Greve? Onde? Eu não sei de nada…

Moacir Rauber
Período de Natal e mais uma vez existe a ameaça de greve por parte de aeroviários e aeronautas no Brasil. Não vou entrar no mérito da questão, mas comentar algo que me chamou a atenção numa empresa aérea. Como meu sobrinho tem uma passagem adquirida justamente para o dia 23, data anunciada da greve, mantive contato com o serviço de atendimento ao cliente da empresa. Primeiro, como na grande maioria das empresas, o serviço o deixa em espera por pelo menos 20 minutos. Lamentavelmente pensamos, Tudo bem, é gratuito mesmo!, mas o tempo se foi. Quando fui atendido indaguei como a companhia se posicionava frente a possível greve programada e como seriam atingidos os serviços da empresa. Para minha surpresa a atendente foi pega de surpresa pela notícia. Eu acabara de lhe informar que, possivelmente, haveria greve no setor dali a três dias. Apesar de boa parte dos noticiários televisivos, radiofônicos, virtuais e impressos do país inteiro darem destaque a esse possível evento a pessoa que me atendeu, que está escalada para manter contato com os clientes, não sabia.

País raro o nosso. Quem deve saber nunca sabe de nada. Quem não precisaria saber muitas vezes sabe. Quem não deveria saber sabe inclusive o que não deveria. O exemplo pode representar um sério problema de comunicação, mas não somente. Há aí no mínimo um problema de falta de interesse do colaborador, que provavelmente não está colaborando tanto assim.  O que você conhece sobre a sua área? Você acompanha os acontecimentos do seu setor? Você tem noção de que tudo que nele acontece tem influência na vida de outras pessoas? Isso é interdependência…

A coluna da esquerda…

Moacir Rauber
A coluna da esquerda é uma técnica apresentada por Peter Senge, em que os integrantes das organizações são induzidos a dizer o que se está pensando, mas não se está dizendo. É uma situação delicada, mas faz com que as pessoas possam se desenvolver profissionalmente e também como ser humano. Muitas vezes é dolorido ouvir alguém dizer algo que não imaginamos que se poderiam estar pensando sobre nós, sobre a nossa forma de encarar os trabalhos e sobre a nossa forma de ser.

Participei de um workshop que tratava justamente da importância de se criar um ambiente apropriado para desenvolver nas pessoas confiança o suficiente para que se possa dizer o que se pensa. O palestrante fez uma exposição muito boa, usou uma encenação teatral bastante ilustrativa e deixou-nos a todos empolgados com a técnica. Reforçou que eles conseguiram criar essa cultura dentro da própria organização, em que ele como um dos diretores, sempre se dispunha a ouvir o que qualquer pessoa teria a dizer. Durante as três horas do workshop também sempre fez um vínculo com uma pergunta recorrente, O que você quer ser na vida?, deixando-nos claro que vive-se num momento em que somos os donos do nosso destino. Concordo em gênero, número e grau com essa crença, embora tenha uma discordância na construção da pergunta. Eu acredito que a pergunte deveria ser, O que você quer fazer da sua vida?,uma vez que ser nós somos desde que passamos a existir. Passada a apresentação muita gente foi falar com o palestrante e eu também fiquei por ali, esperando uma oportunidade para falar-lhe. Não consegui um momento a sós com ele, por isso apenas parabenizei-o e disse-lhe que gostaria de comentar algo com ele num outro momento. No período da tarde encontrei-o no corredor do evento e ele veio ter comigo de maneira muito receptiva. Conversamos um pouco e depois, de forma muito educada, sugeri-lhe que pensasse na possibilidade de mudar a formulação da pergunta. O sorriso desapareceu. A receptividade idem. A conversa findou. E a coluna da esquerda não funcionou com quem ensina sobre ela.

É delicado, não é? Como eu reagiria frente a coluna da esquerda? Não sei. E você?

