Sabe-se que a maioria dos pais daria a vida por seus filhos sem pestanejar. Mas o filósofo Schopenhauer amplia essa questão ao descrever uma cena de tentativa de suicídio…
Um jovem se aproxima de um barranco, olha para o abismo, pensa mais um pouco, concentra-se e faz o movimento final para nele se atirar. No exato instante em que ele salta é agarrado por um de dois policiais que haviam se aproximado sem que fossem percebidos. O jovem suicida com o seu movimento brusco leva o policial consigo. Porém, o segundo policial, num ato extremo, consegue agarrar a ambos, salvando-os da morte…
Naquele momento, no ímpeto de tentar salvar o suicida, todos os sonhos, desejos e aspirações pessoais e profissionais do jovem policial haviam desaparecido. Não lembrou de suas obrigações profissionais e nem de sua família. Não houve espaço para dúvidas em sua mente sobre o que deveria fazer. Logo após o incidente, já em segurança, perguntaram ao policial, Por que você não o deixou pular? Você poderia ter perdido a sua vida também… A essa questão o policial respondeu, Se eu não tentasse salvá-lo eu não conseguiria viver nem mais um dia sequer… Para Schopenhauer, extraído do vídeo O Poder do Mito de Joseph Campbell, este é o avanço da percepção metafísica de que você e o outro são um só. A separação presente entre todos os indivíduos é apenas uma questão de forma antes que nos tornemos únicos outra vez.
Segundo esta história fica a pergunta: amamos ou não o próximo como a nós mesmos? Basta que nos dispamos daquilo que fizeram de nós e sejamos nós mesmos, pois esta ação é resultado daquilo que somos nós em nosso estado natural!
Entramos na área da feira logo que permitiram o acesso. Era por volta das 10h. Um dos orientadores do estacionamento nos conduziu até os fundos do centro de eventos onde estacionamos num local tranquilo. O acesso ao pavilhão foi trás. Assim, fizemos o caminho contrário daquele feito pela grande maioria dos visitantes. No final do pavilhão os estandes ainda estava sendo abertos e os responsáveis estavam chegando. Inicialmente o ambiente estava bem calmo. Enfim, era uma feira setorizada que, normalmente, não tem um público muito intenso. Fomos avançando, olhando os estandes, identificando as empresas que estavam na feira, os produtos e as soluções oferecidas, detendo-nos naqueles que nos interessavam. Assim seguimos até que chegamos quase na metade da feira vindo da parte detrás. Conforme fomos avançando o público aumentou. Também a postura dos vendedores nos pareceu que revelava uma agressividade cada vez maior. Paramos num estande que nos interessava. Começamos ouvindo a explicação sobre o produto que nós já conhecíamos. Interrompi o discurso ensaiado do vendedor para perguntar diretamente, Afinal, quanto custa?Ele parece que não me escutou e continuou falando dos benefícios do seu produto. Começava a nos irritar. Nós o ouvimos por educação. Já não o escutávamos mais. Particularmente eu começava a ficar aflito. Olhei em frente e vi o vendedor do concorrente direto do expositor onde estávamos, observando-nos. Estava impaciente. Quando finalmente conseguimos nos desvencilhar do vendedor, sem saber o preço, vi de canto de olho que o vendedor seguinte já havia separado o material sobre o seu produto, que nós também já conhecíamos. Certamente deve ter pensado que se nos interessava o produto do concorrente o seu também deveria nos interessar… Resolvemos dobrar a esquina da feira. Fomos abordados por outro vendedor. Seguimos em frente. O movimento aumentava. Os vendedores e representantes nos abordavam aos borbotões. Mas não era uma abordagem salutar. Era invasiva, por vezes até grosseira. Nós já não sabíamos para onde ir. Não podíamos ficar em frente de um estande e simplesmente a olhar e a conversar entre nós para analisar se iríamos entrar ou não. Os vendedores não permitiam. Falei para a minha esposa, Chega, vamos embora…
