Cidadão útil ou inútil?

Aquele era um dia diferente. Toda terceira quarta-feira do mês eu não ia ao trabalho, porque era o dia em que eu participava das atividades do grupo de idosos da comunidade. O local era lindo. Tratava-se de um imenso jardim à beira de um pacato arroio. Nele viam-se muitos idosos desfrutando de um lindo dia de sol. Muitos estavam sentados juntos às suas mesas jogando baralho, dominó, xadrez, dama ou outro jogo de tabuleiro qualquer. Outros circulavam de um lado a outro. Alguns serelepes e faceiros. Outros devagarinho e com todo cuidado. Também havia os que usavam bengalas e cadeiras de rodas, elétricas ou manuais. Entre eles, havia aqueles que ajudavam, que serviam, que organizavam e, às vezes, até empurravam uma cadeira para lá ou para cá. Enfim, era uma festa da idade, da experiência, da alegria e, porque não, da teimosia, das manias e das birras, porque nem só de maturidade vive a melhor idade. Tudo misturado naquele grupo de pessoas em que ter setenta anos poderia ser considerado o vigor da juventude e lá estava eu com meus quase trinta anos. Olhava fascinado para aqueles idosos. Gostava daquilo. Observava-os divertindo-se como crianças. Algumas brigas, disputas e discussões. Muitas risadas, gargalhadas e abraços. Aquele ambiente dava-me a impressão de que realmente não envelhecemos.

Não fui ao trabalho, mas ele veio até mim. Por ser um homem “útil” no meu escritório e ter clientes importantes, marquei para que um deles fosse até o recanto onde o trabalho de cuidar do caixa do grupo de idosos era a minha ocupação. Logo que vi o homem de terno entrar no ambiente deu para perceber que ele estava deslocado. Não pela vestimenta, porque muitos idosos também faziam questão de estarem bem trajados, mas pela expressão do rosto. O executivo deveria ter entre quarenta e cinco e cinquenta anos. Conhecia-o há algum tempo e a sua postura sempre indicava força e vigor. Parecia que tudo estava ao alcance da sua vontade, pelo menos no seu ambiente. Ali pareceu-me constrangido, pouco à vontade, inseguro até. Talvez viesse do fato de ele ter se deparado com o futuro de todos aqueles que nele chegam, idade avançada, e não tenha gostado do que tenha visto. Não sei…

Assim que ele chegou até mim, cumprimentou-me e conversamos algumas amenidades. A nossa negociação não demoraria mais do que quinze minutos. Antes de entrarmos nos assuntos profissionais o meu cliente disse:
– Não sei por que você vem sempre aqui. Olha, não é por falar, mas ver esses velhotes todos me deixa meio triste. Imagina você a gente chegar nessa idade e não servir mais pra nada? Ficar por aí só jogando baralho e dando trabalho? Deve ser triste demais não ser útil para nada…

Fiquei em silêncio. Não havia nada que eu pudesse falar que faria ele mudar a sua visão de mundo, pelo menos naquele momento. Certamente o tempo se encarregaria de fazê-lo. Em seguida tratamos dos nossos negócios e ele foi embora.

Voltei a olhar para as pessoas e para o ambiente. Fiquei pensando comigo mesmo, Ah, como eu gostaria de ter noventa anos. Poder ficar aqui, jogar meu baralhinho e mais nada… Alguém poderia me perguntar, Como assim? Por que você gostaria de ter noventa anos? Sim, realmente gostaria. Talvez o motivo principal não seja o de desfrutar o prazer de não fazer nada, mas a certeza de ter chegado até os noventa anos. Quem me garante que eu chegarei até eles?

Escrevo este texto vinte anos depois da cena descrita inicialmente, porque na última semana conversei com alguém sobre o tema. Isso fez me lembrar daquele meu cliente que não gostaria de viver sem ser “útil”. Realmente não foi preciso. No auge da sua utilidade, cerca de dez anos depois daquele nosso encontro, ele faleceu depois de um infarto. 


Muitas vezes reflito sobre a questão de sermos úteis ou não. Realmente gosto de fazer coisas, de trabalhar e de me sentir “útil”. Aí me pergunto: será isso o mais importante? Talvez essa ideia utilitarista das pessoas deva ser repensada, porque não é só disso que a vida é feita. Podemos não ser “úteis” quando nascemos ou quando nos aproximamos da morte, mas somos cidadãos em ambas as situações. 

