos, emoções e pensamentos, assim como você; ela já esteve triste, desapontada, zangada, magoada ou confusa, assim como você; entre outras reflexões que nos reaproximam pela humanidade compartilhada.

Em seguida, pode-se aplicar a estratégia conhecida como “Saborear as Relações” (Jessica L. Borelli & Belinda Campos) que nos leva a relembrar, a recordar e a resgatar momentos felizes com a pessoa com a qual tivemos uma divergência, mas queremos seguir mantendo os vínculos.

Para “Saborear a Relação” com o objetivo de superar o conflito, sugere-se a geração de memórias positivas existentes com essa pessoa. Depois, selecione uma delas que tenha forte emoção de bem estar e percorra as etapas a seguir:

  1. Reflexão Sensorial: relembre os detalhes da memória escolhida, incluindo diferentes sons, visões, cheiros e muito mais. Qual era a situação e o ambiente? O que aconteceu?
  2. Foco na Emoção: procure reviver as emoções de bem estar associadas à memória. Quais eram as emoções presentes? Por que elas surgiram?
  3. Criação de Significado: resgate o significado associado à memória. O que fez com que o momento fosse importante? Qual o significado dele para você? É possível trazê-lo para o presente?
  4. Foco Futuro: tome consciência das implicações futuras para o relacionamento. Posso e quero criar novas memórias com essa pessoa?
  5. Divagação Mental: permita que outras memórias de bem estar venham à mente. O que mais vale a pena lembrar dessa e de outras memórias com a pessoa?

Enfim, tenha em mente as perguntas acima com o objetivo de se conectar com as emoções de bem estar que criaram os vínculos com a pessoa. Portanto, relembre e rememore os momentos felizes vividos para valorizar, resgatar e manter a relação que importa para você.

Ao final de dois dias, uma delas se aproximou da outra e disse, “Quero falar com você” e a amizade segue forte como sempre.

Moacir Rauber

Instagram: @mjrauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: mjrauber@gmail.com

Home: www.olhemaisumavez.com.br

Adaptado e traduzido de “How to Fully Appreciate Your Loving Relationships”de Jessica L. Borelli, Belinda Campos em Greater Good Magazine, disponível em < https://greatergood.berkeley.edu/article/item/how_to_fully_appreciate_your_loving_relationships?>, acessado em 01-08-24.

DE VOLTA PRA CASA

Fonte: IA BING

De volta pra casa!

O descobridor dos mares preparou seu barco para a maior aventura de sua existência: buscar novas terras no mundo ainda inexplorado. Era o desafio a que se propunha um navegador inglês do século XVIII. Para esse fim, comprou mantimentos para um longo período de viagem em alto mar; revisou os equipamentos necessários para o empreendimento; inspecionou cuidadosamente as velas; preveniu-se com material de reposição para itens que pudessem sofrer avarias; e, finalmente, carregou muitas armas para enfrentar o desconhecido. A viagem começou com toda a expectativa, pois a curiosidade o impulsionava, a coragem o movia e levava a confiança para novas conexões.  Assim, após longo tempo de navegação, de repente, na linha do horizonte o navegador vê algo diferente. Não era a bruma marítima que, por vezes, cria uma ilusão de ótica, era uma elevação terrestre. Ficou extremamente feliz e ansioso com a possibilidade de ser o descobridor de novas terras. Avançou com o seu barco, navegou próximo à costa e, ao longe, avistou uma construção com contornos exóticos que confirmava a sua busca por novas terras. Atracou o barco e, logo, aproximaram-se algumas pessoas com um aspecto diferente. Ele estava fortemente armado, além de estar carregado de tensão e medo. Por isso, fez uma saudação com sinais para começar uma interlocução com os supostos nativos. Surpreendentemente eles o saudaram:

– Bom dia! De onde o senhor vem? (Good morning. Where are you from?)

