Todos os posts de Moacir Rauber

Moacir Rauber acredita que tem "MUITAS RAZÕES PARA VIVER BEM!" porque "MELANCOLIA NÃO DÁ IBOPE". Também considera que a "DISCIPLINA É A LIBERDADE" que lhe permite fazer escolhas conscientes, levando-o a viver de forma a "QUE POSSA COMPARTILHAR TUDO COM OS PAIS E QUE TENHA ORGULHO DE CONTAR PARA OS FILHOS".

Remar também é poesia…

Antes de partir,
como de praxe,
tivemos que nos despedir.

Sequer havíamos começado a remar,
mas os sentimentos brotavam sem parar…

Veja a preciosidade de poesia,
escrita pelo Antonio,
daquilo que nos movia
ainda antes da travessia!
Moacir
Ela está ali, serena, majestosa…
Nos leva a pensar no que faremos,
juntos…
Ali nos espera, graciosa…

Há tempos planejamos,
simulamos, treinamos.
Agora ao alcance do seu cheiro,
do seu encanto,
aqui estamos….

Olhos atraídos por seus horizontes,
imensos…
Sentidos aguçados por sua sedução…
tensos…

Lagoa dos Patos,
Lagoa dos cisnes
Lagoa dos homens,
dos ventos, do Sol…
Lagoa do sul!

Será que ela sabia
que iríamos abordá-la?
Haveria preparado algo especial
para nós?

Por ora, a luz do lampião
e da lua
clareiam a conversa animada,
enquanto cheiros e sabores
entre risos acalmam nossos corpos…
porque nosso ser,
nosso espírito,
estes estão tremendo,
na ânsia do alvorecer!

Olho a noite:
a beleza da lua embriaga,
miles de estrelas
hipnotizam,
mas aquelas nuvens avisam:
Logo vem o Nordestão!

Vamos dormir com a certeza
do encontro marcado com ela,
Lagoa dos Patos, costa leste,
simplesmente bela…

Antonio Schuster


 Precisa dizer algo mais?


Justo… Muito justo!

Os aeroportos oferecem um ambiente bonito, confortável e acessível para usuários de cadeiras de rodas. Por isso, cada vez mais é comum ver pessoas com deficiência circulando tranquilamente por eles. Num aeroporto eu me desloco como qualquer um. Sinto-me um igual e isso é maravilhoso! Embora tenha gente que faça de tudo para parecer diferente o que os deixa iguais, uma vez que diferentes nós somos naturalmente. Xiii, viajei… Isso é outra conversa!

Ao entrar na área de embarque a fiscalização também é feita regularmente. Os procedimentos são um pouco diferentes, mas são feitos. Tenho que passar ao lado do detector de metais e sofro uma vistoria isolada. Às vezes sou levado para um quarto separado onde dois agentes me revistam. Outras vezes fazem a revista ali mesmo, à vista de todos. Normal e necessário, porque nunca se sabe que tipo de psicopata pode se esconder numa cadeira de rodas… Quase me senti um na semana passada. Cheguei no raio-x e despachei minha  inseparável mochila que vai dependurada na parte de trás da cadeira. Eu fui chamado pelo agente para a vistoria. Passa o detector de metais, a mão nas costas, nas pernas, verificam a barriga e os braços. Tudo certo. Voltei para o lado de onde a mochila saiu da esteira para pegá-la. Nisso um agente olha pra mim e diz, Espere um pouco. O senhor tem uma faca na mochila. Eu fiquei espantado, porque não carrego facas comigo. Respondi, Não, não pode ser… Pensei um pouco, Ah, pode ser a bomba… de chimarrão… Logo me lembrei de uma piada que sempre se conta sobre esse episódio. Mas ali era real. Não fosse o ocorrido ser em Porto Alegre, provavelmente, minha resposta seria constrangedora. Ali somente a situação era. Eu levava uma cuia e uma bomba na mochila. Ele respondeu, Não, é uma faca com cabo e lâmina. Por favor, retire-a da mochila!, falou dirigindo-se a outro agente. Eu ali me sentindo completamente o próprio terrorista imaginando o que se passava na cabeça dos agentes e também das pessoas que acompanhavam a cena. Deveriam imaginar que eu bem poderia ser um maluco… Um usuário de cadeira de rodas que andava com uma faca na mochila… Não seria nada de mais se também carregasse literalmente uma bomba na cadeira… O agente começou a revistar a mochila e apareceu a bomba do chimarrão. Só pode ser essa coisa… Pensei comigo. Ele continuou verificando-a e meteu a mão até o fundo e trouxe de lá uma faca com bainha e tudo. Eu não acredito…É a minha faca preferida. Como ela está na mochila? Foi então que me lembrei que eu a  levara para o acampamento da semana anterior e eu não a retirara da mochila. Na pressa para arrumar as malas para viajar peguei a mochila e meti algumas roupas e outras coisas dentro.