Quem visita uma feira setorizada, normalmente, tem interesse e conhecimento muito maior naquilo que está em exposição em comparação com uma feira aberta ao público. Seguramente tem produtos que não se conhece, assim como novidades desenvolvidas para aqueles que já são familiares. Também se imagina que os vendedores sejam especializados nos produtos que oferecem, uma vez que são produtores e fornecedores vendendo para outros produtores e fornecedores. Não era uma feira para o consumidor final, com raras exceções. Desse modo, o conhecimento técnico profundo sobre o que se oferece é fundamental. Não foi disso que nos ressentimos na feira que visitamos. Ressentimo-nos foi da falta de preparo comportamental daqueles técnicos. Passou-nos a impressão de que tiveram uma ou duas aulas sobre técnicas de vendas e as puseram em prática com quem passava a sua frente. Devem ter ouvido que deveriam ser agressivos. Também devem ter sido alertados que em primeiro plano é necessário falar sobre os benefícios que o produto tem em relação aos demais que estão no mercado. É obrigatório descrever as características técnicas inovadoras antes de qualquer menção aos valores. Por fim, devem ter recebido a instrução reforçada de que somente se fala no preço ao final da exposição. Pareceu-nos, assim, que aos vendedores somente lhes foi ensinado falar. Eles tinham todas as informações na ponta da língua. Falavam muito bem. Descreviam tecnicamente os produtos com toda propriedade. Todavia, a impressão foi a de que os vendedores não aprenderam a escutar. Até ouviam uma pergunta ou outra para a qual tinham respostas, entretanto não sabiam escutar. Não sabiam que a comunicação somente é validada se alguém realmente escuta aquilo que se fala, assim como aquilo que não se fala. Inicialmente nós os ouvíamos escutando. Passado um instante somente os ouvíamos, porque os vendedores não escutavam as nossas dúvidas que se transformavam em impaciência. Não escutavam as nossas expressões que revelavam uma agonia desmedida. Os vendedores altamente técnicos não escutavam os gritos que nós como clientes dávamos com nossa linguagem corporal.
Por isso, de pouco serve falar bem se você não souber escutar melhor ainda. Para vender, muito mais do que falar, é necessário saber escutar, porque a comunicação apenas se concretiza no ato da escuta. E sem comunicação não há venda.
Caso estivesse onde gostaria de estar você não seria o que é! ou seria… Você somente está onde está porque é o que é. Caso você fosse o que gostaria de ser você não estaria onde está.
Diz a lenda que uma empresa foi se instalar na Austrália, numa região com grande presença de aborígenes, os habitantes nativos, que tinham uma característica muito particular: eles eram canibais. A empresa ao implantar a unidade buscou fazer a política de boa vizinhança e para isso seguiu as orientações de envolver a comunidade local no empreendimento. Assim, decidiu contratar um grupo de nativos para integrar o quadro de mais de mil colaboradores. O Diretor Geral, preocupado com o hábito do canibalismo dos novos colaboradores, chamou o grupo para uma reunião particular em que disse:
– Olha, eu sei que vocês tem por hábito alimentício comer carne humana, mas eu pediria que não fizessem isso aqui, na nossa organização, porque afinal somos todos colegas de trabalho, além de termos objetivos comuns… blá, blá, blá, seguiu com o discurso. Por fim perguntou:
– Posso contar com vocês para que nada aconteça aqui na nossa empresa?
Imediatamente o grupo de aborígenes assentiu. O tempo passou. Um mês, dois meses, três meses e tudo na mais perfeita ordem. Os aborígenes se revelaram extremamente zelosos no trato com as outras pessoas. Parece até que tinham um cuidado especial… Também se mostraram pontuais e produtivos. Nunca faltavam e sempre estavam dispostos a cumprir com o que lhes era solicitado. A empresa já funcionava há mais de seis meses. Um dia a mulher que fazia a limpeza e servia o cafezinho para os diretores, gerentes, supervisores e coordenadores da empresa não apareceu para trabalhar. Tampouco avisou. O Diretor Geral foi avisado. Logo ficou pensativo, Teria esse fato algo a ver com os aborígenes? Não, não, nada a ver… refletiu. No dia seguinte nenhuma notícia da mulher. A preocupação do diretor aumentou… Mas ele não poderia simplesmente falar com os aborígenes sobre uma suspeita. No terceiro dia que ela não apareceu o Diretor Geral não aguentou e chamou o grupo de colaboradores aborígenes para uma conversa na sua sala:
– Bom dia, sejam bem-vindos. Gostaria de falar com vocês sobre a mulher do cafezinho. Quero destacar que não estou acusando nem ameaçando vocês, mas preciso perguntar se por acaso vocês sabem o que poderia ter acontecido com ela, uma vez que faz três dias que ela não vem ao trabalho. Vocês sabem do paradeiro dela?