Creio que devemos lembrar que, muitas vezes, o inútil existe até para que o útil possa ser útil. Desse modo, inútil o inútil não é!


Segunda-feira

Numa segunda-feira fui ao salão para cortar o cabelo. A ideia era começar a semana bem e de visual renovado. Fui logo atendido e alguns minutos depois já estava pronto. Afinal, a grande renovação do visual era apenas passar a máquina na cabeça. Puxei a carteira e paguei. Estava me despedindo quando ouço uma pessoa fazendo uma pergunta:
– Vocês abrem nas segundas-feiras? Eu estava querendo pintar o cabelo…

Silêncio. A moça indagada ficou sem saber o que dizer. A que fez a pergunta esperava uma resposta. Eu abanei a cabeça e fui embora, afinal era segunda-feira… Pensei, Abraça a moça, quem sabe ela volta para o planeta. Para a segunda-feira…

É, às vezes as segundas-feiras são assim mesmo. 
Ainda bem que hoje já é terça.

Por que acredito nas pessoas 2?

O meu amigo estava em casa e já dormia tranquilamente com sua esposa. Tudo como deve ser, porque afinal já era meia noite de domingo e a segunda seria corrida. De repente toca a campainha de forma insistente. Precavido, antes de abrir a porta ele olha para saber quem afinal estaria tocando a campainha da sua porta naquele horário? Era a sua mãe… O que será que aconteceu? Rapidamente ele atendeu ao interfone e ela perguntou:
– Meu filho, você está com a chave do seu carro?
– Claro que sim… respondeu ele de forma tranquila, mas nem tão segura.
– Então dá uma olhadinha… disse a mãe.

Naquele momento ele já sabia que a chave não estava com ele, mas olhou para o lugar onde a chave deveria estar, Onde será que foi parar?
– A chave tá com a senhora?
– O que você acha?

Ele desceu para pegar a chave com mãe, ainda sem saber exatamente o que tinha acontecido. Mãe e filho moram numa zona residencial em que os carros ficam estacionados em frente aos prédios. Não há muros, não há segurança, não há vigilância. Somente há a rua que cruza entre os prédios de um e de outro.

Chegando lá abaixo em frente ao prédio, a mãe tratou de esclarecer o corrido:
– Os rapazes que sempre ficam lá na esquina passaram pelo seu carro e viram a chave na porta. Recolheram a chave e a levaram até o bar da esquina. Perguntaram se alguém sabia de quem era o dito carro. O dono do bar acabou de me entregá-la…
– Ai, Jesus… disse o meu amigo. Esqueci-me da chave na porta quando fui pegar a minha filha que estava a dormir no banco de trás. Que sorte a nossa! O carro estava com o tanque cheio e ainda tinha muito material valioso dentro dele…
– Veja lá por onde andas com a cabeça. Agora vou eu também dormir.

E lá se foi a mãe do meu amigo para o seu prédio, resmungando entre dentes alguns palavrões. O meu amigo voltou para o seu apartamento e chegou a conclusão, As pessoas são boas! É por isso que acredito nelas.

Aqueles rapazes agiram acertadamente sem olhar a quem, mas com certeza devem estar se sentindo muito bem. Se a ocasião faz o ladrão, ela também pode fazer o homem bom.

Afinal, é muito bom ser bom!!!

Fonte: Ricardo Vieira.


Ela é linda!!!

A mulher olhou para a minha esposa demoradamente. Depois olhou para mim com um ar de espanto para dizer:
– Mas a tua esposa é muito bonita. Ela é linda. Muito bonita mesmo!

Suspirou, deu mais uma olhada para ela, voltou a me olhar para reafirmar:
– Ela é realmente linda. Muito bonita!

Saiu da sala, cruzou a porta, foi até a varanda, parou, virou e voltou para mais uma vez dizer:
– Muito linda…
Depois disso foi embora. Deu-nos a impressão de que faltou apenas complementar:
– Como pode?
Pela expressão dela, minha esposa e eu não tivemos dúvida nenhuma de que era o que se passava na cabeça daquela mulher. Ela deveria pensar, Como pode que uma mulher tão bonita havia se casado com um usuário de cadeira de rodas e assim continuava após quase vinte anos? Em alguns momentos parecia que queria dizer, Muito linda, viu? ou Muito linda para você! numa espécie de acusação de que eu a tivesse abduzido ou tivesse sido um irresponsável por ter me casado com uma pessoa tão bonita. E isso que ela não a conhece.

