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Um convidado inconveniente…

As histórias merecem ser contadas quando valeram a pena ser vividas. E nessa vida, estamos todos no mesmo barco…

Falando em barco… Na equipe de basquete de Braga tenho um amigo que, assim como eu, é remador. Não vou dizer o nome. Não é preciso, não é? Num dos tantos treinos de basquete conversamos sobre os treinos de remo. Convidei-me para vê-lo treinar na esperança de remar um pouco. Gentilmente ele passou por minha casa e fomos até Viana do Castelo numa terça-feira e eu pude remar também. Foi muito bom! Remamos uns oito quilômetros pelo Rio Lima naquele dia. Estávamos a passear e a conversar. Fizemos uma largada e brincamos desfrutando das lindas paisagens do rio. Na volta ao clube encontramos o treinador que comentou com o meu amigo sobre o evento do sábado próximo em que seria realizado o campeonato nacional de remo indoor, incluindo a categoria de remo adaptado. Fiquei ali ao lado ouvindo como quem não quer nada. Na verdade não queria mesmo. De repente eles dirigiram a conversa para mim e disseram, Moacir, você não quer se inscrever? Não quer participar da competição? A princípio disse que não, porque não me achava preparado, entre outras desculpas. Na verdade eu achava que estava meio velho para competir com aquela turma. Eu estava próximo aos cinquenta anos e os demais eram bem mais jovens. Provavelmente era o que eles pensavam. Ao final da conversa disse “sim” e fiz a inscrição. Chegou o sábado e eu fui até o local acompanhado pelo Ricardo, técnico de basquete, sua esposa e sua filha. O Ricardo terminou por entrar no evento como se fosse o técnico de remo. No trajeto de ida eu havia pensado que se tratava de um evento simples, realizado num clube com alguns gatos pingados como participantes. Ao chegar no local e ver toda a infraestrutura montada para o evento fiquei de boca aberta. Caramba, telões para todos os lados… O que é isso? Tinha uma infinidade de aparelhos de remoergômetro espalhados na área de competição e outros tantos na área de aquecimento. Fiquei impressionado e momentaneamente assustado. Cutuquei o Ricardo e disse:
– Meu Deus, isso aqui é um baita evento!!!

Ele riu-se e viu que eu havia ficado impressionado. Técnico que é disse:
– Fica tranquilo. Faz o que você faz todos os dias…

Exatamente… Foi o que pensei. Conversei com o meu amigo do basquete, que não vou falar o nome, e também com os outros concorrentes. Querendo ou não há sempre uma avaliação visual sobre os concorrentes. Olhava para um e pensava, Não deve ter trinta anos…, e para outro, É forte pra caramba… Por fim me tranquilizava, dizendo-me, Você está aqui para se divertir… Na nossa categoria éramos oito, sendo quatro na classe aberta e quatro na classe federados. Começamos a nos preparar. Ajustei a minha cadeira no remoergômetro. Apertei as fitas para fixar o tronco e também as pernas. Fitas estreitas. Apertam-me o peito… pensei. Dei algumas remadas. Soltei e reapertei tudo. Comecei a remar para fazer um aquecimento de dez minutos como sempre faço. Não deu tempo. O pessoal da comissão organizadora avisou-me:
– Um minuto para começar!

Parei de remar para relaxar e soltar os músculos. Concentrei-me e fiquei preparado para a largada. Vi o cronômetro avisando, … 5, 4, 3, 2, 1 vai… E começou a prova. Dei três remadas curtas para movimentar a máquina. Dei mais dez remadas fortes para deixá-la rodando num ritmo mais leve. Depois baixei para a remada de percurso. Olhei para o visor e procurei encontrar os indicadores que me mostravam que eu completaria a prova em 4’30”. Olhava em frente e via a esposa do Ricardo. Vi nela uma certa preocupação. Também sentia a presença do Ricardo que estava às minhas costas, entre mim e o meu amigo basqueteiro. Ele incentivava um e outro. Buscava tirar o melhor de cada um que era o que cada um podia fazer. Eu nada poderia fazer com relação ao tempo do meu amigo, assim como ele não poderia fazer nada com relação ao meu tempo. Porém, aquelas palavras de incentivo faziam com que eu fizesse o meu melhor. No fundo é isso o que importa. Olhei novamente para o visor e vi que havia encontrado uma remada que me deixava confortável no limite das minhas forças. Dosava a potência e a velocidade preocupando-me com a distância percorrida e com a distância a percorrer. Os segundos passavam e os metros também. Já estava na metade da prova e totalmente consciente. Olhei em frente e via a esposa do Ricardo com um sorriso nos olhos. Nesse momento eu soube que estava bem. Sem olhar para o lado eu escutava e percebia que os movimentos do meu amigo já demonstravam alguma dificuldade. Pensei, Ele vai diminuir o ritmo… eu tenho que manter o ritmo. E foi o que fiz. Entretanto, ao me aproximar dos 800m comecei a sentir a falta de ar. Oxigênio, caramba… Oxigênio… e dei uma bufada. A fita que me prendia o tronco era muito estreita e apertava-me o diafragma. Ela asfixiava-me. Naquele momento eu precisava de oxigênio. Queria diminuir a voga, mas não conseguia. Tentei expelir ar com mais força, mas também estava difícil. Senti meus olhos se nublarem e pensei, Vou ter que diminuir senão vou apagar…  E é muito comum nesse tipo de desafio um atleta simplesmente desmaiar. Foi então que ouvi o técnico soprar em meu ouvido:
– Diminui, Moacir, diminui. Você já ganhou a prova, só precisa terminar…

