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Voar ou caminhar: o que é melhor?

Voar ou caminhar: o que é melhor? 

A metáfora do ovo de águia que foi chocado por uma galinha e assim nasceu, viveu e morreu foi muito utilizada em treinamentos corporativos. O pano de fundo da reflexão explora o não descobrimento, o não desenvolvimento e o não aproveitamento das reais capacidades de se voar alto. No final da metáfora, descreve-se a cena da águia que ciscava e cacarejava como galinha, admirando a águia que voava majestosamente pelos céus. Ela não havia tomado consciência de quem era e quais seriam as suas naturais habilidades. Na analogia com as pessoas, estimula-se a que elas possam sonhar e acreditar nas suas potencialidades, para com isso fazer mais alcançando a plenitude de suas vidas.

Por outro lado, imaginemos a metáfora invertida. Um ovo de galinha, acidentalmente, vai parar num ninho de águia. A águia cuida dos ovos até que eles descasquem. Os filhotes de águia nascem e entre eles um pintinho. Parece-lhes estranho, entretanto, a águia mãe e os seus  filhotes tratam o pintinho de modo igual. As penas crescem e os filhotes de águia se agitam com a proximidade de alçar seu primeiro voo. O pintinho, que se acredita águia, repete os mesmos movimentos. Ele está no alto das montanhas no ninho das águias. Às vezes, quando olha daquela altura e não vê nada lhe parece estranho, mas se é assim para ele também o é para os seus irmãos. É chegado o dia para que os filhotes de águia deem o seu primeiro voo. A mãe zelosa incentiva um a um a que se lancem no abismo com a certeza de que irão voar. Ela olha para o pintinho e, instintivamente, o deixa por último. Não consegue identificar, mas há algo diferente nele. O primeiro filhote se lança no abismo. Cai e continua caindo. Parece que vai se chocar contra as paredes do precipício. No limite para não se estatelar contra as pedras o milagre da natureza se manifesta em sua plenitude. O filhote começa a bater as asas, um pouco desajeitadamente no início, até que alça o seu primeiro voo como águia que é. O segundo filhote repete o feito. Por fim, é chegada a vez do pintinho. Todos o incentivam. A sua própria autoconfiança o estimula, porque afinal ele é uma águia assim como a sua mãe e os seus irmãos. Ele está na borda do precipício. Estica as suas asas num movimento de aquecimento, assim como o fizeram seus irmãos. O pintinho tem a impressão de que as suas asas são mais curtas, mas agora não é hora para dúvidas. A mãe, com certo temor, o incentiva. Os irmãos, na maior empolgação, o encorajam. E o pintinho, sem saber da sua real natureza, se lança. Lá vai ele até o limite e começa a bater suas asas… O final não precisa ser contado. A mãe se lamenta. Os irmãos se entristecem. E a vida segue sem o pintinho que acreditava ser águia.

Não se trata de desestimular a que as pessoas não queiram voar. A questão vai um pouco além da analogia de que todos tenham que sonhar alto. Acredito que o foco deva ser naquilo que cada um queira fazer e ser dentro da sua natureza. A pretensão é desmistificar o tamanho dos sonhos e valorizar aquilo que é importante para cada um. Quem disse que voar é mais importante que caminhar? Por que caminhar seria melhor do que nadar, por exemplo? Isso tudo depende da sua natureza. Depende: quem é você? O que você quer? Qual é a sua personalidade? Depois escolha fazer aquilo que você quer fazer. Voar, caminhar ou nadar não importa. As analogias são interessantes para destacar competências e as possibilidades, mas cabe a cada um ter a consciência de que somos humanos. Dessa forma, é fundamental você fazer as escolhas alinhadas com a sua natureza, porque a felicidade está conectada com ela. Evoluir sem desrespeitar a sua natureza é um desafio individual. Nem melhor nem pior.

Moacir Rauber

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Às vezes, é preciso parar…

Mas ele é cego…

Sempre trabalho com a ideia de que é importante olhar mais uma vez para todas as situações com a pretensão de ver nelas oportunidades. Todos os eventos em que nos envolvemos, no meu ponto de vista, oferecem as mais variadas oportunidades. Podem ser eventos fortuitos ou não, com graves ou suaves consequências, entendo que se pode dirigir para eles um novo olhar. Não digo que sejam situações fáceis ou que seja simples fazê-lo.