Um silêncio sepulcral pairava entre os colaboradores. Ninguém falava nada. Sequer se mexiam. O diretor voltou a falar:
– Caso vocês tenham alguma notícia gostaria muito que me falassem…
Novo silêncio. O grupo continuava calado, mas se percebia a tensão aumentando. Começaram a se entreolhar. Pareciam impacientes. Já não conseguiam mais ficar quietos em suas cadeiras. Até que um deles cutucou o seu vizinho e disse:
– Tá vendo, tá vendo… Nesses seis meses nós comemos três gerentes, dois supervisores, um coordenador e ninguém percebeu nada. Você tinha que pegar logo a mulher do cafezinho?
Normalmente uso essa história para ilustrar que a importância das nossas atividades nem sempre está relacionada ao cargo que exercemos. Afirmo que se nós fazemos parte de uma organização quer dizer que o que nós fazemos nela tem relevância para alguém. É com isso em mente que nós temos que executar as nossas tarefas, sabendo que tudo que se faz é feito por pessoas e para pessoas. Destaco que não estou falando de remuneração, porque muitos se questionam que se meu trabalho também é importante por que o meu salário é inferior ao do meu colega? Complemento esse raciocínio com uma pergunta para diferenciar importância e valor financeiro:
– O que é mais importante para se fazer um Raio-X de um paciente, a máquina ou o cabo de energia?
A conclusão lógica é a de que ambos são igualmente importantes, porque sem a presença de qualquer um deles não é possível fazer o Raio-X. Porém, ao se falar de valor financeiro sabe-se muito bem que a máquina é infinitamente mais cara do que o cabo de energia. Assim, pode-se concluir que importante todos nós somos, mas que a nossa remuneração se dá muito mais em função de nossa raridade e da contribuição para o negócio.
Estava eu naquele dia no Santuário Nacional de Aparecida em meio a essas histórias e divagações. Alguns riam lembrando da história da empresa na Austrália. Outros refletiam sobre a relação entre importância e valor financeiro. É um momento de reflexão e de descontração. De repente ouço uma mulher que estava na segunda fileira falar, quase sussurrando:
– O mais importante é o paciente… Para em seguida dar um sorriso meio encabulado.
Ouvi aquilo e fiquei deslumbrado, É isso mesmo!!! Sim, todos nós temos nossa importância no processo, mas quem realmente interessa é aquele a quem nos propomos a atender. O cabo e a máquina somente são relevantes se a preocupação estiver no paciente.
O evento do qual participei falava sobre Motivação para um Comportamento Seguro, porém recebi uma aula de atendimento ao cliente que vai muito além do que eu poderia imaginar. Onde está o foco da tua organização?
Pensar em dinheiro não o transforma em dinheirista, da mesma forma como ser disciplinado não tira a liberdade de ninguém. Muito pelo contrário. Planejar e analisar detalhadamente o quanto você ganha em comparação com as suas necessidades lhe dá liberdade. Deixa-o seguro e tranquilo, evitando as armadilhas de gastar mais do que dispõe. Esse comportamento pode livrar a pessoa do constrangimento de correr atrás de dinheiro gasto para o qual não tinha fundos. Nesse caso, ao não “ligar” para dinheiro a pessoa terá que pensar muito nele, tirando-lhe a liberdade. Por isso, não pensar em dinheiro pode levá-lo a ser escravizado por ele. Comparativamente a disciplina não é inimiga da liberdade. O ato de cumprir com os horários e manter a organização nas suas atividades faz com que se possa gastar o tempo e o dinheiro segundo as próprias escolhas.
Não seja escravo. Organize-se, programe-se e pense em dinheiro para não ser escravo dele.
Cheguei no auditório com antecedência. Ainda faltavam 40 minutos para o início da programação. Era hallde entrada encontro os organizadores do evento. Cumprimentos e sorrisos. Entrei no auditório propriamente dito e vi o corredor que levava ao palco.
tempo o suficiente para preparar, testar os equipamentos e revisar mentalmente a apresentação com tranquilidade. No
– Ah, meu Deus.Degraus mais uma vez! falei baixinho para a minha esposa que me acompanhava.
– Mas não faz mal, vamos em frente… complementei.
Consolei-me ao ver que os degraus eram baixinhos e os espaços entre um e outro eram grandes. Facilmente eu poderia descer empinando a cadeira. Foi
o que fiz. Não perdi tempo e logo fui descendo. Mesmo assim aquele movimento sempre gera um desconforto, porque o impacto de descer um degrau atinge diretamente a coluna. Estava na metade daqueles 15 ou 16 degraus quando vejo a professora coordenadora vindo a toda em nossa direção:
– Professor, professor, os corredores nas duas laterais do auditório são rampas… disse ela.