E assim diminuí o ritmo um pouco e terminei a prova. Recebi a medalha de Campeão de Remo Indoor Aberto de Portugal com um tempo de 4’33”, que também me deixaria como campeão geral. Foi incrível!!! A sensação de terminar uma prova sabendo que havia dado o que melhor eu poderia dar naquele dia e naquelas condições não tem preço!!!

Agradeço ao meu amigo, de quem não vou falar o nome, pelo convite. Tá certo que fui um convidado meio inconveniente, por isso todos os méritos para ele. Fiquei a pensar, como ele poderia saber que eu treinava todos os dias? Ainda que não compita, sempre mantive meus treinos de remoergômetro por se tratar de uma atividade de baixo impacto. Fazer cinco, seis, oito ou dez quilômetros de remo num dia dependia da minha condição emocional. Nos dias mais difíceis faço mais exercício. Nos dias mais alegres também faço mais. Mantenho a média nos dias médios. Para mim, alegria e tristeza são motivadores naturais. Na alegria, celebração. Na tristeza, recuperação. A atividade física cumpre com a sua função naturalmente. Disso tudo o meu amigo não sabia, mas eu sabia que ele havia treinado poucas vezes…

No fundo são apenas histórias. Mas cada história só valerá a pena ser contada caso tenha valido a pena ser vivida. Nesse último ano posso dizer que vocês, meus amigos da APD-Braga, fizeram valer a pena ter vivido cada uma dessas histórias.
Obrigado!!!

APD – Associação de Pessoas com Decência. Obrigado!!!

Quando escolhi vir para Braga tinha a firme disposição de participar e, quem sabe, ganhar o campeonato português de basquete sobre rodas com a equipe da APD. Comecei bem. No primeiro final de semana tivemos a Copa de Abertura que ganhamos. Foi uma alegria e o presságio de dias melhores ainda. Os treinos começaram. A busca por uma melhor condição física aliava o basquete com o exercício diário de remoergômetro. A questão técnica era trabalhada nos treinos com a equipe. A primeira partida assisti do banco, pois ainda faltava condicionamento físico e técnico. A segunda partida se aproximava e via a clara oportunidade de estrear por Braga mais uma vez. Os treinos cada vez mais disputados e acirrados levavam-nos aos limites. Via meus colegas de equipe a darem o seu melhor, assim como também eu o fazia. Foi então que aconteceu o inesperado, o imprevisto. Uma lesão que me levou a não jogar mais basquete, conforme descrevi no texto A ÚLTIMA VEZ! Nele relato a frustração daquele último treino antes do Natal que fora para mim o último treino de basquete. Já não poderia mais ser campeão pela equipe de Braga. Se o inesperado pode acabar com sonhos e projetos ele também pode nos dar uma nova oportunidade. Sim, mesmo uma restrição pode significar novas oportunidades. Jogar basquete não era mais recomendado, mas o inesperado faria-me campeão mais uma vez e não só uma vez. Apesar de não treinar e não jogar continuei a participar semanalmente dos treinos e dos jogos, assim como continuei a treinar no equipamento de remoergómetro. Sempre que possível acompanhava a equipe para torcer e, por que não, para desfrutar da companhia dos amigos. A temporada já caminhava para o seu final e teve um jogo que decretou o segundo lugar no campeonato para a nossa equipe. Tínhamos exatamente o mesmo número de pontos e de vitórias que os campeões, entretanto tivemos dois cestos a menos no critério de desempate. Via no grupo uma frustração terrível. A sensação de que o campeonato nos fugira pelas mãos, literalmente, era muito forte. A equipe estava emocionalmente destroçada, entretanto ainda havia a Taça de Portugal a ser disputada. Ela reúne as quatro melhores equipes do ano na disputa de encerramento da temporada. Lá foi a equipe mais uma vez. Naquele dia não pude viajar como das outras vezes. Acompanhei o decorrer das partidas por mensagens. Recebi uma mensagem dizendo que chegáramos a final. No dia seguinte recebi outra mensagem dizendo que a APD de Braga era a campeã da Taça de Portugal!!! Um título merecido por todos. Eu estava muito feliz pela premiação ao esforço de todos os atletas e dirigentes. Sei perfeitamente que numa equipe sempre tem os atletas que jogam mais, e muitas vezes são considerados titulares, e os outros que jogam menos. Entretanto no resultado final todos são importantes, porque são aqueles que muitas vezes não entram num jogo decisivo é que fazem com que aqueles que decidem joguem melhor. As equipes são assim compostas e são competitivas quando todos dão o seu melhor permitindo que o outro também dê o seu melhor. O resultado termina por ser uma consequência. E a consequência foi terminarmos a temporada como campeões! Não estive presente, mas sempre tive a sensação de ser campeão como todos da nossa equipe. Esse momento se tornou real no treino seguinte. A temporada havia terminado, mas os treinamentos prosseguiram. Cheguei ao pavilhão para o treino e reuni-me com os demais jogadores e a comissão técnica para a preleção inicial como sempre acontecia. O técnico disse que o capitão da equipe queria fazer um comentário e foi então que realmente senti-me campeão. Ele entregou-me a medalha de campeão como uma lembrança pela temporada. Foi sensacional. Emocionei-me. Senti-me parte da equipe. Senti-me campeão e soube, naquele momento, que integrava uma equipe campeã. Terminar em primeiro, segundo ou terceiro? Tinha menos importância, porque o importante mesmo era que aqueles meus colegas e amigos eram campeões e compartilhavam a sua vitória num gesto de humildade. Agradeço a todos os meus amigos campeões da APD de Braga!