Outro dia, enquanto apresentava essa ideia, um rapaz me interrompeu e disse:

– Acho que não concordo muito com isso… Eu tenho um amigo cego, daí me pergunto: como ele vai olhar mais uma vez? Ele não vê nada…

Fiquei um pouco surpreendido com a pergunta. Não foi pela sua dificuldade, mas por não haver entendido o sentido metafórico de olhar mais uma vez. Respirei, calei os meus julgamentos e respondi:

– Muito bem, eu tenho que concordar contigo, disse.

Prossegui comentando que o sentido de olhar não se limita a capacidade dos olhos de traduzir em imagens aquilo que está à nossa frente. Olhar mais uma vez é muito mais do que isso. Quando você leva o carro para a mecânica e pede para que “deem uma olhada” não é para que o fiquem admirando. Quando alguém faz um check up médico e diz que deu “uma olhada na saúde” também não tem o sentido de ver, mas sim de analisar, examinar, investigar e observar a situação para, a partir dela, fazer um diagnóstico que lhe permita tomar as ações adequadas. É esse o conceito que está por trás da expressão Olhe mais uma vez! Em cada situação novas oportunidades. Avançando para o ambiente organizacional, existem muitos cegos, surdos e paraplégicos em diferentes níveis hierárquicos e de gravidade. São tantos os líderes cegos que, ao não olharem mais uma vez para o ambiente e para as pessoas, não veem a necessidade de estimular a autonomia em busca da excelência por meio do alinhamento da missão organizacional e do propósito individual. No ambiente organizacional, são tantos os líderes surdos que não escutam as pessoas e os sons do ambiente e deixam de incentivar programas de desenvolvimento individual e prejudicam o crescimento organizacional. São tantos os líderes que estão paraplégicos de tanto correr, porque com a aceleração não permitem que a organização caminhe na direção escolhida. Para que não sejamos cegos, surdos e mudos é fundamental se manter na mente do aprendiz e assim ampliar a visão sobre o ambiente, escutar os sons do meio e mover-se na direção pretendida. Para isso, muitas vezes…

… é fundamental fechar os olhos para ver; é essencial silenciar para escutar; e é indispensável parar para se manter no caminho.

Enfim, no ambiente organizacional ou relacional, muitas vezes, não se sabe quem são os cegos, os surdos e os paraplégicos entre nós. Isso depende de cada um e da amplitude das suas ideias. Com relação ao amigo que não havia entendido a metáfora, somente posso lhe agradecer, porque o seu questionamento me fez olhar mais uma vez. Essa ideia está descrita no final do livro “Olhe mais uma vez”(p. 147): “É importante viver sabendo que podemos falar sem proferir palavras; que podemos ouvir sem escutar os sons; que podemos ver sem as imagens; que podemos caminhar sem mover as pernas; enfim, que podemos aprender a aprender mantendo a mente aberta e em sintonia com o mundo percebendo as oportunidades que nos rodeiam.”

Como anda a sua visão?

Como está a sua audição?

E a sua mobilidade? Será que é preciso parar para ser mover?

Às vezes, é preciso ressuscitar nossas capacidades…

FELIZ PÁSCOA!!!

Moacir Rauber

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O Mundo não vai parar…

O mundo não vai parar…

Mais um dia e mais uma briga começava. O filho, com dezoito anos, se sentia incompreendido pelo pai, pois acreditava que ele não sabia nada do mundo atual. Para ele, o pai não entendia a importância das redes sociais, não via a as amizades do mundo virtual com bons olhos e não aceitava que ele se divertisse com os jogos. Por outro lado, o pai se ressentia porque o filho não fazia as tarefas, não colaborava com a organização ou com a limpeza da casa e, além de tudo, não estudava e não trabalhava. Os dois viviam sozinhos desde que a mãe os deixara logo que o filho tinha seis meses. Em todos esses anos sempre viveram bem, entretanto, de uns tempos para cá, nada mais funcionava. A cumplicidade antes presente em todas as atividades que faziam juntos agora se chocava num antagonismo perceptível na presença um do outro. Depois de algumas acusações para lá e para cá o filho disse:

– Pai você não me entende. Sou um adolescente e preciso do meu espaço. Da minha privacidade. O mundo não me entende!!!

Uma cena que, provavelmente, se repete em muitos lares pelo mundo, geração após geração, na relação entre pais e filhos. Não há nada de novo no conflito. O pai admitia que não entendia o filho nessa fase, porém o que o assustava era a sua postura frente à vida.

Onde já se viu? Adolescente com quase vinte anos? Com essa idade eu já namorava sério e trabalhava. Meu avô já era responsável por manter uma família aos vinte... Retrucou irritado.

O mundo não te entende? E quem disse que o mundo precisa te entender? O mundo não vai parar por tua causa… Complementou.

