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Facetas!


Somos Únicos.
Somos Múltiplos.
By Moacir Rauber

É bom ser honesto!

Ao embarcar em Foz do Iguaçu tive uma experiência diferente. Logo que passei pela alfândega dei de cara com um sebo em que os livros tinham preço único. Os livros custavam vinte reais. Para alguns era um preço atraente. Para outros era um preço normal. Entretanto, o que chamou a atenção foi a não presença de um caixa humano. Ninguém estava lá para cobrar pelos livros comprados. Havia uma caixa de papelão como uma urna para se deixar o dinheiro. O nome do sebo era Peg Pag com o Auto Caixa. Ao fundo um cartaz com os dizeres, (1) Escolha seus livros; (2) Coloque o dinheiro no caixa; (3) Coloque os seus livros na sacola; e (4) Boa leitura. O cartaz encerrava com a frase, “Nós acreditamos nas pessoas”. Interessante, não é? Cada vez mais tem se observado iniciativas similares.

Parece-me que as pessoas estão voltando a se orgulhar de exibir a sua honestidade. E por que? Porque é bom ser honesto e, além de tudo, a honestidade dá lucro.

Como muitos outros transeuntes observei a iniciativa e não pude deixar de registrar o fato. Também entrei na livraria e escolhi um livro. Orgulhosamente, pus meus vinte reais no caixa. Deu-me a sensação de estar fazendo algo extraordinário, quando na verdade era o mínimo que eu deveria fazer, assim como todos. Conversei com um e outro. Todos exibiam a satisfação de estar num ambiente seguro e não controlado que é a expressão da liberdade. Depois segui para o portão de embarque. Confesso que nunca vi um lugar no Brasil em que havia tanta gente com um livro na mão. Pareciam todos realizados com o fato de que também estavam demonstrando a própria honestidade. Estar com um livro na mão naquele ambiente informava a todos que ele havia passado pelo sebo e que estava seguro de ter feito a coisa certa. Não era só isso. Demonstrava-se com a leitura a ânsia por um mundo seguro em que as pessoas podiam confiar porque todos são confiáveis. Estava expresso na atitude dessas pessoas o desejo de que esse exemplo se espalhe por toda a sociedade em todos os setores da vida coletiva que está fundamentada em bons valores, entre eles a honestidade. Pressuponho que aquele seja o sebo mais lucrativo do Brasil.

Porém, poderia ser questionado o comportamento das pessoas. Nós não deveríamos nos comportar em público da mesma maneira como nos comportamos quando ninguém nos vê? Concordo. A situação descrita poderia ser interpretada como a de muitas pessoas querendo apenas parecerem honestas. Prefiro ver pelo lado positivo. Acredito que aqueles que fizeram a sua compra sabendo que estavam sendo vistos também o fariam se ninguém os estivesse observando. Mais do que isso. Penso que a compra é uma compra de protesto. A compra era exibida de uma forma a mostrar que nós precisamos mudar ou resgatar a vivência dos valores que dizemos que defendemos.

A honestidade é um valor, verbalmente, defendido pela grande maioria, mas, muitas vezes, não exibido na prática.

Enfim, parece-me ser um bom momento para resgatar a honestidade como um valor social, assim como a confiança, a lealdade, a cooperação, entre outros. Além de tornar a vida de todos mais segura, a adoção de tais valores deixa a vida mais barata e mais fácil. Precisaremos de menos investimentos em segurança, que podem ser canalizados para o lazer, a educação e a saúde. Portanto, é bom ser honesto porque também dá lucro ser honesto.

 

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: [email protected]

Home: www.olhemaisumavez.com.br

Comprei uma Pós!

A conversa fluía bem com aquele jovem que estava concluindo a sua primeira graduação. Indaguei quais seriam os passos seguintes na sua vida e ele respondeu:

– Bom, trabalho eu já tenho, mas eu quero ser promovido. Por isso eu já comprei uma pós-graduação e… continuou as explicações.

A expressão ouvida sobre o jovem ter comprado uma pós me gerou estranhamento. Não que a ideia de “fazer” a pós fosse ruim, porque acredito que se vive num momento privilegiado em que o aprendizado faz parte de todos os momentos da vida de cada indivíduo. Do início ao fim da vida todos nós temos a oportunidade de continuar aprendendo. É uma dádiva! O estranhamento veio com a expressão “comprei uma pós” como uma garantia da evolução na carreira, mas sem a contrapartida da intenção de aprendizagem que poderia ser detectada caso ele dissesse “vou fazer uma pós”. Pode parecer simplesmente uma questão de vocabulário, porém entendo que há outras questões subjacentes, como a ideia de que se podem comprar coisas intangíveis, como as experiências.

Experiências não se compram.

Experiência quer dizer experienciar que significa experimentar, viver sentir, sofrer, suportar ou vivenciar, entre outros adjetivos.

Podemos pagar pelas experiências, mas elas precisam ser vividas.

Parece-me haver uma propensão a esse tipo de comportamento em diferentes áreas. Na saúde, por exemplo, a indicação para que as pessoas façam exercícios físicos, abandonando o sedentarismo com benefícios para o praticante, segue pelo mesmo caminho. Quem de nós já não ouviu um amigo ou um conhecido estufar o peito para dizer cheio de orgulho que já pagou adiantado a academia? Ou ainda que tenha se inscrito e pago as aulas de natação, crossfit ou outra atividade física? Enfim, muitos já ouviram casos assim, podendo até ter feito algo parecido. Destaca-se, porém, que depois da primeira semana da sua matrícula em vigor fica muito claro que se o indivíduo não alterar a sua rotina e inserir nela um espaço para a atividade física e realmente fazê-la nada vai mudar. Pagar a academia é o menor dos movimentos. Os movimentos que produzem efeitos são as repetições de qualquer exercício que se propõe a melhorar o seu condicionamento, a sua saúde e, consequentemente, diminuir o seu peso. Porém, esse movimento não há dinheiro que pague, porque é uma experiência. O mesmo acontece com o conhecimento. Ele é uma experiência.

