Pau mandado

Moacir Rauber

Houve uma época em que tudo o que o chefe mandava se fazia sem nem pestanejar. Mais do que isso. Incentivou-se a que as pessoas tivessem iniciativa, que fossem proativos indo além da sua obrigação. Hoje já não se pode admitir que seja assim. Creio que se deva continuar fazendo o que é uma obrigação, assim como se deva continuar sendo proativo, mas com discernimento o suficiente para ser reativo frente aquilo que não está em conformidade com as prerrogativas legais e humanas.


Não há mais espaço para um pau mandado, nem que seja proativo!

Omitir informações também é atender mal

Moacir Rauber
Quinta-feira à tarde saí para comprar um roupeiro que queria ter em casa até no máximo na segunda-feira. Isso porque minha esposa viajaria na sexta-feira e eu na terça-feira. Retornaríamos juntos, dez dias depois, mas acompanhados com uma visita que ficaria conosco pelo período de vinte dias, motivo da compra do roupeiro. Entrei na primeira loja e vi um modelo que me agradou. Conversei com o vendedor e expliquei que o levaria, desde que me entregassem até a data pretendida. O vendedor lamentou, mas disse que não poderia entregar o produto antes de sete dias. Agradeci e fui para a segunda tentativa. Nada. A terceira, a quarta e não conseguia resolver meu problema. Ou não tinham o produto ou quando tinham não o podiam entregar dentro do prazo. Na verdade é uma forma muito estranha de ter, mas não ter. Por fim, encontramos numa loja o produto com as características desejadas e a garantia do vendedor que poderiam entregar o produto já no dia seguinte, sexta-feira. Tudo certo, dentro do programado. Fechamos a compra, embora eu mantivesse um certo receio quanto a entrega no prazo. Minha esposa viajou logo na manhã seguinte. Eu passei o dia em casa envolvido com meus trabalhos de consultoria, além de estar aguardando a entrega do produto. Por volta das 17h de sexta-feira toca a campainha. Eram os entregadores que estavam trazendo o roupeiro. Pensei comigo mesmo, Os serviços estão melhorando. As lojas estão cumprindo com o prometido. Subiram as caixas com o móvel desmontado. Pediram para que eu assinasse a nota de recebimento e já estavam de saída. Eu indaguei, Mas não vão montar? O rapaz me olhou e gentilmente informou, O senhor deve ligar para a empresa a agendar a montagem. O sangue subiu. Despedi-me do rapaz e telefonei para a empresa. Primeiro caiu no fax. Depois atenderam e passaram a ligação para o almoxarifado. Por fim, a ligação chegou ao destino. A atendente me informou que a montagem seria dali a sete dias. Argumentei calmamente com a atendente, explico a situação e concluo, Pois é, mas o vendedor me garantiu que o produto seria entregue até segunda-feira. Recebi a resposta num tom que me indagava se eu era estúpido ou o quê, Mas o produto foi entregue. A montagem e a entrega não tem nada a ver uma coisa com a outra! O meu queixo caiu. Ainda mantive a calma para explicar a situação para a atendente, que disse-me que o gerente daria um retorno. Viajei na terça-feira com produto entregue, mas sem ter sido montado.
As lojas usam seus jargões na comunicação para garantir uma venda, dando uma impressão e omitindo a informação. Por que eu como consumidor deveria saber que a entrega não garante a montagem? Como uma empresa pode vender com uma promessa de entrega, mas não de funcionamento de determinado produto? E ainda por cima o idiota sou eu. 
Por isso, omitir informações também e atender mal.