Minha esposa é ainda mais linda para quem convive com ela. Posso testemunhar isso. Ela se dedica integralmente a tudo aquilo que ela assume como responsabilidade e são muitas as coisas que assume. Ela se preocupa com as pessoas que são amigas e também com aquelas que nem tão amigas são. Não, ela não somente se preocupa, ela realmente ajuda muitas pessoas.

Ela também consegue se inspirar para fazer as pequenas tarefas diárias que resultam em grandes conquistas pessoais. Ela se diverte estudando, trabalhando, passeando, viajando, conversando, ouvindo, abraçando, sorrindo… Ela é feliz com aquilo que tem!

E eu sou um privilegiado que posso dividir meu tempo com ela…

FELIZ ANIVERSÁRIO, ANDRÉIA!!!
Ela não é linda?

Vocês não se importam de esperar?

A van cheia de atletas parou em frente ao restaurante. Logo atrás estacionaram mais dois ou três carros. Eram aproximadamente vinte pessoas que iriam almoçar naquele restaurante. O técnico foi até a entrada do restaurante e falou com a moça para ver se havia lugar para todos. Ela fez uma cara preocupada. Olhou para a parte interna do restaurante e avaliou o espaço. Olhou em direção ao grupo de pessoas que se movimentavam ao redor da van e também dos carros. A cara de espanto era evidente. Provavelmente deveria estar pensando, Meu Deus, como vou acomodar tantos cadeirantes e pessoas com muletas aqui dentro? Sim, tratava-se da equipe de basquete em cadeira de rodas que era formada por pessoas com deficiência física. Algumas das pessoas usavam cadeiras de rodas, outras muletas e outras tantas locomoviam-se sem nenhum auxílio. Uma diversidade de tipos e estilos, mas todos com fome. Via-se que a moça do restaurante estava impressionada. O técnico da equipe com toda a sua experiência de convívio com os atletas também já havia avaliado o espaço e sabia que era o suficiente. Certamente que precisariam empurrar e ajustar algumas mesas e cadeiras, mas nada que cinco minutos de boa vontade não resolvessem. Ele estava esperando uma resposta. A moça começou a gaguejar:
– Pois é… É… Não sei… Talvez…

Silêncio. Ela olhava para a área do restaurante, para os outros clientes e para a movimentação das cadeiras de rodas em frente. Em seguida entrou no restaurante, falou com alguém e retornou para dizer ao técnico:
– Olha, se vocês quiserem esperar mais ou menos uma hora até que o movimento diminua ou se não vierem muitos outros clientes daí eu posso acomodar vocês…

Nisso chega um casal que passa pela moça e entra diretamente no restaurante:
– Bom dia!
– Bom dia! Responde ela.

Logo, ela volta a olhar para o técnico, que já estava com a boca aberta pela primeira parte da resposta, e continua:
– Sim, se vocês aguardarem por aqui depois eu poderei atendê-los…

O técnico não acreditava no que havia ouvido. Sequer respondeu algo, mas pensou, É lógico que nós nos importamos. Por que os outros não precisam esperar?. Voltou ao encontro de todos os atletas que já haviam descido dos carros e esperavam para entrar no restaurante dizendo:
– Vamos até aquele outro restaurante. Aqui está “cheio”.

Ninguém entendeu direito o que havia acontecido, porque olhando para o restaurante via-se que havia espaço. Porém, niguém questionou e todos seguiram o técnico. Em poucos minutos almoçaram num restaurante com menos espaço, mas com muito boa vontade.

Antes de embarcar na van o técnico foi até a moça do primeiro restaurante, que continuava na porta esperando clientes, e disse:
– Muito obrigado pelo atendimento. Vejo que vocês estão “lotados” hoje… e olhou para o interior do restaurante que continuava praticamente as moscas.

É óbvio que ninguém se importaria de esperar caso fosse necessário porque o espaço estivesse lotado. Porém, esperar porque talvez um usuário de cadeira de rodas ocupe mais espaço que outro cliente? Isso não. Ninguém estava lá para almoçar de graça, tratava-se de um grupo de clientes, que por uma razão ou outra, fugia um pouco do estereótipo convencional.


Começa a ser urgente o entendimento de que a sociedade deve atender ao cidadão, todos eles!

Por que acredito nas pessoas?

