Deus não mata…

Moacir Rauber
Hoje foi um daqueles dias estranhos. Saí pela manhã para deixar o carro para lavar e aproveitei para ir ao correio. Na saída encontrei um amigo que logo me cumprimentou. Ele estava acompanhado de um homem da mesma faixa etária, aproximadamente 40 anos. Rapidamente fui a este outro apresentado com as seguintes palavras:

– Olha, este é o …, somos amigos desde a infância. Fizemos muitas festas juntos! Bailões, cervejadas e muito churrasco…

O homem, vestindo um terno preto e uma pasta executiva nas mãos, estendeu-me a mão e disse:

– É, mas é passado… Hoje não faço mais isso. Arrependo-me todos os dias, mas pelo menos foi parte do caminho para chegar até o Senhor e…

O meu amigo o interrompeu dizendo:

– Sim, hoje ele faz parte da igreja XPTO (citou o nome de uma igreja nova que eu nunca ouvira falar).

Após ouvir a citação do nome da sua nova igreja o homem de terno se sentiu permitido a pregar a palavra, a fazer o trabalho de evangelização. Embora a questão de permissão não seja nenhum empecilho, porque a grande maioria desse novos convertidos não está nenhum um pouco preocupada com licença ou anuência para falar. Eles querem salvar o mundo obrigando os outros a mudarem. Normalmente eles são os possuidores da verdade absoluta. No mundo ideal desses pobres coitados não haveria espaço nenhum para diferenças.

A situação ficou um pouco embaraçosa. O meu amigo puxou outro assunto… Falamos do remo e fiz um comentário usando uma palavra chula. Demos risada, embora o engravatado tenha mantido a cara sisuda. Senti que ele me observava com uma viva curiosidade. Julgava até ter visto reprovação… Em seguida ele interrompeu a conversa:

– Você usa cadeira… Qual é o teu problema?

O sangue me subiu imediatamente. A forma como fez a pergunta, carregando-a como uma acusação, irritou-me profundamente. Pareceu dizer-me que se eu estava na cadeira era por merecimento. Consegui me controlar. Olhei-o nos olhos para dizer com voz calma e pausada:

– Bom, na verdade eu não tenho nenhum problema. Eu estou muito bem! Uso a cadeira porque sofri um acidente ainda jovem…

O sujeito me interrompeu para dizer:

– É, Deus não mata mas castiga!

Fiquei paralisado… Não me refiro a paralisia dos membros inferiores, mas sim ao que se passou na minha mente. Ou melhor, a princípio, ao que não se passou. Fiquei de boca aberta. Acho que pensei algo como, “Não, eu não estou ouvindo isso…”. Muitas vezes já havia passado por situações em que as pessoas sugeriam, sutilmente, que pudesse ser um castigo divino o fato de eu estar numa cadeira de rodas. Porém, nunca, mas nunca mesmo alguém o havia dito assim, de forma tão direta e estúpida.

Quando retomei a consciência apenas disse:
– Estou indo. Até mais!

Fiquei confuso e completamente atordoado por horas. Como havia deixado o carro para lavar fui rodando com minha cadeira pelas calçadas mal conservadas da cidade. Desviava de um buraco e de outro num zigue zague maluco a que os cadeirantes estão obrigados quando querem circular pela maioria das cidades brasileiras. Cadeirantes não, segundo aquele sujeito, os amaldiçoados!

Nada, absolutamente nada contra as pessoas terem a sua religião. Antigas ou novas não faz a mínima diferença. Nem sempre o fato de algo ser antigo nos garante ser verdadeiro, assim como não é o fato de ser novo que nos assegura ser uma evolução. Cada um com a liberdade para acreditar nas suas verdades. Apesar de toda a sua fé essas pessoas não conseguem entender um milagre. Pergunto-me, “Por que haveria de ser um milagre caminhar se todos caminham? Acredito muito mais que seja um milagre viver bem e caminhar sem ter as pernas…

Também fico assustado como o totalitarismo pode se expressar por meio de pensamentos tão tacanhos revestidos de mensagens divinas. Pensamentos em que não se reconhece a liberdade de que outros pensem e ajam de forma diferente. No mundo ideal do sujeito engravatado todos deveriam seguir a sua lei. Somente no dia em que todos pensassem de forma exatamente igual e seguissem os mesmos preceitos o mundo estaria a salvo. Pergunto-me, A salvo de quem? Da diversidade? Das diferenças?