A diferença de idade

As diferenças de idade entre casais não são exclusividade dos dias de hoje. Em todos os momentos da história da humanidade e praticamente em todos os grupos sociais esse fato sempre se repete. Vi, recentemente, um ator brasileiro que está mantendo um relacionamento com uma mulher 53 anos mais jovem… Também conheci uma senhora com 69 anos, idade bem sugestiva, que levava a tiracolo seu jovem namorado de 20 anos para todos os lados. Em ambos os casos a primeira impressão é de que são os respectivos avós acompanhados pelos seus netos ou filhos. Mas o amor não tem idade! O amor não tem preço. Para os demais casos pode até ter um master card…

Esses comentários me remetem a outra situação vivida pela Andreia e por mim, também em Portugal. Nos dois anos que por lá vivemos estudei na mesma universidade em que minha esposa trabalhava. Íamos, na maioria da vezes, de ônibus, que oferecia excelentes condições de acessibilidade para pessoas com deficiência, meu caso cadeirante, idosos ou mulheres com carrinhos de bebê. Era muito prático e econômico o deslocamento de ônibus de casa até a universidade. Quando podíamos, íamos e voltávamos juntos. A Andreia, normalmente, dava-me uma forcinha para subir a rampa do ônibus. Entretanto, nossos horários nem sempre coincidiam. Quando ela não estava o motorista tinha que descer para empurrar-me rampa acima. Ele já nos conhecia. Sempre era atencioso e simpático. Certo dia, porém, em que eu não fui para a universidade a Andreia foi sozinha. Embarcou normalmente no ônibus. Na hora da saída, o motorista a cumprimentou como de costume e perguntou: Ah, o teu pai não veio hoje? Nesta hora a Andreia ficou um pouco desnorteada e ele continuou,  aquele senhor em cadeira de rodas não é teu pai? Ficando um pouco ruborizado, cor que se fortaleceu quando a Andreia lhe respondeu, Não, ele é meu marido… E comento-lhes que a diferença de idade entre nós é aproximadamente de 11 anos. Mas nas cabeças de muitas pessoas um cadeirante acompanhado por uma mulher mais jovem e bonita somente pode ser filha, uma irmã ou no máximo uma amiga bondosa.

Olha, mas no nosso caso,  acredito que seja amor, porque o Master Card tá sempre sem saldo…

Você quer colo 2?

Alguns dias passados escrevi o texto Você quer colo? em que relatei uma situação pontual vivida em Portugal. Não foi piada!

Hoje escrevo o título Você quer colo 2? que aborda um tema semelhante, mas o fato aconteceu em Florianópolis. Talvez o título mais apropriado seria Planejamento Familiar…

Lá vai!!!


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Para quem quiser ouvir…
Clique aqui e ouça!

Como bom cristão, participei de comunidades e paróquias nos lugares onde vivi. Tá certo que muitos me olhavam com desconfiança, porque se eu fosse tão bom cristão a fé já deveria ter produzido um milagre. Portanto, eu deveria estar caminhando e não usando uma cadeira de rodas… Mas isso é outra história!