Ficou espantado ao ouvir a resposta em sua língua nativa, o que lhe gerou sentimentos controversos. Por um lado, sentiu-se triste, incomodado e frustrado ao perceber que não havia descoberto nada novo, porque seguia na Inglaterra. Por outro lado, sentiu-se alegre, acolhido e seguro ao constatar que havia atracado em casa.

Trata-se da proposta de romance que Chesterton (1874-1936) nunca escreveu, porém nos permite uma série de paralelos. O que acontece quando saímos e voltamos para casa no nosso dia a dia? E na nossa vida? Creio que acontece um movimento rítmico, constante e permanente de aventura e retorno desde as situações cotidianas até o final da jornada.

Por exemplo, quando vamos de casa para o trabalho acontece um processo semelhante ao do navegador aventureiro, assim como nas interações com as pessoas que conheço ou com quem ainda falta conhecer, o conhecido e o desconhecido estão presentes. Igualmente acontece ao frequentar ambientes sociais diferentes e novos; ao se conviver com as pessoas do seu ambiente familiar; e, finalmente, ao se reconhecer como responsável desse vaivém, apropriando-se da curiosidade que impulsiona, da coragem que move e da confiança que nos leva a buscar conexões num mundo novo e nele reencontrar a sua própria casa.

Nesse movimento de um ambiente a outro podemos passar pela tristeza e pela alegria; pela incomodidade e pela acolhida; e pela frustração e pela segurança, porém é nesse ir e vir entre a casa e a aventura que se vencem os desafios. Esse processo pode acontecer no trabalho, nas interações sociais, nas relações pessoais e na jornada da vida.

Enfim, Chesterton nos faz um convite para que busquemos novos horizontes em cada relação, situação, trabalho e interação, mas principalmente na relação consigo mesmo e com a vida. Para esse fim, é importante ter os mantimentos e os equipamentos para cada empreendimento do qual se participa, assim como inspecionar e prevenir-se num movimento constante de curiosidade, de coragem e de confiança que se fundamenta no respeito. A abertura para aprendizagem é uma regra que nos oferece recursos para que nos mantenhamos em modo aventura com a segurança da longevidade.

Dessa maneira, a vida será uma aventura em que não necessitamos levar armas, apenas os recursos internos que vão nos garantir que se está numa aventura rumo a nossa verdadeira casa, porque um dia a ela retornaremos.

Moacir Rauber

Instagram: @mjrauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: mjrauber@gmail.com

Home: www.olhemaisumavez.com.br

Com o que você se diverte?

É importante saber…

… que o grau em que as pessoas evoluíram é instantaneamente revelado através do que eles chamam de entretenimento e “diversão”. O que você chama de “entretenimento”? O que você descreve como “diversão”? Como você gasta seu tempo livre? Como você gasta seu dinheiro para entretenimento? Quanta televisão você assiste? Quantos filmes você vê? Em que tipo de programas e filmes você gasta tempo? Quantos livros você leu este mês? Quantos shows você assistiu? Quantos balés você viu? Que tipo de música você ouve?

Alguma dessas coisas importa? Você também pode muito bem se perguntar se importa para o seu corpo que tipo de comida você come, porque a nutrição para a mente não é diferente de nutrição para o corpo.

O que você coloca para dentro da sua mente ou do seu corpo você recebe de volta — triplicado.

Traduzido de Neale Walsh

UMA CRUZ OU UM MILAGRE?

Fonte: IA BING

Uma cruz ou um milagre?

Participava de um evento e estava numa roda de conversa com outras pessoas. Não nos conhecíamos, mas certamente tínhamos alguma busca comum que nos havia levado a estar ali. Enquanto conversava, vi que um senhor me observava, aparentemente, querendo ser discreto. Olhava para mim, para minha esposa e para o lado. Olhava para a minha cadeira de rodas, para minha esposa e para o palco. Deu alguns passos, aproximando-se. E assim foi até que chegou ao meu lado. Fiz de conta que não o havia visto, porque intuía que a conversação com ele poderia ser uma situação embaraçosa. Ele tocou no meu ombro e perguntou:

O que aconteceu? Você nasceu assim? Referindo-se a minha condição de usuário de cadeira de rodas.

