O palco e a fama corrompem?

O palco e a fama podem corromper.
A humildade apresentada pelas pessoas antes do sucesso, muitas vezes, é substituída pela soberba. O palco as faz acreditar que são astros. A fama faz com que se sintam celebridades. Como celebridades passam a esquecer do público. Esquecem-se que eles somente estão no palco e são famosos por causa do público. Também se esquecem que quando não houver público eles não têm palco nem fama. Nesse momento, os corrompidos perdem tudo. É o palco e a fama corrompendo a alma de cidadãos comuns.

A fama, muitas vezes, faz com que esqueçamos que todos somos comuns, ainda que sejamos especiais em nossa unicidade.

Quem cala consente?

Um amigo meu é síndico de condomínio. Ele administra uma receita mensal de mais de R$ 150.000,00. Os recursos são destinados para os serviços de limpeza, segurança, iluminação, jardins e reformas em geral como em qualquer condomínio. Eles precisariam de um serviço de manutenção nos telhados que estavam com vários pontos de infiltração. O meu amigo começou o processo de escolha do fornecedor dos serviços. Fala com uma empresa. Negocia com outra. Por fim, está diante de um orçamento que considerou ser um preço justo e com referências técnicas o suficiente para atestar a sua qualidade. Chamou o responsável da empresa para negociar. Era um homem, que como ele, estava na faixa dos cinquenta anos. Marcaram um café para discutir o orçamento, os materiais, as condições de execução da obra e também de pagamento. Estavam fechando o negócio no preço de R$ 800.000,00. Para o meu amigo era uma fortuna. Para os condôminos seria uma parcela de R$ 350,00 a mais por seis meses. Para o negociador era uma oportunidade.

O negociador da empresa falou:
– Com esse valor eu posso garantir a qualidade do serviço e também um lucro para a empresa… 

Ficou quieto, deixando reticências no ar.
Logo prosseguiu:
Eu tenho outra proposta a lhe fazer…

O meu amigo acreditava que talvez ele pudesse melhorar as condições, estender o prazo ou diminuir o preço.

O negociador continuou:
– O que você acha se nós combinássemos um preço mais alto? Podemos fazer um acerto entre nós, porque isso aqui é uma grande oportunidade para nós ganharmos um extra…
O meu amigo não disse nada. A resposta foi o silêncio. O silêncio constrange. O silêncio grita. O silêncio fala. O silêncio revela. Uma das poucas coisas que o silêncio não é, é silêncio quando se está num diálogo. O meu amigo ficou surpreso. A surpresa o fez ficar em silêncio. Ele não sabia o que dizer. A negociação parecia ser boa para a empresa e para o condomínio. O negociador olhava para o rosto do meu amigo com um sorriso malicioso. Na sua interpretação ele estava diante do clássico, quem cala, consente.

Por isso, continuou:
– A ideia seria subir o preço para R$ 1.100.00,00, por exemplo. Daí eu faço em oito parcelas e nós ficamos com a diferença. Ninguém vai se dar conta que estão pagando umas parcelas a mais. O condomínio é tão grande que na divisão desse valor a mais vai dar tão pouco para cada um. E para nós dá um bom lucro… e seguiu as justificativas para que eles aproveitassem tamanha oportunidade para também fazerem um pé-de-meia.
Meu amigo continuava em silêncio. Por fim, respondeu:
– Realmente se nós repartirmos essa quantia excedente vai dar um valor considerável para cada um de nós. Deixa-me ver… Seria R$ 150.000,00 para cada um, é isso?
– Sim! É isso mesmo… disse o o negociador se animando. Parecia-lhe que seria um dia proveitoso em que embolsaria uma bela soma de dinheiro.

O meu amigo continuou o raciocínio:
– Para os condôminos praticamente não vai fazer diferença nenhuma… e voltou a ficar em silêncio.
O sorriso no rosto do negociador se ampliou. Agora ele estava seguro de que acertara na escolha de fazer a proposta para o meu amigo. Sempre era um risco. Ele não sabia como as pessoas reagiriam frente a oferta. Era evidente que o negócio seria bom para todos. A empresa ganharia. Ele ganharia. O síndico ganharia. E os condôminos pagariam. Um negócio perfeito… ainda pensou.

