Moacir Rauber acredita que tem "MUITAS RAZÕES PARA VIVER BEM!" porque "MELANCOLIA NÃO DÁ IBOPE". Também considera que a "DISCIPLINA É A LIBERDADE" que lhe permite fazer escolhas conscientes, levando-o a viver de forma a "QUE POSSA COMPARTILHAR TUDO COM OS PAIS E QUE TENHA ORGULHO DE CONTAR PARA OS FILHOS".
O
vendedor de flores era um veterano na arte de argumentar para concretizar as
vendas. Finalizava mais um dia e ainda tinha um buquê de rosas e outro de
cravos. Aproximou-se de um empresário que estava a caminho de casa e disse:
–
Que tal um belo buquê de rosas para surpreender sua esposa?
– Não tenho esposa, respondeu o empresário, rispidamente.
–
Então que tal alguns cravos para sua namorada? Propôs o fornecedor sem perder o
humor.
–
Não tenho namorada.
O
vendedor abriu um grande sorriso e falou:
– Você é um cara de sorte! Compre os dois buquês para comemorar!
– Ahh, prefiro os cruzamentos onde tem rotatória. Eles
são mais rápidos.
O segundo responde:
– Eu também. Só acho que eles são mais inseguros.
Há uma verdade e uma mentira no diálogo fictício acima. Recentemente assisti uma live de Victor Hugo Montalvo que apresentou o raciocínio fazendo uma analogia entre os semáforos e as rotatórias na gestão. Primeiro, as rotatórias fazem o trânsito fluir mais rapidamente é verdade. Segundo, eles são mais inseguros não representa realidade. E o que pode haver de mais profundo na analogia que se propõe para as organizações? A diferença entre a forma de gestão de comando e controle e a gestão flexível, colaborativa e autorregulada.
Muitos cruzamentos nas cidades são organizados entre
semáforos e rotatórias. Cada modalidade tem as suas características. Nas
organizações não é diferente. No semáforo estão institucionalizadas as cores
como ponto de controle para os usuários. Quando você se aproxima do semáforo e
o sinal está vermelho é uma ordem de parar. Quando o sinal está amarelo é um
alerta para diminuir a velocidade e parar. Quando o sinal está verde a
indicação é para seguir em frente. É o comando e o controle que determinam o
que você vai fazer e como vai fazer. Na rotatória há uma lógica diferente. Ao
se aproximar dela você verá a placa de “Pare” para que o motorista observe a
presença de outros veículos em circulação, que terão a preferência, ou a
passagem de pedestres, que igualmente deve ser respeitada. Fica evidente que
você tem a autonomia da decisão. Por isso, são duas concepções da engenharia de
trânsito com lógicas bastante diferentes. Nas organizações elas também existem.
No exemplo do semáforo, a gestão do comando e controle está
na sua concepção e acredita-se que seja ainda o modelo dominante numa grande
maioria das organizações. Funciona? Sim, porém é menos produtiva, menos
eficiente e gera mais frustrações. A gestão comando e controle termina por
diminuir a criatividade, a inovação, o engajamento e a produtividade. Quando o
sinal está vermelho não importa se não há trânsito vindo da outra direção, você
simplesmente fica parado. Pode parecer cômodo, porém é frustrante para um
indivíduo que busca autonomia. Analogicamente, na organização, não importa o
que esteja acontecendo no setor ao lado, você não faz nada porque não é sua
responsabilidade. Pode ser fogo, uma ideia, o cuidado com um equipamento ou a
colaboração para com alguém que não conseguiu cumprir um prazo, você não vai
ajudar porque o sinal está vermelho.
Na exemplo da rotatória, a gestão tem outra perspectiva: a autorregulação parte da flexibilidade e da ação colaborativa dos indivíduos que precisam entender o sistema como um todo. Esse modelo gera mais engajamento, porque é fundamental ter atenção naquilo que se faz e os seus reflexos; estimula a criatividade e a inovação, uma vez que você não é obrigado a ficar parado porque a autonomia lhe é dada para a tomada de decisão; consequentemente, a produtividade é afetada positivamente. Pode parecer incômodo e inseguro, mas a assunção de responsabilidade gera a sensação de autonomia e envolve a pessoa na construção de uma relação segura com os demais. Tem-se pessoas mais satisfeitas.
Portanto, entende-se que no momento vivido, as nossas organizações requerem uma mudança de postura na gestão das pessoas que as compõem. Migramos de um modelo industrial para a gestão do conhecimento na sociedade do sentido. Há uma tendência, o que não anula o uso de diferentes soluções para cada problema. Semáforo ou rotatória? É preciso fazer sentido. Pergunte-se: faz sentido estar parado enquanto se pode mover? Se não faz para você, use a sua criatividade e inove num processo de autorregulação responsável. É importante dar o espaço e a vez para o outro se deslocar? Se você julga que sim, seja bem-vindo a Sociedade 5.0 em que tudo que se faz ou se deixa de fazer deve fazer sentido.