Na minha mente “Outra vez”, pensei. Nos quase quarenta anos que estou em cadeira de rodas não sei quantas vezes respondi a perguntas como essas. Nunca me indispus por isso, mas, às vezes, cansa. Educadamente expliquei que havia sofrido um acidente de carro na juventude. O senhor lamentou e considerou:

– Pelo jeito você aceitou a sua cruz!

Ao escutá-lo fiquei sem palavras. Não havia muito a responder, porque certamente a sua visão de mundo era diferente da minha. Ainda assim, a indignação foi o sentimento que nasceu em mim naquele momento. Perguntei-me, como poderia ele saber se era uma cruz? Respirei fundo para retomar a consciência, manter o controle e não dar poder ao outro sobre como me sinto, porque entendo a vida como um privilégio em qualquer circunstância, nunca uma cruz. Estar numa cadeira de rodas é uma cruz? Depende. Pode ser uma cruz, assim como outras situações podem ser. Para muitos trabalhar como farmacêutico, enfermeiro, professor, jornalista ou simplesmente trabalhar é uma cruz, para outros é uma oportunidade. Para muitos estar casado é uma cruz, para outros um sonho. Para muitos ter que levantar cedo é uma cruz, para outros é a chance de se exercitar. E assim poderíamos seguir citando casos em que as pessoas transformam situações que vivem numa cruz existencial. Particularmente, entendo de forma diferente. Nunca sonhei estar numa cadeira de rodas, porém a partir do momento que essa era a minha realidade optei por não a transformar numa cruz. No início, houve dor pelo acidente, tristeza pela irreversibilidade da lesão e luto pela perda que a situação representava. Alimentar tais sentimentos, transformando-os em estado de ânimo, poderia fazer com que o uso da cadeira de rodas fosse uma cruz. O luto é um processo para reconhecer a tristeza e superar a dor num movimento salutar de seguir o caminho com as possibilidades que existem.

Lamenta-se a perda, que é uma verdade; olha-se para as possibilidades, a partir do amor; e se segue em frente, na busca pela paz. Desse modo, a vida nunca será uma cruz, sempre será um milagre.

Moacir Rauber

Passado o impacto inicial da conversa com aquele senhor, aproveitei a presença de um conhecido para seguir em frente. Despedi-me desejando-lhe “tudo de bom”. Ele me respondeu, “Fica bem, sempre pode acontecer um milagre”. Ao escutar a frase, na minha interpretação, ele não havia entendido que o milagre acontece todos os dias quando escolhemos viver a verdade a partir do amor na busca pela paz com aquilo que temos. Entender que usar uma cadeira de rodas me permite ir a lugares que sem ela não posso ir faz com que ela não seja uma cruz, mas uma oportunidade. Assim, eu deixo de ser um cadeirante para ser um usuário da cadeira de rodas. Não me atenho as limitações, mas as possiblidades. Eis o milagre! Quais as possiblidades que a tua situação te oferece? Lembre-se que estar vivo é um milagre, é uma verdade. Manter uma vida ativa com relações sociais e pessoais permite que se viva o amor. Ter a consciência da verdade com amor gera paz.

A sua vida é uma cruz ou um milagre?

Moacir Rauber

Instagram: @mjrauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: mjrauber@gmail.com

Home: www.olhemaisumavez.com.br

AINDA FALTA A METADE?