Aviso aos cadeirantes: “Vocês precisam caminhar…”

Moacir Rauber

Participei de um evento na cidade de Santos-SP, com foco em Treinamento e Desenvolvimento de pessoas. Evento este marcado pela defesa intransigente de que as organizações devem se centrar nas pessoas, algo tão óbvio, pois sem pessoas não há organização, mas por vezes tão distante da realidade. Na condição de cadeirante por mais de 25 anos posso comprovar que essa percepção tem evoluído rapidamente, embora ainda se tenha um longo caminho pela frente até que se consiga entender verdadeiramente que as pessoas são a única razão de ser de qualquer organização. É essa percepção que levará a humanidade a conviver de forma equitativa com a diversidade.

Para deslocar-me até Santos fiz parte do trajeto em avião. Mas há um trecho que tenho que viajar de ônibus, normalmente um desafio para um cadeirante. Cheguei na rodoviária e encontrei pessoas atenciosas e simpáticas por parte da empresa. Logo orientaram-me para aguardar e entrar por último no veículo. Fiquei olhando para um ônibus lindo, enorme, majestoso e imponente. No vidro dianteiro e na lateral o adesivo da cadeira de rodas, que identifica a reserva de vagas para pessoas com deficiência. Aguardei até que todos os demais passageiros embarcassem. Observei a movimentação do motorista, um homem franzino com não mais de 1,65m de altura. Até engraçado saber que ele conduz um veículo tão soberbo. Tá vendo? Isso já é preconceito… Durante o tempo em que ele ajudava a acomodar as malas de todos também se deu conta que eu estava ali, a espera. Conforme os outros atendimentos íam terminando ele começou a me observar. Percebi que o motorista estava ficando um pouco aflito, até certo ponto constrangido. Por fim teve que me encarar, pois já não havia outra atividade a ser feita antes da partida. Devia passar por sua cabeça, Meu Deus, como farei para que ele embarque?, porque apesar do adesivo da cadeira de rodas não havia nenhum acesso para um cadeirante entrar no ônibus. Havia, sim, a reserva de vagas, mas não a condição para acedê-las. Eu me divertia com a situação, mas resolvi colaborar. Aproximei-me do motorista  e perguntei sobre como faríamos para subir. Ele ficou um pouco atrapalhado e perguntou-me, Você precisa de ajuda? Não consegue caminhar? Dei um sorriso para dizer que preciso sim de ajuda, caso o acesso ao ônibus seja somente pelas escadas. O motorista, sempre solícito, afirmou que conseguiria me carregar. Encostei minha cadeira próximo a escada de acesso do ônibus, o motorista colocou seus braços por baixo de meus braços, enquanto outra pessoa segurava as minhas pernas. Começaram a erguer-me para entrar no veículo. Ao pisar no primeiro degrau senti que o motorista fraquejou. Imaginem, ele tinha realmente muita vontade, mas a sua compleição física não ajudava, ainda mais considerando que eu tenho 1,85m. Tentou mais uma vez e conseguiu subir o primeiro degrau. Tentou se firmar, mas balançou. Esperou um pouco, fez um movimento e pôs o pé no segundo degrau. Senti que se preparou para um impulso mais forte. Quando ele fez o movimento de preparação meu corpo moveu-se um pouco lateralmente e a calça ficou enroscada no braço metálico que abre e fecha a porta do ônibus. Ele não viu e eu não senti, porém ao executar o movimento da subida o motorista e eu fomos, mas a calça não. Para piorar o motorista perdeu o equilíbrio e caiu sentado no degrau superior e eu fiquei no degrau de baixo somente de cuecas. Alguns curiosos que assistiam olhavam a situação entre assustados, estupefatos e apavorados. Eu os olhei e ri, ainda que um pouco embaraçado, porque minha cueca não era das mais bonitas… Falei, Calma, calma! O motorista queria voltar a fazer força. Rindo pedi-lhe para que não fizesse nada. Comecei a ajeitar minhas calças, fazendo alguns gracejos, Tá tudo sob controle, o passarinho não vai voar! Depois disse-lhes que eu subiria as escadas sozinho. Pus-me sentado corretamente num dos degraus e comecei a subir um a um movendo-me lentamente, trazendo as pernas com as mãos até chegar ao primeiro assento do ônibus. Na lateral do assento outra vez vi o adesivo que identifica ser o local próprio para cadeirantes. Apenas falta avisar aos cadeirantes que eles precisam caminhar…