Enquanto morava num bairro em Florianópolis, frequentava a igreja praticamente todos os domingos, participando de uma missa às 19h. Como trabalho voluntário ajudava na organização das festas, algumas vezes da catequese e, por dois anos, participei da Pastoral Familiar, composta por cinco ou seis casais. Estes se dedicavam a organizar cursos de noivo, visando preparar os futuros casais para as lidas da vida conjugal. A minha esposa, Andreia, sempre estava a postos para colaborar em uma ou outra situação. Eu um pouco menos, mas sempre que podia estava presente. Muitos dos conhecidos da comunidade eram homens e eu já havia me dado conta daqueles olhares bisbilhoteiros em que analisam e mentalmente perguntam, Será que esse cadeirante dá conta do recado com uma mulher tão bonita?, pois ela é realmente muito bonita. A pergunta é mental enquanto um homem está sozinho, porque quando se reúnem dois ou mais a análise é nua e crua. Sei muito bem, porque, afinal, sou homem. Num determinado período em que estava de viagem a Andreia foi sozinha à igreja. Nada de mais. Ela vai sozinha para todos os lugares e a igreja seria um lugar seguro, certo? Nem tanto… Ao final da missa o grupo se reuniu em frente à igreja, formando aquela agradável roda de conversa como de costume. Desta vez eu não estava, mas os demais estavam todos lá. Não eram exclusivamente os participanes de nossa pastoral, integrantes de outras pastorais ou mesmo um conhecido qualquer chegava, conversava, saía e voltava com a maior naturalidade. Entretanto, alguns daqueles senhores perceberam que a Andreia estava sozinha. Um deles, dez anos mais velho do que eu e 22 anos mais velho do que a Andreia, sempre galanteador e com fama de ser conquistador se aproximou dela e puxou conversa, Ué, onde está o Moacir? Está doente? Muitas pessoas, às vezes com malícia, julgam que um cadeirante tem problemas de saúde. É um doente… Ela, sempre espontânea, retrucou, Não, não. Ele ficará duas semanas fora de casa, porque foi participar de uma competição de remo. Vai me dar uma folga…Ufa! Esse gracejo, muito comum entre nós, foi a deixa para que o conquistador avançasse e, quem sabe, pudesse provar que o manquinho não dava conta. Começou com uma conversa sobre a sua pastoral, que colaborava com famílias carentes, mas que havia conseguido um DVD fantástico sobre planejamento familiar. Assim, como “bom cristão”, ele se disporia a passar na nossa casa durante a semana para assistir ao DVD e poderiam conversar mais à vontade. A Andreia inicialmente sequer entendeu e disse, Olha, não se incomode. Você pode me dar o DVD que eu o assisto na universidade, porque volta e meia tenho uma folga entre um compromisso e outro. Ele ficou um pouco desnorteado, tentou voltar ao assunto, mas nisso uma amiga nossa interferiu e a conversa tomou outro rumo. Mas quem diz que ele havia desistido? Durante a semana o conquistador foi até a nossa casa com um DVD na mão e cabeça cheia de outras coisas. Provavelmente querendo mexer com os índices demográficos… Tocou a campainha. A Andreia quando o viu pelo olho mágico não abriu a porta, mas abriu o olho. Quando voltei da minha viagem fiquei sabendo do ocorrido. No domingo seguinte a cena em frente à igreja se repetiu. Todos por lá, conversando animadamente sobre banalidades. Nisso, aproxima-se o conquistador, colocando-se entre a Andreia e eu. Nos cumprimentamos. Ele me perguntou como havia ido na competição. Contei-lhe, mas depois devolvi uma pergunta que lhe foi indigesta, E então, esta semana já estou em casa. Você não quer passar por lá para que possamos assistir ao DVD sobre planejamento familiar? O endereço eu sei que você já tem… A cara de espanto apareceu. A voz sumiu. Gaguejou. Depois ele disse, Não, não, é que… é que… eu já devolvi o DVD. Não era meu e… Eu o encarava sorrindo. Resolvi ajudá-lo e disse, Ah, tá. Tudo bem. Fica pra uma próxima. Melhor se eu estiver em casa… e dei uma risada. Despedimo-nos e fomos para casa.

E o planejamento familiar aqui em casa continua sendo feito a dois…

Eu mereço!!!

O texto sobre o fenômeno Eu mereço! pode ser ouvido clicando aqui

Lembre-se:

Moacir Rauber


Nós, seres humanos, somos observadores por natureza. Observa-se a natureza e seus fenômenos. Observam-se as espécies e seus hábitos. Observam-se as pessoas, podendo a partir daí aprender algo ou simplesmente fazer fofoca. Espero que meu raciocínio não seja classificado como fofoca, uma vez que falo da vida alheia para identificar o fenômeno do Eu mereço!

O texto se refere a observação de comportamentos que podem ser encontrados num grupo. Acompanhar de perto a trajetória de algumas famílias, usando a observação e a abstração, poderia nos aproximar de um  claro exemplo da teoria da evolução das espécies. Ela, a esposa, em seu período jovem, aproxima-se de um macho, notadamente, alfa em seu círculo. Ele, o esposo, está ligado a um grupo destacado financeiramente, facilmente podendo ser classificado como bom provedor e, quem sabe, bom reprodutor. Para ela, o acasalamento a levaria a perpetuar a espécie tendo a garantia de sobrevivência própria e também da prole. Para ele, sob esse aspecto, seria a oportunidade de disseminar seus genes no planeta, mantendo a sua linhagem. Sob essa ótica é um processo natural!