Metade do ano foi. Olha-se para trás para avaliar o caminho percorrido dentro das metas estabelecidas no início do ano, sejam elas na esfera pessoal, profissional ou social. Para o ano de 2024 estabeleci uma meta pessoal de perfazer um total de 3660 minutos de remo. Ao finalizar a metade do ano vejo que cumpri com o estabelecido, deixando-me satisfeito. Entretanto, a semana seguinte se mostrou pouco produtiva. Recomecei os treinos no primeiro dia do segundo semestre e desisti. A mente que, muitas vezes, nos mente havia vencido a luta interna ao convencer-me de que era um esforço inútil. Ela acrescentava de que eu já havia provado que podia fazê-lo, por isso, para que continuar com essa atividade que exige esforço, dedicação e compromisso? Além disso, os dias nublados, o frio e a chuva eram desculpas para não realizar as atividades programadas. Passou o segundo dia e mais uma vez perdi para mim mesmo e não cumpri com o estabelecido. Cheguei ao terceiro dia e me programei para fazer 30 minutos, mas a mente reforçou toda a minha luta interna no diálogo:

– Vai ler, estudar ou fazer contatos com as pessoas. Vai ganhar a vida e não fique fazendo exercícios que não te levam a nada. Tudo em vão!

Isso depois dos cinco primeiros minutos da atividade. Parece pouco tempo, mas cinco minutos é tempo suficiente para se mudar de ideia e desistir de um projeto, de um sonho ou de uma realidade construída ao longo de meses ou de anos. No momento em que se deixa de dominar a mente pode-se jogar por terra o planejamento feito, os recursos investidos e os sonhos acalentados. Para mim, era o ladrão interior que voltava. Eu queria pensar que já havia feito mais da metade, mas a minha mente insistia em me dizer que ainda faltava a metade. Uma pequena mudança de perspectiva que nos faz ver problemas ou oportunidades.

Observar o suor que começava a se acumular na pele dos braços e na testa depois de cinco minutos, parecia dar toda a razão para a mente. Ao pensar em todo o caminho que ainda faltava para alcançar a meta confirmava o que a mente sugeria, Desista! Você não vai ganhar nada com isso… Eu procurava evitar tais pensamentos lembrando que podia não ganhar nada com a atividade, mas desistir faria eu perder muito.  Seguir na busca pela meta representava um desafio pessoal de manter a disciplina, de garantir a determinação e de mostrar a força de vontade. Porém, a mente transforma o complexo, muitas alternativas, em complicado, difícil de resolver, e cabe a nós não permitir o processo. As situações podem ser difíceis, mas se nós as olharmos entendendo a sua complexidade podemos tirar delas oportunidades. Uma remada a mais e a mente voltou a me castigar, Você mal e mal fez a metade daquilo que te programou e veja quanto sacrifício. Perguntei-me: o que fazer para dominar a mente?

A minha luta interna, assim como a atividade de remo seguia. Parar ou perder o controle da respiração seria decretar o fim da atividade. Inspirei mais profundamente e tomei consciência daquilo que queria no longo prazo. Nessa discussão interna se passaram o minuto seis, o sete e o oito. Mantinha a voga das remadas em trinta e sete repetições por minuto e resolvi que ao chegar no minuto dez subiria a voga para quarenta. Manteria a voga até o minuto vinte, momento em que subiria para quarenta e cinco remadas por minuto. No final do exercício, ainda cansado, tomei a decisão de aumentar a minha meta para 4000 minutos até o final do ano, isso porque na totalização do tempo do primeiro semestre havia feito 1980 minutos. Dessa maneira, o desafio para o segundo semestre seria igual ou superior ao primeiro, sendo suficientemente duro para ser desafiante sem, contudo, ser demasiadamente difícil para torná-lo impossível.

Ainda falta a metade ou já fiz a metade?

Moacir Rauber

Instagram: @mjrauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: mjrauber@gmail.com

Home: www.olhemaisumavez.com.br

PARA ONDE AINDA FALTA OLHAR?

Fonte: BING IA

Para onde ainda falta olhar?