É, certamente eu poderia esbravejar, reclamar e protestar, fazendo o maior escarcéu. Particularmente prefiro rir, porque sei como nos comportamos quando a diversidade nos aparece de forma realmente diversa. Ainda hoje nos assustamos e não sabemos como nos comportar diante dela. Também eu, que tenho diferenças visíveis advindas do uso de uma cadeira de rodas, deparo-me com situações frente as quais não sei como me comportar. Não há certo ou errado, apenas bom senso e normalidade. Ser diverso é que é normal!

E você, como convive com a diversidade na sua organização? No seu dia-a-dia? A diversidade é normal para você?


LEMBRE-SE:

“É importante viver sabendo que podemos falar, sem proferir palavras; que podemos ouvir, sem escutar os sons; que podemos ver, sem as imagens; que podemos caminhar, sem mover as pernas; enfim, que podemos aprender a aprender mantendo a mente aberta e em sintonia com o mundo, percebendo as oportunidades que nos rodeiam.”
Moacir Jorge Rauber


O taxista e o cadeirante

Moacir Rauber

O desespero de muitos taxistas quando veem um cadeirante na fila de espera chega a ser cômico. Olham para um lado. Olham para o outro. Tentam passar adiante. Sinalizam que usam gás. Fingem que não viram nada e param em frente a outro passageiro. Mas não tem jeito. O cadeirante se dirige até o táxi. Alguns são até grosseiros. Outros ficam em estado de choque e devem pensar, Por que eu? Com tantos passageiros na fila tinha que ser justo eu? Com tantos taxistas, tinha que ser na minha vez?. Na última vez em que peguei um taxi no aeroporto de Porto Alegre o motorista teve estampada em sua cara todas essas reações. Por fim, quando me viu na sua porta ainda tentou uma última cartada para ver se a sua situação melhoraria e indagou, A cadeira vai junto?. Eu ri. Minha esposa que me acompanhava não riu e disse, Não, nós a trouxemos para passear… Apenas eu a ouvi, o taxista não. Entre o riso e o sorriso eu lhe disse, Sim, ela vai conosco. É minha companheira! Ah, a minha esposa vai também! e apontei para o outro lado do veículo, rindo. Ele olhou e finalmente desceu do carro. Rapidamente dei a volta e entrei no táxi. Dobrei a minha cadeira que ficou bem pequena. Minha esposa a carregou. Vi que ele ficou aliviado, pois deve ter pensado, Até que não foi tão difícil como imaginava… Durante o trajeto o taxista demonstrou ser um sujeito extrovertido e simpático.

Assim são nossos problemas. São muito maiores em nossas cabeças do que na realidade. Muitos deles sequer existem.

E você, como tem tratado os seus problemas? Cuidado para não transformá-los em realidade…

Não tenho nada a ver com isso…

Moacir Rauber
É muito comum nós nos expressarmos dizendo, Não tenho nada a ver com isso, frente a mais diferentes situações, inclusive sobre ter ou não animais de estimação, por exemplo. Gosto muito de bichos, de todas as espécies. Gosto tanto deles que não os tenho. Prefiro-os livres. Caso tivesse uma casa com um quintal enorme ou ainda vivesse num sítio como na minha infância ou juventude, certamente, não me privaria do seu convívio. Mas esta não é a minha realidade. Vivo num apartamento na cidade. Tenho vizinho para cima, para baixo e para os lados. No meu prédio, a maioria dos meus vizinhos têm cachorros e também gatos. Outros têm iguanas, lagartos, aranhas e papagaios. Qualquer um poderia, tranquilamente, dizer que eu não tenho nada a ver com isso. Em parte é verdade. Somente em parte.

