Proteja esta casa dos tigres…

Toda manhã a mulher vai até a frente de sua casa e grita:

– Proteja esta casa dos tigres!

Logo em seguida ela volta para sua casa e segue a rotina diária.

Finalmente um vizinho que acha aquilo tudo muito louco toma coragem e vai falar com ela:

– Por que você faz isso todo dia? Não há tigres aqui. Eles estão há milhares de quilômetros…

Ela responde:
– Tá vendo? Funciona!

Premissas erradas levam a conclusões equivocadas. Depois disso, logo causado por isso nem sempre é verdadeiro!

Extraído do livro Platão vai ao bar!

A Revolução dos Bichos – George Orwell

Quem não leu merece ler o livreto de 140 páginas, nada mais!

Pouco texto, mas muitas comparações com os dias de hoje…

E os bichos? Sim, eles se revoltaram contra o proprietário da granja, puseram-no a correr e escreveram os seus mandamentos:

OS SETE MANDAMENTOS DOS BICHOS

1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.

2. Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.

3. Nenhum animal usará roupas.

4. Nenhum animal dormirá em cama.

5. Nenhum animal beberá álcool.

6. Nenhum animal matará outro animal.

7. Todos os animais são iguais.

Conforme o movimento se firmou alguns bichos foram tomando as iniciativas e controlando as ações. Os porcos, por serem os mais espertos, se encastelaram no mando da operação de guiar os destinos da granja. Logo sentiram a necessidade de alterar alguns mandamentos.

Ao quarto mandamento que dizia “Nenhum animal dormirá em cama”foi acrescentada a expressão, “… que tenha lençóis”. Isso porque os porcos passaram a dormir nas camas, pois precisavam de um bom descanso para melhor cuidar dos destinos da granja.

Ao quinto mandamento acrescentaram “…em excesso” uma vez que os porcos encontraram alguns barris de uísque e andaram bebendo.

O sexto mandamento também teve que sofrer uma pequena alteração quando os porcos imputaram a acusação de traição da causa a outros bichos. Assim o mandamento passou a ser “Nenhum animal matará outro animal…, sem motivo”. Quem determinava os motivos eram os porcos…

E por fim, modificaram o último que os deixava a todos iguais: “Todos os animais são iguaismas alguns são mais iguais do que os outros!”

Lá estavam os porcos!

Aqui estamos nós!

Seu bando de incompetentes…

Em um dos trechos da homilia o padre disse:

– … As pessoas hoje se separam, mas isso não justifica que se falte com o respeito com o cônjuge para o qual um dia se jurou amor eterno. Quando casais vem falar comigo na tentativa de uma reconciliação não foi nem uma nem outra vez que ouvi xingamentos como, “Aquele cavalo…”, aquela piranha…” entre outros adjetivos ofensivos. Às vezes tive que intervir para que não brigassem na minha frente. Por outro lado me vinha a cabeça pensamentos como, “Um cavalo vive com quem? Uma piranha vive num cardume de piranhas…” e por aí segue. Então, sempre que você for proferir algo referente ao outro lembre-se que muito provavelmente você estará falando de você também. Porque nós vivemos entre iguais…

E assim ele seguiu com a sua prática.

Lembro-me desse exemplo ao ver gestores de corporações lidando com seus subordinados e muitas vezes tratando-os como “Seu bando de incompetentes!” aos altos brados. Bando pode ser o coletivo de aves em geral. Mas há que se lembrar que as expressões que denominam os coletivos sempre se referem a iguais. Na visão organizacional é um grupo de pessoas que não se transformou numa equipe.  

Assim, quando fico sabendo de alguma atitude semelhante de algum gestor, da mesma forma, me vem a cabeça:

Quando ele fala de bando de incompetentes está falando de quem?

E essas pessoas taxadas de incompetente pelo gestor fazem parte da organização comandada por quem?

Caso continuem a ser um bando é por responsabilidade de quem?

Não precisa nem desenhar para saber de quem ele está falando, não é?

Paro tudo!

A área de Recursos Humanos ou, como querem muitos, de Gestão de Pessoas (falta muito…) é abundante em situações difíceis. São os contratos temporários que estão tomando conta de grande parte das relações de trabalho que terminam por nem serem relações. Não que eu seja contra contratar pessoas para desenvolver um determinado projeto com data de término de vínculo estipulada. Não é isso. Sou contra a forma como se dá a relação com as pessoas que “supostamente” não trabalham para a empresa. O comportamento demonstrado pelos que são “efetivos” (como se fosse possível) com relação àqueles que tem contrato por prazo determinado é mesquinho. Tratam-nos como cidadãos de segunda classe. E por aí vão as situações difíceis… Mas a área também pode ser divertida. E fazer entrevistas de seleção é uma delas.

Sabe-se que as pessoas que estão se candidatando a uma vaga, normalmente, ficam ansiosas e querem mostrar o seu melhor. Geralmente são muitos candidatos para poucas vagas. Aquele que tem a responsabilidade de fazer a entrevista deve ter a clara noção disso e lembrar que a situação poderia ser inversa. O fato de você estar hoje entrevistando e não sendo entrevistado é simplesmente circunstancial.

Mas nem por isso deixam de aparecer algumas situações motivo de riso.

A candidata entrou e cumprimentou o entrevistador, sentando-se no lugar indicado. A vaga exigia um alto nível de qualificação, uma vez que era numa empresa de tecnologia para desenvolver um produto inovador. A entrevista abordou aspectos técnicos daquilo que ela teria que desenvolver. A candidata realmente era muito boa. Conhecia muito mais do que se esperava que conhecesse sobre a área. Mas conhecimentos técnicos tão somente não bastam. Precisa-se de algumas competências de comportamento humano, a resiliência, por exemplo. Como a pessoa se comporta em situação de stress? Qual o comportamento quando existe muita pressão por resultados, prazos e produtividade? 

Depois de comentar sobre algumas típicas situações ocorridas na empresa o entrevistador fez a pergunta: Como você reage frente a um situação de muita pressão num ambiente stressante? A entrevistada abriu bem os olhos e disse com a maior naturalidade: Eu paro tudo, saio correndo, dou um grito e volto…

Ela foi contratada! 

Você nasceu assim…

Moacir Rauber

Um supermercado, para mim, é um lugar de uma riqueza inigualável. A riqueza se exprime pela fartura de produtos disponíveis, mas também pela profusão de situações que se pode viver no ambiente. 

Para um usuário de cadeira de rodas não é diferente. Às vezes sim. Naquele dia, como de costume, fui acompanhado pelo Wagner, meu sobrinho, para fazer as compras do mês. Entramos no estacionamento e fomos até as vagas reservadas para pessoas com deficiência. As vagas estavam ocupadas. Olhei e fiquei literalmente espantado. Nada de mal com a ocupação, mas sim como elas estavam ocupadas.

Vejam só!!!

Provavelmente era uma moto adaptada, os carrinhos de supermercado adaptados e um Fuscão também adaptado. Estavam todos no lugar certo!!!

As pessoas devem pensar: O lugar está sempre vago mesmo… Não é assim?



Para sorte minha tinha uma vaga ao lado… Para azar do cidadão que respeita as leis, porque para ele o meu carro passou a ocupar duas vagas, pois ele deveria estar no local reservado para pessoas com deficiência. É só fazer as contas…

Numa visita anterior o local também estava ocupado por uma moto, pelo visto adaptada…

Isso se pode chamar de uma estacionada perfeita!!!
No centro do espaço… 




Mas eu quero escrever sobre outra situação.


Entramos no mercado e fizemos o roteiro de sempre. Fomos até o final das gôndolas e começamos a passá-las uma a uma. Corredor por corredor. Gosto muito disso. Já no segundo corredor meio que trombei com um rapaz. Desculpas, sorrisos e trocas de gentilezas. O seu rosto ficou registrado na memória. Na gôndola seguinte nos vimos outra vez. Um cumprimento de leve. Percebi que ele estava acompanhado com o namorado. E assim foi entre cruzamentos e reconhecimentos até que passamos os dez ou mais corredores do supermercado. Chegamos até a última parte, uma área aberta enorme onde estão os frios, as carnes, os embutidos e as verduras. Peguei o queijo, a manteiga, o frango, as pizzas, algumas verduras. O Wagner escolhia outros produtos. Eu encostei no balcão onde estavam os salames, os charques e outros defumados. Peguei um salame italiano na mão. Estava tentando olhar o preço. Os olhos sem os óculos já sofrem para ler coisas pequenas, embora o salame fosse grande. Nisso percebo alguém cutucando no meu ombro. Olho para trás e vejo o rapaz lá do início com o seu namorado. 

Ele, todo sorridente, perguntou:
– Você caiu ou nasceu assim? Foram exatamente estas as palavras.

Depois do susto não tive como não rir. Com aquele salamão na mão, olhando para o meu velho amigo de compras, afinal havíamos compartilhado todos os corredores, respondi:
– Não, eu não nasci assim. Mas antes torto do que morto, não é?

Como falo muito com as mãos terminei por fazer um gesto exagerado com o salame que quase tocou no rosto do meu amigo. Foi então que percebi que estava com aquele troço na mão. Olhei para o salame. Depois para o rapaz. Ele também havia feito a mesma coisa. Era um olho no salame e outro na pessoa. O Wagner olhava e ria. Eu enrubesci, toquei a minha cadeira e fui embora. A malícia estava na minha cabeça.

Mas eu não nasci assim.

A vida me fez assim.

Ou melhor, fiz-me assim na vida!

Um sorriso, um abraço ou um beijo…


Moacir Rauber


A chegada de um brasileiro a outro país é precedida pela imagem de ser alegre, descontraído, expansivo, afetuoso e festeiro, entre outros adjetivos positivos vinculados a tais ideias. Por outro lado, também se é antecedido pelo senso comum de que possam ser impontuais, inexatos, pouco confiáveis e preguiçosos, segundo inúmeros adjetivos negativos a que os brasileiros também são ligados. Isso tudo são estereótipos criados e disseminados por meio de generalizações, expondo as pessoas a elas, para o bem ou para o mal. Da mesma forma os japoneses, os italianos, os alemães, os americanos, os mexicanos, os ingleses ou os sauditas são antecedidos por uma série de conceitos e imagens relacionados a sua cultura quando saem de seus países ou de suas regiões.

Em 2012 tive o prazer de permanecer por um mês em Vancouver, Canadá, uma cidade multicultural na qual facilmente se encontram pessoas de todas as regiões do mundo. Meu objetivo foi o de estudar inglês, assim inscrevi-me numa escola especializada. Lá chegando, no primeiro dia, enquanto esperava o elevador encontrei outras pessoas. Cumprimentei um rapaz que estava ao meu lado em inglês, ainda que de forma um pouco retraída. Ele retribuiu da mesma forma. O grupo em frente ao elevador aumentou. Um pouco depois percebi um jovem bastante falante que estava agitando a área mais para o fundo da fila de espera. Falava um inglês todo atrapalhado, assim como a maioria que ali estava o faria se falasse. Tinha um sotaque muito forte… Chegou a minha vez e subi. Fui para a sala dos pré-testes, recebi as instruções juntamente com pessoas oriundas da Turquia, do Japão, da Coreia, da Alemanha, do México, da Colômbia, da Suíça, da França, da Arábia e de outros países. As pessoas que se dispõem a participar de cursos de inglês no exterior, normalmente, estão com o espírito desarmado e predispostas a interagir com os outros para potencializar a aprendizagem, pois um dos grandes objetivos é desenvolver a fala. Alguns são mais extrovertidos, outros são mais introvertidos. A grande maioria, porém, segue os padrões da organização. Quando se pede silêncio, fazem. Assim, todos acompanhavam as instruções dadas pelos responsáveis da escola sobre a rotina do dia-a-dia dentro da instituição e dicas para melhor circular na cidade. De repente vejo uma muvuca do outro lado da sala e reconheço o mesmo rapaz que havia visto na sala de espera do elevador. Abraçava um e abraçava outro. Falava alto. Tinha um sotaque… Não sei, não quis me basear em estereótipos para prejulgar… O pessoal da organização tentava seguir com a programação de orientação que momentaneamente estava parada. Por fim o movimento se acalmou e os organizadores retomaram o controle seguindo com o programa. Uma das orientações se referia, especificamente, a proibição de se falar nos idiomas nativos com os compatriotas que se identificassem na escola.  Na saída da sala encontro o jovem que havia visto por duas vezes. Ele se aproximou de mim e perguntou em português, Você é brasileiro? Eu respondi, Yes, I´m. And you? Sim, eu também sou. Respondeu ele… Eu vi pela tua mochila… Sou de … (dizendo a cidade). E você é de onde? Nisso uma das coordenadoras passa por nós e diz, Don´t speak portuguese here in the school! Nesse momento ele riu e continuamos nossa conversa em inglês. Disse de onde eu era e por quanto tempo pretendia ficar em Vancouver. Ele também fez mais alguns comentários, sempre numa voz extremamente alta. Por fim disse, Deixa-me ir… Me dá um abraço! Abraçou-me como se fôssemos velhos conhecidos. Estava parada ao meu lado uma aluna da Coreia com quem havia compartilhado grande parte das duas horas de  testes e orientações. Ele olhou para ela, pediu quem era e se apresentou também. Deu-lhe um forte abraço e saiu. Percebi que a coreana ficou encabulada com aquele gesto que a pegou de surpresa.

No dia seguinte cheguei a escola e fui verificar o ensalamento conforme os resultados dos testes de nivelamento. Fiquei feliz ao perceber que estudaria com a coreana. Fui para a minha sala e aguardei que começasse a aula. Muito bacana ver tantos jovens estudando e aprendendo. Os suíços e os alemães, pelo menos nos grupos que participei, tinham um nível de cultura geral impressionantes… As pessoas se apresentando, a conversa fluindo e todos procurando exercitar o seu inglês. Entre erros e acertos todos se comunicavam. Em seguida saímos para o primeiro intervalo. Fomos tomar um café e encontro o meu conhecido brasileiro que me saudou em português. Eu respondi em inglês. Ele se tocou e na continuação falou em inglês. Logo se aproxima a minha amiga coreana que entrou na conversa. Acho que ela estava feliz por ter encontrado mais alguém que ela já conhecia. Porém, o conhecido brasileiro indagou, Who are you? Where are you from? (Quem é você? De onde você é?) Vi nos olhos da coreana um certo ar de perplexidade… Parecia que ela se perguntava, Como assim quem sou eu? Nós já nos conhecemos desde ontem… Realmente ela não devia estar entendendo nada, porque no dia anterior o mesmo rapaz, que agora perguntava quem ela era, a havia saudado, havia se apresentado e havia lhe dado um forte abraço…

Levanto esta questão porque, às vezes, sinto que nós banalizamos palavras, gestos e sentimentos. Lembro-me de um tempo em que para se falar a palavra amor ela realmente deveria estar carregada com esse significado para quem a pronunciasse. Hoje as pessoas falam “amo você” com uma facilidade, para não dizer falsidade, que assusta. Amam o “meu amor” e amam o amigo, mas na primeira crise ou dúvida já odeiam e rompem a relação. Também amam o gato, o papagaio e o cachorro, porque estes não podem contestar nada. “Adoram” a sobremesa assim como adoram a vizinha, mesmo que dela apenas conheçam a carinha. Chamam a quem odeiam de “amigo” e a qualquer um de “querido”, mesmo que não seja nem conhecido. Os gestos também estão desvalorizados porque aperta-se a mão de tanta gente que nem se conhece. Abraça-se uma pessoa e logo depois já se esquece. O beijo, então, é melhor nem falar, porque numa noite de balada faltam dedos para contar. Os sentimentos seguem na mesma linha, misturam-se todos como se do mesmo saco fossem farinha. Por isso digo que banalizamos declarações, toques, sorrisos, abraços e beijos, mas esquecemos que para outros eles ainda podem ser verdadeiros. Não é porque damos um abraço que somos mais afetuosos, alegres, transparentes e autênticos. Ele pode ser a forma de ocultar a verdade que não queremos mostrar. Excesso de exposição pode encobrir certa ligeireza de emoção, porque como diz o ditado, “lata vazia é que faz barulho”. A falta de conteúdo pode fazer com que ocupemos um espaço que não é nosso. Por outro lado, para algumas pessoas um sorriso, um olhar ou um aceno de cabeça pode ser muito mais do que uma declaração de amor ou um abraço.

Por isso, fico alerta sempre que vejo as pessoas atribuindo frieza aos alemães, aos ingleses, aos japoneses ou aos coreanos porque, em algumas situações, eles preferem a distância ao toque. Não gostam que lhe invadam o espaço. Mas não se pode atribuir isso a um povo. Também temos brasileiros que se sentem assim. Não quer dizer que não haja sentimento, apenas que o ritual é outro. Há que se perguntar o quanto representa para cada uma dessas pessoas um sorriso, um aperto de mão ou um abraço? Certamente no caso da coreana que foi formalmente apresentada e saudada com um afetuoso abraço por um brasileiro o seu sorriso teve muito mais valor.

Creio que são diferenças na hora de expressar os sentimentos. Não há certo ou errado. Não é questão de julgamento. Nem sempre é frieza não tocar o outro ou ser introvertido. Nem sempre é calor humano abraçar a todos e ser extrovertido. 

Importa mesmo é ser autêntico sem ser mal educado!

Somos únicos. Somos múltiplos.