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Quem está se metendo na sua vida?


Ouvi parte de um diálogo telefônico entre um pai e um filho já adulto. Não houve como evitar, porque eu estava no mesmo ambiente. Não falei nada, mas deduzi algumas coisas. Nos ambientes em que estamos nós ouvimos, escutamos e interpretamos de acordo com as nossas crenças e valores. Ouvi do pai a resposta:
Não, meu filho, não acho que valha a pena você mandar fazer tudo isso antes de vender o carro. Se a pessoa quiser ela vai comprar do mesmo jeito…

Do outro lado deve ter havido alguma argumentação para fundamentar uma ideia para a qual ele pedia a opinião. Mais uma vez do lado de cá ouvi:
Fazer por fazer não adianta. Fazer o que precisa ser feito não vale a pena. Você vai gastar R$ 1.000,00, mas o carro não vai valorizar tudo isso. Mostra pra pessoa e fala o que aconteceu. É muito mais fácil.

A conversa seguiu nesse rumo por mais uns instantes, até que desligaram. O pai, que é meu amigo, olhou-me e disse:
­- Se não quer a minha opinião por que me pede? E ainda por cima ficou irritado…

É uma situação comum. Muitas pessoas pedem uma opinião sobre algo que já decidiram, embora não a queiram verdadeiramente. Deduzo que talvez apenas queiram ter a confirmação de que a sua decisão é boa. Ao receber uma opinião diferente daquela que haviam imaginado como a melhor resposta, muitas vezes, incomodam-se com a pessoa a quem solicitaram a opinião.

Em muitos casos, as pessoas que pediram uma opinião passam a reclamar que todos querem dar palpites em suas vidas. Mesmo assim, não deixam de pedir a opinião de pai, de mãe, de amigos, do cachorro e do papagaio até para decidir qual a cor do tênis que vão comprar. No momento em que você pediu a opinião a alguém sobre qualquer assunto, está autorizando o outro a se pronunciar sobre o tema. No momento em que você formulou e dirigiu a pergunta para alguém você lhe deu o direito de opinar sobre o que foi perguntado. Sempre que o que foi indagado se tratar de uma questão pessoal, você autorizou o outro,  explicitamente, a se meter na sua vida. Depois não reclame.  Se não quiser que se metam na sua vida, não autorize. Não peça a opinião.

Você poderia dizer, É, mas eu não autorizei ninguém a dar palpites na minha vida e mesmo assim eles dão… E isso te incomoda? Em caso afirmativo, você pode não ter dado a autorização explicitamente, mas de forma implícita você a deu, simplesmente pelo fato de que isso o atinge. Não autorizar também significa pouco se importar com aquilo que vão falar de você.


Por isso, se você pedir uma opinião, considere-a. Se não quiser uma opinião, não peça. Se você já tem um decisão, caso julgue necessário, informe. Ao adotar essa postura você vai ver que os outros não podem se meter na sua vida. A menos que você os autorize… 

O que você tem se perguntado?

Até o momento, parte dos gurus de gestão dão a instrução para a autossugestão. Cabe lembrar também que todos os humanos têm a sua conversa interna, que podem ser positivas ou negativas. No lado positivo nós dizemos, “Eu posso fazê-lo!”, “Eu serei o melhor diretor do mundo!”. No lado negativo nós temos conversas internas como, “Sou desajeitado…”, “Eu nunca serei bom em demonstrar sentimentos…”, “Eles não vão aprovar isso…”

O que se pretende aqui é demonstrar que a autoconversa interrogativa pode ser mais efetiva. Num experimento, pesquisadores deram a participantes 10 anagramas para resolverem, entre eles a palavra “quando” que foi soletrada “doqnua”. Eles separaram as pessoas em dois grupos que foram tratados de forma idêntica, exceto no minuto que antecedeu a realização das tarefas. O primeiro grupo foi orientado a se perguntar se eles conseguiriam resolver o anagrama. O segundo grupo foi orientado a dizer para si mesmo que eles resolveriam os enigmas. Após o experimento foi constatado que o primeiro grupo resolveu 50% a mais do que o segundo grupo.