Para o mesmo fenômeno, considerando o estágio evolutivo em que se encontra a espécie humana, poderia se estar falando de um homem, que, de igual forma, pode escolher suas esposas usando das mesmas premissas. Assim, tem-se os cônjuges mantenedores e os mantidos. Analisando-se homens e mulheres, foi identificado o fenômeno do merecimento baseado no esforço alheio. Ele se manifesta de uma forma sutil, em que os cônjuges mantidos, muitas vezes, se autopremiam, mesmo sem o devido merecimento. Entrementes, rotineiramente usam um bordão para justificatar o comportamento da autopremiação: Eu mereço!. O fato chega a ser cômico, uma vez que o cônjuge que trabalha, em diversas situações, não pode se autopremiar, porque não lhe resta tempo. Os filhos, em geral, asumem o comportamento da autopremiação encontrado no cônjuge mantido, justamente pelo maior tempo de convívio com ele. Assim, tem-se uma organização familiar onde um elemento produz e os outros cobram resultados e usufruem benefícios que não produziram. Qualquer menção por parte do cônjuge mantenedor de não querer participar ou de não querer promover uma reunião social, por exemplo, transforma-se em motivo de briga pelo cônjuge mantido com o apoio da prole. Toda a argumentação é respaldada pelo fato de que haviam ficado a semana toda em casa, sempre complementada pelo bordão: Eu mereço!.

Esse fenômeno se reflete no comportamento de um grande número de pessoas, nos mais diferentes ambientes. Elas se autopremiam, antes mesmo do merecimento. São colaboradores que não colaboram tanto assim, mas se julgam merecedores de benefícios; são proprietários que se beneficiam tão somente do esforço alheio; são professores que não ensinaram e tampouco aprenderam, mas que querem o reconhecimento; são pessoas que não contribuíram, mas que se aposentam; são jovens e adolescentes que não se autosutentam, mas se arrogam o direito de receberem uma premiação pelo esforço que ainda não fizeram. Quase sempre se autopremiam pelo esforço alheio. Não que as pessoas não devam se dar mimos. Não que as pessoas não possam desejar levar uma vida com certas regalias. Muito pelo contrário. Creio esse ser um norte dos indivíduos que os leva a melhorar a própria vida, assim como a dos demais. Entrementes, antes de proclamar Eu mereço! a pessoa deve saber de onde virá o prêmio. As custas de quem virá o benefício que se está auto atribuindo… Assim, estendendo a observação, vejo mais e mais pessoas se auto premiando sem contudo se questionar por que merecem aquilo que se atribuem. Muitos se afundam em dívidas, mas não abrem mão do prêmio. Outros se premiam mesmo que seja as custas de ofensas, agressões e prejuízos a terceiros. Eu também, às vezes, creio que mereço certas benesses. Porém, sempre cabe perguntar, Mas as custas de quem? Por isso, uma família onde todos produzem se torna mais justa, da mesma maneira como as demais organizações sociais ou empresariais. Quando todos são, interdependentementes, responsáveis pelo esforço para se alcançar determinado resultados, também o fato de fruir dos benefícios torna-se mais legítimo.

Por fim, creio que o texto não se classifica como fofoca, porque não se deram os nomes. Não é pesquisa científica, porque não houve o rigor necessário na coleta dos dados e nos critérios de observação do fenômeno. Não faz parte da teoria evolutiva, porque constata-se um retrocesso. O texto é apenas o resultado da prática da observação, que aponta um fenômeno que pode ser muito bom ao identificar que as pessoas estão se preocupando  consigo mesmas, dando-se o direito da autopremiação. Muito justo, desde que você realmente mereça…

Você quer colo?

Mal entendidos e humor andam lado a lado…
As más intenções, algumas vezes, também podem gerar situações de humor. Depende dos fatos…
Você quer colo? é uma história que poderia ter acontecido em qualquer lugar, mas foi em Portugal. 
Não é piada, mas pode-se rir um bocado. Leia abaixo ou Ouça, clicando aqui. 
Lembre-se: 
Ouvir também é Ler!


Você quer colo?
A vida de um cadeirante tem inúmeras particularidades, entre elas a curiosidade que desperta em homens e mulheres convencionais sobre o seu desempenho, principalmente, sexual. Quando eu era mais jovem, lembro-me que esse fato facilitava a minha aproximação das mulheres curiosas. Os homens tratavam-me como um igual, desde que eu estivesse sozinho. Porém, bastava eu aparecer acompanhado por uma mulher, fosse amiga ou namorada, os olhares masculinos expressavam certo interesse bisbilhoteiro, quase que revelando uma pergunta: será que ele vai dar conta?