O evento terminava e a sensação de insegurança frente ao mercado de trabalho, às tendências comportamentais e de negócios era grande. Falava-se do mundo singular, disruptivo e exponencial potencializado pelas tecnologias numa interação homem máquina sem precedentes na história da humanidade. Homens e máquinas, juntos, mais inteligentes. As dúvidas de muitos se referiam a qual caminho seguir. Ao final, um dos participantes expôs a sua indagação, quase indignação:

– Para onde ainda falta olhar? Já não sei mais para onde ir…

Ao escutá-lo tive a impressão de que ele representava a perplexidade de muitos ao tocar num tema para o qual não há uma só resposta. Estamos num momento que exige de nós cada vez mais a capacidade de estar abertos a aprendizagem, sabendo que todos ensinamos com aquilo que fazemos ou deixamos de fazer. Por isso é fundamental que estejamos dispostos a olhar para todas as direções com a Curiosidade de uma criança; com a Coragem de um guerreiro; e com a Confiança de um sábio para se Intra-gerenciar. O que fazer? Desenvolver as competências técnicas e de comportamento.

Acredito que desenvolver as competências técnicas é a parte mais fácil, porque basta observar o ambiente em que se circula e seguir o movimento. Por isso, olhe para frente e observe quem está na liderança de sua área. Quais são as tendências? O que eles estão fazendo de bom que você ainda não faz? Aprenda, ajuste e gerencie melhor. Olhe para os lados, perceba o que está acontecendo a sua volta. O que você pode aprender de quem está ao seu lado? O que você ensina para aqueles que estão a sua volta? Compartilhe, aproprie-se e cresça. Olhe para baixo e veja se há alguém por ali. Não deve haver ninguém embaixo de você, porque gerenciar é andar com os outros e não sobre os outros. Olhe para cima e entenda que a nossa atividade está inserida num contexto maior. Gerenciar também é ampliar a visão. Por fim, olhe para trás para saber se ficou alguém por lá. O que aconteceu? Analise os motivos e saiba que a vida organizacional não é uma competição, ainda que sejamos competitivos ao entregar o nosso melhor.

As competências citadas são externas e a isso chamamos gerenciar. Porém, para intra-gerenciar para onde ainda falta olhar? É preciso olhar para dentro de si tendo a Curiosidade como combustível; a Coragem como motor; e a Confiança como atitude.

E quais são as competências para se intra-gerenciar? Ao olhar para dentro de si é possível encontrar as respostas para as nossas inseguranças, assim como as competências para saber a direção do caminho. Isso requer um mergulho dentro de si para se despir de medos que embotam a curiosidade; de preconceitos que acovardam a coragem; de julgamentos que anulam a confiança. Só assim para se despir do desamor e se vestir de amor, levando-nos a despir-nos da tristeza e a vestir-nos de alegria; a despir-nos de ressentimentos para vestir-nos de paz; a despir-nos da impaciência para vestir-nos de paciência; a despir-nos da animosidade para vestir-nos de amabilidade; a despir-nos da deslealdade para vestir-nos de lealdade; a despir-nos da volubilidade para vestir-nos do domínio próprio. Enfim, apresentar tais competências permite que se externalize o mergulho interior e se intra-gerenciar para, finalmente, gerenciar.

Não se trata de utopia. O desafio é introjetar para depois projetar, porque somente se põe para fora aquilo que se tem dentro. Com a competência de intra-gerenciar as demais competências surgem naturalmente, inclusive para saber para onde olhar. Ao dedicar-se a intra-gerenciar elimina-se a incongruência de atuar no ambiente externo sem carregar tais competências no ambiente interno. Portanto, uma pessoa convencional olha para frente, para os lados, para cima, para baixo e para trás para ir em frente. Aquele que se Intra-gerencia olha para dentro com curiosidade para libertar o Ser Humano extraordinário com a coragem e a confiança para seguir na melhor direção.

Intra-gerenciar faz sentido para você?