Eu parei, olhei meio atordoado e sem entender direito, até que me dei conta do mico que estava pagando. Ela se aproximou e confirmou que tiveram todo o cuidado para não organizar o evento num local inapropriado. Eu tive que rir. Ela também riu. Foi então que comentei:
– É, bem assim que a gente pode complicar uma situação!
O título do livro que escrevi é Olhe mais uma vez! Em cada situação novas oportunidades em que falo justamente sobre isso: a necessidade de avaliarmos bem uma situação antes de começar a fazer. Imediatamente associei ao fato ocorrido no auditório. Lembrei-me que se eu tivesse parado no vão da porta e avaliado a situação com tranquilidade eu teria visto com mais clareza o ambiente em que estava entrando. Tivesse eu olhado mais uma vez para a direita e para a esquerda teria visto as rampas. Tivesse eu olhado com mais atenção em frente teria visto que na lateral havia outra rampa que dava acesso ao palco. E todos os acessos dentro daquilo que prevê a legislação. Nada de enjambração. Mas não, fui afoito. Entrei, olhei e julguei a partir dos meus pressupostos.
Por isso, olhar mais uma vez para todas as situações não é uma simples questão de retórica. É uma estratégia para nos poupar trabalho e nos oferecer inúmeras oportunidades.
Estive num evento organizado pelo CREA-PR com o apoio de diversas instituições, entre elas a Usina de Itaipu. Havia sido convidado por uma amiga que conheci há muitos anos, bem antes dela trabalhar na usina. Já haviam se passado outros tantos anos sem que eu a encontrasse. Ao vê-la, porém, pareceu-me que o tempo não havia passado, porque nossa amizade continuava intacta. Conversamos sobre todos os assuntos que velhos amigos conversam. Percebemos que nossas visões de mundo continuavam parecidas. Não podia ser diferente, porque senão não nos encontraríamos num evento que se propunha a tratar de acessibilidade para muito além da simples visão da eliminação das barreiras arquitetônicas. A pretensão dos organizadores do evento, incluindo a da minha amiga, era tratar do ser humano.
Observei a programação que continha muitos temas interessantes. Na segunda-feira à tarde a primeira palestra abordou um programa de governo que visa melhorar as calçadas públicas em pequenas cidades do estado. A segunda mostrou uma experiência de mobilidade urbana de uma cidade espanhola em que o palestrante demonstrou a preocupação com a viagem toda e não somente com os pontos de acesso. A terceira apresentou dados sobre a evolução da média de idade da população brasileira, além de índices de pessoas com deficiência e idosos no total da população. A questão da mobilidade reduzida é algo que nós vamos adquirindo querendo ou não. Não se trata de uma questão de gosto, mas da marcha do tempo. Na sequência mostrou como a tecnologia pode, efetivamente, melhorar a vida dos diferentes segmentos da população, destacando que a melhoria deve ser dirigida ao indivíduo. Assisti e participei. Circulei e conversei com outras pessoas no evento. Engenheiros, arquitetos, gestores e funcionários públicos. Pessoas com e sem deficiência. Pouco importa a classificação recebida. Falei e interagi com pessoas. O melhor de tudo foi perceber que as conversas e as trocas de ideias giravam sobre os temas que poderiam levar a uma verdadeira inclusão das pessoas no nosso formato de organização social. Logicamente que a acessibilidade e a eliminação das barreiras arquitetônicas estava presente, assim como as possibilidades de uso de toda a tecnologia que a humanidade construiu ao longo de sua história. Porém, pude identificar que a visão nos levava a finalmente entender que nós somos os usuários daquilo a que muitas vezes damos a prioridade. Muitas cidades são organizadas para atender aos carros, mas nós não somos carros; outras cidades são pensadas para priorizar os ônibus, mas nós não somos ônibus; por fim, outras cidades são concebidas para acolher carros, ônibus, trens, motos, bicicletas e até cadeiras de rodas. Melhor do que as opções anteriores, mas ainda assim nós não somos nada disso. Nós somos seres humanos usuários dessas tecnologias que devem nos servir. Temos que pensar nelas para que não sejamos regidos por elas. Por isso, muito mais do que acolher todos os meios transportes criados por nós as cidades devem ser pensadas para nós, indivíduos com necessidades particulares oriundas da sua singularidade. Quando a organização de qualquer cidade se pautar nas necessidades do indivíduo aí sim nós teremos uma sociedade inclusiva. A importância não está na calçada, mas no seu usuário. Foi esse o espírito que vi e senti no evento.