Hoje pela manhã saí de casa, em minha cadeira de rodas, rumo a um compromisso que teria às 11h. Não estava atrasado, mas também não tinha muita folga. Estava bem a tempo. Locomovia-me com rapidez pelas calçadas da cidade. Faltavam ainda uns 300 metros para chegar ao local do meu compromisso. Cruzava com um pedestre e outro. Desviei de uma senhora distraída. As mãos, como de costume, impulsionavam a cadeira com agilidade e segurança. De repente senti algo quente e úmido na mão esquerda. Logo senti um cheiro horrível. Olhei para a minha mão e ela estava toda suja de m… (isso mesmo, cocô de cachorro). Fiquei desolado. Minha cara expressava isso com clareza. Trazia tão somente minha pasta no colo e nela não tinha nenhum lenço ou papel absorvente. Levantei as mãos e deixei a cadeira correr por si só um pouquinho, enquanto mentalmente xingava o dono do cachorro. Quando a cadeira parou eu olhava ao redor para ver se encontrava algo para limpar a mão e a roda da cadeira. Não vi nada. Fiquei ali, meio atordoado, quando fui abordado por um senhor que estava sentado num carro estacionado ao lado, que me disse: Você quer alguns guardanapos? Eu tenho aqui no carro… Ofereceu-me ele gentilmente. Agradeci sinceramente. Limpei, joguei os guardanapos sujos numa lixeira que havia ao lado, agradeci mais uma vez e segui meu caminho. Cheguei ao local do compromisso e fui diretamente ao banheiro para lavar minhas mãos.

A situação expressa que nós sempre temos a ver com isso, seja o que for, principalmente quando não são respeitadas as boas regras de convívio. Quanto ao dono do cachorro sequer vou comentar. O meu comentário se reporta a nossa omissão quando nos deparamos com situações em que vemos que algo está mal, mas não fazemos nada, porque não temos nada a ver com isso. Certamente quando o cachorro fez o dito serviço na calçada alguém viu, mas ninguém se dignou a chamar a atenção do dono, porque afinal não tinha nada a ver com isso. Quem viu, fez que não viu e pisou ao lado. Não digo isso colocando-me acima do bem e do mal. Digo isso porque sofri as consequências da minha própria omissão. Algumas semanas passadas estava eu, num final de tarde, em frente ao meu prédio, observando o movimento da rua. Gente circulando, conversando, tomando seu chimarrão e levando seus animais de estimação para passear. Cada um é livre para tê-los. Com isso realmente não temos nada a ver. Entretanto, num dado momento vejo um vizinho do prédio com seu cachorro enorme na praça do outro lado da rua. O cachorro estica a coleira e se aproxima de uma árvore na pracinha em frente. Ajeita-se, faz toda a movimentação que antecede o momento e executa o serviço. O dono olha para um lado e para outro, espera seu cachorro terminar o que havia começado e vai embora, deixando a obra a céu aberto. Eu olhei, fiquei indignado, mas não fiz nada, afinal eu não tinha nada a ver com isso!Por que iria comprar uma briga com o vizinho por nada, uma vez que eu não pisaria naquele local? Porém, com essa situação eu tinha a ver sim. Minha obrigação era ter alertado ao dono sem educação. Minha indignação deveria ter feito com que eu saísse do meu comodismo e apontasse para o dono do cachorro que ele deveria tomar as providências. Isso porque se eu tivesse tomado a atitude que deveria ter tomado teria evitado que alguém pudesse ter sofrido as mesmas consequências que sofri, por que assim como eu, alguém se omitiu, simplesmente por acreditar que aquilo que não nos atinge diretamente não tem nada a ver conosco.

A situação relatada no início irritou-me em si, mas por outro lado frustrou-me muito mais como pessoa. Ela fez com que eu tomasse consciência de que é muito fácil criticar as omissões dos outros quando sofremos as consequências, assim como fez com que eu me desse conta das inúmeras vezes que nos omitimos. A situação me é emblemática, pois sempre falo da interdependência que se tem no meio organizacional e também social, porque das nossas atitudes e omissões ocorrem outras indiretamente a ela ligadas, mas pelas quais também somos responsáveis.

Por isso a pergunta: do que estamos nos omitindo porque aparentemente não temos nada a ver com isso?

De onde virá o próximo Cisne Negro?