Nos mais de 25 anos como cadeirante sempre soube lidar muito bem com essa situação, embora isso não queira dizer que nunca tenha reagido frente as indiscrições maiores. Em 2009, morava com minha esposa, Andreia, em Portugal. Passados alguns meses conhecemos um vizinho de prédio, um senhor português com 82 anos, que havia vivido por mais de 40 anos na cidade do Rio de Janeiro. O primeiro encontro foi na rua, em frente ao prédio, enquanto voltávamos das compras feitas no mercado da esquina, 50 metros adiante. Ele nos cumprimetou e fez referência ao fato de sermos brasileiros. Puxou conversa. Falou das maravilhas do Brasil. Quando soube que éramos do Sul do país se empolgou ao descrever uma de suas viagens pela região serrana de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, com ênfase nas vinícolas de Bento Gonçalves, uma vez que era um pequeno produtor de vinho em Portugal. Foi simpaticíssimo! Por fim, ofereceu-se para nos fazer uma visita um sábado qualquer. Logicamente nós reforçamos o convite, como manda a boa educação, além de ser uma oportunidade para fazer novas amizades. Passadas duas semanas, um sábado à tarde, por volta das 15h, toca a campainha. Abro à porta e vejo o Seu Fernando com duas sacolas nas mãos. Pedi-lhe o que era aquilo e ele, simpaticamente, respondeu, Ah, nada, apenas alguns mimos em sinal de amizade! Fiquei tentado a recusar, entretanto não seria muito lisonjeiro da minha parte. Ele deixou as sacolas na mesa da cozinha. Ao abri-las, vi beterrabas e vagens, entre outros legumes. Algumas nozes, salames e queijo. Um mini rancho. Fiquei constrangido,  dizendo que aquilo não era necessário. Ele minimizou a importância das compras e destacou a garrafa de vinho de sua produção que nos oferecia. Esse sim, agradou-me. Em seguida fomos até a sala onde ficamos conversando a tarde toda. Logo após a primeira hora de conversa começamos a notar que algumas histórias se repetiam. Mas sentíamos que lhe fazia bem que pudesse compartilhar com brasileiros suas experiências vividas no Brasil. Por vezes, destacava algumas passagens um pouco picantes de sua vida, deixando-nos um pouco apreensivos. Mas ao final da tarde havia sido uma visita agradável. Quando ele se despediu disse-lhe que as portas de nossa casa estariam abertas para outras visitas, mas que não necessitava para isso trazer-nos presentes. Nos apertamos as mãos e ele saiu.
Duas semanas depois, novamente por volta das 15h, lá estava o seu Fernando. Trazia consigo, outra vez, duas sacolas de compras. Aquela situação me era constrangedora. Aceitei, mas com a condição de que aquilo não se repetisse. Fomos até a sala e recomeçaram as mesmas histórias da visita anterior. Ao final da visita ele nos convidou para que fôssemos até a sua casa para conhecer a sua esposa. Combinamos a data e lá fomos nós. Chegamos ao seu apartamento e fomos recebidos por sua esposa, uma mulher 26 anos mais jovem do que ele. Ela viria a ser sua sobrinha, filha de um irmão, segundo o que nos contaram naquela tarde. Ambos falaram-nos das brigas e da rejeição por parte da família em aceitar o namoro e o quanto tiveram que lutar para que pudessem ficar juntos, uma vez que todos eram contrários por se tratar de um relacionamento incestuoso. Por fim, o amor venceu. Uma história muito bonita. Entretanto, não tiveram filhos, o que gerava entre os seus parentes o comentário de que se tratava de castigo divino. Mas isso é outra história… A visita a casa do seu Fernando terminou com um soboroso café acompanhados por uma farta bandeja de bolinhos de bacalhau.
Sábado à tarde, quinze dias depois, às 15h, toca a campainha. Lá vou eu até a porta com a certeza do que veria ao abri-la. É, não deu outra. Lá estava o seu Fernando, com duas sacolas de compras, esperando para ser convidado a entrar. Olhei, demonstrando em parte minha insatisfação pelas sacolas, mas dei-lhe passagem. Ele já se dirigiu a cozinha para deixar as compras. Repetiu-se a tarde. Repetiram-se as histórias. Mais uma ou duas visitas nas mesmas condições. Porém, chegou um sábado em que eu não estava em casa. A história se repetiu, com a diferença de que minha esposa foi abrir a porta. Ele se dirigiu a sala e sentou-se num sofá. A Andreia noutro. Como eu estava demorando para aparecer ele perguntou onde eu estava. Ela lhe contou que eu saíra. Imediatamente, com um agilidade acima do normal para a sua idade, ele saiu do sofá em que estava, pegou uma banqueta e sentou bem em frente a minha esposa, que se assustou. Começou a conversar sobre as suas aventuras amorosas e extraconjugais no Brasil. Reforçou que as mulheres brasileiras são excepcionais, carinhosas e muito amorosas. Passou a insinuar-se, para por fim sugerir que ela lhe fizesse carinhos, já que a sua esposa não mais fazia. Ele a recompesaria por isso. A Andreia se espantou. Não sabia como lidar com a situação. Estava muda. Ele avançou, pedindo para que pudesse sentar em seu colo. Ela se esquivou. Saiu da sala, dirigindo-se até a  porta. Disse-lhe que eu chegaria em breve. Por fim, conseguiu convencê-lo a sair de casa.