Assim, passei por apuros como qualquer outro no aeroporto.

E ainda por cima perdi a faca. Justo… Muito justo!

REMAR É PRECISO! A expedição…

O processo de transformar uma simples ideia, um devaneio ou um sonho em algo palpável é interessante. Exige esforço, dedicação e trabalho em equipe. Qualidades e cuidados que sempre estiveram presentes na concepção, no desenvolvimento, no planejamento e na execução da Expedição Remar é Preciso! Viver é Diversidade!

  
Por que
Remar é preciso, viver é diversidade?
Porque se cumpriu com um desafio integrando pessoas com e sem deficiência e jovens e adultos ao percorrer um trajeto de mais de 200km em barcos a remo na Costa Leste Lagoa dos Patos. A pluralidade do grupo demonstrou que é justamente na diversidade que reside a força e o diferencial de Ser Humano. A precisão requerida no exercício da remada em harmonia com a aceitação da diversidade foi fonte e estímulo de vida e de superação!
 Precisa-se de Planejamento!!!
Onde estamos?
Para onde  queremos ir?
Sim, para cumprir com um desafio dessa envergadura se faz necessário o cumprimento de alguns passos. Considere-se que o objetivo principal sempre foi o lazer, devendo ser, portanto, divertido sem abrir mão da segurança. Para esse fim o planejamento é fundamental!

A primeira pergunta importante que nos fizemos: é viável?

A viabilidade física para o esforço que seria despendido na realização do percurso: estaria ela dentro dos limites daqueles que pretendiam cumpri-lo?
Com isso em mente desenhamos nossa primeira aventura, que no Rio Grande do Sul se traduz por Indiada. Ela foi realizada em maio de 2012 e está registrada Indiada 1: Remar 40km num dia…

A viabilidade de recursos foi a segunda pergunta: teríamos nós recursos financeiros, materiais, de equipamentos e de conhecimento para cumprir o trajeto? Os recursos com relação a equipamentos, barcos, remos e outros essenciais existiam, fornecidos pela Academia de Remo Tissot e também de propriedade do Antonio Schuster.

Depois fizemos a Indiada 2 em junho de 2012 vistoriando o trajeto e avaliando o percurso desde o ponto de partida até o ponto de chegada!
Buscamos o PONTO DE PARTIDA!!!  Indiada 2: o ponto de partida!  porque o ponto de chegada nós já conhecíamos…
Mas também teríamos que nos testar numa situação real de remadas na Lagoa dos Patos!!!
Assim fizemos a Indiada 3 em novembro de 2012 – a Lagoa do Patos registrada aqui
Também foram desenvolvidos equipamentos contando com o apoio da FREEDOM (http://www.freedom.ind.br) e experiência em mecânica e projetos do Antônio Schuster da Manivela – Acessórios para motos (http://www.manivela.com.br). Surgiu uma cadeira especialmente para o desafio. Era imprescindível!!! Veja…

Por fim, mantivemos contato com a equipe Rastro Selvagem para que fizessem o apoio por terra para a Expedição. 

Todo esse histórico de concepção, planejamento e desenvolvimento nos possibilitou a construção da expedição para que percorrêssemos os mais de 200km remando pela Costa Leste da Lagoa dos Patos. Não faltava mais nada!!! Apenas remar…

O planejado foi executado? Nem sempre…

Tivemos dificuldades? Muitas…

Foi desafiador? Extremamente…

Foi prazeroso? hum…

Cumprimos com tudo o que nos havíamos proposto? Depende do ponto de vista…

Encontramos o que procurávamos? E também o que não procurávamos…

Depois deste post apresentarei, semanalmente, os sete dias da expedição pela Costa Leste da Lagoa dos Patos. Incluirei imagens e passagens da maneira como ocorreram, a partir do meu olhar…

Eis o ponto de partida!
Daqui até o nosso ponto de chegada tínhamos mais de 200km de água…

Até breve!