Assusta-me o fato de ainda não entender como se pode respeitar o que é diferente se aquele que é diferente não o respeita? 

Se o objetivo daquele que é diferente simplesmente é torná-lo um igual ou senão o castigo divino o eliminará? 

É possível?

Aceito respostas…

Mas aqui não dá nada…

Lá vai o Engenheiro Agrônomo percorrendo as estradas daquele interior com ares de abandono. Para todo o lado que ele olha somente vê áreas degradadas. Quase não existe mais  vegetação nativa, mas também não se veem plantações feitas com os cuidados requeridos. Fica triste ao constatar que aquela região, potencialmente, poderia produzir muitos alimentos, mas a realidade se mostra bem diferente.

Aproxima-se com o seu veículo da porteira de um pequeno sítio. Parou, desceu, abriu a porteira e avançou os limites da propriedade. Em seguida fez a mesma movimentação para fechar a porteira.  Viu algo parecido com uma vaca. De tão magra que estava não sabia como ainda estava de pé… Ao longe se via um barraco com um homem de meia idade sentado em frente. Ao seu redor umas quatro ou cinco crianças mal vestidas, sujas e com aquela carinha de má nutrição que corta o coração de qualquer cidadão. Aos fundos viu uma mulher entrando com um cesto na cabeça. O que será que ela carregava?, pensou… Quando chegou até onde estava o homem as crianças rapidamente desapareceram. O engenheiro educadamente o cumprimentou, recebendo tratamento recíproco. Conversaram sobre amenidades como chuva, sol e o tempo. O engenheiro, com a curiosidade de quem sempre quer aprender algo mais observou para depois indagar:

– No caminho para cá não vi nenhuma plantação de milho, feijão ou arroz. Aqui não dá milho?

O caboclo, com um ar desolado, responde:
– Dá não, senhor…
– E feijão não dá?, pergunta o engenheiro.
– Dá não, senhor…
– E arroz também não dá?

Obtém a mesma resposta. O engenheiro, cada vez mais intrigado, ainda experimenta:
– Mas então aqui não dá nada… Nem se plantar cebola, alho, pastagem ou outros tipos de plantas também não dá?

Nesse momento o caboclo se ajeita em sua cadeira, faz um muxoxo e diz:
– Ah bom, se planta daí dá…

Essa é uma das anedotas que rondam o interior brasileiro, mas a reflexão pode ser estendida para outras realidades. Muitos querem colher sem plantar. Daí não dá nada. Algo similar acontece com as pessoas que sonham ter uma “vida melhor”. Cada um com seu conceito para uma “vida melhor”, mas dificilmente a terão se não cuidarem da sua plantação. Não plantam. Não regam. Não colhem. Simples assim.

Não buscam conhecimento. Não aprendem. Não ensinam. Não agem. Somente vegetam. Não, não, nem isso, porque até para vegetar é preciso ação…

E você, quer colher o que? 

Como está cuidando da sua plantação? 

Ah, você pelo menos está plantando?

Falta acertar o preço…


Aquela turma de faculdade era bem diversa. Nela estudava a moça mais bonita e também o rapaz mais nerd.

Dando voz aos estereótipos a beleza dela se contrastava com a própria inteligência. Não que ela não a tivesse, mas talvez tenha sido levada a acreditar que os atributos físicos fossem mais importantes do que os da inteligência. Em suma, ela era linda, sabia que o era e fazia questão de exibir a sua beleza. Sempre que podia usava seu charme para obter vantagens. Podia ser para aumentar uma nota junto a um professor influenciável, quase sempre os há, ou para furar uma fila de rapazes numa lanchonete. Desfilava sua beleza e sua graça sabendo-se apreciada pelos olhares masculinos.