Naquele dia, ao chegar em casa, percebi a Andreia meio estranha. Ela não estava como de costume. Perguntei-lhe: O que foi? Aconteceu algo?Ela disse que estava tudo bem, mas em seguida contou-me o ocorrido. Aquilo chocou-me, deixando-me bastante irritado, a princípio. Pensava comigo mesmo, mas o que é isso? O velhote está gagá e ainda quer tirar uma lasquinha com a mulher do próximo? Foi aí que me lembrei que não se tratava da mulher do próximo, mas sim da mulher do cadeirante. E como a muitos outros homens deve ter lhe ocorrido a fatídica pergunta, Será que ele dá conta do recado? Comecei a rir. Logo em seguida veio-me uma ideia a cabeça. Deixa comigo!, pensei. Passaram-se as duas semanas de costume. Naquele sábado à tarde quem não estaria em casa era a Andreia. Às 15h toca a campainha. Eu estava de prontidão. Dirigi-me à porta e a entreabri. Enquanto segurava com uma mão a porta entreaberta me colocava no vão impedindo a passagem, bem em frente ao seu Fernando. Ele me cumprimetou com um largo sorriso, segurando as duas sacolas nas mãos fez um gesto como quem pede para entrar. Eu não me movi, mas lhe retribui o sorriso, para em seguida comentar, Pois então, seu Fernando, hoje a Andreia não está em casa, mas já que o senhor falou de sentar no colo para receber um carinho, quem sabe eu não possa fazê-lo hoje? Vi o terror em seus olhos. Ele deu dois passos atrás, deixando cair suas sacolas. Eu prossegui com uma voz melodiosa, Venha, seu Fernando, eu sou muito bom nisso. Senta aqui no meu colinho… batendo nas pernas… que eu lhe faço carinhos… e dei outro sorriso. Ele quase enfartou na minha frente. Titubeou, mas ainda tentou articular alguma explicação que não saiu. Fui até o elevador, apertei o botão e voltei até a porta do apartamento. Antes de fechá-la ainda lhe disse, Ah, e leve suas sacolas! Não mais vi o Seu Fernando.

Em 2012 seja um adulto autêntico com espírito de criança

Moacir Rauber
Ao escrever sobre “é bom ser adulto”, no texto abaixo, recebi retornos dos mais diversos. Quase todos dirigidos ao meu e-mail, concordando, identificando e descrevendo inúmeras situações em que presenciaram as “barbies” e os “Peters Pans” dos adultos. Muitos citaram o sentimento da vergonha alheia. Não sei se chega a tanto… Outros e-mails, entrementes, diziam que ser criança ou adolescente é muito bom, mesmo quando se é mais velho. Aí vem a minha discordância. Em nenhum momento escrevi ser contra a manutenção do espírito de criança e de adolescente. Ao contrário, tudo a favor.