Falar com pessoas como pessoa…

Moacir Rauber
Iniciar o ano com um evento falando das expectativas das pessoas é uma ação apropriada. O evento estava programado naquela grande empresa. Tudo organizado. O público já havia chegado. Tratava-se de uma das líderes de seu setor, sendo composta por inúmeras unidades. O evento contava com a presença de mais ou menos 200 pessoas. Um pouco antes de seu início chega uma notícia extraordinária, o executivo maior da organização estaria na sua abertura. Um leve frisson toma conta do ambiente. As pessoas da comissão organizadora ficam em polvorosa. A responsável pelo cerimonial estava nitidamente nervosa. Ela se aproxima de mim e diz, Eu sempre fico nervosa na abertura de qualquer evento. Meu Deus, agora imagina como estou sabendo da presença do nosso CEO… Olhei para ela e disse, Fica tranquila. Ele é apenas uma pessoa como você e como eu… Pode até ser, mas sabe-se muito bem que o que ele representa é muito mais do que isso, pois carrega uma imagem de responsabilidade que impacta cada componente da organização por ele comandada. Ali não era diferente. A ansiedade era geral. Era um evento que tinha como foco as pessoas que de repente se transformou num acontecimento. Seria a primeira vez que o CEO visitava aquela unidade. Os organizadores estavam amontoados num dos cantos do palco. Eu, que seria o palestrante do dia, entre eles. Começou o burburinho na entrada do auditório… Logo em seguida o chefe maior da organização irrompe no auditório. Dirigiu-se diretamente até a primeira fileira, sentando-se no canto do lado oposto de onde nós estávamos. Pronto…  Ele havia chegado. O evento podia começar. A moça do cerimonial pegou o microfone e começou a falar. A sua voz tremia, mas manteve o controle. Conseguiu fazer até uma brincadeira. Apresentou o CEO. Este pegou o microfone e passou a falar sobre a importância da realização daquele evento. Destacou que a organização somente era uma líder em seu segmento porque ela era composta por pessoas. Também afirmou que ele gostaria que aqueles que estivessem nela trabalhando o fizessem por livre e espontânea vontade e não porque não tivessem outra opção. Continuou a falar por uns 20 minutos sobre a empresa, os desafios, as vitórias e as conquistas, reafirmando a importância das pessoas nessa construção coletiva. Eu observava tudo e concordava em gênero, número e grau com aquilo que ele dizia. Por fim, terminou a sua fala. Entregou o microfone para a responsável pelo cerimonial. Virou-se e foi embora… Sequer viu que havia uma pessoa por trás do microfone. Da mesma forma como entrou, saiu. Não estendeu a mão para nenhum dos presentes. Assim que ele deixou o local parece que o evento se esvaziou. Inicialmente instalou-se um silêncio absoluto. Pairava no ar uma certa perturbação. Estavam todos perplexos.  Creio que se indagavam, Será mesmo que o nosso CEO esteve aqui? Depois começaram alguns sussurros e comentários. Por fim, os organizadores se recuperaram do baque e deram sequência a programação.

Se por um lado concordei com o conteúdo da fala do CEO, em que destacou a importância das pessoas numa organização, afirmando que uma não existe sem as outras, por outro lado as suas atitudes desfizeram a elo entre o discurso e a prática. As pessoas da comissão organizadora que ali estavam esperavam a deferência de um aperto de mão. Ou no mínimo que ele as tivesse visto, feito uma saudação. Não se trata de bajulação. Trata-se de respeito. Ninguém questiona o fato de que o CEO não tenha permanecido no evento, porque afinal ele precisa fazer a máquina girar. Questiona-se a distância entre falar de pessoas e interagir com as pessoas. Ele representa a todos, sim, mas sem os representados que importância ele tem? Falar de pessoas é fácil, porém agir como um simples ser humano parece ser um pouco mais difícil, embora ninguém seja mais do que isso. 

Por isso, se for falar de pessoas para pessoas há que se comportar como tal. Caso contrário é melhor não aparecer…

Remar é preciso…

Uma longa jornada começa com o primeiro passo… No nosso caso começou com a primeira remada!

Durante sete dias tive o prazer de remar pela Costa Oeste da Lagoa dos Patos num trecho de 220km. Foi demais!!!

Fiquei marcado pelas imagens, pelas belas paisagens e pelo contato com a natureza, às vezes exuberante outras vezes nem tanto. Porém, as marcas mais profundas vieram do convívio com as pessoas que também fizeram o caminho.