O dia havia sido duro. Tivemos aulas pela manhã, tarde e noite. Como de costume fui para a cama por volta das 23h30min e em poucos minutos dormia profundamente. O celular estava na cabeceira da cama e de repente ouvi algo tocar. Não sabia o que era. Estava atordoado pelo sono profundo e pareceu-me ter sido apenas um alerta. Alguns segundos depois um novo alerta. Ainda meio confuso, consegui identificar que se tratava de uma mensagem no celular. Quem seria naquela hora da noite? Deveriam ser umas 3 ou 4h… pensei. Sobressaltado procurei o celular e tateei em busca dos óculos. Estava realmente preocupado, porque minha esposa estava noutra cidade, meus pais e irmãos em outro país. Será que acontecera algo ruim com alguém?, foi o pensamento que me veio a cabeça. Ajeitei os óculos e ainda meio zonzo vi que não era tão tarde quanto imaginara, pois haviam passado apenas 50 minutos desde que me deitara. Em seguida identifiquei a origem da mensagem, o que me deixou intrigado, Muito estranho, o que será que Domingos, o taxista, quer uma hora dessas?, perguntava-me. Fiquei aliviado porque coisa ruim não seria, já que o Domingos não conhecia nem parentes nem amigos meus.  Devo ter esquecido algo no táxi hoje… foi o meu pensamento seguinte. Eu estava naquela cidade por volta de um mês e sempre me deslocava com o mesmo taxista para um lado e para o outro. Nessas idas e vindas o Domingos e eu já havíamos conversado muito. Durante aquele dia foram duas corridas e altas conversas. Em seguida abro a mensagem e leio o texto:
– Olá! Vi uma matéria na televisão que dizia que no Reino Unido, um homem paraplégico voltou a andar após um transplante de células do nariz para a medula espinhal…
É realmente uma ótima notícia para um usuário de cadeira de rodas como eu, mas naquela hora da noite certamente eu não faria nenhuma cirurgia para voltar a caminhar… 

O Domingos prosseguiu em outra mensagem:
– Os médicos eram poloneses e trabalharam com a colaboração de cientistas em Londres. Desculpe a hora, mas acabei de ver a notícia no telejornal. Um abraço. Domingos táxis.

Ri e voltei a dormir.

No dia seguinte fiquei pensando no ocorrido na noite anterior, As pessoas são boas. Elas querem ver os outros bem também!, foi a conclusão a que cheguei. O Domingos disse-me num dia seguinte que ficara tão feliz com a possibilidade de que eu um dia poderia voltar a caminhar que não se aguentou e quis informar-me imediatamente. Passou-me também endereços de internet onde eu poderia encontrar mais informações.

As pessoas são boas, por isso acredito nelas!

Visão de mundo

Acredito que devamos educar as pessoas para serem boas umas para com as outras e não para que queiram ser melhores umas do que as outras.

Desde muito cedo gostei de ler, conversar e escutar sobre política, entre outros assuntos polêmicos ou existenciais. Interessava-me ouvir as argumentações a favor e contra uma visão. Descobrir a verdadeira posição por trás de uma explicação era o que eu buscava na fala dos meus professores já no Ensino Médio. Ficava atento a como eles apresentavam e abordavam um determinado tema para encontrar pistas sobre qual o posicionamento que eles teriam fora de sala de aula, principalmente o político. Normalmente, era muito fácil identificar. Alguns professores tentavam ocultar a sua opinião, mas nada que algumas perguntas bem colocadas não ajudassem a revelar. Entretanto, havia um professor de quem eu não conseguia extrair a informação que buscava. Ora parecia-me que ele tendia a um lado, ora parecia-me o oposto. Era justamente o professor que trabalhava as disciplinas voltadas para temas filosóficos e sociológicos no Ensino Médio. Por fim, terminei o colégio e perdi o contato com o professor, mas havia concluído que ele tendia para uma determinada corrente política. No ano seguinte, tivemos eleições. Para minha surpresa, o professor lançara-se candidato a vereador. Surpresa maior ainda foi vê-lo ser candidato justamente pela corrente política oposta àquela que eu havia identificado como sendo a dele. Não acreditava naquilo. Como ele poderia ser da corrente política contrária àquela para a qual, aparentemente, ele demonstrava mais simpatia em sala de aula? A minha surpresa se transformou em admiração, porque percebi que o professor havia me dado a oportunidade de ter uma visão do mundo e não apenas a sua visão de mundo. Além do mais, ele demonstrou um comportamento ético quase inimaginável nos dias de hoje.