No outro extremo estava o nerd. Seguindo os padrões de beleza atuais a sua inteligência era muito, mas muito maior do que aquela. Ele sabia muito sobre todas as áreas de conhecimento exigidas no curso que faziam, além de ser um sujeito culto em geral. A timidez o impedia de desfilar a sua inteligência, além de inibi-lo nas frustradas tentativas de aproximação que fizera com as mulheres. Praticamente já desistira…

Naquele dia estava ele sentado na praça em frente da agência bancária. De repente aproxima-se a sua linda colega de curso e o cumprimenta. Eles começam uma conversa trivial. Logicamente quem mais conversa é ela, não ele… Ela com toda a sua graça e beleza desperta nele um desejo que ele sabe ser praticamente impossível de concretizar. A conversa avança para um terreno perigoso para ele… Falam de amores e de sexo. Ele enrubesce. Ela ri. Ele observa os transeuntes encabulado. Ela se diverte sabendo do impacto de sua beleza sobre o colega. Ele se irrita consigo mesmo. Ela o espicaça. 

Nisso ele vê um homem bem acima do peso com aproximadamente sessenta anos saindo do banco.  Poderia se dizer que não era nada bonito…, mas estava vestindo terno e carregando uma maleta de executivo. Na rua um motorista lhe abre a porta  de uma mercedes nova. O nerd observa lateralmente a sua colega que também via a cena… Então pergunta, Se aquele cara que entrou na mercedes te oferecesse um milhão de reais você faria sexo com ele? Ele ficou roxo na hora. Como pude falar isso? Se perguntou o nerd. Mas já estava feito… Ela ficou pensativa. Pôs o dedinho no queixo… Olhou diretamente para o nerd e respondeu, Hum, acho que sim. Que mal teria? Um enorme silêncio ocupou o espaço entre os dois. Ele ainda roxo… Ela continuou, É, eu faria sim… Mais um pouco de silêncio quando foi a vez dele olhar diretamente para ela e dizer, Eu tenho R$ 200,00. Você quer fazer sexo comigo? Ela se engasgou e avermelhou. Levantou-se de um salto, pôs as mãos na cintura e falou indignada, O que você acha que eu sou? Você tá louco? Vendo-a descontrolada daquele jeito, a partir de sua timidez ele conseguiu responder, O que você é nós já sabemos. Agora falta acertar o preço…

Não sei onde li ou se apenas ouvi este fato como uma piada. Também não tenho ideia de quais eram os personagens, mas a sua moral era mais ou menos esta.

Qual o seu preço? 

Quais os seus valores?

O homem raso…


Moacir Rauber
A tendência da horizontalidade nas organizações havia chegado muito antes na essência do homem moderno. O modelo administrativo que tem sido mais implementado e sugerido para alcançar as melhorias de produtividade exigidas pela alta competitividade de todos os setores de produção e comercialização é o da horizontalidade, com a conseqüente diminuição dos níveis hierárquicos. Deste modo as empresas se tornam planas, rasas e com poucos escalões. Porém, para chegar as organizações essa ideia já havia tomado forma na própria concepção do homem moderno que também se desverticalizou, tornou-se plano, superficial, raso, pouco profundo. 

Ao recuarmos no tempo, aproximadamente cem anos, a grande massa populacional dos países se concentrava nos campos, local de pouca tecnologia, no conceito moderno, mas de muito conhecimento. O homem, genericamente falando, era profundo e vertical, pois conhecia todo o processo de produção do qual dependia para subsistir no meio em que vivia. Poucos eram os insumos de que dependia sobre os quais ele não dominava a sua forma de produção. Com o incremento da tecnologia, do conceito moderno, esse mesmo homem começou a se horizontalizar, não dominando mais todas as partes do processo de produção. Deste modo, passou a comprar as partes que compunham o produto final de que precisava, dependendo então de outros produtores. Consequentemente, o homem rural, antes vertical, agora horizontal, perdeu competitividade e foi morar nas áreas metropolitanas. O ano de 2008 marca a história como sendo o primeiro ano em que a população urbana é maior do que a população rural. 