Remei com um jovem de 17 anos, Wagner Rauber. É aprendiz por ser novo, mas também nos ensina muito pela disposição, energia e vontade constante de ajudar. Certamente, ao seguir estes passos será um mestre, como meu amigo Oguener Tissot, 31 anos. Uma das primeira amizades que fiz ao chegar a Pelotas e que a cada dia tem demonstrado que o mestre se faz no caminho, na procura e na propensão de sempre aprender para com isso ensinar. Não tenho dúvidas que chegará a ser sábio, se já não o é, como o amigo Antônio Schuster, 59 anos. A idade somente aparece na identidade porque o corpo e o espírito continuam como o de um jovem aprendiz, com a vocação de continuar aprendendo, demonstrando com a sua humildade aquilo que se pode definir como sabedoria.

Agradeço a vocês, meus amigos, pelo prazer da jornada que foi coroada com a alegria da equipe Rastro, apoio por terra, que serviu para reanimar o espírito e a vontade de continuar.

Obrigado a vocês, meus amigos, por permitirem que este sobrevivente desfrutasse da maior aventura já realizada.

Foi um privilégio!!!

Remar é preciso, viver é diversidade!!!

Em breve fotos e vídeos da Indiada…

 

Portas abertas em 2013!

Hoje pela manhã saí de casa e fui até o posto onde vou quase  todos os dias. Algumas vezes vou buscar um jornal, outras vou tomar um café ou aproveito para usar o caixa eletrônico lá instalado. Para entrar na loja de conveniência há uma porta enorme de vidro temperado com duas faces. Para um usuário de cadeira de rodas ela exige um pouco mais de esforço para ser aberta, mas nada exagerado.  Aproximei-me da porta e vi uma pessoa ao meu lado que se antecipou e abriu uma das suas faces para mim dando-me a passagem. Olhei para dentro da loja e vi outra pessoa abrindo a outra face porta oferecendo-me igualmente a passagem. Escancararam toda a porta e eu pude entrar na maior tranquilidade. Agradeci sinceramente dizendo, “Que muitas portas também se abram para vocês em 2013!”. Entrei, fiz o que tinha que fazer e ao me aproximar da porta para sair abri uma das faces da porta. Vi que se aproximava uma pessoa e foi a minha vez de oferecer a passagem. A pessoa agradeceu-me a gentileza e depois acrescentou, “Desejo que 2013 lhe abra muitas portas abertas!”. Emocionei-me… Fiquei encantado com a coincidência! Abriram uma porta para mim. Abri uma porta para outro. Dei-me conta de que as pessoas ajudando pessoas tornam a vida mais simples, fácil e prazerosa. Assim acredito que o mundo pode ser bem melhor!

Desejo que cada um possa encontrar portas abertas, mas sobretudo que possa abrir portas para os outros. Tenha a certeza de que o universo retribui!

FELIZ 2013!
Moacir Rauber

“Ajude-me a lembrar…”

Moacir Rauber

No dia de ontem tínhamos nos programado para revisar os barcos e equipamentos que serão utilizados na travessia da próxima semana na Lagoa dos Patos. A ideia era sair daqui do centro da cidade e nos deslocarmos até o clube para fazer uma última modificação no barco. Precisávamos levar a caixa de ferramentas e também a furadeira. No dia anterior, enquanto combinávamos o horário em qua faríamos os ajustes juntamente com o técnico, olhei para o meu sobrinho e disse, “Ajude-me a lembrar para que levemos a furadeira…”. Ele me deu uma olhada e a nossa comunicaçao ficou por ali. A caixa de ferramentas já estava no carro…

No dia seguinte, no horário marcado, saímos de casa, passamos pela casa do técnico e fomos ao clube. Lá chegando começamos os ajustes de algumas peças e partes do barco. Na hora de arrumar o flutuador precisávamos da furadeira. Olhei para meu sobrinho que me confirmou com os olhos aquilo que eu já tinha certeza. Havíamos esquecido a furadeira. Não, não havíamos esquecido… Eu havia esquecido a furadeira!!! Da forma como eu me dirigi ao meu sobrinho a responsabilidade continuava sendo toda minha, porque ajudar quer dizer contribuir para que alguém faça algo. Não se trata de fazer. Não transferi a responsabilidade para ele, mas ao mesmo tempo o meu cérebro se desvinculou de tal compromisso.