No outono os índios fazem as provisões para o inverno. Antes de iniciar
o trabalho eles se dirigiram ao seu novo chefe para saber se o inverno seria
muito rigoroso ou não. O jovem chefe, criado na modernidade sem conhecer os
sinais da natureza, por precaução, disse aos índios:
– Sim, teremos um inverno rigoroso!
Eles começaram a trabalhar. Armazenavam alimentos e recolhiam muita
madeira para o inverno. O chefe ficou meio constrangido com a situação e
resolveu tirar as dúvidas com o pessoal da estação meteorológica que disseram
que o inverno seria bastante frio. O chefe voltou para a aldeia e disse para
que os índios recolhessem mais lenha e armazenassem mais comida. O ritmo de trabalho
foi aumentado. Algum tempo depois o chefe voltou a falar com os meteorologistas
que destacaram que o inverno será “bastante rigoroso” com muito frio.
De volta à aldeia o chefe disse aos demais índios que o frio seria intenso
e, por isso, seria importante fazer mais provisões para o inverno terrível que
se aproximava. Mais algumas semanas adiante em nova conversa do chefe com os
meteorologistas eles disseram:
– Olha, nós acreditamos que teremos um dos invernos mais rigorosos da
história!
O chefe indagou:
– Mas como vocês podem ter certeza disso?
Os meteorologistas, que do lato da montanha sempre observavam os índios
com um binóculo, responderam:
– É que os índios estão recolhendo lenha feito loucos…
Como será o seu inverno? Nas regiões em que as estações do ano são definidas se sabe que o inverno virá, mas o nível do rigor será somente uma previsão. E as previsões podem acontecer ou não. Isso não quer dizer que não devamos analisar cenários futuros e as tendências no planejamento de nossas organizações, porém é um alerta para que se tenha em mente a fonte das informações para avaliar a fidedignidade daquilo que foi previsto. O episódio dos índios se compara a cena do cachorro correndo atrás do próprio rabo e podem parecer anedotas, mas a realidade nos desmente. No momento vivido, tem muita gente correndo atrás do próprio rabo ou usando informações sem credibilidade. Além do que, cada um pode lançar uma ‘previsão’ baseado na sua experiência que vai servir como fonte para outro que replicará o conteúdo gerando uma verdade absoluta a partir da interpretação de mundo de um indivíduo. Com isso, durante o planejamento é fundamental questionar a fonte e o uso das informações e das tendências criadas por especialistas, porque elas inspiram a tomada de decisão nas diferentes áreas de negócios ou mesmo pessoais. Destaca-se que o planejamento deve ser feito, mas que não deva ser encarado como um caminho único. O planejamento deve ser visto como possibilidade que usa as tendências com flexibilidade passível de alterações, uma vez que dificilmente ele é exato. O planejamento pode ser um mapa, mas nunca será o território. Por isso, ao ler, escutar e interpretar as opiniões dos especialistas das mais diversas áreas é fundamental questionar para ver alternativas de cenários. Buscar a flexibilidade dentro das tendências, das previsões e do planejamento.
O que acontecerá com a gestão de pessoas num ambiente com forte presença da Inteligência Artificial? Como medir o desempenho? Quais as melhores formas de remuneração com a entrada da Geração Z e Alfa? O que indicam os possíveis cenários nas futuras relações de trabalho? Existem as tendências, mas a incerteza é uma garantia. Por isso, entendo que para cada área de atuação, entre elas a de gestão de pessoas, existem cenários possíveis e tendências que devem ser considerados para fazer um planejamento. Entretanto, para cada área de negócios também existem possibilidades não previsíveis em nenhum cenário imaginável e não identificado em nenhuma tendência. Assim, o planejamento é um roteiro. Redobrar o cuidado com a fonte de informações impede que os gestores se comportem como os meteorologistas e os índios.
Nesse contexto, são dois os desafios: preparar-se para o previsível, o inverno, e saber que o imprevisível (?) é uma grande possibilidade. A pandemia que o diga…
Diz a lenda que o pesquisador britânico caminhava por uns penhascos na Índia em busca de vestígios de antigas culturas. Estava cansado e se esgueirava por um trilho estreito à beira de um penhasco em que um passo em falso poderia representar uma queda fatal. Num dos pontos do caminho ele encontra uma menina de aproximadamente dez anos que trazia em sua garupa um bebê bastante gordinho. O britânico disse:
– Isso não é muito peso para você?
A menina logo respondeu:
– Não, ele não é um peso. Ele é meu irmão!