O pai disse que a conversa terminou por ali. Assim, passaram os últimos cinco dias sem conversar. Escutei o desabafo do pai. Não disse nada, mas o meu diálogo interior foi ativado. Sem julgar um ou outro, certo ou errado, nem bom ou ruim, concordei com o pai quando ele disse que o mundo não vai parar para o filho, assim como não parou para ninguém. O mundo não parou para faraós, imperadores, bruxos ou feiticeiros, assim como não parou e nem vai parar para os ricos ou famosos da atualidade ou do futuro. O mundo simplesmente é e segue o seu caminho com você ou sem você. Portanto, acredito que cabe a cada pessoa entender o mundo para nele se posicionar. Qual é o meu papel no mundo? O que posso contribuir? O que espero receber? Creio que entender que o mundo não vai parar por minha causa é fundamental para saber ser e estar nele, fazendo dele um lugar melhor com a minha presença. No ambiente organizacional não é diferente. No olhar da organização para o indivíduo, saber avaliar quais as competências, características e perfis individuais podem contribuir para que a equipe seja melhor, mais competitiva e que entregue mais resultados é essencial. Na perspectiva do indivíduo para a organização, saber avaliar onde posso contribuir mais para estar bem com os meus objetivos é um passo dado rumo a realização pessoal. Trata-se de um processo de retroalimentação positiva. Em suma, entender que o mundo não vai parar por ninguém e que ele, igualmente, não é justo, permitirá que cada um possa se posicionar no mundo sendo justo.

Enfim, voltando para o diálogo entre pai e filho, estou seguro que os dois vão se entender outra vez, porque afinal o sentimento de amor existe entre eles. O exercício de entender o mundo pode tardar um pouco tanto para pai como para filho, porém os primeiros passos, talvez, passem pela importância de arrumar o próprio quarto e de ajudar na organização da casa. A saída é para dentro, porque o mundo não vai parar.

Moacir Rauber

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A regra de não ter regras…

A regra de não ter regras

Escutava o meu amigo que dizia não sonhar com a riqueza, entretanto nas suas palavras sempre aparecia o desejo de ganhar milhões. Ele argumentava que o seu desejo era o de poder ajudar os outros. Da mesma forma, entre uma fala e outra aparecia a vontade de ser dono de um iate para desfrutar de uma pescaria em alto mar ou de possuir um jatinho particular para se deslocar mais rapidamente entre as suas diferentes propriedades que almejava ter. Assim, os anos se passaram e ele conseguiu acumular um patrimônio tamanho que permite que ele tenha tudo o que dinheiro pode comprar. E aquele desejo de fazer o bem ajudando aos outros? E o sonho de diminuir a desigualdade ao distribuir o que acumulou? Bem, creio que esse desejo ficou lá nos arroubos da juventude, período em que mantínhamos nossas intermináveis conversas sobre o futuro. Hoje estamos acima dos cinquenta anos e o futuro que imaginávamos é o nosso presente. Na semana passada, encontrei-o virtualmente em meio a pandemia. Ele dizia:

– Você deveria ter estado conosco. A festa não terminava…

E contava os detalhes de mais uma das incontáveis festas organizadas por ele e seus amigos. Sempre que nos encontramos a conversa é alegre e divertida, porque a amizade continua. Porém, a divergência entre o sonhado e o realizado é enorme. Os comentários aproximam o meu amigo do desregramento comportamental no qual muitas pessoas sucumbem. A regra é não ter regras. Festas? Excessos diários são a regra. Consumismo? Ter é a norma. Relacionamentos? Uma lista interminável de inícios, meios e finais. Escutava-o. A necessidade de compartilhar era gigante. Não bastava fazer a festa, era preciso anunciar. Não era suficiente consumir, era essencial exibir. Não satisfazia conquistar, havia uma necessidade de arrebanhar. Por trás desse comportamento, quase compulsivo, se manifesta a volúpia, a luxúria e o desregramento. Uma busca desenfreada por novos prazeres sensitivos ligados a uma necessidade interna não identificada. Tais comportamentos também se manifestam no trabalho, nos estudos, nos esportes e em qualquer atividade que leve a buscar um prazer exagerado. Do outro lado da volúpia, da luxúria ou do desregramento estão a tristeza, a castidade e o controle, que por si só também não são qualidades. Entre a volúpia e a tristeza, entre a luxúria e a castidade e entre o desregramento e o excesso de controle se encontra a fruição. A fruição, que é a ação ou o ato de fruir, de aproveitar de usufruir uma oportunidade de forma consciente e prazerosa, representa o equilíbrio. Entendo que é saudável e humano festejar de maneira a celebrar o privilégio da vida. Parece-me importante consumir para atender as próprias necessidades, alimentando a interdependência benéfica com os sistemas de produção e o ambiente. Creio que é fundamental estreitar os relacionamentos com base na autenticidade e na respeitabilidade. Para mim, celebrar, consumir com consciência e estreitar as relações é o equilíbrio que representa a capacidade de fruir.