Assim, tive um ano sensacional em Braga pelas pessoas que reencontrei e por outras que conheci. Gostaria de deixar minha gratidão para cada um:

  • Dado, pelo compromisso e busca da excelência.
  • Filipe e seu pai Jorge, pela presença e cooperação.
  • Gabriel, pela autenticidade e pela alegria.
  • Gonçalves, pelo bom humor e companheirismo.
  • Henrique, pela tranquilidade e competência.
  • João Paulo, pela força de vontade e dedicação.
  • Jorge, pelo vigor das participações.
  • Manuel, pela boa vontade e pelas “boleias” semanais.
  • Mendes, pelo bom humor e crença de que amanhã será melhor.
  • Miguel, pelo esforço e exemplo de que é possível!
  • Rafael, pelo empenho e contribuição.
  • Rogério, pela presença e disponibilidade para a equipe.
  • Sílvio, pelo companheirismo e liderança.
  • Toni, pela capacidade de doação e de conciliação.
  • Para a menina fisiterapeuta, pela prontidão em atender.
  • Rosa Guimarães, presidente da APD Braga: pessoas cuidando de pessoas!

E o que falar do Ricardo? Técnico e amigo de muitas conversas. Espero ter muitas mais, porquee têm certas coisas que não tem preço, não é?
E do Zé Miguel pai? Um novo amigo que é um exemplo para quando eu for pai. 
E do Seu Carlos e da Dona Custódia? Simplesmente traduzem tudo que se pode entender por desprendimento, colaboração, contribuição e clareza de saber pensar no bem maior. 


Obrigado a todos vocês pela amizade! No próximo ano pretendo voltar a Braga para simplesmente estar presente no dia em que vocês levantarem a taça de Campeões mais uma vez.  E o que fica de tudo isso? Ficam as amizades e ficam as histórias. 


Você vai para o céu!!!


Estava a espera de minha carona para um evento. A pessoa que me viera buscar já passara duas vezes à minha frente e não me vira. Agora já me posicionava quase no meio da rua para que ela me visse. Telefono para ela que finalmente me vê. Rapidamente ela encosta o carro ao meu lado. Nesse exato momento também se aproxima de mim um senhor com seus mais de oitenta anos com quem já trocara palavras em outros dias que o vira por ali. Nós nos cumprimentamos e ele pergunta:
– Você quer ajuda?
– Não, não, obrigado…
Logo eu aponto para a motorista que estava desembarcando do carro e digo:
– Ela vai ajudar-me a carregar a minha cadeira de rodas…
Surge um brilho nos olhos daquele senhorzinho ao ver aquela mulher jovem e bonita que se aproxima de mim e saúda-me com um beijo na face. Ele exclama:
– A senhora vai para o céu!… Diz ele todo entusiasmado.
Nós nos entreolhamos sem saber exatamente o que pensar daquela fala. Ela, porém, responde:
– Que bom! Mas por que é que o senhor acha que eu vou para o céu?
– Mas ele não é seu marido?
– Não, ele não é meu marido. Nós somos amigos.
– Daí mesmo que a senhora vai para o céu… respondeu ele rapidamente.
Entretanto, pareceu-nos ver em seus olhos que agora ele estava um pouco baralhado, porque afinal talvez ela não fosse para o céu, deveria ter pensado. Ela não era casada com ele… Coitado. Deve continuar sozinho. Bom, uma mulher para se casar com um usuário de cadeira de rodas deve ser muito caridosa e são poucas as pessoas assim hoje em dia… e por aí afora devem ter ido os pensamentos daquele senhor. Imagine o dia que ele souber que sou casado há quase vinte anos e conhecer a minha esposa. Ela terá a aura de um anjo…