A razão é que as perguntas, pela sua natureza, induzem a que se pense em respostas, servindo elas como estratégias para a solução dos problemas ou para a realização das tarefas. Imagine que você está se preparando para uma importante reunião. Você pode se preparar dizendo, “Eu sou o melhor. Farei uma excelente apresentação!” Isso pode lhe dar um impulso emocional de curto prazo. Porém, imagine que antes de ir para a reunião você se pergunte, “Poderei eu fazer uma boa reunião? “O que não deu certo nas reuniões anteriores? “Onde poderei melhorar minha apresentação?”. As pesquisas demonstraram que ao se perguntar você está se proporcionando um impulso mais profundo e duradouro. Ao responder para si mesmo você poderá dizer, “Bem, eu posso fazer uma grande reunião. Eu já preparei dados para reuniões uma dúzia de vezes.” Assim, você começa a relembrar o caminho percorrido nas outras situações, identificando o que funciona e o que não funciona. “Na última reunião falei muito rápido. Devo lembrar que é simples para mim, não para eles…” E assim as autoperguntas vão proporcionado estratégias.

    O que você tem se perguntado?                        Quais as respostas você tem encontrado?
Pink, Daniel (2013). To sell is human. Chapter 5.

Rabugento

Tantas leituras e tantos conselhos nos são dados que até parece que simplesmente basta querer para que o universo conspire e tudo nos seja dado. Tem-se disseminada a ideia de que com o fato de se pensar positivamente todos os desejos serão realizados, uma vez que o universo é uma fonte inesgotável de recursos. E a regra de ouro dos especialistas em resolver o problema dos outros, que muitas vezes sequer resolvem os seus, é “SORRIA SEMPRE!”. Gosto de sorrir, mas não sempre. Sorrir sempre cria o idiota feliz com respostas para as perguntas dos outros, mas sem a capacidade de fazer perguntas. E as perguntas são as indutoras para que se encontrem novas e melhores respostas.

É importante sorrir? Claro que é, além de ser gostoso e saudável. Porém também é importante preservar o direito de não se estar bem. Quem diz que sempre é domingo? Contrariando muitos conselhos quero ter garantido o meu direito de ser ranzinza e rabugento. De vez em quando…

Hoje estou rabugento! Por que? Daí já é outra história…


Você sabe escutar?

Muito tem se ensinado a falar. São cursos e mais cursos de oratória para expor os argumentos de uma maneira tal que se consiga persuadir e convencer os outros. Pouco, muito pouco tem se ensinado a escutar. Por isso a pergunta: o que você está escutando?

Analise o seguinte exemplo extraído do livro de Daniel Pink (2013, To sell is human): você se envolveu num projeto de arrecadação de recursos para uma campanha de caridade em prol de uma instituição beneficente. Logo, começa a manter contato com os seus amigos, colegas e familiares para angariá-los. Contata o seu cunhado e lhe pede uma contribuição de R$ 50,00. A resposta, porém, não é aquela que você queria. Ele lhe diz: Desculpe, eu não tenho R$ 50,00. Você se frustra, até se irrita. Mas preste atenção. O que você ouviu na fala dele? Uma negativa? Pode ser, mas se você se concentrar um pouco você verá que o seu cunhado não está negando, mas sim, oferecendo… Como assim? Na resposta ele diz que não tem os R$ 50,00 que você pediu, mas ele não disse que não quer colaborar. Quem sabe ele não tenha R$ 10,00 ou 20,00? Ou até poderia colaborar de outra maneira… Ele também poderia ter respondido, Não, eu não posso dar agora. Outra resposta que não é uma negativa, mas uma oferta. Onde? Naquilo que ele não verbalizou, mas deixou como hipótese de dar a contribuição em outro momento. O problema é que nós apenas ouvimos. Nós não sabemos escutar.