Moacir Rauber


Não havia lido um livro com argumentação tão boa e tão bem estruturada como O Cisne Negro, de Nicholas Nassim Taleb, que demonstrasse que nós não somos tudo aquilo que pensamos ser, nem para mais, nem para menos. Eu o li em 2008, mas o reencontrei entre meus livros na semana passada. A teoria do Cisne Negro é fascinante, porque ela trabalha sobre aquilo que nós desconhecemos, portanto, poderia não trabalhar. Se nós não conhecemos algo como podemos trabalhar com essa hipótese?

Ao esclarecer que antes da descoberta da Austrália pelos europeus todos os cisnes eram brancos, deu-nos a certeza de que existem muitos outros cisnes negros a serem descobertos em diferentes áreas. Podem surgir ou não. Por isso, sempre (já é um problema dizer “sempre”) que acreditamos ter chegado ao final de algo, que concluímos uma etapa esgotando todos os recursos, que descortinamos a última fronteira das novas descobertas e que exaurimos todas as possibilidades de encontrar uma solução, surge-nos a imagem do Cisne Negro. Uma justa metáfora para expressar a nossa incapacidade de prever, planejar, projetar, traçar, planificar ou qualquer outro sinônimo que nos remeta a um futuro que desconhecemos, composto por variáveis que não estão sob nosso controle e que dificilmente um dia estarão.

O autor conduz o texto de forma brilhante, transformando assuntos duros numa forma palatável de leitura interessante e entretida. A teoria do Cisne Negro fundamenta-se por ser altamente improvável, por isso dificilmente previsível; por ter grande impacto, causado por sua imprevisibilidade; e facilmente explicável, depois de ocorrido o fato. Com essa abordagem o livro descreve fatos históricos e também nos remete a outros comuns do dia-a-dia, fazendo as ligações com as bases da sua teoria. Tudo nos parece tão óbvio, depois de acontecido, por mais espetacular que tenha sido quando visto pela primeira vez. Ele consegue assim, demonstrar a incapacidade da humanidade de prever grandes eventos.

Por isso, o livro nos leva a questionar a função do planejamento, que não deveria ser encarado de forma tão contundente, uma vez que ele dificilmente é exato. Leva-nos a contestar as opiniões dos supostos especialistas das mais diversas áreas, que normalmente usam o passado para nos passar a falsa a impressão de que sabem algo sobre o futuro. Por fim, induz-nos a ser críticos com relação ao nosso conhecimento, para que não sejamos presunçosos, e a ser maleáveis com a nossa ignorância, sem contudo que ela seja fonte de acomodação. Tem-se, assim, um livro que nos alerta para a possibilidade do surgimento de inúmeros Cisnes Negros em nossa existência, sem que saiamos a sua caça. Deve-se apenas estar preparado para o altamente improvável, para o fortemente impactante e para o óbvio, depois de sucedido.

Fica a pergunta: de onde virá o teu Cisne Negro? Ainda bem que não se sabe…

Música…

Ádina Mirza

Houve um tempo em que as pessoas e seu constante matraquear me faziam arder os ouvidos. Não era capaz de sentar muito tempo em meio a uma pequena multidão – fosse num shopping, numa praça ou num restaurante. A espera ruidosa antes de um espetáculo me incomodava, sobretudo. O alarido de vozes e risos como antecipação a um momento artístico me doía nos tímpanos, ressoava em meu cérebro como ondas gigantescas de água furiosa transbordando de diques. Invariavelmente, me irritava a ponto de consumir a paciência arduamente conquistada no passar dos anos de juventude para a maturidade. Sempre queria fugir ou tapar os ouvidos com grossas bolas de cera. Tudo isso para fugir do ruído incessante que parece o moto contínuo da maioria dos seres ditos humanos.