Por isso, pedir para ajudar a lembrar é uma maneira eficiente de se esquecer…

Hoje eu ganhei…

Moacir Rauber

Sabe aqueles dias em que você acorda e tem a certeza de que tudo vai dar certo? Pois é, hoje foi assim que acordei, apesar de ser um dia como qualquer outro. Não havia nada de especial para acontecer, exceto o final do mundo (21-12-12). Mas ele não aconteceu, pelo menos até agora… Levantei, tomei chimarrão e café com meu sobrinho e fui para minhas atividades. Abri os e-mails. Muitas mensagens de final de ano, entre elas algumas muito especiais, enviadas com todo cuidado para um destinatário específico ou como parte de um grupo exclusivo que entende uma linguagem comum. Porém, a grande maioria delas enviadas a rodo, tipo produção em massa, revelando o pensamento do autor, Enviarei uma mensagem para todo mundo e me livro disso de uma vez por todas…”. Mas o que quero contar é outra coisa. Saí por volta das 11h, uma vez que tinha um compromisso. Encontrei o senhor que trabalha no prédio ao lado com quem converso quase todos os dias. Ele me disse, O senhor já levantou? Vai sair para dar um passeio? Pela enésima vez me fez as mesmas perguntas revelando a mesma ideia, “O doentinho também precisa sair um pouco para espairecer…” Confirmei, entretanto me propus a não explicar pela enésima vez que eu levanto todos os dias antes das 7h, que o meu trabalho é feito em casa na maior parte das vezes e que eu não vou sair para passear, mas sim para atender a um compromisso assim como qualquer outra pessoa também faz. Não valeria a pena, porque no modelo mental daquele senhor com mais de 70 anos um usuário de cadeira de rodas não tem condições de fazer nada. Deve pensar, “Imagina se ele trabalha… Lógico que não!”. Troquei mais algumas palavras com ele e fui em frente. Sairia para o meu compromisso, mesmo sendo hoje um dia próximo ao Natal. Esses dias são propícios para se expressar os bons sentimentos. Já tive algumas experiências curiosas nesse período, como aquela em que a mulher me olhou, deu-me um abraço, desejou Feliz Natal e depois acrescentou, “Tão jovem, tão bonito e aleijado!”. Já faz um bom tempo, mas ficou registrado. Hoje eu estava saindo de casa vacinado contra todo e qualquer tipo de situação. Nada me tiraria do sério… Lá fui eu. Com meu péssimo senso de localização saí de casa na direção contrária da rua para onde eu iria. Fiz uma volta maior do que a necessária e peguei um trânsito congestionado. Fiquei ansioso, porque mesmo tendo saído com antecedência estava correndo o risco de chegar atrasado. Impensável na minha concepção! Compromisso assumido, compromisso cumprido… Finalmente consegui me livrar do trânsito e chegar ao local. Estava chovendo. Estacionei o carro e comecei a montar a minha cadeira, mesmo com a chuva. Nisso chega correndo um senhor oferecendo-se para me ajudar e já foi metendo a mão na minha cadeira que ainda estava sem as rodas. Disse-lhe, “Olha, pode deixar que eu mesmo monto a cadeira, porque as peças estão na ordem certa. É fácil para mim…” Ele me olhou e retrucou, “Não, não… Pode deixar que eu arrumo. A cadeira está estragada? Onde estão as rodas?” Virando para lá e para cá o chassi da minha cadeira que estava em suas mãos. Fiquei irritado, mas comentei comigo mesmo, “Calma, calma…Hoje não!” e falei para o senhor, “Não tá estragada, tá tudo certo. O senhor pode deixar a cadeira aí onde ela estava que ainda falta eu colocar as rodas nela. É rapidinho…” Ele ficou olhando para a parte da cadeira que tinha nas mãos sem entender muita coisa. Ainda tentou insistir. Retruquei que com a cadeira ele não poderia me ajudar, mas aceitaria a sua ajuda com o guarda-chuva que ele tinha. Finalmente ele pôs a cadeira de volta em seu lugar e eu pude terminar de montá-la. Por outro lado, ele pode me ajudar usando o seu guarda-chuva evitando que eu me molhasse todo.

Sim, hoje eu ganhei, porque não disse aquilo que tive vontade de dizer. Na hora me veio à mente, “Escuta aqui, se o senhor não sabe ajudar então pelo menos não atrapalhe…”. Certamente seria uma grosseira sem tamanho. Não falei. Na verdade ao não falar de forma agressiva eu ganhei, porque exerci meu autocontrole. Ao final recebi a ajuda ao não me molhar e pude contribuir com a boa vontade daquele senhor. Depois, terminamos  por ir ao mesmo lugar, onde tivemos que esperar e conversamos por um longo tempo. Fiquei sabendo que um sobrinho dele recém se tornara paraplégico num acidente de moto. Assim, também pude ajudá-lo com a experiência já acumulada nos 26 anos em que sou usuário de uma cadeira de rodas.

Finalmente posso dizer que hoje eu ganhei muito. Ganhei porque aprendi comigo mesmo. Com isso o Natal será mais feliz!!!