Acho que ele tem razão…

Porém, vale lembrar que você pode ir ao céu ou ao inferno com ou sem um usuário de cadeira de rodas na sua vida. Isso depende das escolhas de cada um!

Um presente de aniversário

Cada um se dá o presente de aniversário que quiser. Escolhi o meu. Para alguns, loucura. Para mim, um desafio. O que ganho com o presente? Aparentemente nada, mas também pode ser tudo. Afinal, qual é o presente? Tenho por hábito fazer aproximadamente 6km diários de remo ergômetro, um aparelho simulador de remo. É um exercício completo que exige disciplina e determinação, uma vez que ele é repetitivo e cansativo. Como presente de aniversário este ano resolvi dar-me o exercício diário multiplicado por quatro. Ao invés de fazer 6km faria 24,5km. 

Presente estranho? Sei lá. Tem gente que se dá um relógio, mas não sabe gerir o tempo. Tem gente que se dá férias, mas não desliga. Tem gente que se dá um carro, mas não tem necessidade. Também pode parecer estranho, não pode? Cada um com as suas escolhas…
Veja o vídeo:

Por que quatro vezes mais? Nenhuma razão em especial, mas queria que fosse suficientemente duro para ser um desafio sem contudo ser impossível. Resta saber se foi possível…

Depois de ter parado o exercício pude rememorar o caminho percorrido. Cada etapa um desafio. O positivo podendo ser negativo e o negativo podendo ser positivo. Depende da perspectiva de cada um. Gravei o vídeo até o momento em que parei de remar. Ao olhar o vídeo vieram-me as lembranças que me fizeram entender o que havia acontecido. Das lembranças fiz algumas inferências que podem ser aplicadas a quase todas as situações que se vive, pelo menos a partir do meu ponto de vista. Identifiquei algumas fases que poderia encontrar em qualquer outro projeto no qual já tenha me envolvido. Pude fazer ilações com projetos bem sucedidos e também com os fracassados.

Quando comecei o projeto, por PRIMEIRO veio a empolgação de pensar, de criar e de me preparar para algo novo. Isso está presente em quase todas as atividades que fazemos. Quando nós temos uma ideia de negócio, de trabalho ou de lazer ficamos eufóricos e queremos logo sair fazendo. Quando tomamos uma decisão, que a princípio nos parece acertada, queremos implementá-la logo. Cuidado, pode ser  a sua mente a lhe mentir… É importante agir, porém também é necessário planejar os passos, avaliar as vantagens, pesar as desvantagens e saber a fonte de recursos. Quais os impactos positivos e negativos que essa decisão terá em mim? Na minha família? Nos meus amigos? O quanto vale isso para mim? No meu caso, o desafio teria os seus impactos diretamente em mim. Terminá-lo seria uma vitória. Desistir seria um fracasso.

Treino todos os dias para a manutenção da minha saúde física e também mental (nem sempre funciona) o que faz com que eu desenvolva as habilidades necessárias para capacitar-me ao desafio. Serve como o planejamento, a avaliação e o desenvolvimento das capacidades exigidas. Quando me propus a remar 24,5km em duas etapas de 12,25km já vinha de um período ininterrupto de seis meses de treinos regulares de distâncias menores, com uma média diária um pouco acima de 6km. Para que fosse realmente um desafio me propus a quadruplicar a distância diária em duas etapas. Não seria fácil, mas também não seria impossível, segundo as minhas expectativas. Ainda teria que saber, O que a minha mente vai dizer disso? Dependeria das minhas condições físicas e também mentais. A primeira estava em dia. A segunda é variável e depende diretamente de nossa vontade. Como vontade é algo que dá e passa sempre estamos sujeitos a desistir no caminho. É aí que entra a mente que muitas vezes nos mente. Isso é replicável em qualquer área de nossas vidas. Muitas vezes temos todas as condições para fazê-lo, mas desistimos porque a nossa resistência mental não permite. A nossa mente nos mente inculcando em nós desculpas para não seguir em frente. Porém, temos que lembrar que nós não somos nossa mente e a resiliência, que é a capacidade de nos mantermos firmes ainda que em situações difíceis, está ligada a nossa determinação e não à mente. Por isso, quando quero algo tenho que preparar-me para esse fim, desenvolvendo habilidades específicas, como a resistência física ou o conhecimento técnico, e também as competências transversais, como a resiliência. Com toda a certeza quem está preparado tem mais “sorte”.