Depois, comecei a elaborar em minúcias uma resistência calada, mas espessa e sólida. Adquiri uma dura camada de insensibilidade auditiva, mesmo durante altercações familiares ou festividades de altos decibéis. Conseguia passar quase impávida entre a massa de impropérios ou exclamações de júbilo natalino ou esportivo… Esse tempo foi divertido até. Porque conseguia me mover entre outros com a sensação de caminhar através de um plasma invisível que me permitia observar gestos e feições em seu aspecto mais bruto – ou natural, se assim o queiram… Minha mente fotografava instantes de puro estupor e de doce deleite. Podia observar, em detalhes e secretamente, as emoções mais esdrúxulas ou comoventes. Podia rir, depois, à margem, de tudo que havia visto. Isso tudo passou. Mesmo os atos mais risíveis começaram a me parecer monótonos.

Surgiu, então, uma nova sensação. Aos poucos, comecei a entender o movimento humano como se lesse olhares e espreitasse mentes. Não precisava mais de sons ou ruídos. Aprendi a decifrar gestos, a vislumbrar pensamentos. Não precisei mais ouvir palavras, já intuía intenções e desejos. Passei a descobrir, então, a música que cada um carrega pela vida afora. Agora posso enxergar as nuances de cores e as ondas de calor que circundam aqueles que cruzam meu caminho. E, assim, por meio dos halos de luz que criam ao redor, posso ouvir a música que produzem. Há belas sinfonias, canções antigas, melodias desafinadas e gorjeios de pássaros. É assim que ouço, hoje, o mundo e os seres. E não há outro som que me encante mais. Porque posso escutar, todo o tempo, as músicas que movem a vida.

O desafio de preparar pessoas para gerir pessoas (Parte 2)

Moacir Rauber
Em julho de 2011 escrevi um texto “O desafio de preparar pessoas para gerir pessoas” publicado no link http://facesfacetas.blogspot.com/2011/07/o-desafio-de-preparar-as-pessoas-para.html. Naquele texto descrevi uma situação em que o processo de seleção escolheu um profissional que não foi contratado por uma questão puramente burocrática. Os responsáveis pela área de Gestão de Recursos Humanos da empresa não souberam olhar para além do seu quadrado departamental, afrontando as diretrizes da organização em nome da própria comodidade. Certamente gerou prejuízos para o indivíduo e para a organização. Entretanto, na última semana acompanhei o processo de seleção em uma das áreas mais atraentes e em expansão do cenário brasileiro, o setor da aviação. Um piloto de aviação com muitos anos de experiência em aeronaves menores tem buscado migrar para uma empresa que opere aeronaves maiores. Manteve contato com algumas das principais companhias aéreas brasileiras e inscreveu-se nos respectivos processos de seleção. Participou de vários, que normalmente são compostos por diferentes etapas. Conhecimentos técnicos, simuladores de voo, exame psicotécnico, situações de risco, entre outras provas. Até aí tudo bem. O que me espanta e me causa irritação é o processo de comunicação, ou melhor, da não comunicação durante ou sinalizando o término do processo. Trata-se do processo de seleção de uma mão de obra altamente qualificada e mesmo assim o profissional em questão me relatou inúmeras situações absurdas ocorridas. Disse-me que numa organização inscreveu-se no processo seletivo juntamente com mais 40 candidatos. Fez a primeira etapa e ao final foi comunicado que dariam uma resposta em 10 dias. Já se passaram mais de 30 dias e nenhum contato foi feito. Noutra empresa fez a primeira etapa do processo e foi logo selecionado para a segunda, com outros sete candidatos. Havia uma vaga. Cumpriu a fase e recebeu a informação que o resultado sairia em 48 horas. Nada, nada já lá vão14 dias desde a realização da prova e nenhum contato foi mantido pela empresa. Contou-me assim ainda outras histórias e absurdos que ocorrem no processo de seleção em diferentes empresas de aviação no Brasil.
Pode-se deduzir que em algumas empresas o descaso com as pessoas é parte de uma política organizacional, enquanto de outras trata-se apenas de política desorganizacional da área de gestão de pessoas. Nem uma nem outra situação se justificam num período em que o discurso das organizações se voltam para a valorização do ser humano. A não comunicação gera frustração nas pessoas que aguardam uma resposta, porque ficam na expectativa de que serão chamados, mas ao mesmo tempo a resposta não vem. A comunicação deve ocorrer tanto em casos positivos como negativos, porque em ambos os casos se permite que a pessoa toque sua vida em frente. Em caso negativo a pessoa pode buscar outra colocação. Em caso afirmativo a pessoa pode se preparar para ingressar na própria organização. Custa tanto mandar um e-mail, dar um telefonema ou mesmo outra forma de comunicação? Por isso me causa assombro a não comunicação, pois trata-se uma questão de respeito para quem está na posição de candidato, independentemente se o processo se refere a contratação de pessoas altamente qualificadas ou não. Esse respeito deve ser dado a todas as pessoas para todos os cargos. O discurso da valorização das pessoas deve ser posto em prática pelas pessoas que compõem aquela empresa, uma vez que o fato de se estar na condição de recrutador ou de candidato é simplesmente circunstancial.
Por isso é importante que os profissionais de recursos humanos que trabalham nos processos seletivos se perguntem todos os dias:  eu gostaria de ser tratado como trato as pessoas no processo de seleção que estou conduzindo?
O piloto em questão terminou por ser contratado por uma das empresas para as quais se candidatou, porém formou uma imagem tremendamente negativa das demais. Fato esse largamente disseminado para outras tantas pessoas!!!