Enfim, o meu amigo que tem a disposição tudo o que o dinheiro pode comprar, hoje, depois de tomar meio litro do melhor uísque, vai dormir sozinho. A regra de não ter regras fez com que mais um de seus relacionamentos acabasse. Eu o conheço e acredito que a beleza que ele tem no seu interior ainda está lá. Tenho a certeza de que a realização daqueles sonhos da juventude ainda o fariam feliz. Talvez, falte-lhe a coragem de regar o seu amor-próprio para florescer a beleza da capacidade de saber fruir.

Moacir Rauber

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Na hora da raiva…

Na hora da raiva…

Escutar o desabafo de uma enfermeira revela como não controlar as emoções pode afetar a própria saúde física e mental. Ela dizia que estava finalizando o seu árduo dia de trabalho e teria um atendimento ainda por fazer. Diagnóstico? Covid. Sintomas? Nenhum. Ainda assim, ela deu uma aula sobre a transmissão e os cuidados para evitá-la, destacando a importância do isolamento. A enfermeira alertava sobre os riscos para si e para os outros na atual situação de falta de leitos para internamento. Por fim, a pessoa agradeceu e saiu. A enfermeira encerrou o trabalho e fez todo o procedimento de higienização com o máximo de cuidado para evitar qualquer possibilidade de contagiar-se ou de contagiar a outros. Agora ela iria para a sua vida familiar. Assim, ela passou pelo supermercado e qual não foi a sua surpresa ao se deparar com a pessoa que ela recém havia atendido, diagnosticada com COVID? A pessoa estava no quiosque do supermercado tomando um sorvete, conversando com o atendente e com as pessoas a sua volta. Foi então que a enfermeira não se conteve. Explodiu:

– Irresponsável!!! Criminoso!!! Não acabei de lhe falar para ficar em casa? Quem você pensa que é?…

Confusão armada. Outras pessoas intervieram para acalmar a enfermeira, enquanto se afastavam do portador do vírus. Provavelmente eu faria o mesmo, porém a enfermeira se colocou em risco físico ao perder o controle de suas emoções. A raiva venceu. A ira a dominou. O resultado? Ela se exaltou, a cólera governou, a indignação a arrebatou e, certamente, o seu corpo e a sua alma sentiram os efeitos negativos desse comportamento. A enfermeira terminou por se prejudicar e por não adotar a melhor estratégia para resolver a situação. A gestão das emoções é um dos grandes desafios individuais e organizacionais, porque elas são naturais e nos acometem em diferentes situações. Não se pode saber qual o momento que seremos confrontados com algo que vai nos provocar raiva. Entretanto, cabe a cada um de nós saber gerir a raiva ou a ira para não nos deixarmos dominar por elas. Ira ou raiva, sentimentos de ódio, fúria, cólera ou indignação dirigido a uma pessoa ou a uma situação, tendem a produzir resultados trágicos quando não controlamos as ações resultantes deles. Ressalte-se que a solução não está no seu extremo, onde se posiciona a passividade. Passivo é aquele sujeito que já não se indigna, não se incomoda e não se mobiliza por nada. É alguém que não age e nem reage frente aos maiores descalabros que estão ao seu alcance resolver. O que fazer frente as situações extremas? Respirar fundo para temporizar. Oxigenar o cérebro para avaliar sem julgar. Ser tolerante e agir com a firmeza de quem ainda se indigna com as situações absurdas. Frente as situações extremas, quase sempre, a melhor saída está no equilíbrio.

Ao se deparar com um paciente infectado em público a enfermeira explodiu de raiva e de indignação. Estou seguro de que manter o equilíbrio diante de uma situação tão revoltante é um desafio emocional extremo. Não sei qual seria a minha reação. Entretanto, a enfermeira reagiu dominada pela emoção e colocou em risco a sua própria vida. Talvez, o mais apropriado seria ter denunciado a pessoa por comportamento criminoso, além de alertá-la outra vez. Desse modo, ela não exporia o outro e muito menos a si mesma. Entre a ira e a passividade está a tolerância com ação firme que revela o cuidado e o autocuidado. E na hora da raiva? Respira fundo e conta até dez…

Moacir Rauber

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O preço do orgulho!