Em SEGUNDO lugar veio a execução. Começar tendo em mente que a meta está muito além dos primeiros passos. Dar início de uma maneira gradativa para encontrar o ritmo adequado sabendo que se trata de um desafio de resistência e não de força. Fazer os primeiros movimentos de forma cadenciada e com força controlada para ter resistência física até o final. Tenho que controlar o meu entusiasmo… pensava. Ainda assim, a sensação de que se tratava de um exercício fácil me veio a mente. Depois das primeiras vinte ou trinta remadas pensei que realmente não seria um verdadeiro desafio, pois o cumpriria tranquilamente. A mente me dizia, Vamos lá, Moacir, acelera que terminamos antes… A sensação perdurou pelos primeiros cinco minutos, ainda que prudentemente não tenha aumentado o ritmo contrariando a minha mente. Eu estava no controle da situação. Muitas vezes, o excesso de confiança nos leva a cometer erros crassos na realização de nossos projetos. Nos lançamos em algo com tamanha empolgação que consumimos toda a nossa energia no início do projeto. Continuei no ritmo que havia estabelecido que seguiria. Eis a importância de um planejamento. Eu sabia que havia um limite na cadência e também na força aplicada para percorrer uma distância mais longa, ainda que tudo me dissesse para acelerar. A mente voltava a me dizer, Vai fundo, Moacir. Isso aqui está fácil! Mais uma vez resisti a tentação e continuei a seguir o plano. Cadência e constância. Força controlada… voltei a pensar. Uma guerra entre mim e minha mente começava a ser travada.

Nos cinco minutos seguintes a sensação de segurança e confiança da facilidade de concluir o desafio começou a diminuir, ao visualizar que se haviam passado apenas 10 minutos dos mais de 60 que teria pela frente. Isso também me mostrava que eu apenas cumprira 2km dos mais de 12km que compunham a etapa. Um sinal de alerta se acendera em mim, Cuidado, você recém começou… Consegui fazer uma boa leitura da realidade. Estava plenamente no comando das ações. Quando cheguei aos 3km eu lembrava a cada movimento que eu precisava de oxigênio e que deveria manter a cadência dos movimentos e também da respiração sem diminuir nem aumentar o ritmo. Percorrer longas distâncias requer muito mais disciplina do que ímpeto, assim como requer muito mais cadência e constância do que força e agressividade. Na nossa vida também podemos ver tais reflexos. Com disciplina, cadência e constância constroem-se grandes projetos. Era isso que o alerta me dizia. Foi o último momento de trégua. A guerra explodiria por completo logo em seguida. A mente me atacaria duramente.

Num TERCEIRO momento a mente passou a mentir-me descaradamente. Sim, é exatamente isso. Pode parecer estranho e temos a ideia de que nós somos a nossa mente, mas não somos. Nós podemos gerir ou ser geridos pela nossa mente. Muitas pessoas viciadas em pensamentos negativos ou mesmo em comentários pejorativos sobre tudo e sobre todos, revelam aqueles em que a mente está no comando. É muito mais fácil criticar do que fazer. É muito mais fácil responsabilizar os outros do que assumir as próprias responsabilidades sobre as escolhas feitas. É muito mais fácil desistir do que seguir em frente numa atividade que de repente lhe parece rotineira, exaustiva e sem um objetivo claro. E nesse momento em que remava por volta dos 4km a mente me dizia, O que você ganha com isso? Você já está a mais de 20 minutos nessa atividade repetitiva e cansativa para que? As mensagens encontravam eco num corpo que já mostrava sinais de cansaço. O desconforto era sentido em cada movimento feito ou era isto também imaginação? Claro que era um truque da minha mente. Lembrei-me, Eu faço mais do que isso todos os dias e não me canso. É um truque da minha mente… Voltei ao comando das ações, ajeitei-me na cadeira e segui em frente. Essas provocações e enganações na avaliação da realidade feitas pela mente nos são enviadas a cada instante sempre que nos deparamos com uma suposta dificuldade. Como as mudanças são constantes a vontade muda com os pensamentos. E quando não os dominamos a mente os domina.