O meu amigo voltou a falar:
– Não faz diferença para eles…e ficou em silêncio antes de continuar… mas faz para mim. Eu jamais faria algo que um dia pudesse me tirar uma noite de sono… Era um lema que meu amigo usou para resolver um dilema e viver de acordo com os seus valores.
O negociador reclinou-se para trás na cadeira. Ficou gelado. Assustou-se. Entendia agora o silêncio de antes. Não fora consentimento. Fora reflexão. Poderia ser a perda do negócio. Olhou para o rosto do meu amigo que estava tranquilamente em silêncio. Nenhum dos dois se moveu ou falou algo pelos próximos segundos. O silêncio mais uma vez falava tudo.


Quem cala consente? Depende de quem está por trás do silêncio…
Fonte: http://gartic.me/36FLQ

Quem é o bobalhão correndo? Eu e o meu preconceito…

Costumo chegar cedo nos meus compromissos. Nas viagens sempre estou no local bem antes do mínimo de tempo exigido para embarcar. Afinal, um usuário de cadeira de rodas, às vezes, demanda de mais tempo. Com isso aproveito para observar os atrasados correndo para ver se ainda conseguem cruzar os portões. Alguns conseguem. Outros não. O desespero toma conta dos infelizes que perdem o voo. Eu observo, penso e julgo, Quem é esse bobalhão correndo? Como é que pode? Se eles sabiam que tinham uma viagem pela frente por que então se atrasam? Por que não se programam um pouco melhor? O pensamento demonstra um julgamento daquilo que observo e a crença de que as pessoas se atrasam porque são desorganizadas.

Na última semana, mais uma vez fui ao aeroporto com mais de duas horas de antecedência para um voo doméstico. Aproveitei para almoçar com o meu amigo Bob. Conversamos muito durante um almoço completamente relaxado. Estávamos terminando de almoçar e o relógio marcava 1h24min. Ah, tenho bastante tempo. Meu voo somente será às 15h. Mesmo assim é hora de ir. Estou no Terminal 1 e o voo será no 4... Na minha agenda havia marcado o horário de embarque. Não sei porque comecei a pensar onde eu estava, para onde eu queria ir, a distância a ser percorrida e o tipo de aeronave. Havia algo estranho. A conta não fechava. O horário de saída e de chegada estavam muito próximos. Resolvi abrir meu computador e olhar a passagem. Não acreditei no que vi. A hora de decolagem seria às 14h, não às 15h. Havia marcado o horário errado na agenda. Fiquei desesperado. O Bob e eu corremos para o ponto de táxi. “Voei” de um terminal a outro. Paguei a mais pela corrida para não esperar o troco. Corri a toda a velocidade que a cadeira de rodas permitia pelo saguão do Terminal 4 em direção ao balcão da companhia aérea. Fila. Todos as posições ocupadas. Agitei meus braços. Consegui a atenção de uma das atendentes. Gritei meu destino. Ela disse:
– Acabou de fechar. Não embarca mais…
– Não é possível. Não é possível… repeti desesperado, abaixando a cabeça.
Havia perdido o voo. Agora eu sentia na pele aquilo que eu via os outros passarem no momento em que se apresentavam alguns minutos atrasados no balcão de embarque. O meu julgamento era sobre aquilo que eu via, não se dava sobre o que realmente havia acontecido. 

Um dos clientes que estava na fila me perguntou:
– O que aconteceu que você chegou atrasado? Estragou o carro?
Escutei, pensei e fiquei com vergonha de dizer que eu simplesmente me equivocara de horário. Era muita falta de organização. Lembrei de todos os outros dias em que eu simplesmente julgara como desorganizados aqueles que eu via chegarem atrasados. Respondi fazendo um gesto de descaso:
– Deu tudo errado…
E realmente estava dando tudo errado. Eu deveria chegar às 16h na cidade destino, porque teria um compromisso às 19h. Não havia outro voo naquele dia para aquela cidade. O efeito cascata. Quantas pessoas seriam atingidas direta e indiretamente pela minha desorganização. Ao não cumprir o horário do primeiro compromisso, o embarque, deixaria de cumprir o segundo compromisso. Ao não atender o segundo compromisso criaria problemas  para um grupo de pessoas que haviam me contratado para o evento que haviam organizado. Seria uma frustração moral, além dos prejuízos financeiros que também estariam envolvidos. Toda a campanha de divulgação do evento. O aluguel do auditório. A devolução dos ingressos ou a remarcação para outra data. Era uma situação terrível. Mas o que fazer? O que estaria ao meu alcance fazer naquele momento? Nada…