O ato de ouvir ocupa somente um quarto de nosso tempo, determinando o quanto negligenciamos essa habilidade. Nós nos preocupamos em falar e falar… Considerando que ouvir é a capacidade de distinguir os sons e escutar é a habilidade de interpretá-los adequadamente, a nossa escuta é bem inferior aos 25% de tempo que dedicamos a ouvir. Apesar de termos dois “orelhões” e uma só boca não se tem notícia de alguma escola ou universidade que nos ensine a escutar. Por outro lado, os cursos de oratória são oferecidos em grande número e estão sempre lotados. Professores e palestrantes de oratária ganham fortunas. Mas onde estão os cursos de “escutatória”? Timidamente tem surgido e tem sido destacada a necessidade de que se desenvolva a habilidade da escuta nas relações interpessoais. Embora a ideia dominante ainda seja de que o processo de comunicação se dá na fala e não na escuta. Muitos ainda acreditam que o oposto de escutar é calar e esperar a vez de falar. As pessoas veem o outro falando e ouvem os sons, mas não escutam a mensagem. Não interpretam aquilo que se fala. Não escutam. Com isso, não se escutam as ofertas nas falas do interlocutor. Estão preocupadas com o que vão responder. Em muitos casos sequer respeitam o tempo de falar do outro, porque as pessoas simplesmente as interrompem, ancoradas na arrogância de que aquilo que tem para falar é mais importante. Segundo Pink (2013), uma pesquisa mostrou que a maioria dos médicos não deixam os seus pacientes falar nem por 18 segundos sem os interromper. Não escutam aquilo que o paciente tem para falar sobre um problema que ninguém melhor do que ele para descrever. Certamente a probabilidade de se errar o diagnóstico aumenta na falta da escuta.

Por isso, a necessidade de se aprender a ouvir intimamente para se começar a escutar as ofertas que antes se perdiam é fundamental. Assim, pode-se fazer o diagnóstico adequado das falas de nossos interlocutores. Ao se desenvolver essa habilidade em nossas relações passaremos a ver ofertas e oportunidades onde antes apenas víamos rejeição e negativas.


E você, está apenas ouvindo ou está escutando?

Você sabe estar?

“Um dos maiores erros que as pessoas cometem é o de achar que o bom desempenho – as conquistas no trabalho – é o suficiente para adquirir poder e impedir as dificuldades organizacionais.”

Jeffrey Pfeffer (Poder, porque alguns têm)

O bom desempenho não garante a ninguém uma boa colocação no mercado de trabalho ou em qualquer outra forma de interação social, porque ele é exigido de todos. Já não mais um diferencial. Se você não fizer bem há quem o faça. Porém, saber estar com as pessoas fará com que o seu desempenho seja notado, facilitando-lhe a vida organizacional.

Você sabe estar?

Dinheiro compra felicidade? Uma resposta surpreendente…

Uma análise de mais de 450 mil respostas para o Gallup-Healthways Well-Being Index, um levantamento diário de mil norte-americanos, fornecce uma resposta surpreendentemente precisa para a pergunta feita com maior frequência na pesquisa de bem-estar: dinheiro compra felicidade? A conclusão é que ser pobre torna a pessoa infeliz, e que ser rico pode intensificar a satisfação da vida de alguém, mas (na média) não melhora o bem-estar experimentado.

A pobreza extrema intensifica os efeitos vivenciados com outros infortúnios da vida. Em particular, a doença é bem pior para os muitos pobres do que os que vivem com mais conforto. Uma dor de cabeça aumenta a proporção dos que relatam tristeza e preocupação de 19% a 38% para os indivíduos nos dois terços superiores da distribuição de renda. Os números correspondentes para décima parte mais pobre são 38% e 70% – um nível de linha de base mais elevado e um crescimento muito maior. Diferenças significativas entre os muito pobres e os outros também são encontradas para os efeitos de divórcio e solidão. Além do mais, os efeitos benéficos do fim de semana no bem-estar experimentado são significativamente menores para os muitos pobres do que para a maioria dos demais.