O preço do orgulho

 A vida era dura e as coisas não aconteciam com facilidade para ela. Cada sonho, toda busca ou qualquer conquista exigia um grande esforço. No entanto, ela se orgulhava de lutar pelo que queria com autonomia. O tempo passava rápido e ela não havia conseguido realizar uma de suas grandes ambições: a faculdade. Para conseguir ingressar numa universidade pública o conhecimento adquirido no Ensino Médio já estava muito distante. Dinheiro para fazer um cursinho nem pensar. Entrar numa universidade privada era uma possibilidade, porém a parte financeira era um empecilho. Ela vivia sozinha com a sua filha e o salário que recebia apenas cobria as necessidades básicas das duas. No seu trabalho, ela era dedicada, além de se envolver em atividades de voluntariado. Ela se orgulhava de poder ajudar. Um dia, conversando com a sua chefe, comentou sobre o sonho não realizado. A chefe disse que pagaria a universidade. Rapidamente ela recusou, dizendo que não era necessário, ao que a chefe respondeu:

– Não saber receber ajuda é uma das manifestações do orgulho…

Uma constatação verdadeira, porque o orgulho não somente se manifesta pela arrogância na interação com os demais. Ele está presente no excesso de autonomia e de independência que nos impedem de receber ajuda, um gesto de soberba ao crer que não se necessita dos outros. O provérbio português, “ninguém é tão pobre que não possa dar, nem tão rico que não precise receber”, retrata bem a interdependência humana. Todos podem dar algo. E ela entregava as suas competências no trabalho ao estar disponível para as atividades que eram parte de sua função. O ambiente que ela criava era positivo e propositivo. Ela ainda fazia os trabalhos voluntários ao ajudar a cuidar de idosos num lar próximo da sua casa. Não era porque a sua condição financeira não fosse das mais favoráveis que ela não poderia contribuir com algo além do seu trabalho. E ela o fazia acompanhada de sua filha. Porém, ao não querer ajuda, o orgulho se manifestava pela altivez ligada a soberba de se crer autônoma num mundo interdependente. Por que ela não queria que alguém lhe pagasse um curso universitário? Não saber receber ajuda pode ser soberba, orgulho ou arrogância e não sempre um exemplo de determinação pela autonomia. Dessa forma, muitos acreditam que se o orgulho de lutar pela autonomia pode representar a soberba, a virtude deve estar em seu antônimo, o outro extremo. Porém, o antônimo pode ser a submissão, o servilismo e até o puxa-saquismo, comportamentos que tampouco são positivos. Volta-se para o caminho do meio. Entre os extremos de orgulho e de submissão está a humildade, que é a virtude de saber se autoavaliar para reconhecer as fortalezas e as limitações, agindo em conformidade com elas. É a humildade no comportamento que permite que se interaja com os outros sem querer sobrepor-se ou se mostrar superior a eles. Enfim, creio que a virtude está no equilíbrio entre ser assertivo sem ser arrogante e ser humilde sem ser submisso. Assim, chega-se à harmonia.

Depois da conversa com a sua chefe, ela travou uma luta interna porque não havia gostado de ouvir que poderia estar sendo orgulhosa, arrogante e soberba ao não querer receber ajuda. Ela sempre lutara para manter a sua dignidade e se orgulhava disso. Entretanto, após os diálogos internos profundos ela conseguiu ver que a chefe tinha razão. Ela estava disposta a abrir-se para receber ajuda, porque o preço do orgulho, da soberba e da arrogância seria a não realização do sonho de fazer uma faculdade. Foi assim que ela se formou aos quarenta anos de idade.

Moacir Rauber

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Só o tutorial não basta!

Só o tutorial não basta!

Escutava as instruções do coordenador do retiro. Era um retiro de silencia, mas no final do dia tinha um momento de interação. Ele falava da importância dos exercícios mentais, conduzia dinâmicas de meditação e explorava técnicas para que cada um pudesse assumir o controle da própria mente. Reforçava que a mente nos mente e pode nos levar para lugares que não queremos ir. O coordenador ressaltava a importância de fazer as leituras orientadas e os exercícios programados para o dia seguinte, sob pena de apenas conhecer o conteúdo sem nos beneficiarmos da atividade. Por fim, ele disse:

– Muitas pessoas conhecem os tutoriais das aulas virtuais de atividades físicas, mas não fazem o exercício. De nada serve. A analogia se aplica para a mente…