Uma situação simples que nos proporciona uma reflexão poderosa. O que
você está carregando na sua vida representa um peso? E se mudássemos o foco e a
intenção? As nossas relações sociais têm sido tratadas como fonte de
oportunidades para que os nossos interesses sejam atendidos. Com isso em mente,
as pessoas se aproximam de outras pessoas pensando naquilo que podem extrair
delas. Na esfera profissional, segue-se lógica semelhante. É o networking
ativo que me permite obter as vantagens das relações profissionais que mantenho
para que novas portas se abram para mim. Da mesma forma, muitas das relações
pessoais, familiares e de amizade são criadas com a intenção de obter algum benefício,
entre eles, que o outro me faça feliz. É uma lógica extrativista por trás de
todos os tipos de relações mantidos entre pessoas que fazem com que elas se
tornem um peso e sejam difíceis de sustentar ao longo dos anos. Não dar é
doloroso, é pesado. Frequentar o círculo social que você escolheu é difícil? Alimentar
o seu networking tem sido trabalhoso para você? E as relações mais próximas não
têm sido satisfatórias na sua avaliação? Para muitos, manter e desenvolver os
diferentes papéis a que um se sujeita tem sido pesado, fonte de estresse e de infelicidade.
Talvez seja o tempo de mudar o foco e a intenção. Por que não adotar a visão da
menina? Acredito que a resposta dela sobre o fato de seu irmão não ser um peso
possa nos dar um norte.
Entendo que depende de cada um mudar o foco ao inverter a intenção para que o que você traz consigo não seja um peso, mas fonte de bem estar. Portanto, nas relações sociais, profissionais e pessoais comece por avaliar aquilo que a tua presença contribui para as pessoas que estão nesses círculos.
Desse modo, avalie:
(1) A sociedade é melhor porque você está nela? Se sim, as suas relações sociais não serão um peso, mas fonte de alegria.
(2) A organização a que você pertence e os profissionais com quem você se relaciona são beneficiados com a tua presença e desempenho? Se sim, a realização dos outros também representará a sua realização.
(3) O seu círculo pessoal, cônjuge, amigos e parentes, recebe algo positivo de você? Se sim, você será feliz com a felicidade deles. Nada mais será um peso para você.
São escolhas!
Por fim, depende de como você encara aquilo que você leva consigo.
Não carregue. Escolha levar. A menina leva o irmãozinho consigo sem que seja um peso, mas um privilégio. Ela, um dia, provavelmente, será mãe e levará em seu ventre um filho que não será um peso, mas uma dádiva. Depois, como mãe, ela vai levar em seus braços o seu filho que não será um peso, mas uma honra. Por isso, leve consigo aquilo e aqueles que são importantes para você para que a sua vida seja leve.
Hoje (01-05-20) faz 34 anos que uso uma cadeira de rodas e nesse período vivi muitas situações belas e outras caricatas. Ainda antes da quarentena, lembro-me de um dia que fui à igreja e fui recebido por uma senhora que me cumprimentou alegremente:
– Bom dia! Pode me acompanhar? Lá na frente tem um lugar especial para
vocês cadeirantes…
“Vocês, cadeirantes…” pensei.
“Um rótulo”. Mesmo assim, acompanhei a senhora e vi que o lugar era tão
especial que eu ficaria em evidência para a igreja inteira. Olhei, enquanto era
olhado por quem já estava na igreja, analisei, agradeci, girei e voltei. Encontrei
um local mais discreto para ficar, sem “atrapalhar” o fluxo das demais pessoas.
Ao final da missa, no pátio, encontrei algumas pessoas conhecidas com quem
comecei a conversar. Nisso se aproxima uma senhora que se dirige à pessoa com
quem eu conversava e diz:
– Ah, vocês não são daqui? Acreditando
que o meu amigo me acompanhava.
Ele respondeu que era da cidade e que apenas eu não era. A senhora voltou
a sua atenção para mim e os seus olhos se avivaram com a curiosidade sobre a
minha condição de usuário de cadeira de rodas. Olhou-me de cima a baixo. Eu
sabia que viria alguma pergunta:
– O que foi que aconteceu?
Perguntou-me ela a queima-roupa. Deixei o silêncio tomar conta do espaço
por alguns segundos. Foi o tempo necessário para que ela emendasse:
– Desculpe-me, se é que posso lhe perguntar…
Respondi-lhe, educadamente:
– Foi um acidente de carro há muitos anos… Depois abri um sorriso.
Ela imediatamente olhou para o meu amigo:
– Você vê, essa gente é mais feliz do que a gente pensa… Referindo-se ao fato de eu ter sorrido.