O tempo passou e eu também acabei em sala de aula. Havia um grupo de alunos da Faculdade de Administração que era muito engajado politicamente, por isso temas polêmicos eram recorrentes no transcorrer de um mês ou de um semestre. Toda vez que a visão política partidária se imiscuía no tema das aulas eu adotava a posição da não posição. Levantava questões de uma ou outra vertente política, ligando-as ao tema da administração. Buscava ampliar as fontes de consulta teóricas para que os alunos pudessem ter a visão ampliada daquilo que se debatia. Lembrava do professor que eu tive e sabia que o meu pensamento não era importante, mas o que se pensava sobre o assunto o era. No ano seguinte, novamente teríamos eleições. No final do período para filiação partidária, um dos meus alunos me pediu para que me filiasse ao seu partido político. Agradeci o convite e justifiquei o fato de não me filiar a nenhum partido político em função da minha profissão. Não deixava de ser verdade, porém destaco que o convite veio de alguém que defendia ideias políticas exatamente contrárias às minhas. Fiquei feliz por isso. Havia conseguido não revelar minha visão de mundo para que os alunos tivessem a visão de um mundo muito maior do que as limitações a que cada um de nós está sujeito pelos próprios limites da visão.

Observando a realidade atual das escolas e universidades, admiro ainda mais aquele professor. Admiro-o porque muitos educadores e professores que trabalham com as disciplinas de filosofia, sociologia e outras voltadas ao desenvolvimento da capacidade de pensamento e abstração dos alunos são os primeiros que se posicionam sobre tudo e sobre todos. Tais professores e educadores têm a convicção de que ao dar a sua visão de mundo contribuem para um mundo melhor. A realidade, no meu ponto de vista, é outra. Acredito que, ao limitarem os alunos a verem o mundo como eles o veem, desenvolvem um processo de castração da capacidade de abstração individual. Os alunos não constroem conhecimento, pois geralmente emprestam-no dos professores, que ficam felizes e se regozijam ao conseguir converter os alunos para a sua linha de pensamento. Para mim, isso é triste porque empobrece a diversidade de pensamento natural do ser humano, criando um bando de seguidores e não de pensadores. Portanto, tampouco conhecimento é o que se produz.

Assim, coloca-se um desafio para professores e educadores: entrar e sair de sala de aula sem revelar suas opiniões e posições individuais sobre assuntos como política, religião, economia, filosofia, administração, direito, sociologia ou outros. Quantos professores e educadores conseguem não limitar os alunos com a sua visão de mundo? Quantos conseguem mostrar as diferentes visões de mundo, ainda que contrárias a sua, sem o seu próprio juízo de valor? Quantos realmente conseguem mostrar o mundo sem uma visão ou enquadramento feito pelas próprias lentes, pela sua própria maneira de olhar? Somos resultado de uma construção social, entretanto, quando nós, professores e educadores, entendermos e respeitarmos os alunos como um verdadeiro outro certamente conseguiremos não restringi-los às nossas limitadas visões. O mundo é muito maior do que o vemos e tem muitas possibilidades além da nossa visão. Ao fazermos isso, ampliaremos as discussões e visões, tendo como resultado um crescimento exponencial de teorias e, quem sabe, de soluções.

Entendo também que sempre e quando queremos impor ao outro a nossa visão, além da limitação de uma visão, trata-se claramente de uma atitude prepotente e arrogante de quem se acredita melhor do que o outro. Ao aconselhar o outro a adotar a minha visão de mundo dou a entender que eu sou melhor do que aquele a quem dirijo o meu conselho. E, por fim, quase que contrariando o aqui professado e também ao exemplo do professor que digo ter seguido, expresso a minha visão, ciente das minhas limitações: acredito que devamos educar as pessoas para serem boas umas para com as outras e não para que queiram ser melhores umas do que as outras.

Teoria e prática

Fernando Pessoa não é só poesia ao escrever sobre prática e teoria…

“Toda a teoria deve ser feita para poder ser posta em prática, e toda a prática deve obedecer a uma teoria. Só os espíritos superficiais desligam a teoria da prática, não olhando a que a teoria não é senão uma teoria da prática, e a prática não é senão a prática de uma teoria. Quem não sabe nada de um assunto, e consegue alguma coisa nele por sorte ou acaso, chama teórico a quem sabe mais, e, por igual acaso, consegue menos. Quem sabe, mas não sabe aplicar – isto é, quem afinal não sabe, porque não saber aplicar é uma forma de não saber -, tem rancor a quem aplica por instinto, isto é, sem saber que realmente sabe. Mas, em ambos os casos, para o homem são de espírito e equilibrado de inteligência, há uma separação abusiva. Na vida superior a teoria e a prática completam-se. Foram feitas uma para a outra.”