Para o presente contexto adquirir e comprar não são sinônimos. Entenda-se adquirir como o ato de conquistar ou de alcançar algo por meio do cumprimento de exigências somente possíveis numa experiência, enquanto comprar como o ato de dar um determinado valor para receber um produto em troca. Não é o caso da pós-graduação. Não há dinheiro que compre a experiência de fazer uma pós-graduação que resulta na experiência de ter adquirido conhecimento. Assim como é o caso de tantos valores intangíveis que muitas pessoas gostariam de comprar, mas que se quiserem desfrutar precisarão adquirir.

Ainda não se pode comprar a criatividade para se ter uma ideia ou a capacidade de se exibir um pensamento profundo ou a aptidão para o discernimento consciente que se adquire por meio do conhecimento.

Portanto, entendo que a nossa vida é feita de experiências que expandem o conhecimento e estendem a vida.

Pague a sua pós-graduação, adquira conhecimento e viva a experiência.

 

Moacir Rauber

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Você sabe ser feliz na abundância?

http://recreio.uol.com.br/noticias/corpo-humano/cuide-do-seu-corpo.phtml#.XEukn1xKhPY

Via a minha amiga caminhando da sala em direção à cozinha, da cozinha para a varanda e depois de volta para cozinha. Ela demonstrava a irritação da insatisfação de quem não sabe o que quer. Por fim, ela foi em direção à geladeira, abriu a porta, olhou e exclamou:

– Não tem nada para comer na geladeira…

Fechou a porta contrariada e sentou-se no sofá em frente à televisão. Poderia até parecer a cena de uma família pobre em que falta comida e que que vivem a escassez. Não era o caso. A geladeira estava cheia de bolos, salgados e uma enorme variedade de opções para quem estivesse com fome. Era a realidade de quem vive a abundância. É o que acontece com muitas pessoas nos dias de hoje. Elas têm quase tudo disponível na hora que querem, por isso parece que não tem nada. No fundo, elas nem sabem o que querem, para que querem ou se realmente querem. Uma comida diferente? Basta pegar o telefone ou acessar um aplicativo que se tem todas as opções disponíveis. Mas é preciso ter fome! Um filme? É só ligar a televisão e sintonizar os diferentes canais ou senão acessar uma plataforma online que oferece uma seleção infindável de comédias, dramas ou outro gênero qualquer. Mas é preciso estar com real vontade de assistir a um filme! E assim se sucedem os exemplos de nossa era da abundância. E como ser feliz com tanta oferta?

As gerações anteriores viveram e souberam viver na escassez. A prova disso é que estamos aqui. Eles travaram lutas pela sobrevivência. Quem não plantasse e não armazenasse alimentos de um ano para o outro, muito provavelmente, passaria fome. Quem não se protegesse contra os predadores naturais que ainda atacavam o ser humano poderia não amanhecer no dia seguinte. Desse modo, nos períodos de escassez, todas as experiências eram valorizadas. No dia a dia comia-se para se alimentar, comedidamente, porque a oferta era limitada. Fazer uma refeição extraordinária? Era uma experiência preparada, aguardada e saboreada, porque ela não acontecia a todo o momento. Eram momentos especiais, como festas, casamentos e datas comemorativas em que se comia para degustar. Valorizavam-se tais momentos porque eram poucos. As mesmas regras se aplicavam para as bebidas e outras experiências sensoriais humanas. Da mesma forma, estar vivo era um privilégio, porque a morte era uma realidade comum em cada família. Morria-se muito jovem por doenças, acidentes e até por ataques de animais. Esse perigo diminuiu muito e agora nós somos os nossos maiores predadores. Hoje, muitas pessoas vivem a abundância em diferentes áreas. Na alimentação nós vivemos uma época de ofertas como nunca antes vista. E nas relações amorosas? Cada vez em maior número e com menor intensidade. E nas possibilidades de comunicação? Disponível em cada canto do mundo para falar com quem se quiser e cada vez com conexões mais frágeis. Por isso a pergunta: você sabe ser feliz na abundância?

Uma das estratégias talvez seja a de se privar, voluntariamente, daquilo que você gosta e que está disponível sempre que você quiser (Sugerido por Greater good in Action – https://ggia.berkeley.edu/). Os antigos adotavam o jejum como uma prática religiosa e também de saúde. Hoje percebe-se cientificamente que o nosso organismo precisa da escassez para encontrar o equilíbrio gerado pela abundância. Portanto, qual é a comida com a qual você se delicia e que está no seu cardápio frequentemente? Para reaprender a saboreá-la deixe de comê-la por duas semanas e depois faça uma refeição com a consciência dos prazeres sensoriais que o degustar consciente do prato proporciona. É um exemplo de uma prática que pode ser aplicada em diferentes domínios da vida. Abster-se daquilo que se tem para valorizar aquilo que se tem.

Assim como a minha amiga do início do texto, ainda preciso saber valorizar o que tenho para não transformar a abundância em tédio e frustração.

E na sua vida, como vão os seus sentidos? Você sabe desfrutar da abundância?

 

Moacir Rauber

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