Um dos palestrantes tocou no conceito do desenho universal que foi criado para ajustar os produtos e os ambientes as pessoas e não o contrário, mentalidade em vigor sempre que se pensa no homem padrão para se produzir algo. Com isso em mente não há a necessidade de classificar as pessoas como jovens, adultos ou idosos; como baixos, medianos ou altos; como magros, normais ou obesos; ou como pessoa com ou sem deficiência. Entende-se que se a sociedade que organizamos e na qual vivemos não consegue atender a todos os indivíduos que ela abriga é a nossa forma de organização que tem deficiência e não os seus indivíduos.
Por isso, ao respeitar os indivíduos nós podemos sonhar com a eliminação da deficiência do ambiente social por nós criado, independentemente da condição do indivíduo.
Ontem tive o privilégio de conversar com um grupo especial que produz máquina especiais. Para quem eles produzem? Para pessoas… Motivo suficiente para serem especiais. É com satisfação que se vê pessoas envolvidas e sabendo que tudo o que se produz e se faz, de uma forma ou outra, vai chegar para outras pessoas. Pode ser uma máquina, mas ela vai fabricar produtos para pessoas assim como nós que são filhos de alguém, podem ser pais, mães ou irmãos de outros. Certamente essas pessoas têm amigos, parceiros ou cônjuges. Nisso uma coisa é certa: tudo aquilo que nós produzimos tem como destino outras pessoas. Assim, cabe a nós fazermos o melhor sabendo que a nossa organização é muito mais do que simplesmente um fábrica, uma indústria, uma loja, um supermercado, um restaurante ou uma rede de fast food.
Revoltei-me na última semana ao acompanhar a notícia de um jovem que trabalha numa rede de fast food. Ele postou um vídeo na internet mostrando que passava suas partes íntimas nos lanches antes de servi-los. Mostrava também que, muitas vezes, os recheava com um líquido especial, a sua própria urina. E o pior de tudo era a justificativa que dava ao seu ato de sandice dizendo que era um protesto contra o sistema que alienava as pessoas. O sistema aliena as pessoas? Como? Você faz exatamente aquilo que quer fazer porque acredita que pode e deve fazê-lo. Então só porque uma pessoa consome fast food ela é alienada? Pode até ser, mas precisa da concordância de quem é o consumidor, porque foi a liberdade de escolha que fez com que a pessoa ali entrasse e pagasse por um produto que esperava consumir. Agora quem é o sujeito que fez a porquice que mostrou que fez e ainda se julga melhor do que aqueles que ali entraram para consumir algo que não era aquilo? Isso sim é que é alienação. Julgar-se melhor do que os demais e no direito de adulterar um produto somente porque feito por uma grande organização com a qual ele não concorda? É muito mais do que alienação. É canalhice. É o sujeito ser mau caráter e querer justificar as suas atitudes com um discurso que não é verdadeiro. Ninguém o obrigou a trabalhar ali. Não concorda com o que se produz naquela rede? Ótimo. É um direito seu. Não consuma o que eles vendem ou manifeste-se como um ser humano com um mínimo de racionalidade. Porém, não queira justificar o injustificável com atitudes imundas que denigrem a própria humanidade.
O fato relatado foi motivo de revolta. Mas por outro lado estar numa empresa que produz máquinas e equipamentos para embalar pizzas, lasanhas e outros tipos de comidas produzidas em série e ver que as pessoas tem a exata noção que o resultado atingirá outras pessoas é motivo de alegria. São os projetistas e os engenheiros pensando na melhor solução. São os desenhistas dando forma ao projeto. São as pessoas da produção cortando e ajustando as peças nos seus mínimos detalhes. São os montadores tendo o cuidado para que tudo seja realizado de forma perfeita. São as pessoas da limpeza deixando o ambiente agradável. São os vendedores preocupados com a venda e o pós-venda. São os responsáveis pelo administrativo conectando as partes da organização para que tudo funcione. Por fim, são pessoas especiais produzindo máquinas especiais que servirão outras pessoas especiais. São pessoas que sabem que tudo que existe fora da natureza é feito pelas pessoas e para as pessoas. E as máquinas somente são especiais porque servirão pessoas.
Mas se tudo que nós fazemos é destinado para pessoas então tudo deve ser feito de forma especial, não é mesmo?