Muitas pessoas acreditam que 5 minutos é pouco tempo. Diria sinceramente para repensarem a situação e avaliar novamente. Cinco minutos é tempo suficiente para se mudar de ideia e desistir de um projeto construído ao longo de meses ou de anos. Num momento em que se deixa de dominar a mente pode-se jogar por terra todo um planejamento já feito, todos os recursos investidos e todos os sonhos acalentados durante uma vida. Isso voltava-me com força agora que ultrapassava a barreira dos 6km. Eu queria pensar que já havia feito quase a metade, mas a minha mente insistia em me dizer que ainda faltava mais da metade. Uma pequena mudança de perspectiva que nos faz lembrar a metáfora do copo meio cheio ou meio vazio. Observar a quantidade de suor que se acumulava em meus braços e na testa, escorrendo-me nos olhos e provocando ardência, parecia dar toda a razão para a mente. Olhava no chão ao lado do aparelho e via a poça de suor que também confirmava aquilo que a mente queria sugerir, Desista, Moacir. Você não vai ganhar nada com isso… e eu procurava desbaratar tais pensamentos lembrando que realmente poderia não ganhar nada, mas o desistir faria eu perder muito. Agora já passava dos 7km remados e nesse caso, não perder para a minha mente era ganhar e muito. Representava uma vitória pessoal de disciplina, de determinação e de força de vontade que facilmente poderia ser aplicada em outras situações de vida. A mente transforma o complexo em complicado e cabe a nós inverter o processo. Complicado é aquilo difícil de se desenrascar, mas complexo é a situação que nos oferece inúmeras alternativas, ainda que nenhuma delas seja fácil. Esse é o caminho que devemos buscar. As situações podem ser difíceis, mas se nós a olharmos entendendo a sua complexidade podem-se tirar delas oportunidades. 

Na barreira dos 8km mais uma investida da mente sobre a minha vontade. Agora com toda a força. Ela olhou para o cronômetro e disse-me, Olha aí, você tem mais de 20min pela frente. Você acha realmente que vai aguentar? A vontade de parar de fazer aqueles movimentos era enorme. Realmente não vale a pena… pensei. Moacir, o que você está fazendo? Para com isso. Para quê? Foi nesse momento que dei uma remada com mais força e… desisti. Parei… A minha mente vencia a guerra contra a minha força de vontade. Escutei o som do remoergômetro perder potência, porque já era momento de começar um novo movimento, mas eu havia desistido. Fim de conversa. A minha mente dizia, É um desafio muito grande para você, Moacir. Não seja bobo, desiste e pronto… Eu sabia que o prazer de desistir seria imediato, mas as consequências seriam duradouras. As consequências? Ai, ai, ai, as consequências… pensei. Sim, desistir qualquer idiota pode… foi o pensamento seguinte, uma frase que já disse uma centena de vezes. Foi nesse momento que recobrei a lucidez ao relembrar daquilo que me havia proposto fazer. Ninguém me havia obrigado a fazê-lo, eu é que havia escolhido fazê-lo. Por isso, respondi para mim mesmo e para minha mente, Sim, eu vou aguentar. Não vou desistir. Vou continuar porque eu quero continuar, eu posso e eu consigo … e nessa luta minha com a minha mente retomei os movimentos de um remoergômetro que quase parara. Foi somente um segundo, mas o importante é que eu não parei.

Um QUARTO momento do desafio foi a reta final da distância a ser percorrida. Ao ultrapassar a barreira dos 9km com todas as dificuldades conversacionais tidas anteriormente com a minha mente vi que a meta estava próxima. Havia vencido a batalha mental com a minha mente. Dei-me conta que realmente a capacidade física estava como deveria estar para a distância percorrida. O cansaço existia, mas era esperado. Nada tão exaustivo que pudesse ter tido alguma razão para em algum momento da prova querer ter desistido. Como pode que havia me passado a possibilidade de desistir pela cabeça? O pensamento agora era esse. Vi a marca dos 10km surgir no visor do aparelho e um estado de euforia quase tomou conta de mim. Fiz alguns movimentos mais fortes e mais rápidos, entretanto lembrei-me que a prova ainda não estava concluída. Teria pelo menos 10 longos minutos pela frente. Era a mente indo ao outro extremo. Ela também nos pode desestabilizar pela positividade sem medir as consequências. O excesso de confiança tal qual no início da jornada pode comprometer um projeto no seu final. Ao vislumbrar a meta tão próxima, nós podemos cometer o erro de pensar que nada mais nos pode deter. A arrogância pr trás do excesso de confiança pode ter um preço alto. Contive-me. Mantive a cadência e a constância. Nada de acelerar o ritmo. Equilíbrio é o caminho, consegui pensar. E foi o que fiz. Foi com essa segurança que entrei no último quilômetro a ser remado. Um pouco mais  de cinco minutos e teria concluído o meu desafio. Cansado? Sim. Olhei para o visor e faltavam 100m. Agora sim… e aumentei o ritmo para terminar o desafio com a certeza de quem dá o sprint final rumo a conquista. Satisfeito? Imensamente. Realizado? Completamente. 