“Essa gente…” era eu. Esses são os rótulos que colocamos nas pessoas a partir dos nossos preconceitos e de nos nossos juízos de valor. Com isso, classificamos as pessoas entre “nós” e “eles”. “Nós”, os bons; “eles”, os maus. “Nós”, os produtivos; “eles”, os improdutivos. “Nós”, os corretos; “eles”, os equivocados. E assim fazemos na rua, nas famílias, nas organizações e nas nossas relações: rotulamos as pessoas. Ao identificarmos um determinado aspecto que nos parece comum entre algumas pessoas, sejam eles colaboradores, gestores ou diretores, nós os classificamos como integrantes de uma massa que se pode rotular como iguais. Há que se entender que somos seres únicos com necessidades semelhantes. Muitas vezes, o único que um cadeirante tem em comum com outro cadeirante é a cadeira; o único que um careca tem em comum com outro careca é a falta de cabelo; o único que uma loira tem em comum com outra loira é a cor do cabelo; o único que um colaborador tem em comum com outro colaborador, talvez, seja o posto de trabalho.
Não é porque se tem características em comum que necessariamente se pode classificar de “nós” e “eles”, porque simplesmente não há “eles”. Há um imenso “nós” humano que tem necessidades comuns, entre elas a busca pela felicidade.
Portanto, no dia do trabalho o convite é para respeitar a individualidade de cada um que faz parte do “nós” humano. É um grande desafio para todos nós, principalmente para os gestores. Com isso, consegue-se entender que as buscas individuais podem ser muito parecidas, independentemente da condição física, social ou profissional. E a felicidade é uma delas.
Sim, “essa gente”, não importa quem seja, busca a FELICIDADE e pode ser mais feliz do que se imagina.
Em janeiro passado me dei de presente duas semanas de férias
completas. Sem computador e sem celular, apenas desfrutando da companhia da
visita que recebi. Nesses dias, passeamos pela ilha, visitamos igrejas,
sentamo-nos na praça, tomamos caldo de cana, fomos à praia, lemos debaixo de
uma árvore e nos divertimos com a nossa presença. Foram duas semanas que
passaram voando em momentos de felicidade pela conexão humana. Hoje, olhando
para trás, desejaria poder fazer o mesmo. Já não é possível. A visita não pode mais
vir, porque o trânsito é proibido. As igrejas já não abrem à visitação ou à celebração.
As praças estão vazias sem ninguém em seus bancos. A garapeira desapareceu sem
deixar sinal. A praia continua linda, mas é proibido estar nela. E as árvores
seguem ali, fazendo sombra para ninguém. Foram duas semanas felizes. O que
faltou naquele momento e que talvez continue a nos faltar agora?
Sabe-se que a felicidade é uma busca comum entre todos os seres humanos, embora cada um adote estratégias diferentes para a ela chegar. Acredito que a felicidade estava presente naquele momento, mas não a consciência plena do momento. Desse modo, creio que me faltou a plena consciência do presente que era aquele momento como resultado de uma vida de gratidão. Esse é o ponto. A gratidão nos leva a felicidade e não é a felicidade que nos leva a sermos gratos. Foi essa a mensagem presente no Ted–Talk do Monge David Steindl-Rast. A felicidade é consequência da consciência do privilégio da vida que nos leva ao estado de gratidão presente nos diferentes momentos. Não é a gratidão um sentimento produzido pela felicidade. E ele revelou uma técnica muito simples para que possamos viver em permanente estado de gratidão. Para isso é preciso parar. O monge destacou que a técnica nos é ensinada quando somos crianças, quando os pais orientam os filhos a cruzar a rua:
– Filho, antes de cruzar a rua você para, olha e depois cruza.
Usar esses ensinamentos na vida cotidiana pode nos manter em
estado de gratidão que vai nos proporcionar a felicidade, objetivo maior e
comum a cada ser humano. Pare. Olhe. Ande. É sensacional! A vida precisa de
paradas para que tenha sentido. A pausa é que dá sentido ao movimento, porque
quem sempre está correndo não usufrui o caminho. A pausa permite que você olhe,
observe, entenda e sinta a beleza do momento presente. Sinta a pausa e o
movimento. Agradeça. Mova-se com a consciência de que você só tem esse momento.
Virão outros. Novas oportunidades de parar, olhar, agradecer e seguir o
movimento conscientemente.
Outro dia conversava com a pessoa que fez com que as duas
semanas fossem tão especiais e ela me disse:
– Lembra? Andávamos com toda a liberdade do mundo para lá
e para cá. Nunca imaginávamos que essa liberdade nos podia ser tirada de um dia
para o outro. O que faríamos de diferente hoje?
Esse comentário faz toda a diferença. Agradeço pelas duas
semanas que tive com a consciência de ter vivido aquele momento presente. Hoje, plenamente consciente, agradeço o
presente passado e posso agradecer o momento presente. Porque de um instante a
outro, em determinado momento, não se terá mais o presente. Portanto, ainda que
com todas as restrições da situação vivida, acredito que é possível PARAR, TOMAR
CONSCIÊNCIA, AGRADECER E SE MOVER PARA SER FELIZ!!!