Sempre fui a favor de manter o espírito de uma criança, incluindo a sua inocência e a sua ingenuidade, que certamente colaborariam para que tivéssemos um mundo melhor. Sempre fui a favor de manter o espírito de um adolescente, incluindo a sua curiosidade e o seu inconformismo, que certamente contribuiriam para que alcançássemos novos benefícios em nosso modo de viver. Principalmente, sempre fui a favor de que cada uma seja aquilo que queira ser. Entretanto, cabe destacar, que para manter o espírito de uma criança ou de um adolescente eu não preciso vestir-me ou comportar-me como tal. Ser criança ou ser adolescente é um momento único na vida, que uma vez vivido não retorna mais. Isso é óbvio! São fases em que somos autênticos. Por outro lado, sempre que um adulto tenta parecer um adolescente ou uma criança, pensando que está sendo, busca repetir o irrepetível. Torna-se caricato, porque a autenticidade não existe mais.

Mantenha o espírito da criança e do adolescente que existe em você. Transforme-se num adulto autêntico!

É bom ser adulto…

É bom ser adulto!
Moacir Rauber
Os anos passam rápido, até parece que voam, mas cada vez me convenço mais que é muito bom ser adulto. Lembro-me bem que quando jovem havia tantas questões pequenas que me incomodavam muito: uma espinha no rosto, o cabelo que não se ajeitava, uma mancha na calça ou um tênis que não era exatamente o que eu queria eram motivo de sofrimento. A falta de autonomia era um tormento, fazendo com que eu queresse parecer o que não era: um adulto. Todas essas situaçoes rapidamente se transformavam num drama. Hoje não. Uma espinha não me incomoda pela aparência, apenas pela dor. O cabelo despenteado não é problema, é apenas uma saudade. A calça manchada é irrelevante, pois pode ser sinal de trabalho ou de diversão. A marca do tênis pouco importa, porque sou eu que o pago, resultado da autonomia que só um adulto tem.
Quando vejo adolescentes fazendo de tudo para parecer diferentes, para encontrar uma identidade ou criando problemas onde não há, às vezes fico irritado para em seguida dar de ombros com um sorriso, porque recordo dos meus grandes dilemas e sei que vão passar. Ou melhor, sabia., porque cada vez mais vejo pessoas que já deveriam ter a autonomia que a idade lhes faculta, comportando-se como jovens numa dependência doentia da aparência e também dos pais. Muitos deles pararam, estacionaram e não conseguem levar sua vida adiante, continuando a sofrer pelas espinhas, pelas calças, pelos tênis e pela falta de identidade. Muitos deles já estão naquilo que hoje se intitula de melhor idade, mas querem parecer adolescentes no comportamento, na aparência e nas resposanbilidades. Esses sim me deixam constrafeitos. Um jovem querendo parecer adulto é natural, é a sequência da vida. Entretanto, idosos ou adultos querendo parecer adolescente é constrangedor, porque ainda não entenderam que muito mais importante do que parecer ser é aquilo que se é. Essas pessoas ainda não entenderam que ser adulto é muito bom.
Não quer dizer que ser adulto lhe tire o direito de sorrir, de ser espontâneo ou de ter um espírito jovem. Não quer dizer que você como adulto não possa transgredir, ir além, sonhar e fazer. Ser adulto é exatamente o contrário. Quando você é adulto você tem autonomia, a responsabilidade e a propriedade para fazer aquilo que quer, quando e com quem quiser. Por isso, é muito bom ser adulto, porque posso ser exatamente aquilo que sou.
Ser adulto me permite ter um espírito jovem, sem ser bobalhão.
Ser adulto me permite assumir responsabilidades, sem sofrer com isso.
Ser adulto me permite ter identidade própria, sem me preocupar em parecer aquilo que não sou.
Ser adulto me permite desfrutar da plenitude mental, fonte de saberes e prazeres que somente os anos nos trazem.
Por isso, desejo que você possa levar uma vida de adulto em 2012 e ser feliz com isso!

Somos únicos. Somos múltiplos.