O que eu ganhei? O meu respeito por mim mesmo e a certeza de que é possível dominar a mente, mudar os pensamentos e, consequentemente os rumos da própria vida. Por isso, quem realmente quer, pode e consegue!

Não nos perdemos mais…

Olhamos para à direita e ali estava o majestoso hotel onde teríamos uma reunião com o nosso contato. Deu uma sensação de alívio, porque a cidade era desconhecida e o trânsito caótico e nós chegávamos ao local com trinta minutos de antecedência. Ufa! pensei e logo exclamei:
– Não nos perdemos mais! Sorrindo feliz da vida para a Maria Alice que conduzia o veículo.

Porém, estávamos nos fundos do hotel. Avançamos um pouco para contornar a rua e chegar na entrada principal, entretanto a rua estava interrompida. Bem, teremos que dar a volta, pensamos. Foi o que fizemos. Retornamos pela rua que havíamos chegado, mas não poderíamos dobrar à esquerda para ir em direção ao lado onde deveria estar a porta principal do hotel, porque o sentido da rua não o permitia. Dobramos à direita e acreditávamos que apenas teríamos que dar uma volta um pouco maior, mas logo estaríamos no hotel. Por via das dúvidas reprogramei o GPS e lá fomos nós. Contornamos uma esquina e tivemos que avançar um pouco mais. Fomos até a próxima rua e finalmente pudemos entrar na avenida na qual deveria estar a entrada principal do hotel. Para nossa surpresa, a avenida estava uma confusão. A pista do lado do hotel era um canteiro de obras. Seguimos devagarinho e vimos uma passagem por entre os buracos e as obras e conseguimos entrar no pátio do magnífico hotel. O GPS acusava uma pequena diferença de localização, mas não havia dúvidas de que estávamos no nosso destino. Os GPSs também erram, pensei.

Conversamos com o recepcionista e dissemos que terímos uma reunião com um cliente deles. Ele nos abriu a garagem e deixamos o carro das dependências do hotel. Aproximei-me da recepção e perguntei:
– Tenho uma reunião com … e dei-lhe o nome.
O rapaz olhou a lista de hóspedes e disse que não havia ninguém com esse nome. Estranho, muito estranho, pensei. Mas nós combinamos às 17h nesse hotel… Ainda faltavam alguns minutos e então perguntei:
– Podemos aguardar aqui no café do hotel?
O rapaz de forma muito solícita disse que sim. A Maria Alice e eu dirigimo-nos ao café, porém ela estava um pouco desconfiada de que algo não estava bem. Enquanto eu buscava uma mesa a Maria Alice dirigiu-se ao balcão do café e perguntou o nome do hotel. Ela rapidamente voltou até mim e disse:
– Estamos no hotel errado.
– Como?
– Não é esse o nosso hotel. Ele está um pouco mais abaixo e está com a entrada interrompida.
Saímos para buscar o carro na garagem e fomos em busca do hotel outra vez. Não nos perdemos mais, pensei eu um pouco irritado com a situação. A partir de agora começávamos a estar atrasados. Demos uma volta enorme para poder encontrar um acesso ao hotel. Não conseguimos nada. Nesse momento tocou o meu telefone. Era o cliente preocupado em saber o porquê do nosso atraso. Expliquei-lhe. Víamos o hotel ao longe, mas não conseguíamos achar um caminho até ele. Finalmente, voltamos ao ponto de partida. Os fundos do hotel. Paramos ali mesmo. A rua estava interrompida, mas a calçada não. Assim, desembarquei, dei a volta em toda a quadra e fui encontrar-me com o cliente, agora já com vinte minutos de atraso.

No caminho de retorno a Maria Alice e eu ríamos do momento em que chegamos em que eu disse, Não nos perdemos mais!, mas nos perdemos. Às vezes, a certeza de que já alcançamos algo ou de que já conquistamos o nosso prêmio nos induz ao erro. A convicção de que uma pessoa, um amigo, um amor ou um cliente já foi conquistado faz com que não lhe dediquemos a devida atenção e o percamos, ainda que nos pareça impossível acontecer. O convencimento de que algo nos pertence, seja por mérito ou como direito adquirido, não existe. Tudo é uma construção. Nós estamos constantemente em obras. As pessoas com as quais convivemos também. Alguns mudam a fachada. Outros reformam a parte interior. E nós, nas nossas relações, temos que estar atentos e perceber como os outros estão se construindo, sabendo que isso é um processo inevitável, porque nós também o fazemos. Se não nos dermos conta que todos nós estamos constantemente em obras, podemos perder a porta de acesso àqueles que nos são mais caros.



Esperança?