Faz sentido. Ler os melhores livros sobre os benefícios da meditação ou da atenção plena e não praticar é similar a assistir aos tutoriais das academias de educação física sem fazer o exercício. Depois do tutorial é preciso fazer a atividade. Porém, muitas vezes, a preguiça vence e a pessoa fica no tutorial. A nossa mente, igualmente, precisa por em prática o conhecimento adquirido nas leituras, nos seminários e nos retiros para incorporar hábitos e comportamentos desejados. A reflexão do coordenador seguia no ritmo do retiro e ele se aprofundava em temas para que cada um se responsabilizasse pelas suas escolhas. Estar no ambiente que estávamos, com o dia todo voltado para as leituras e a meditação, fazia com que fosse relativamente fácil manter uma rotina com as suas práticas. Ainda assim, quase todos caíamos na tentação de não seguir o programa do silêncio e de não fazer todas as atividades propostas. Faltava-nos a disciplina para exercer a escolha feita. Portanto, imagine o tamanho do desafio de levar a prática proposta para o dia a dia. Como faríamos os nossos exercícios de meditação no mundo real? O que fazer para incluir uma prática de mindfulness nas 24h que cada um tem, as quais, muitas vezes, não bastam para as atividades correntes? Caso pensemos no antônimo da preguiça chegamos ao workaholic, o sujeito que não se cansa de sempre fazer mais. Notadamente a proposta dos retiros, da meditação e da atenção plena não é essa. Os extremos não são o caminho. Se de um lado está a preguiça e de outro lado o excesso de trabalho, entre eles nós encontramos a diligência, o equilíbrio. A diligência se refere a fazer aquilo que se escolheu fazer com cuidado, interesse e zelo por si e pelos outros, com a urgência e a presteza necessárias. Para ser diligente é preciso discernimento, a capacidade de avaliar as situações com o bom senso e a clareza necessárias para fazer uma boa escolha. Manter-se em movimento ao renegar a preguiça sem comprometer a sua busca de equilíbrio  e harmonia pelo excesso de atividade. É o equilíbrio que leva a pessoa à harmonia. Provavelmente, ao incluir um período de meditação ou de prática de mindfulness no seu dia a dia será necessário deixar algo para trás. Inicialmente poderá parecer difícil fazer a escolha, porém com a prática o menos será mais. Menos estresse e mais resultados. Menos trabalho e mais produtividade. Menos horas e mais conteúdo. Menos aflição e mais fruição.

Por fim, o coordenador disse que a preguiça é parte da natureza humana. Por isso, lembrei-me de um conselho de um empreendedor que dizia: “Preste atenção no preguiçoso. Quando ele procura um atalho vai ter mais trabalho. Muitas vezes, porém, ele usa a sua inteligência para propor uma solução que economiza recursos e esforços!”. Eis o ponto. Ficar somente no tutorial não basta. Depois da ideia é fundamental a atividade. É preciso ter o discernimento para agir com diligência e fazer o que deve ser feito.

Moacir Rauber

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Hoje eu caí em tentação!

Fonte imagem: ceagespoficial.blogspot.com

Hoje eu caí em tentação!

Encerrávamos um dia de intenso trabalho pessoal. Muitas leituras, reflexões e silêncio exterior. Internamente, cada um com os seus ruídos. Estávamos no alto do Morro das Pedras em Florianópolis, um lugar idílico em que os sons da natureza favorecem a que nos conectemos com o Eu mais profundo de cada um. No final do dia um momento de partilha em que cada um relatava as reflexões que havia feito. Dois ou três minutos de troca em que cada um dava e recebia; compartilhava e acolhia; ensinava e aprendia. Uma senhora pede a palavra para compartilhar com o grupo a experiência do dia:

– Acredito que com a meditação, com a preparação emocional e com o apoio do Ser Supremo nós conseguimos tudo o que queremos…