… mas não deixa de ser poético!

Texto extraído do livro Organizem-se! A gestão segundo Fernando Pessoa reúne e contextualiza escritos mais econômicos do poeta. A edição da obra é de Filipe S. Fernandes.


Um pedinte diferente…

– Olha, aqui estão os 0,70 centavos de troco…
– Não, não precisa. Pode ficar.
– Obrigado!!! Disse o rapaz. Em seguida saiu correndo para ainda ter tempo de pegar o trem.
Quem nunca se confrontou com alguém próximo a uma rodoviária, estação de metrô ou de trem pedindo dinheiro para comprar a passagem de volta? As razões são muitas, desde o extravio da carteira, ter sido assaltado, a necessidade urgente de visitar um parente adoentado ou a morte do papagaio, do cachorro e até da mãe. Não sabemos quando falam a verdade, porque a realidade quase nunca é essa. Endurecemos e deixamos de ajudar, porque o que sabemos é que na grande maioria das vezes o sujeito vai pegar o seu dinheiro e comprar cachaça ou crack. Simples e triste assim.
A minha esposa, entretanto, encontrou um pedinte diferente. Ele estava circulando entre os portões da estação pedindo a quantia de 1,30 que ainda lhe faltavam para comprar a sua passagem de volta para casa. Ela lhe deu dois e ele quis dar o troco, conforme o diálogo inicial. Pode isso? Claro que pode, quando a pessoa realmente vai usar o dinheiro para o fim pedido…

Educar para ser bom!

Eram quatro horas da madrugada quando saí da casa do meus amigos para ir para a minha casa. Seriam mais ou menos novecentos metros rodando com a minha cadeira de rodas pelas ruas desertas da cidade. Cheguei na esquina da avenida, cruzei a primeira pista e parei no canteiro central para esperar um carro que por ali circulava. Vi que ele estacionou antes da faixa de pedestre no seu lado direito. Assim, aproveitei para cruzar a faixa da segunda pista que agora estava vazia. Observava a movimentação porque percebi que o carona saía do carro. Automaticamente um sinal de alerta foi ativado em minha mente. O rapaz vinha em minha direção. A primeira reação foi de medo, Esse cara vai me assaltar… pensei. Mas não havia muito o que fazer. Correr com a minha cadeira de rodas? Sem chances… Estava realmente preocupado, mas segui em frente. O rapaz me abordou:
– Ei, tá tudo bem? O senhor precisa de ajuda?
Fiquei imediatamente aliviado. Vindo de uma cultura em que a violência e a desumanização das pessoas tem sido um constante o oferecimento de ajuda de forma gratuita é inesperado. Logo, senti-me um pouco envergonhado por ter pensado mal de alguém que não conhecia. Em seguida respondi:
– Não, não. Tá tudo bem. Estou indo pra casa. Moro logo ali, quatrocentos metros em frente. Já tô quase lá…
– Mas o senhor quer que o levemos até a sua casa?
– Muito obrigado! Também estou aproveitando o passeio e a frescura da madrugada. Muito obrigado mesmo.
O rapaz, que tinha lá seus 25 anos, oferecia ajuda espontaneamente. Ele e seus amigos que ficaram no carro deveriam estar indo ou vinda de algo festa. Tiveram a percepção de parar e oferecer ajuda alguém que talvez pudesse precisar. Foi espetacular! Em seguida o jovem se despediu gentilmente, entrou no carro, acenou e foi embora. 

Uma cena simples, mas para mim reveladora. Mostrou-me que as pessoas são boas, desde que sejam educadas para serem boas. Aquele rapaz certamente foi educado para ser bom. E é bom ser bom. 

Ainda olhei para trás e vi o carro seguindo o seu caminho, enquanto eu seguia o meu. Cheguei em casa e dormi com a certeza de que o mundo pode ser um lugar melhor para se viver. E mais, fiquei com vontade de ser gentil também…

Somos únicos. Somos múltiplos.