Quando ONGs se tornam INGs

Moacir Rauber

A criação de uma ONG – Organização Não-Governamental precisa de um grupo de pessoas para a sua formação e ter como objetivo o desenvolvimento de atividades de interesse público. Uma iniciativa louvável, que foi vista pelo Estado como um possível solucionador de problemas coletivos pela própria coletividade. Assim, surgiram inúmeras ONGs nas mais diversas áreas propondo-se a resolver demandas da sociedade, desde os problemas de uma comunidade, passando por questões ambientais, direitos das minorias, combate a fome, até problemas de garantias dos direitos humanos. Tudo muito justo e muito bonito!

Nessa mesma linha de raciocínio muitas pessoas têm iniciativas individuais, aplicando parte dos seus proventos diretamente em questões nas quais eles acreditam poder contribuir. Alguns abatem parte dessa contribuição do Imposto de Renda, mas outros, literalmente, doam daquilo que ganham. Este último é o melhor exemplo de um Indivíduo Não-Governamental preocupado em resolver os problemas que afetam outras pessoas diretamente, mas que podem atingi-lo por outras vias.

Entretanto, o ser humano tem uma criatividade para além da imaginação comum. Muitas ONGs passaram a ser governamentais, pois dependem e somente existem com recursos oriundos da esfera pública. Até aí ainda muitas são aceitáveis. O problema se apresenta quando as ONGs somente o são no papel. Um sujeito com uma visão deturpada e oportunista convida outros para criarem uma ONG. Cumprem com toda a rotina burocrática, escrevem um projeto para resolver uma demanda social e se propõem a captar os recursos. Com a colaboração de algum contato conseguem aprová-lo, para em seguida receber os recursos. Aplicam uma parte ínfima dos recursos no objetivo a que se propuseram inicialmente e o restante é distribuído entre os integrantes como salários, horas técnicas, assessoria e é direcionado para empresas que eles próprios são os donos. Ao se referirem as ONGs que eles criaram e coordenam falam em alto e bom som, A minha ONG!”, referindo-se a ela como propriedade e não como a uma organização para quem eles prestariam serviços. As próprias matérias jornalísticas, seja na televisão ou outro meio, referem-se aos diretores das ONGs como, “O Senhor Fulano, dono da ONG tal…” e nem sequer se dão conta do quanto está desvirtuda a situação. Do absurdo que dizem e escrevem! Uma ONG não pode ter dono. Uma ONG deveria ser não governamental sempre, desde as pessoas e os recursos. Uma ONG deveria servir os interesses da coletividade e não de indivíduos que as transformaram em INGs, mas altamente governamentais. Isso porque vivem e enriquecem com recursos públicos que deveriam atender a uma demanda pública.

Você conhece alguma ONG que se transformou em ING e somente atende interesses individuais?

Somos únicos. Somos múltiplos.