E relatou a sua luta contra a obesidade que acreditava finalmente estar vencendo. Ela disse que durante toda a sua vida sofrera com o seu peso corporal, que a afligia emocionalmente. A condição de obesa gerava nela desconforto e um sentido de inadequação. Assim, sempre que surgia um novo regime, uma nova técnica ou um novo e revolucionário medicamento para emagrecimento ela era a primeira candidata. Entrava num regime, parava de comer por completo e emagrecia. Em pouco tempo voltava a querer comer tudo, por isso engordava. Foram tantas as idas e vindas do seu peso entre um regime e outro que ela havia perdido as contas. Ela variava entre a anorexia e a gula. Internamente, acreditava que o seu desejo quase incontrolável de gosto pela comida, a gula, encontraria a solução no seu oposto ao bloquear esse desejo, a anorexia. Racionalmente, sabemos que a vida não é tão simples. Emocionalmente os desafios são muito mais complexos. Quase sempre, entre os antônimos encontramos o equilíbrio que pode nos levar a harmonia. Gula ou anorexia? Entre eles está a saciedade ou a temperança que se aplica à comida, assim como serve de analogia com os demais comportamentos. A gula por conhecimento não deveria desembocar na anorexia da arrogância de se crer melhor, mas na sabedoria de contribuir efetivamente para aqueles que não tiveram a oportunidade de se desenvolverem. A gula por desempenho não deveria nos levar para a anorexia da competição com o outro, mas para a competitividade de entregar o seu melhor para beneficiar o outro. A gula por manter o foco não deveria provocar a anorexia da falta de visão sistêmica, mas a entender o impacto daquilo que se faz no todo de que se faz parte. Desse modo, o excesso em cada uma das competências exigidas pelo mercado de trabalho pode produzir o seu efeito contrário, uma vez que a solução não está nos extremos, mas no caminho do meio, no equilíbrio. O equilíbrio traz a harmonia que revela um ser humano competente emocionalmente. Por fim, se são as competências socioemocionais que validam as competências técnicas, a meditação e a oração podem ser um bom caminho.

Depois da exposição da senhora sobre a sua convicção de que venceria os seus desafios a partir da internalização de uma nova imagem sobre si mesma, apoiada na oração e na meditação, ela fez um comentário sobre as comidas oferecidas no evento. Disse que tudo estava muito delicioso no café, nos lanches, no almoço e no jantar, mas que ela havia resistido bravamente. Todos ficamos felizes por ela, até o momento que ela complementou:

– Mas hoje eu caí em tentação. Quem é que pode resistir aos churros?

Rimos, porque todos havíamos nos empapuçado com os churros. Quem é que nunca caiu em tentação? Afinal, não somos tão racionais assim. Ekman diz que “somos seres emocionais que raciocinam”, muitas vezes, travando uma dura luta interna. Parece ser verdade!

Moacir Rauber

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Essa vaga deveria ser minha!!! Inveja ou inspiração?

Essa vaga era minha!!!

Estavam os dois amigos esperando o resultado da entrevista para a mesma vaga de trabalho. Haviam estudado juntos no ensino fundamental. Reprovaram no mesmo ano do ensino médio, porque optaram por cair na gandaia. E, por fim, fizeram a mesma faculdade que concluíram juntos. Uma amizade a toda prova que teve uma festa de formatura merecida. Agora era a hora de cada um buscar o seu espaço no mercado de trabalho. Os sonhos de trabalhar em determinadas empresas eram comuns. Por isso, no momento que foi aberta aquela vaga ambos se candidataram. O processo fora bastante competitivo, porém havia somente uma vaga. A quem caberia a oportunidade de realizar o sonho? A porta se abre e a resposta do processo seletivo é dada. O escolhido vibra. O preterido murcha. O que fazer? O amigo que não obteve a vaga reúne as suas forças, aproxima-se do outro, abraça-o e diz:

– Parabéns!!! Tudo de bom pra você!!!

O sorriso no rosto, entretanto, ocultava outra emoção. Ele não estava feliz. Sentia raiva, tristeza e inveja, porque acreditava que aquela vaga deveria ser sua. Ele lutou, estudou e fez o que estava ao seu alcance para conquistar o trabalho na empresa dos seus sonhos. Para ele, agora, os sonhos se desmoronavam. Ele tinha consciência de que deveria ficar feliz pelo seu amigo, porém, naquele momento não dava. Ele não conseguia parar de sentir inveja. Inclusive, desejava que o seu amigo não se saísse bem no trabalho. Sentia-se mal pelos seus pensamentos e se perguntava: “será que sou uma pessoa tão horrível assim?”. Particularmente entendo que não, esse jovem não é tão horrível assim. Ele é normal. Nunca sentir inveja é que não seria humano. Contudo, a diferença está com o que ele vai fazer com essa emoção surgida frente a um fato. Caso ele continue nutrindo a inveja inicial, ela se transformará em sentimento que poderá despertar novas emoções negativas. Por isso, a importância de tomar consciência daquilo que desencadeou a emoção para poder assimilar, entender e modificar o sentimento que dela será gerado para que surjam novas e boas emoções. Aquele que continuar nutrindo a inveja vai convertê-la em sentimento que o transformará num invejoso, tornando-o numa pessoa “horrível”. O que fazer? Muitas vezes se acredita que se algo não é bom o seu contrário deveria ser. No entanto, a vida não é tão linear. O antônimo de inveja é o desinteresse, uma percepção tampouco apropriada para o convívio e para as boas relações. Por isso, a busca do equilíbrio entre inveja e desinteresse é o caminho que nos leva à inspiração. Por fim, se a inveja é desejar possuir aquilo que o outro possui, o desafio é observar, reconhecer, assimilar e transformar essa emoção inicial em admiração e que sirva de inspiração para trilhar o próprio caminho. Desse modo, pode-se falar em desenvolvimento humano.