Moacir Rauber

Instagram: @mjrauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: mjrauber@gmail.com

Home: www.olhemaisumavez.com.br

NO CANTINHO DA ALMA…

Fonte: IA BING

No cantinho da calma

Estava numa reunião pedagógica de professores de uma escola municipal que atende alunos do Ensino Fundamental, onde os professores compartilhavam as experiências nos diferentes momentos de interação com os alunos e entre si mesmos. Um professor comentou sobre um dos alunos de treze anos, que, por vezes, se punha agitado, nervoso e agressivo, descontrolando-se. Numa das ocasiões em que se descontrolou, o professor pediu para que o aluno fosse falar com a supervisora da escola. Nesse momento, a supervisora lembrou do caso e disse que o menino chegou na sala e teve que esperar, porque ela estava em outro atendimento. Na sequência, ela o recebeu sem saber a razão da presença dele:

– Bom dia, como você está? Do que se trata?

Foi uma saudação aberta, carinhosa e acolhedora que desarmou os últimos sinais de agitação, nervosismo e agressividade do menino. O que aconteceu durante o tempo que ele esteve na sala de espera? O menino, ainda que involuntariamente, fez uma pausa. Não se tratava do “cantinho do pensamento”, prática usada que pode representar a punição ou o castigo por algo feito, mas de um momento de tomada de consciência sobre o ocorrido. No período em que o menino esteve só na sala de espera ele teve tempo para se acalmar e repensar a situação, talvez descobrindo que as pessoas não estão umas contra as outras, mas umas para as outras, especialmente os professores. Foi um “cantinho da calma” que o reconectou com a sua alma. E nós, no nosso dia a dia, fazemos uma pausa? Provavelmente, muitos de nós não dedicamos um tempo para uma pausa, seja ela no início da manhã para direcionar as atividades do dia ou durante o dia nas interações com outras pessoas. Sem a pausa, por vezes, as pessoas se tornam agressivas. O trânsito é um exemplo clássico onde as pessoas demonstram irritação, colocando-se os motoristas uns contra os outros na disputa pelo espaço. Os motoristas se esquecem que estão nas ruas em direções diferentes, mas com o objetivo comum se deslocar de um lado a outro. Não deveriam estar uns contra os outros. Nas empresas ocorre um fenômeno parecido em que pessoas e departamentos se colocam em pé de guerra como se não estivessem na organização para cumprir com a mesma missão, apenas com atividades diferentes. Não há inimigos na organização, estão todos no mesmo barco. Nos países, na sociedade ou nas cidades a lógica se repete, seja entre Rio e São Paulo, entre Brasil e Argentina ou entre ateus e crentes ou qualquer classificação que represente uma divisão. Já não temos inimigos naturais representados por predadores. Temos um único inimigo interno que não permite ver que o outro tem as mesmas necessidades e buscas que eu, apenas com atividades diferentes e que escolhe outras estratégias para chegar aonde pretende chegar.

Como terminou a conversa com o aluno? Ao ser indagado pelo motivo da sua presença na sala da supervisora o aluno titubeou um pouco, porém, em seguida foi autêntico, exibindo humildade, coragem e confiança para reconhecer que se comportou inadequadamente. A autenticidade de reconhecer a inadequação do seu comportamento requer a humildade de quem tem a coragem para admitir a própria responsabilidade num momento de descontrole. Ficam as reflexões:  a situação não se desenvolveu como eu quis? O que fazer? Reclamar, maltratar ou agredir resolve? Provavelmente não. Fazer uma pausa pode ajudar a recuperar a consciência e a tranquilidade para atuar sobre aquilo que está no meu controle, porque o outro não é mais o meu predador nem o meu inimigo. Encontre o seu cantinho da calma, porque nas escolas, nas organizações, nas cidades e no mundo nós estamos com as pessoas, para as pessoas e pelas pessoas, pois são elas a nossa razão de existir. O meu inimigo não está do lado de fora, ele está dentro de mim e a pausa pode fazer com que o reconheça para me comportar de maneira a que eu não perca para mim mesmo. É no “cantinho da calma” que se encontra a alma.

O menino de treze anos encontrou um “cantinho da calma” para entender isso. E você, consegue?

Moacir Rauber

Instagram: @mjrauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: mjrauber@gmail.com Home: www.olhemaisumavez.com.br

Somos únicos. Somos múltiplos.