O nível de saciedade além do qual o bem-estar experimentado para de crescer era uma renda familiar de cerca de 75 mil dólares anuais em área de custo de vida elevado (podia ser menos em áreas onde o custo de vida é menor). O crescimento médio de bem-estar experimentado associado com rendas além desse nível era precisamente zero. Isso é surpreendente porque uma renda mais elevada indubitavelmente permite a aquisição de muitos prazeres, incluindo férias em lugares interessantes e ingressos para óperas, bem como um ambiente de vida melhorado. Por que esses prazeres agregados não aparecem nos relatórios de experiência emocional? Uma interpretação plausível é de que maior renda está associada com uma capacidade reduzida de usufruir os pequenos prazeres da vida. Há sugestiva evidência a favor dessa ideia: em estudantes estimulados pela ideia de riqueza, o prazer que seus rostos expressam ao comer uma barra de chocolate é reduzido.

O texto acima foi extraído do livro de Daniel Kahneman (2011, p. 495). Rápido e devagar: duas formas de pensar e revela que o bem-estar produzido pelo dinheiro tem um limite. Pelo que indica a pesquisa, uma vez ultrapassado tal limite perdem-se pequenos prazeres que não mais são compensados pelas novas conquistas. Pessoas que gostavam de comer um cachorro-quente na esquina perdem esse prazer quando passam a somente frequentar restaurantes cinco estrelas. Outros que desfrutavam a companhia dos amigos numa pescaria improvisada agora somente fazem tais programas em seus iates, muitas vezes sozinhos. Até onde o dinheiro traz felicidade? Qual é o ponto em que ele não acrescenta mais prazer em sua vida e passa a provocar perdas? 

Eis a questão. Equilíbrio…


Você sabe com quem está falando?

O saguão do aeroporto estava lotado. Filas de pessoas em quase todos os voos. Era o horário de maior movimento naquela sexta-feira. Apesar disso, todos seguiam e respeitavam o fluxo. As pessoas chegavam, esperavam a sua vez e tudo terminava bem. De repente, surge um senhor caminhando apressada e resolutamente, passa por todos na fila e se dirige diretamente ao guichê. Ele apresenta a sua passagem para ser atendido imediatamente. A moça detrás do balcão, gentilmente, diz:
– Boa tarde, mas o senhor terá que entrar na fila. Desculpe-me…

Ele retruca de forma agressiva:
– Não, não tenho tempo para entrar na fila. Quero ser atendido agora.
– Olha, meu senhor, eu não posso atendê-lo. Tenho todas as outras pessoas para atender primeiro… argumenta a atendente.
– Não me interessa. Você vai me atender agora… esbraveja o senhor.
– Desculpe-me, mas eu somente vou atendê-lo depois que o senhor entrar na fila como todos os outros…respondeu a moça de forma enérgica, mas educada.

Nesse momento aquele senhor perdeu as estribeiras. Soltou os cachorros. Xingou e berrou até não poder mais. Por fim arrematou:
– Você por acaso sabe com quem está falando?
– Não, não sei, respondeu ela frente a um empertigado senhor que a desafiava com o olhar.

A típica frase do “carteiraço” tão conhecido por nós, brasileiros. Provavelmente era uma autoridade querendo se beneficiar de sua função. Aproveitando-se do breve silêncio entre as duas partes, ela pegou o microfone e falou no alto-falante:
– Atenção senhoras e senhores. Há uma pessoa aqui no balcão que, aparentemente, não sabe quem é. Peço por favor que alguém se prontifique a identificá-lo.