A quem nunca lhe pareceu que a grama do vizinho era mais verde? Quem nunca sentiu uma dorzinha de cotovelo porque o outro é um sortudo? Isso, é normal. Por isso, não se trata de negar a nossa dualidade humana entre boas e não tão boas emoções. Trata-se de encontrar alternativas para observar fatos sem julgar as pessoas; de sentir sem se culpar para transformar; de entender para afetar com afeto ao fazer as escolhas que o tornem melhor. Esse caminho vai permitir que cada um encontre a sua vaga. Aquela vaga era do amigo!

Moacir Rauber

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Pão duro ou mão aberta? No equilíbrio a Generosidade!

Pão duro ou mão aberta? No equilíbrio a Generosidade!

A vida estava por terminar. Ele trazia em suas lembranças a luta, o trabalho e a abnegação presente em sua jornada para poder acumular uma riqueza que nem os seus filhos conseguiriam gastar. Agora ele se retorcia de dor na cama, porém a sua preocupação continuava dirigida para a sua fortuna. O que faria com os imóveis? Qual o destino das suas empresas? Como seria administrado o seu fundo em ações? Enquanto estava nesse dilema outra vez tiveram que chamar a enfermeira de plantão que controlou a situação. Entretanto, todos ali sabiam que a sua partida era uma questão de tempo. Não havia mais o que fazer. Ainda assim, ele não conseguia se desconectar das suas riquezas materiais. Sabia que trabalhara muito para juntar a fortuna que não queria abandonar. Tinha noção que havia feito coisas que até Deus duvidava para fazer “bons negócios”. Nunca gastara um centavo com algo que não fora obrigatório. Por isso, estava ali no leito de hospital sem direito a acompanhante. Pensava:

– Não vou gastar meu dinheiro com isso. Pago impostos…

Do lado de fora, os filhos esperavam as notícias. Nenhum deles estava preocupado com as preocupações do pai. A avareza do pai sempre fora questionada pela mãe, pelos filhos e pelas pessoas com as quais convivera. Muitas vezes lhe haviam dito para fruir um pouco daquilo que acumulara, mas ele era um pão duro. Um dos filhos, notadamente um folgazão, sempre vivera como um nababo. Adulava o pai para obter as vantagens da sua riqueza. Ele era um verdadeiro mão aberta com o dinheiro que o pai se recusava a gastar. A situação pode parecer caricata, porém é verdadeira e se repete em diferentes famílias, organizações e culturas. De um lado, existem os avarentos. De outro, os esbanjadores. O avarento pode estar no papel de um líder, de um cônjuge, de um amigo ou de um colega de trabalho. São pessoas que não dão, não ensinam e não compartilham. Eles não confiam em ninguém e guardam para si as informações para manter a sua relevância pelo que possuem. Assim, podemos ter chefes mesquinhos, cônjuges miseráveis, amigos sovinas e colegas fominhas que apenas querem ganhar da posição, receber do amor, tirar das amizades e exaurir dos colegas. O esbanjador não se importa com aquilo que recebe e com aquilo que dá ao desperdiçar os recursos, os amores, as amizades e as relações. Não sabe o valor de se comprometer consigo e com o outro. O esbanjador não aprecia o esforço do líder para fazer com que a organização se mantenha; não reconhece a força de uma amor; não considera os benefícios de uma amizade; e não entende a interdependência com os colegas. Por isso, o desafio para se manter a esperança está no equilíbrio entre a avareza e o desperdício que se entende como generosidade. O que é generosidade?

No equilíbrio entre os antônimos da avareza e do desperdício surge a generosidade que é a capacidade de entender a importância de dar e de receber; de compartilhar e de acolher; e de ensinar e de aprender. Com a generosidade brotando do fundo de nosso ser podemos viver sem ser pão duro, em que acumular seja um meta e sem desperdiçar os recursos recebidos com a irresponsavelmente de um mão aberta. No equilíbrio da generosidade se manifestam as vozes da esperança de que podemos afetar o mundo com afeto, fazendo dele um lugar melhor para se viver.

Moacir Rauber

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