Certamente, muitos desses novos moradores urbanos ainda lembram das histórias contadas por seus pais e avós que descrevem uma vida que já não é mais possível. Uma vida com valores e conhecimentos profundos, personificando um homem completo, muito, mas muito diferente do homem despedaçado e em frangalhos que hoje perambula pelas áreas urbanas. Um homem sem raízes e sem profundidade, completamente raso.


Este texto foi publicado originalmente em:
http://harmoniaeequilibrio.blogspot.com.br/2008/05/raso-ou-profundo.html

Idade nem sempre é sinônimo de maturidade…

Moacir Rauber
As pessoas que tem alguma deficiência estão viajando cada vez mais. Isso é marca de uma evolução tremenda. Nos aeroportos, mesmo com alguns problemas de acessibilidade, cada vez mais se vê pessoas com diferentes tipos de deficiência. Usuários de cadeiras de rodas vítimas de acidentes ou adquiridas com a idade. Pessoas com deficiência auditiva por um motivo ou outro. Pessoas com deficiência visual da mesma forma. É um movimento como nunca visto na história da humanidade que pode significar a nossa humanização. Entretanto, ter alguma deficiência ou ter mais idade não necessariamente significa ser uma pessoa do bem ou ter maturidade.

Naquele dia embarquei em São Paulo com destino a Florianópolis. Como de praxe as gestantes, mulheres com bebês, pessoas com mais idade e pessoas com alguma dificuldade na mobilidade são tratados como prioridades. Assim, quando abre o portão de embarque eu já me aproximo para não atrasar os outros. Cheguei próximo a atendente da companhia e vi uma senhora muito elegante também usando uma cadeira. Fiquei ao lado dela. Ela me olhou e fez aquela pergunta indiscreta: O que foi com as suas pernas? Fiquei meio sem jeito e respondi que fora um acidente, mas que já estava tudo bem. Logicamente que ela não se contentou com uma resposta tão simples. Fez mais algumas perguntas sem esperar uma resposta, porque na verdade ela estava quereno falar da desgraça dela e desandou a falar de suas desventuras e de seu sofrimento. Ela estava usando a cadeira temporariamente para resolver um problema que lhe surgira na perna. Não duvido que estivesse sofrendo, mas não também não estava a fim de ouvir toda aquela ladainha. Por sorte logo o embarque começou. Chegando até a aeronave o comissário perguntou qual era a poltrona. Ela disse, É a 2C, mas eu vou ficar aqui na primeira… O rapaz, educadamente, tentou demovê-la dizendo que a poltrona seria ocupada por uma senhora com bebê. Ela retrucou, Eu vou ficar aqui, ela que sente para trás. Se for o caso darei luz a uma criança… e gargalhou. Eu me acomodei ao lado. Logo começou o embarque dos demais. Chegou a dona do assento com uma criança de colo. Ela olhou para a senhora e disse de uma forma bem educada, Essa poltrona é minha…A senhora idosa somente virou a cara de lado e respondeu, Sente na detrás. É muito difícil para que eu me mova… E fechou a cara. Aquela mãe ficou sem saber como reagir dirigindo-se até a poltrona de trás que é menos espaçosa. Acomodou-se com a criança e não disse mais nada. A senhora idosa todo prosa disse que ela não daria lugar porque os outros teriam que se virar como ela. 

A viagem de cinquenta minutos transcorreu sem que ninguém falasse nada. Creio eu que todos estavam em choque pelo comportamento completamente egoísta daquela senhora idosa. Onde estaria a tão falada maturidade que chega com os anos vividos? Onde estaria a bondade que normalmente se vê nas feições das pessoas com mais idade? Certamente não estava com aquela senhora. E não havia nada em sua conduta que pudesse indicar alguma alteração de personalidade em função da idade avançada. Pareceu-nos que ela sempre fora assim…

Aterrissamos em Florianópolis. Logo que a porta se abriu a distinta senhora já se havia posto em pé. O comissário se aproximou pedindo para que ela se sentasse e aguardasse até que a cadeira de rodas chegasse para que ela pudesse descer com segurança e conforto. Ela retrucou, Não. Vou descer agora! O comissário mais uma vez em vão tentou demovê-la da ideia. Lá foi a senhora capengando pelas escadas abaixo, exigindo que o comissário a auxiliasse. A lerdeza com que ela desceu as escadas fez com que mais de 150 passageiros se acotovelassem as suas costas. Mas ela não estava nem aí… Mais uma vez fiquei estarrecido com a falta de sensibilidade daquela senhora. É comum que as prioridades entrem primeiro e saiam por último, principalmente quando se tem mobilidade reduzida. É uma questão de bom senso.