Todos os olhares se voltaram para aquele senhor. Ele, que já estava transtornado pela própria arrogância, ficou mais furioso ainda, se é que era possível. Com o olhar carregado de ódio, olhando para  a moça, disse:
– Eu vou te f… e soltou o palavrão.

A atendente encarou-o com toda a tranquilidade, ancorada no apoio implícito de todos os presentes, e respondeu:
– Mas vai ter que entrar na fila do mesmo jeito.

Gargalhadas e aplausos ecoaram pelo saguão do aeroporto num gesto de apoio, agora, explícito.
Trata-se de uma história, contada e recontada muitas vezes, conhecida por quase todos e tida como verdadeira.

Na verdade quem não sabia com quem estava falando era aquele senhor, uma pretensa pessoa importante. E esse é o ponto. A pergunta você sabe com quem está falando? cada gestor, diretor, gerente, encarregado, autoridade ou qualquer cidadão deveria se fazer sempre que interage com alguém, porque se não sabe, deveria saber. Se você não souber com quem está falando, no meu ponto de vista, não deveria estar numa posição em que tenha sob sua responsabilidade a gestão de outras pessoas. Por que? Porque você está falando com um indivíduo único no universo, assim como você. Deve se lembrar que aquela pessoa ali, na sua frente, é especial. Não há ninguém igual a ela. Ela é dona de sonhos e desejos próprios e singulares.

Lembro muito bem da analogia usada por Mário Sérgio Cortella em uma de suas palestras, quando ele usa a frase, Você sabe com quem está falando? para demonstrar a nossa insignificância quando queremos nos arrogar importância. Concordo plenamente com a abordagem. Pessoas se atribuem uma importância que não têm, normalmente ligada a um cargo, função ou posição, para dar um “carteiraço” e usufruir de uma vantagem que não lhes é devida. Muitas vezes são coisas simples, mas que denotam um profundo desprezo pelas demais pessoas. É como o sujeito acima que não quis ficar na fila do aeroporto em função da sua importância. É como o indivíduo que não respeita o sinal, porque acredita que o que ele tem para fazer é muito mais importante. É como a pessoa que acha que não precisa se submeter a um exame de segurança num banco, porque afinal está na cara que ele é “gente boa”. Imagine se não fosse.

Assim, proponho que também se faça o caminho inverso ao proposto na analogia feita por Mário Sérgio Cortella, para que se respeite todo e qualquer cidadão com quem se está falando. Por que? Porque sempre que nos dirigimos a alguém, vale lembrar que aquela pessoa é única entre as outras 7 bilhões que vivem no planeta Terra em meio a outros mais de 3 milhões de tipos de vida. Planeta que, na companhia de mais sete ou oito, gira em torno de uma estrela chamada Sol que faz parte de um conjunto de 100 milhões de outras estrelas que compõe a nossa galáxia, a Via Láctea. Aquela pessoa é única na Via Láctea, que por sua vez, integra um conjunto de outras 200 bilhões de galáxias que formam o nosso universo, supostamente, surgido de uma explosão de um núcleo de energia ocorrido há 15 bilhões de anos. O diminuto tempo que cada ser humano permanece com vida é um lampejo, provavelmente único, nesse universo descrito.


É a esse milagre que me refiro quando digo que se deve saber com quem se está falando. E, se você exerce algum cargo, função ou qualquer outro papel que lhe dê um certo prestígio frente às demais pessoas, você tem, no mínimo, a obrigação de saber com quem está falando. Lembrar de quão privilegiados nós somos exige respeito por nós e pelos demais. Por isso, para respeitar a pessoa que está na sua frente sempre cabe se fazer a indagação, sabe com quem você está falando? Lembrar disso fará com que não nos arroguemos uma importância que não temos, mas por outro lado nos dará a dimensão de que o universo somente é o que é porque cada um que está aqui o compõe. Se alguém não estiver o universo deixa de ser o que é. A mesma reflexão se aplica para a sua relação, a sua família e a sua organização. Pensar nisso, provavelmente, fará com que você respeite e seja respeitado, tornando-se um Ser Humano melhor.