Todos conhecemos indivíduos que, apenas com a força da sua personalidade, conseguem transformar situações desesperadas em desafios a superar. Esta capacidade de perseverar apesar dos obstáculos e fracassos é a qualidade que mais admiramos nos outros, e muito justamente; é talvez a característica mais importante, não só para vencer na vida, como para dela desfrutar.

Texto extraído do livro Fluir de Mihaly Csikszentmihalyi (1990, p. 47).


Esperança? É isso aí.


Ainda falta muito…

“Em certos momentos da história, as culturas partiam do princípio que uma pessoa não era completamente humana se não soubesse controlar os seus pensamentos e os seus sentimentos. Na China de Confúcio, na antiga Esparta, na Roma republicana, nas primeiras colónias de peregrinos da Nova Inglaterra e na alta sociedade inglesa da época vitoriana as pessoas eram responsabilizadas pelo domínio severo das suas emoções. Quem se abandonasse à autocomiseração, e permitisse que as suas acções fossem ditadas mais pelo instinto do que pela reflexão, perdia o direito a ser aceite como membro da comunidade. Noutros períodos históricos, como o que vivemos actualmente, a capacidade de autocontrole não é muito valorizada e os que tentam alcançá-la são considerados ridículos, ‘excêntrico’, ou fora ‘da onda’. Mas, sejam quais forem os ditames da moda, aparentemente os que levam a sério o domínio do que acontece na mente, vivem uma vida mais feliz.”

Texto extraído do livro Fluir de Mihaly Csikszentmihalyi (1990, p. 46)
Realmente ainda tem um longo caminho para sermos completamente humanos…

E se não tiver feijão?

Após o almoço, o anfitrião todo orgulhoso observa os convidados saboreando o prato oferecido. Ele sabia muito bem que os convidados tinham hábitos alimentares muito diferentes, mas fez questão de recebê-los com um prato típico da sua região e da sua cultura. Quando viu que todos estavam servidos e a expressões denotavam que haviam gostado, indagou:
– E então, gostaram?
– Sim, estava excelente! Respondeu um.
– Nossa, nunca imaginaria que pudesse ser tão bom! Respondeu outro.
Certamente que os elogios encheram o anfitrião de orgulho. Agradeceu os comentários e fez outra pergunta:
– E na terra de vocês, qual é o prato típico?
Os convidados se entreolharam até que um comentou:
– A comida do dia a dia é o tradicional feijão e arroz, com um pedaço de carne e saladas. Essa é a combinação mais tradicional… e continuaram falando sobre a cultura gastronômica de sua região.
O dono da casa então ofereceu:
– Vocês gostariam de preparar uma refeição típica durante esta semana? Acredito que possamos encontrar todos os ingredientes que vocês precisam…
E assim foi combinado o almoço agora com a comida típica dos visitantes numa integração de culturas e costumes alimentícios complementares. Não se estava dizendo que uma era melhor do que a outra, apenas que eram diferentes.

Acredito que esse seja o caminho para que a humanidade caminhe rumo a sua trajetória planetária em que chegaremos ao ponto de ser um único povo, sem diferenças culturais que nos criem atritos, conflitos e guerras. Pra isso, o respeito deve ser o propulsor da efetiva integração. Se ainda hoje temos tantas questões que provocam hostilidades e divergências é o resultado da intolerância de um para com o outro. Muitas vezes pode ser a arrogância de acreditar que os meus hábitos são melhores do que os seus. E não é isso. Sabe-se que os hábitos e costumes que cada povo desenvolveu durante milênios tiveram a sua razão de ser e funcionaram, tanto que os povos aqui chegaram. Hábitos e costumes que fundamentavam uma cultura baseavam-se nas habilidades e no conhecimento de que cada povo dispunha. Eram hábitos que seguiam as características ambientais de cada região. Sabe-se que os povos que viveram e se desenvolveram em climas mais frios tinham estratégias de sobrevivência diferentes daqueles que surgiram em regiões mais quentes. Naturalmente também os hábitos alimentares eram diferentes, porque cada povo dependia diretamente daquilo que o ambiente oferecia. Hoje essa dependência direta dos produtos da região são bem menos importantes. Por isso as pessoas passaram a experimentar, a integrar e a modificar os hábitos alimentares. Na grande maioria dos casos não se fala mais em questão de sobrevivência individual e da espécie quando se escolhe o que se vai comer, mas faz-se as escolhas alimentares por gosto.

Por isso, da próxima vez que você viajar não deixe a sua cultura em casa. Leve-a consigo, mas respeite a cultura local. E se você realmente quiser comer feijão onde ele não é a comida principal, leve-o. Desse modo você poderá saboreá-lo e, quem sabe, oferecer uma iguaria para os anfitriões.

Vai que lhe ofereçam escorpiões…


Não se preocupe. Deve ser muito bom.
E bons novos hábitos oxigenam nossa vida!