Skip to main content

Hoje eu sentei e chorei… O que me faz levantar?

Há trinta e dois anos uso uma cadeira de rodas, depois de uma capotagem de carro. Tinha então 19 anos e ontem tudo mudou. Recebi visitas aqui em Florianópolis e fizemos um passeio turístico pela ilha usando um ônibus com vista panorâmica. Foi sensacional. Voltamos às 18h e desembarcamos do ônibus a uns 300 metros de casa. Havia uma pequena elevação no caminho. Os meus amigos perguntaram se eu precisava de ajuda, porém eu neguei, sempre orgulhoso da minha autonomia. Na brincadeira, eles saíram correndo e eu fiquei para trás. Movi-me o mais rápido que pude, porém via-os lá na frente. A elevação da rua exigiu mais esforço, mas não pude alcançá-los. Nesse momento, ocorreu-me algo que nunca mais vou esquecer. Senti uma estranha contração nas pernas. Pude perceber meus músculos se moverem. As coxas se retesaram e uma vontade tremenda de levantar da cadeira de rodas que já me carregava por tantos anos se manifestou em mim. “E por que você não se levanta?” disse-me uma voz. Fiz um esforço e com um salto consegui sair da cadeira de rodas. Foi sensacional! Levantei-me e comecei a empurrar a cadeira e logo havia alcançado os meus amigos. Eles me olharam de maneira muito estranha. Acredito que não me reconheciam. Depois exclamaram, Meu Deus, você está caminhando!!! Nesse momento eu também me dei conta de tudo o que estava acontecendo. Parei. Apalpei as minhas pernas. Eu finalmente sentia as minhas mãos nas pernas e não somente as pernas nas mãos. Que alegria caminhar depois de tanto tempo. Uma sensação indescritível! Abracei os meus amigos. As lágrimas de alegria escorriam pelo meu rosto. Foi maravilhoso. Dei um salto e saí correndo para desfrutar da sensação que há tanto tempo não sentia. Todos nós corremos e saltamos feito malucos. Aproximamo-nos da entrada do meu prédio na maior alegria. Estava quase escuro e eu, na minha alegria, não vi um pequeno degrau. Tropecei nele e caí sentado. Foi quando acordei.  Estava sentado na minha cama. Quando entendi o que estava acontecendo ou aquilo que não acontecera, chorei. Chorei copiosamente num misto de frustração e de alegria. Havia sido apenas um sonho. Frustração e alegria? Como assim?

Crédito da Imagem: Rastro Selvagem

A frustração pode-se entender, mas a alegria? Sim, a frustração veio ao constatar tantas possibilidades não realizadas: o futebol que não mais joguei, as caminhadas que não fiz ou as valsas que não dancei. Isso me fez perceber que voltar a caminhar não aconteceu e, provavelmente, não acontecerá como num passe de mágica. Eu sei que estar numa cadeira de rodas era resultado de uma escolha equivocada e as escolhas que fazemos nos afetam e afetam outras pessoas, muitas vezes, de forma contundente. Por isso, a responsabilidade de pensar nas consequências das escolhas que fazemos.

E a alegria? Em primeiro lugar, a alegria veio pelo prazer do sonho. Foi muito bom ter tido a sensação real de ter caminhado e corrido mais uma vez. Para mim foi muito mais do que um sonho. Foi real. Foi maravilhoso. Depois,

A alegria veio pela certeza de que posso continuar vivendo bem com as possibilidades que tenho:  a lembrança de todas as vezes que viajei, dos amigos que fiz e das remadas que dei. Quais são as possibilidades que você tem?

Ainda é possível dançar!

Ainda sinto vontade de voltar a caminhar e a correr como fiz um dia? Claro que sim, porém não fiquei e não ficarei preso a esse sonho. Trata-se de um desejo que não está mais sob meu controle, por isso o foco se mantém nas minhas possibilidades.Quais são as minhas possibilidades com as capacidades que tenho? Quais são as possibilidades que tenho com as capacidades que ainda posso desenvolver? O que está no meu controle escolher e fazer? Sentar e chorar faz parte da nossa humanidade, mas são as possibilidades daquilo que está ao meu alcance que me fazem enxugar as lágrimas e levantar sempre que caio.

Caí muitas vezes e, provavelmente, outras quedas virão. Porém, a decisão de levantar e de seguir em frente é individual.

Foi assim que, com uma cadeira de rodas, pude rodar o mundo. É assim que ainda tenho muitas possibilidades pelas quais levantei hoje e vou levantar todos os dias que a vida me deixar.

E você, o que o faz levantar todos os dias?

Crédito da Imagem: Virgiane Lima Knorr
Crédito da Imagem: Rastro Selvagem
Crédito da imagem: Rastro Selvagem

Quais são as suas possibilidades?

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: [email protected]

Home: www.olhemaisumavez.com.br

O fim dos predadores organizacionais: você é um predador?

O ambiente estava alegre e descontraído. As pessoas trabalhavam e se divertiam ao mesmo tempo, mantendo uma boa produtividade. Seria uma semana muito especial, porque o chefe estava viajando. A semana se foi, o sábado também e o domingo chegou. No dia seguinte o chefe estaria de volta e a ansiedade passava a tomar conta daquelas mesmas pessoas que haviam trabalhado e produzido alegremente na semana anterior. Isso era resultado da postura de um chefe que fazia questão de mostrar quem mandava naquele setor, mantendo uma relação autoritária com os seus subordinados, propositadamente. Entre os seus pares ele ressaltava o sucesso da sua postura:

– Olha, o cavanhaque, a cabeça raspada e uma cara fechada é um santo remédio para manter a ordem. Ninguém nem pia quando estou por perto…

O chefe se orgulhava da postura linha dura e revelava como as estratégias de intimidação funcionavam, considerando-as uma vantagem competitiva para com os demais chefes de departamentos. Ele gostava de destacar que sob as suas ordens não havia reclamação ou desmando. Bastava alguém esboçar algum comportamento que pudesse parecer inadequado para que ele fizesse o sujeito saber qual era o seu lugar. Não havia segunda chance, o caminho seria a rua. Ele eliminava qualquer empecilho do caminho. Afinal, a manutenção da autoridade se dava por meio de uma aparência, de uma postura e de um comportamento agressivos que inibiam qualquer iniciativa fora dos padrões de seus comandados. O chefe poderia ser classificado como um predador organizacional. Pergunto: ainda há lugar para pessoas assim nas organizações?

Entenda-se predador como aquele que caça e que destrói outros organismos completamente com o intuito de se alimentar, segundo o dicionário Aurélio. Porém, a definição tem origem no mundo animal e faz parte de um ciclo de sobrevivência das espécies predadoras, porque elas caçam para permanecerem vivas. Fazendo um paralelo com o mundo organizacional, o chefe descrito também é um predador, porque ele destrói as pessoas que poderiam representar uma ameaça ao seu poder. Os predadores organizacionais transformam o ambiente de trabalho num lugar quase que inabitável, porque as pessoas sempre estão inseguras.

O predador organizacional aniquila a iniciativa, a criatividade e a capacidade de inovação dos seus subordinados, destruindo quase que completamente as características individuais que levaram a que aquela pessoa fosse contratada.

Desse modo, não deveria haver mais lugar nas organizações para chefes, supervisores, coordenadores, CEOs ou proprietários com características predadoras como forma de manter a autoridade, porém é uma realidade mais corriqueira do que se poderia admitir. Quantas não são as pessoas que ficam ansiosas no final do domingo porque no dia seguinte terão que trabalhar? É a ansiedade provocada pela insegurança e pelo medo presente no ambiente de trabalho. E, entendo que é responsabilidade do chefe ou do líder de cada setor, departamento, seção ou empresa a criação do ambiente de trabalho, seja ele positivo ou negativo.

Enfim, acredito que cada profissional que exerça um cargo de comando ou de liderança, também é responsável por fazer com que as pessoas entreguem e queiram entregar as suas melhores competências. E isso não acontece num ambiente de intimidação criado por um predador que destrói o outro por insegurança própria. É tempo de comandantes e comandados, líderes e liderados cooperarem e colaborarem num ambiente positivo e propositivo sendo bem mais produtivos.

Um comandante pode ser comandado, assim como um líder pode ser liderado sem perder a autoridade. Basta ter a confiança nas próprias competências.

Você precisa ser um predador para se manter no ambiente organizacional? Se sim, o caçado pode ser você.

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: [email protected]

Home: www.olhemaisumavez.com.br

Quem o impede de fazer desta a sua melhor vida?

É muito comum ouvir as reclamações das pessoas que não estão felizes com as suas vidas nas diferentes esferas. Basta entrar numa universidade para se escutar os alunos reclamando de que a universidade, o curso, os professores ou os colegas não são nada daquilo que esperavam que fossem. Também é comum percorrer os corredores de uma empresa e escutar as lamúrias de pessoas que se sentem infelizes naquilo que fazem. Culpam, por isso, a organização que não oferece as condições que elas mereceriam. Da mesma forma se ouvem as pessoas fazendo fofoca dos amigos, criticando as experiências relacionais que tiveram ou, por fim, queixando-se da vida. Acredito que é aqui que cabe a pergunta: quem é o responsável por tudo isso?

Concordo que quando entramos numa universidade, depois da batalha para conseguir a vaga, as nossas expectativas estão lá em cima. Queremos que tudo seja o melhor para que possamos sair dali os melhores profissionais do mundo. No primeiro dia, na primeira semana e no primeiro mês é tudo maravilhoso. Depois começa o choque de realidade. O professor já não parece ser tão brilhante quanto na primeira aula. Percebe-se que ele é humano. Os colegas não são tão maravilhosos como nos primeiros dias. Eles, às vezes, são chatos e meio bobos. E as instalações da universidade deixam muito a desejar, parecendo o colégio do Ensino Médio. Acredito que algo semelhante ocorra quando conseguimos aquele emprego que buscávamos. O primeiro dia, a primeira semana e o primeiro mês são incríveis, porque somos movidos pela curiosidade e pela vontade de contribuir. Ainda que esse período passa acompanhado daquele frio na barriga gerado pela insegurança de entrar num ambiente novo, queremos fazer tudo logo para mostrar que valeu a pena sermos contratados. Porém, a vida na organização já tem o seu ritmo e devagarzinho a gente acaba se formatando. Os sonhos vão minguando e nos conformamos. E com os amigos? Existem aqueles intocáveis que trazemos na nossa alma, mas a grande maioria está sujeita as críticas, as fofocas e a falta de lealdade. E nas relações amorosas? São nelas que acredito que o encanto e o desencanto mais atingem os extremos. A paixão avassaladora, as juras de amor eterno e o desejo de passar a velhice unidos como no dia do primeiro beijo se escoam entre os dedos numa rapidez impensável. E nesse ponto, pode-se voltar a pergunta inicial:

Quem é o responsável por tudo isso? Expectativa e realidade na faculdade? Vontade e desinteresse no trabalho? Amor e desafeto nas relações? A resposta é simples, não é? Lá no fundo todos nós sabemos que cada um é o responsável por cada escolha feita.

Por isso, essa é uma das perguntas que me faço nas conversas e nos textos: quem é o responsável por fazer desta a sua melhor vida? Sim, a vida é composta pelos estudos, pelo trabalho e pelas relações de amizade e de amor que podem nos trazer aquilo que nós escolhermos. Por isso, o único responsável por fazer dos meus estudos a melhor oportunidade de aprendizagem sou eu. Hoje já não se tem mais as desculpas para criticar os professores, os colegas ou as instituições, porque as informações estão disponíveis para todos aqueles que as quiserem. Basta procurar. Da mesma forma, cada um também é responsável por fazer da sua empresa o melhor lugar para se trabalhar. Caso contrário, cabe a cada um buscar um novo lugar. E com os amores e os amigos? Também cabe a cada um de nós lutar, preservar e estimular os nossos amores e as nossas amizades por meio da confiança e da lealdade. E se eles não merecerem? Isso é problema deles! Por fim, é problema nosso fazer desta a nossa melhor vida, porque, por enquanto, é a única que temos.

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: [email protected]

Home: www.olhemaisumavez.com.br

É bom estar com você?

Muitas vezes, ao terminar uma das conversas que tenho conduzido em empresas, universidades ou escolas em que abordo a importância de olhar para dentro de si mesmo para identificar e prender os próprios ladrões, peço para que as pessoas se deem as mãos. Digo para que elas se cumprimentem, dando um bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme o período do dia. As pessoas, entusiasmadas pelo conteúdo abordado anteriormente, dão efusivos apertos de mãos e abraços. Depois eu digo o seguinte:

– Mantenham o cumprimento. Fiquem de mãos apertadas e olhem-se nos olhos. Agora, levantem os seus polegares de forma a que o polegar de cada um se oponha ao polegar do outro. Force um pouco o polegar do outro. Testem a força um do outro…

As pessoas fazem o que é pedido. Algumas ficam constrangidas ao perceber que a pessoa a sua frente tem mais força no polegar do que ela. Outras ficam constrangidas justamente porque sabem que tem mais força do que o outro. Aparecem os sorrisos amarelos. Também aparecem os sorrisos espontâneos daqueles que pouco se importam se tem mais ou menos força do que aquele que está a sua frente. Eles se divertem pelo fato de estarem com o outro.

Na sequência eu chamo a atenção de todos para dizer o seguinte:

– Eu vou contar até três e cada um terá que fazer com que o outro abaixe o polegar o mais rápido possível. Combinado?

A tensão aumenta. Muitos presentes sentem a proximidade da competição e apertam mais fortemente as mãos. Eu começo a contagem:

– Um, dois, três. Valendo!

A competição começa. As pessoas fazem força para abaixar o polegar do outro. Cada um empurra para o outro lado. Os derrotados sorriem. Os vencedores inflam o peito. Entretanto, todos sabem que é uma brincadeira e terminam em abraços de confraternização. É um alvoroço. Logo que os ânimos se acalmam eu indago sobre quem venceu e quem perdeu. As manifestações são as mais variadas. Por fim, eu peço para a pessoa de quem eu havia apertado a mão para explicar aos demais o que eu havia lhe dito após o comando valendo:

– Ele falou, “olha, eu vou abaixar o meu dedo polegar, assim você poderá abaixar o seu. Com isso, ambos alcançamos os nossos objetivos.”

Depois da explicação todos exclamam, Ahh bom, percebendo que muitas vezes nós não entendemos o espírito das relações.

A vida pode ser competitiva, mas nós não estamos em competição. As competições, normalmente, não são justas porque são contra os outros. A competitividade normalmente é sadia porque ocorre a partir de mim em que demonstro a capacidade de fazer o meu melhor.

E nesse exemplo, em nenhum momento eu havia falado para que as pessoas derrubassem o dedo do outro à força. Para fazer o meu melhor e alcançar o objetivo de que o outro abaixasse o seu dedo, bastava eu abaixar o meu. Porém, essa postura e esse novo olhar exige que nós, além do dedo, abaixemos as nossas guardas e passemos a confiar em nós mesmos e nos outros. Que deixemos de competir e passemos a cooperar e colaborar. Com isso, nós, indivíduos sociais, passaremos a entender que nós estamos com os outros e não contra os outros. Enfim, é fundamental que entendamos que a nossa vida somente tem sentido com os outros e que a nossa alegria de viver somente ocorre na presença dos outros. Assim, ao alcançar os nossos objetivos devemos proporcionar a que outras pessoas possam alcançar os seus.

Por fim,

Viver em sociedade deve se basear em relações em que nós estamos com os outros e não contra os outros. Temos que reconhecer que deve ser bom estar com os outros.

É bom estar com você?

 

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: [email protected]

Home: www.olhemaisumavez.com.br