Portas abertas

Na semana passada participei de um programa de formação com ênfase em gestão comportamental. Éramos 20 pessoas, mais ou menos. Numa das atividades propostas pelo facilitador estávamos divididos em pequenos grupos de três pessoas. No meu grupo dois psicólogos organizacionais. A interação foi muito boa. No intervalo sempre continuávamos a nossa conversa. Para sair da sala, entretanto, precisava pedir ajuda. A porta era dupla e a metade que estava aberta não era larga o suficiente para que eu passasse com a minha cadeira de rodas. Sozinho, eu não alcançava no ferrolho da outra metade que estava posicionado na sua parte mais alta. Rapidamente um dos meus colegas psicólogos se ofereceu para ajudar:
– Deixa que eu abro!
– Ok. Muito obrigado!

Fui ao banheiro e em seguida ao coffee break. Depois retornamos à sala de aula para mais uma etapa. Nessa rotina passamos o primeiro e o segundo dias. Tudo tranquilo, porque já estou acostumado a pedir favores para uma ou outra coisa. Logicamente não é a situação ideal. Muitas vezes me incomoda o fato de ter que pedir para alguém para fazer algo tão banal, como sair de uma sala.

Os meus colegas, sempre solícitos, nunca deixaram de se oferecer para abrir a porta. Numa das conversas com meus dois amigos psicólogos organizacionais, comentei sobre como essas pequenas situações não me agradavam. Para meu espanto eles se espantaram. Como assim? Não há problema nenhum em pedir favores? Ainda por cima me disseram que eu teria que avaliar a minha reação frente a dificuldade que apresento em receber favores, porque isso pode revelar algo mal resolvido no meu subconsciente. Talvez eu devesse procurar ajuda para apurar isso, porque eles não viam mal nenhum em me fazer esses pequenos favores. Havia comentado sobre o tema justamente em frente aquela porta que eu não conseguia abrir no local onde estávamos.
Moacir, você deve lembrar que sempre que você precisar alguém vai abrir a porta para você. Para mim, não me dá trabalho. É até um prazer…

Eu fiquei de queixo caído. Não acreditava no que ouvia. Na verdade eu não vejo problemas em pedir favores nem que me abram uma porta. Os meus questionamentos são sobre a falta de autonomia que isso provoca e que a próxima porta deva ser pensada para que o maior número de pessoas possa abri-la sem depender de outros.

No dia seguinte aconteceu algo incrível. As atividades terminaram e todos saíram para o intervalo. Eu estava distraído com um pensamento e ainda fazia algumas anotações. Fiquei para trás. Finalizada a minha linha de raciocínio quis sair. Fui até a porta. Uma metade estava aberta. A outra estava fechada. O ferrolho lá no alto. Eu aqui embaixo na minha cadeira de rodas. Olhei a minha volta. Não havia nada ao meu alcance que me permitisse abrir a porta. Nenhum gancho ou ferramenta que pudesse me ajudar. Os meus amigos todos já haviam saído e se dirigido a sala do café que ficava no outro bloco. Ainda não tinha o número dos seus telefones. A única ação era a não ação, esperar. Assim, eu esperei. Passados os vinte minutos do intervalo o grupo voltou. Entraram na sala. Um deles me perguntou:
– E aí, Moacir, não quis ir ao coffee?

Apontei para a porta e disse:
– É, acho que eu preciso descobrir as razões pelas quais nem sempre gosto de “receber favores”, frisei.