Tudo isso passava pela minha cabeça, quando novamente olhei para a atendente e a vi falando com alguém no comunicador. Ela desligou e olhou para mim:
– Se nós chegarmos até lá em dez minutos eles te embarcam.
Uma luz no final do túnel. Disse:
– Então vamos…
– Você já fez o check in? Ela perguntou.
– Sim, mas ainda não despachei as malas…
– Não vamos fazê-lo. Vamos despachá-las na aeronave. Siga-me… disse ela e saiu correndo.
Corri atrás dela. Logo estava na frente. Furei a fila de embarque. Pedi desculpas. Esbarrei em pessoas. Desculpei-me de novo. Corri feito um louco. Passei pela alfândega. Cheguei no portão. Embarquei. Fecharam-se as portas do avião. Relaxei e quase fui as lágrimas pela emoção de ter conseguido viajar.

Foi então que me dei conta de quão injustos sempre foram os meus julgamentos. Como poderia eu julgar sem saber o que realmente acontecera com as pessoas que chegavam atrasadas ou em cima da hora? Era o meu preconceito. O meu motivo fora realmente fútil. Desorganização pura. Mas e para os outros que eu sempre observara e julgara? O que realmente acontecera? Não tinha a mínima ideia. E quem era eu para julgá-los?

Nesse momento também coloquei-me no lugar das outras pessoas que naquele dia estavam com antecedência no aeroporto. Caso algum deles tenha me observado correndo desesperado pelo saguão do aeroporto pode ter pensado, Mas quem é esse bobalhão em cadeira de rodas correndo de um lado para o outro? Naquele dia o bobalhão era eu.


Pensei comigo, Quando alguém estiver atrasado ou adiantado, julgue menos, Moacir. Você não sabe o que o outro está passando…


Vou ajudar o senhor… Eu e o meu preconceito

Tomava café muito tranquilo. Aproveitava, como sempre, para observar os outros, sabendo também ser observado. O meu alvo era um homem na faixa dos trinta anos, acima do peso com uma barriga saliente, usava óculos fundos de garrafa e que circulava entre as mesas. Parecia ter um comportamento um pouco fora do padrão. De repente ele saiu do restaurante. Pensei que ele tivesse terminado o café. Em seguida, vejo entrar duas mulheres muito bonitas, cada uma dirigindo-se para uma mesa. Para minha surpresa, o meu observado entrou logo atrás delas. Ele foi em direção a uma delas e apresentou-se. Ao pegar a sua mão ele deu um beijo de galanteio de forma bastante exagerada. Foi muito estranho. Depois ele começou a falar com um dos atendentes do restaurante. Naquele momento decidi que era hora de eu ir embora. Manobrei minha cadeira de rodas para sair da mesa e dar a volta pela lateral do restaurante, onde estavam as rampas de acesso. Nisso, observo o meu observado caminhando em minha direção. Não pensei que ele me abordaria, por isso continuei em direção a saída. Ouvi alguns passos rápidos e logo a indagação:
– Eu vou ajudar o senhor…

A minha visão periférica indicava quem estava ali. A reação imediata foi de susto que só não foi mais rápida do que o impulso que dei nos aros de tração da minha cadeira de rodas. Saí quase voando dali. Eu já havia pré-julgado aquele rapaz como estranho. Sem conhecê-lo não lhe dei a chance de ajudar. Julguei-o. Isso é preconceito!

É do outro lado…

Quem de vocês já teve a oportunidade de ver alguém fazer um gol contra? Provavelmente todos. Mas quem de você já viu alguém fazê-lo por vontade própria, como um ato deliberado? Nunca tinha visto… É uma história!

Todos estavam posicionados esperando o arremesso de lance livre do nosso adversário. A tensão subia nesses momentos. A nossa equipe na torcida para que a bola não entrasse. Os adversários torcendo para que ela entrasse. Todos atentos ao movimento do lançador. Ele concentrou-se, preparou-se e arremessou… A bola percorreu todo o caminho acompanhada pelos olhares atentos de todos na quadra… Caprichosamente ela quicou no aro e subiu. Todos continuaram olhando para a bola. Na trajetória de descida os olhares fixos na bola que parecia que entraria… Incrível! A bola quicou uma segunda vez no aro e não entrou. Ela voltou para a área de jogo. Nesse momento os meus colegas de equipe estavam mais bem posicionados e um dos meus amigos agarrou a bola com toda a força. Deu um grito pela conquista. Não, não foi um grito. foi um urro… Os adversários se afastaram para voltar para a defesa e assim evitar o contra ataque. Os colegas de equipe se movimentaram para aproveitar a possibilidade do contra ataque. O meu amigo ficou sozinho em frente ao cesto e de frente para a tabela. Deu uma olhada para os lados e deve ter pensado, Que maravilha, estou sozinho… Olhou novamente para a tabela, preparou-se e não teve mais dúvidas…  Fez um arremesso perfeito com a bola batendo no quadrado da tabela e descendo diretamente entre os barbantes do cesto. O meu amigo fez o movimento para vibrar com a perfeição do arremesso e os dois pontos anotados… Porém olhou para o banco de suplentes e viu a cara de pânico do técnico e dos colegas. Olhou para o restante dos jogadores em quadra que estavam todos paralisados, colegas e adversários. Foi nesse momento que ele percebeu que havia sim feito dois pontos, mas para a equipe adversária. O arremesso perfeito fora feito contra a própria equipe. 

Não foi um gol contra, mas foi um cesto contra. O nosso alvo estava do outro lado… Ainda bem que aqueles dois pontos não influenciaram no resultado do jogo. A nossa equipe venceu e o meu amigo foi um dos cestinhas. Ficou mais uma história… E ficaram muitos amigos!!!


Gabriel, um campeão!!!

Despeço-me de Portugal pela segunda vez. Na primeira oportunidade fiquei aqui por mais de dois anos e pude aproveitar o tempo para conhecer lugares, visitar cidades, vinhas, museus, teatros e conhecer pessoas. Muitas pessoas! E foram essas pessoas que fizeram com que eu quisesse voltar para Braga. As pessoas do basquete sobre rodas foram essenciais e eu sempre as lembrarei como a “minha equipa”. São pessoas que estão fazendo a diferença para outras pessoas ao fazerem as apresentações em colégios e instituições educacionais. Relatei no post Estereótipos, conceitos e preconceitos a importância dessa atividade. Para mim, a APD de Braga que dizer Associação de Pessoas com Decência. Isso mesmo. Com a decência de quererem fazer um mundo melhor.


Homens ou máquinas?

Estava em frente ao hotel e conversava com o pessoal que está por ali sempre à disposição para buscar o carro na garagem ou chamar um táxi para os clientes do hotel. Eles são muito prestativos. Estão sempre atentos e à disposição para uma coisa ou outra. Para algumas pessoas isso gera uma certo desconforto pela abordagem um pouco afoita demais. Olhei para o lado e vi sair um hóspede. Ele caminhava meio distraído com o celular na mão. Imagem tão comum nos dias de hoje. O rapaz ao meu lado foi ao seu encontro:
– Bom dia, você quer um táxi?

O rapaz com o celular na mão assustou-se. Olhou para o rapaz que o abordava e também para os lados revelando um movimento meio desconfiado. Logo se recompôs e respondeu:
– Não, não obrigado.
– Posso lhe ajudar em algo?
– Não, agradeço. Vou usar o aplicativo aqui… e dispensou de forma meio brusca a oferta.
O cliente do hotel usou o aplicativo do celular para chamar o táxi. Ele fez uma clara opção em confiar na máquina não nos homens.

Fica a pergunta: por que cada vez mais a pessoas optam pelas máquinas ao invés dos homens?

Somos únicos. Somos múltiplos.