Por isso digo que idade avançada nem sempre é sinônimo de maturidade, assim como pessoa com deficiência não necessariamente é tradução bondade. Quando escrevi o texto Mas ele é cego… recebi inúmeros comentários com diferentes observações. Um deles falava sobre o coração ser a única linguagem de um cego e indagava-me se eu já havia experimentado tal sensação. Posso até concordar que seja uma das linguagens, mas não a única, assim como não acredito que o fato de ser cego, usuário de cadeira de rodas, surdo ou pessoa com outro tipo de deficiência seja indicativo de bom coração. Acredito que maturidade e bondade são resultados da construção do caráter, não tendo ligação direta com a idade ou com a condição física. O coração, da mesma forma, pode sentir coisas boas e outras nem tanto assim, dependendo do caráter de cada um saber o que fazer com isso.

Mas ele é cego…

Moacir Rauber
Sempre trabalho com a ideia de que se olhe mais uma vez para todas as situações com a pretensão de ver nelas oportunidades. Todos os eventos em que nos envolvemos, fortuitos ou não, com graves ou suaves consequências oferecem as mais variadas oportunidades, no meu ponto de vista. Nunca disse que as situações são sempre fáceis… Outro dia, enquanto apresentava essa ideia, um rapaz me interrompeu e disse:

– Moacir, não sei não se eu concordo muito com isso… Eu tenho um amigo cego, daí me pergunto: como ele vai olhar mais uma vez? Ele não vê nada…

Fiquei um pouco atordoado com a pergunta, não pela sua dificuldade, mas pelo ar provocativo com que foi feita. Respirei, calei os pensamentos agressivos que me vieram a cabeça e respondi:

– Muito bem, eu tenho que concordar contigo. Realmente um cego não consegue olhar nem uma vez no sentido literal da palavra. Mas o sentido de olhar não se limita a capacidade dos olhos de traduzir em imagens aquilo que está a nossa frente. Olhar mais uma vez é muito mais do que isso. Quando você leva o carro para a mecânica e pede para que o olhem certamente não é para que fiquem encarando o veículo. Quando alguém faz um check up médico e diz que deu uma olhada na saúde também não tem o sentido de ver, mas sim de analisar, examinar, investigar e observar a situação para a partir dela fazer um diagnóstico que lhe permita tomar as ações adequadas, não é isso? É esse o conceito que  está por trás da expressão Olhe mais uma vez! Em cada situação novas oportunidades. Essa ideia está descrita no final do livro em que digo:  

“É importante viver sabendo que podemos falar sem proferir palavras; que podemos ouvir sem escutar os sons; que podemos ver sem as imagens; que podemos caminhar sem mover as pernas; enfim, que podemos aprender a aprender mantendo a mente aberta e em sintonia com o mundo percebendo as oportunidades que nos rodeiam.”

Muitas vezes não se sabe quem são os cegos, os surdos e os paraplégicos entre nós. Isso depende de cada um e da amplitude das suas ideias!

Como anda a sua visão? 

Como está a sua audição? 

E a sua mobilidade?

Viver é poesia, mas não se engane…

Remar é preciso
Remar é poesia
Viver é diversidade
Viver e magia

Mas não se engane
Para cada facilidade
Encontra-se uma dificuldade
É a diversidade
É a magia,
É a vida vivida como poesia!

Moacir Rauber

E veio a barra da aurora.

Dia lindo, calmaria…
Impossível foi prever
o que este dia traria…
Nesta noite, tantas luzes,
de estrelas, dos lampiões,
de satélites, até…
e entre risos e “trovões”
nossos olhos desviavam
para um pontinho, piscando,
no escuro horizonte…
Farol Cristovão Pereira!
no nosso caminho, distante…
Na clara distância do dia
no inicio desta remada,
depois que saiu o sol
por mais que tentasse não via
mas há um jeito: remando…
é bem longe esse farol!
E fomos, contentes, confiantes,
rodeados por um ambiente
perfeito – ainda possível…
Água doce, cristalina,
vento calmo e a favor…
Bandos de cisnes, ave rara,
aqui se juntam em bandos,
e nadam à nossa frente,
depois dispersam, voando!
Na parada de descanso
acontece um imprevisto:
o vento carrega um barco
mas buscamos, sem problema,
a não ser para um rapaz…
Aos pouquinhos, no horizonte,
o farol aparecia…
um risquinho no início,
que pouco a pouco crescia…
duzentos anos de história,
logo ali, agora perto.
um descanso, o almoço,
bem merecemos, por certo…
Mas…
Da sombra gostosa do mato
não vimos o vento aumentando
e entrou o nordestão
entonado, assobiando…






Do meio dia pra tarde
ele branqueou a lagoa…
“Carneiros” pra toda parte
como dizendo: – cuidado
aqui quem manda sou eu!
Uma surpresa das brabas…

O que é isso, meu Deus?

Tava calmo até agora,
agora não dá pra passar…
Voltar, impossível,
pra frente, vamos ver…
Surge uma primeira ideia:
Puxando nós vamos adiante,
só assim pra resolver…
Na canoa vai o Moa,
e cada um puxa um barco.
Deu certo no trecho de praia,
mas chegamos num juncal…
água funda, onda alta,
já não dá, tem que aportar.
Volta um pouco, acha abrigo,
passar…nós vamos passar!
Logo ali está o farol,
quase ao alcance da mão,
e adiante a praia calma,
na revessa deste vento,
Pra lá nós temos que ir…
E achamos a dita praia
virada pro lado sul
faltava passar os barcos,
mas há de ter solução…
foi quando deu a ideia:
“Moacir, fica no chão,
na cadeira vão os barcos,
que nem na Revolução”!
E passamos a canoa
por banhados, campo, areal,
deu trabalho, mas passamos
que nem o Barão de Seival!
E depois os outros dois
junto com toda tralha,
chegamos à praia calma,
vencendo mais esta batalha…
Cinco horas de trabalho,
depois que vimos o vento
e voltamos a remar…
E foram “cinco quilômetros”


foram dez, quinze, vinte…

 Chegamos lá pelas onze
pelas luzes orientados,
moídos pelo cansaço…
E sentimos: depois disso
nada melhor que um abraço!
Nunca via tanta alegria
ao se encontrar encontrar
um amigo!
No fundo da alma,
o alívio!
Na casca do corpo,
o descanso!
No encontro de todos,
o sucesso!


Antonio Schuster


Insanidade Orgulhosa…

Em 2005 escrevi um texto chamado “Insanidade Orgulhosa”. Nele descrevi o orgulho dos habitantes das grandes cidades quando se comparam com os habitantes de pequenas cidades. Lembrei do texto justamente porque neste perído estou passando uma temporada na cidade de São Paulo. Tenho que concordar que é realmente uma loucura. Tudo o que você imagina é possível que se encontre nela, para o bem ou para o mal… Mas a loucura também está no quanto de tudo que se tem disponível é realmente importante. Para mim acaba sendo muito mais loucura ter tanto a disposição, mas você não preccisar de quase nada… E “nada” você também tem nas cidades pequenas, que é tudo que uma cidade como São Paulo não pode oferecer: paz e tranquilidade. Cada um é cada um, mas eu ainda concordo com o que escrevi há quase oito anos.
Vamos ao texto!
Moacir Rauber
Para muitas pessoas há um orgulho exacerbado no fato de viver numa cidade grande. Quantas vezes nós nos confrontamos com situações onde se ouve a explanação daquele importante morador da cidade grande dizendo para o nada importante morador da cidade pequena: “mas aqui não existe nada para se fazer?” Muitas vezes. Essa relação se dá frente a praticamente todas as grandes cidades, supostamente mais desenvolvidas, com relação as pequenas cidades, teoricamente com menos recursos. São muitos dos habitantes de São Paulo e do Rio que não se imaginam vivendo fora da “loucura” da vida moderna que esses centros lhes proporcionam; são muitos dos habitantes de Florianópolis que não se imaginam vivendo numa cidade do interior; e assim sucessivamente. E quase sempre a principal argumentação de um com relação ao outro continua sendo de que nas povoações menores não se tem nada para fazer. Muitas vezes me pergunto: e precisa?
Muitos dos habitantes das grandes cidades vivem em bairros mal iluminados, violentos e, muitas vezes, com pouca infraestrutura básica. Além disso, estão distantes do trabalho, o que os obriga a se levantar praticamente de madrugada. A partir desse momento, começa toda a movimentação. Toma-se um banho rápido, pega-se um ônibus, enfrenta-se um engarrafamento e depois de toda essa agitação chega-se ao trabalho, muitas vezes atrasado. Depois de um dia tumultuado, no qual não se tem tempo para pensar nas suas necessidades e nas de seus familiares e amigos, retorna-se para casa. Logicamente, depois de enfrentar novo engarrafamento. Muitas pessoas chegam a gastar de duas a três horas diárias no trânsito… Mas, em função da importância que a pessoa julga ter cada vez menos ela tem noção do que seja um final de semana ou domingo completamente sem nada para fazer. E cada cidadão tem a impressão de continuar sendo imprescindível para que tudo continue funcionando.
Essa rotina se repete em grandes cidades do mundo inteiro em que as pessoas são apenas mais uma no meio da multidão. Quando, por fim, elas têm uma semana de folga ou mesmo um mês de férias vão para um local onde não tenham nada para fazer. Uma praia, um rio ou um hotel fazenda. Outras tantas vezes vão buscar suas origens nos parentes das cidades pequenas. Nesse passeio os encontram morando na mesma rua, na mesma casa ou no mesmo sítio com a mesma rotina de 10, 15 ou 20 anos atrás. Logo que encontram os velhos conhecidos começam as conversações: E aí, como está? O que você está fazendo?  pergunta o morador pouco importante da cidade pequena. E lá vem as respostas do importante morador da cidade grande: Comigo tudo bem! Com ar entusiasmado, afinal a motivação é tudo… Estou trabalhando numa empresa e blá, blá, blá. Tem-se a impressão de que sem a presença do importante morador da cidade grande o mundo para… E continua, Começo pela manhã e trabalho até a noite, enfrento uns engarrafamentos tremendos. Às vezes chegam a durar duas horas sem se mexer. É que lá na capital tem muita gente, muitos carros e tudo vira uma loucura… Toda essa explicação acontece de uma forma totalmente orgulhosa por fazer parte do importante sistema que transforma as pessoas em necessidades e necessitados do mercado. Após essa eloquência orgulhosa vem a pergunta: E aqui vocês fazem o que?
A melhor e mais prazerosa resposta somente poderia ser Nada! Isto porque nas cidades menores e no campo ainda se tem tempo para não se fazer Nada. Ainda se tem tempo para admirar uma linda paisagem, para ouvir o canto de um pássaro, para observar as águas de um rio deslizando mansamente em seu leito ou para tirar o leite de uma vaca, sabendo que ele vai servir de alimento. Muita gente já acredita que o leite nasce na gôndola… Tudo isso porque nas cidades pequenas ainda resta tempo para ouvir o silêncio ou mesmo para não fazer Nada. Na vida no interior ainda se reserva tempo para lembrar que as atividades de uma pessoa são perfeitamente substituíveis por qualquer outra pessoa que as execute da mesma forma, mas que as pessoas são únicas e insubstituíveis. Isto enquanto milhões de pessoas perderam sua individualidade e já não sabem viver sem estar num turbilhão de ruídos, poluição e vazio, entre outras mazelas produzidas pelas grandes cidades.
Difícil de acreditar, entretanto, que a grande maioria é insanamente orgulhosa por isso!!!

Somos únicos. Somos múltiplos.