Ele ficou vermelho na hora. Olhou para a porta e voltou a me olhar. Pediu mil e uma desculpas. Os demais colegas, quando se deram conta do ocorrido, também o fizeram. Disse-lhes que não havia problema. Era passado. O problema é o que subjaz a isso. Aquilo que se esconde por trás de se fazer uma porta que nem sempre é uma passagem. Como ficou claro na situação, quando eu quis usar essa porta num momento em que nenhum dos meus amigos ali estava para me fazer o favor de abri-la não havia o que fazer. Não pude chamá-los. Este é um empecilho que me e que nos diminui como sociedade.

Certamente a sociedade evoluiu e continua evoluindo a passos largos. Às vezes, são esquecidos outros exemplos em que se eliminaram problemas. Ao olhar para os meus dois amigos vi que usavam óculos. Pensei comigo, Caso eles tivessem que abrir mão dos óculos e toda vez que quisessem ler algo tivessem que pedir para que alguém lhes lesse, como será que se sentiriam? Como será que reagiriam frente a isso? Lembrando que ouve um tempo que já foi assim, em que os mais novos liam para os mais velhos que estavam com a visão diminuída. Será que também eu deveria sugerir-lhes buscar terapia? Esse é o ponto… Para quem tem a visão diminuída tirar-lhe os óculos é a mesma situação na qual eu encontrei a porta fechada. Quando não se consegue abrir uma porta, esta deixa de cumprir a sua função, passando a ser um empecilho. Não mais é uma passagem. Assim como o olho cansado sem o auxílio da lente deixa de cumprir parte de sua função. E esse princípio deveria ser aplicado por nós, sociedade, para os novos projetos e para os antigos que forem sendo renovados, porque estar numa condição física plena ou não também é circunstancial. Qual a pessoa que não tem em sua família idosos que vão perdendo a mobilidade, a audição e a visão? Qual a pessoa que não tem entre seus próximos alguém que precise de um carrinho de bebê? Quem está livre de um trauma, acidente ou situação que o limite fisicamente, temporária ou permanentemente?


Estamos melhorando? Sim, mas temos que continuar estimulando a que se projetem e se construam portas que sejam passagem para todos, sem que ninguém fique devendo favores a outrém!

Perguntar para mover…

A pergunta pode ser feita com diferentes objetivos. Pode-se perguntar sobre “A” para se entender sobre “B”. Pode-se perguntar de forma dissimulada e não revelar a verdadeira intenção por trás da pergunta. Quantas mulheres já não ouviram a pergunta:
Qual o número do telefone do seu cachorrinho?
É a sutileza no seu estado bruto…

São muitas as perguntas que, em determinadas situações, são feitas simplesmente como uma muleta conversacional. Perguntas como:
– Será que vai chover? É dose, mas faz parte. Pergunto: quem já não a usou?

As perguntas também podem ser usadas simplesmente para matar a curiosidade. embora, quase sempre, revelem mais sobre quem a faz do que sobre quem a recebe.
– Quantos anos você tem? Pode revelar um curioso…
Quanto você ganha? Grandes chances de se estar frente a um enxerido…
São perguntas que não levam o outro ou a si mesmo a desenvolver uma linha de raciocínio.

Agora avance um pouco. Pense numa pergunta que muitas vezes se faz na rua, como por exemplo:
Qual é o melhor caminho para se chegar a …? Pense estar num lugar pedindo informação para se chegar a outro lugar para um transeunte.

No momento em que o inquirido se dispõe a responder a pergunta, ele é levado a interromper os seus pensamentos para desenhar um mapa mental para encontrar o que lhe foi perguntado. A pergunta leva o sujeito a procurar por uma solução. Eis um dos pontos em que a pergunta cumpre com a sua função de mover as pessoas, de criar soluções e de apontar novos caminhos.

O caminho do exemplo da pergunta pode ser físico e fictício, porém o uso das perguntas em ambientes de trabalho pode levar os indivíduos a encontrar o caminho para a realização pessoal e profissional.

Por isso, perguntar pode levar as pessoas a aprender, a ensinar e a viver melhor. Por que não?

Veja mais no livro: