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Um sorriso, um abraço ou um beijo…


Moacir Rauber


A chegada de um brasileiro a outro país é precedida pela imagem de ser alegre, descontraído, expansivo, afetuoso e festeiro, entre outros adjetivos positivos vinculados a tais ideias. Por outro lado, também se é antecedido pelo senso comum de que possam ser impontuais, inexatos, pouco confiáveis e preguiçosos, segundo inúmeros adjetivos negativos a que os brasileiros também são ligados. Isso tudo são estereótipos criados e disseminados por meio de generalizações, expondo as pessoas a elas, para o bem ou para o mal. Da mesma forma os japoneses, os italianos, os alemães, os americanos, os mexicanos, os ingleses ou os sauditas são antecedidos por uma série de conceitos e imagens relacionados a sua cultura quando saem de seus países ou de suas regiões.

Em 2012 tive o prazer de permanecer por um mês em Vancouver, Canadá, uma cidade multicultural na qual facilmente se encontram pessoas de todas as regiões do mundo. Meu objetivo foi o de estudar inglês, assim inscrevi-me numa escola especializada. Lá chegando, no primeiro dia, enquanto esperava o elevador encontrei outras pessoas. Cumprimentei um rapaz que estava ao meu lado em inglês, ainda que de forma um pouco retraída. Ele retribuiu da mesma forma. O grupo em frente ao elevador aumentou. Um pouco depois percebi um jovem bastante falante que estava agitando a área mais para o fundo da fila de espera. Falava um inglês todo atrapalhado, assim como a maioria que ali estava o faria se falasse. Tinha um sotaque muito forte… Chegou a minha vez e subi. Fui para a sala dos pré-testes, recebi as instruções juntamente com pessoas oriundas da Turquia, do Japão, da Coreia, da Alemanha, do México, da Colômbia, da Suíça, da França, da Arábia e de outros países. As pessoas que se dispõem a participar de cursos de inglês no exterior, normalmente, estão com o espírito desarmado e predispostas a interagir com os outros para potencializar a aprendizagem, pois um dos grandes objetivos é desenvolver a fala. Alguns são mais extrovertidos, outros são mais introvertidos. A grande maioria, porém, segue os padrões da organização. Quando se pede silêncio, fazem. Assim, todos acompanhavam as instruções dadas pelos responsáveis da escola sobre a rotina do dia-a-dia dentro da instituição e dicas para melhor circular na cidade. De repente vejo uma muvuca do outro lado da sala e reconheço o mesmo rapaz que havia visto na sala de espera do elevador. Abraçava um e abraçava outro. Falava alto. Tinha um sotaque… Não sei, não quis me basear em estereótipos para prejulgar… O pessoal da organização tentava seguir com a programação de orientação que momentaneamente estava parada. Por fim o movimento se acalmou e os organizadores retomaram o controle seguindo com o programa. Uma das orientações se referia, especificamente, a proibição de se falar nos idiomas nativos com os compatriotas que se identificassem na escola.  Na saída da sala encontro o jovem que havia visto por duas vezes. Ele se aproximou de mim e perguntou em português, Você é brasileiro? Eu respondi, Yes, I´m. And you? Sim, eu também sou. Respondeu ele… Eu vi pela tua mochila… Sou de … (dizendo a cidade). E você é de onde? Nisso uma das coordenadoras passa por nós e diz, Don´t speak portuguese here in the school! Nesse momento ele riu e continuamos nossa conversa em inglês. Disse de onde eu era e por quanto tempo pretendia ficar em Vancouver. Ele também fez mais alguns comentários, sempre numa voz extremamente alta. Por fim disse, Deixa-me ir… Me dá um abraço! Abraçou-me como se fôssemos velhos conhecidos. Estava parada ao meu lado uma aluna da Coreia com quem havia compartilhado grande parte das duas horas de  testes e orientações. Ele olhou para ela, pediu quem era e se apresentou também. Deu-lhe um forte abraço e saiu. Percebi que a coreana ficou encabulada com aquele gesto que a pegou de surpresa.

No dia seguinte cheguei a escola e fui verificar o ensalamento conforme os resultados dos testes de nivelamento. Fiquei feliz ao perceber que estudaria com a coreana. Fui para a minha sala e aguardei que começasse a aula. Muito bacana ver tantos jovens estudando e aprendendo. Os suíços e os alemães, pelo menos nos grupos que participei, tinham um nível de cultura geral impressionantes… As pessoas se apresentando, a conversa fluindo e todos procurando exercitar o seu inglês. Entre erros e acertos todos se comunicavam. Em seguida saímos para o primeiro intervalo. Fomos tomar um café e encontro o meu conhecido brasileiro que me saudou em português. Eu respondi em inglês. Ele se tocou e na continuação falou em inglês. Logo se aproxima a minha amiga coreana que entrou na conversa. Acho que ela estava feliz por ter encontrado mais alguém que ela já conhecia. Porém, o conhecido brasileiro indagou, Who are you? Where are you from? (Quem é você? De onde você é?) Vi nos olhos da coreana um certo ar de perplexidade… Parecia que ela se perguntava, Como assim quem sou eu? Nós já nos conhecemos desde ontem… Realmente ela não devia estar entendendo nada, porque no dia anterior o mesmo rapaz, que agora perguntava quem ela era, a havia saudado, havia se apresentado e havia lhe dado um forte abraço…

Levanto esta questão porque, às vezes, sinto que nós banalizamos palavras, gestos e sentimentos. Lembro-me de um tempo em que para se falar a palavra amor ela realmente deveria estar carregada com esse significado para quem a pronunciasse. Hoje as pessoas falam “amo você” com uma facilidade, para não dizer falsidade, que assusta. Amam o “meu amor” e amam o amigo, mas na primeira crise ou dúvida já odeiam e rompem a relação. Também amam o gato, o papagaio e o cachorro, porque estes não podem contestar nada. “Adoram” a sobremesa assim como adoram a vizinha, mesmo que dela apenas conheçam a carinha. Chamam a quem odeiam de “amigo” e a qualquer um de “querido”, mesmo que não seja nem conhecido. Os gestos também estão desvalorizados porque aperta-se a mão de tanta gente que nem se conhece. Abraça-se uma pessoa e logo depois já se esquece. O beijo, então, é melhor nem falar, porque numa noite de balada faltam dedos para contar. Os sentimentos seguem na mesma linha, misturam-se todos como se do mesmo saco fossem farinha. Por isso digo que banalizamos declarações, toques, sorrisos, abraços e beijos, mas esquecemos que para outros eles ainda podem ser verdadeiros. Não é porque damos um abraço que somos mais afetuosos, alegres, transparentes e autênticos. Ele pode ser a forma de ocultar a verdade que não queremos mostrar. Excesso de exposição pode encobrir certa ligeireza de emoção, porque como diz o ditado, “lata vazia é que faz barulho”. A falta de conteúdo pode fazer com que ocupemos um espaço que não é nosso. Por outro lado, para algumas pessoas um sorriso, um olhar ou um aceno de cabeça pode ser muito mais do que uma declaração de amor ou um abraço.

Por isso, fico alerta sempre que vejo as pessoas atribuindo frieza aos alemães, aos ingleses, aos japoneses ou aos coreanos porque, em algumas situações, eles preferem a distância ao toque. Não gostam que lhe invadam o espaço. Mas não se pode atribuir isso a um povo. Também temos brasileiros que se sentem assim. Não quer dizer que não haja sentimento, apenas que o ritual é outro. Há que se perguntar o quanto representa para cada uma dessas pessoas um sorriso, um aperto de mão ou um abraço? Certamente no caso da coreana que foi formalmente apresentada e saudada com um afetuoso abraço por um brasileiro o seu sorriso teve muito mais valor.

Creio que são diferenças na hora de expressar os sentimentos. Não há certo ou errado. Não é questão de julgamento. Nem sempre é frieza não tocar o outro ou ser introvertido. Nem sempre é calor humano abraçar a todos e ser extrovertido. 

Importa mesmo é ser autêntico sem ser mal educado!

Deus não mata…

Moacir Rauber
Hoje foi um daqueles dias estranhos. Saí pela manhã para deixar o carro para lavar e aproveitei para ir ao correio. Na saída encontrei um amigo que logo me cumprimentou. Ele estava acompanhado de um homem da mesma faixa etária, aproximadamente 40 anos. Rapidamente fui a este outro apresentado com as seguintes palavras:

– Olha, este é o …, somos amigos desde a infância. Fizemos muitas festas juntos! Bailões, cervejadas e muito churrasco…

O homem, vestindo um terno preto e uma pasta executiva nas mãos, estendeu-me a mão e disse:

– É, mas é passado… Hoje não faço mais isso. Arrependo-me todos os dias, mas pelo menos foi parte do caminho para chegar até o Senhor e…

O meu amigo o interrompeu dizendo:

– Sim, hoje ele faz parte da igreja XPTO (citou o nome de uma igreja nova que eu nunca ouvira falar).

Após ouvir a citação do nome da sua nova igreja o homem de terno se sentiu permitido a pregar a palavra, a fazer o trabalho de evangelização. Embora a questão de permissão não seja nenhum empecilho, porque a grande maioria desse novos convertidos não está nenhum um pouco preocupada com licença ou anuência para falar. Eles querem salvar o mundo obrigando os outros a mudarem. Normalmente eles são os possuidores da verdade absoluta. No mundo ideal desses pobres coitados não haveria espaço nenhum para diferenças.

A situação ficou um pouco embaraçosa. O meu amigo puxou outro assunto… Falamos do remo e fiz um comentário usando uma palavra chula. Demos risada, embora o engravatado tenha mantido a cara sisuda. Senti que ele me observava com uma viva curiosidade. Julgava até ter visto reprovação… Em seguida ele interrompeu a conversa:

– Você usa cadeira… Qual é o teu problema?

O sangue me subiu imediatamente. A forma como fez a pergunta, carregando-a como uma acusação, irritou-me profundamente. Pareceu dizer-me que se eu estava na cadeira era por merecimento. Consegui me controlar. Olhei-o nos olhos para dizer com voz calma e pausada:

– Bom, na verdade eu não tenho nenhum problema. Eu estou muito bem! Uso a cadeira porque sofri um acidente ainda jovem…

O sujeito me interrompeu para dizer:

– É, Deus não mata mas castiga!

Fiquei paralisado… Não me refiro a paralisia dos membros inferiores, mas sim ao que se passou na minha mente. Ou melhor, a princípio, ao que não se passou. Fiquei de boca aberta. Acho que pensei algo como, “Não, eu não estou ouvindo isso…”. Muitas vezes já havia passado por situações em que as pessoas sugeriam, sutilmente, que pudesse ser um castigo divino o fato de eu estar numa cadeira de rodas. Porém, nunca, mas nunca mesmo alguém o havia dito assim, de forma tão direta e estúpida.

Quando retomei a consciência apenas disse:
– Estou indo. Até mais!

Fiquei confuso e completamente atordoado por horas. Como havia deixado o carro para lavar fui rodando com minha cadeira pelas calçadas mal conservadas da cidade. Desviava de um buraco e de outro num zigue zague maluco a que os cadeirantes estão obrigados quando querem circular pela maioria das cidades brasileiras. Cadeirantes não, segundo aquele sujeito, os amaldiçoados!

Nada, absolutamente nada contra as pessoas terem a sua religião. Antigas ou novas não faz a mínima diferença. Nem sempre o fato de algo ser antigo nos garante ser verdadeiro, assim como não é o fato de ser novo que nos assegura ser uma evolução. Cada um com a liberdade para acreditar nas suas verdades. Apesar de toda a sua fé essas pessoas não conseguem entender um milagre. Pergunto-me, “Por que haveria de ser um milagre caminhar se todos caminham? Acredito muito mais que seja um milagre viver bem e caminhar sem ter as pernas…

Também fico assustado como o totalitarismo pode se expressar por meio de pensamentos tão tacanhos revestidos de mensagens divinas. Pensamentos em que não se reconhece a liberdade de que outros pensem e ajam de forma diferente. No mundo ideal do sujeito engravatado todos deveriam seguir a sua lei. Somente no dia em que todos pensassem de forma exatamente igual e seguissem os mesmos preceitos o mundo estaria a salvo. Pergunto-me, A salvo de quem? Da diversidade? Das diferenças?

Assusta-me o fato de ainda não entender como se pode respeitar o que é diferente se aquele que é diferente não o respeita? 

Se o objetivo daquele que é diferente simplesmente é torná-lo um igual ou senão o castigo divino o eliminará? 

É possível?

Aceito respostas…

Mas aqui não dá nada…

Lá vai o Engenheiro Agrônomo percorrendo as estradas daquele interior com ares de abandono. Para todo o lado que ele olha somente vê áreas degradadas. Quase não existe mais  vegetação nativa, mas também não se veem plantações feitas com os cuidados requeridos. Fica triste ao constatar que aquela região, potencialmente, poderia produzir muitos alimentos, mas a realidade se mostra bem diferente.

Aproxima-se com o seu veículo da porteira de um pequeno sítio. Parou, desceu, abriu a porteira e avançou os limites da propriedade. Em seguida fez a mesma movimentação para fechar a porteira.  Viu algo parecido com uma vaca. De tão magra que estava não sabia como ainda estava de pé… Ao longe se via um barraco com um homem de meia idade sentado em frente. Ao seu redor umas quatro ou cinco crianças mal vestidas, sujas e com aquela carinha de má nutrição que corta o coração de qualquer cidadão. Aos fundos viu uma mulher entrando com um cesto na cabeça. O que será que ela carregava?, pensou… Quando chegou até onde estava o homem as crianças rapidamente desapareceram. O engenheiro educadamente o cumprimentou, recebendo tratamento recíproco. Conversaram sobre amenidades como chuva, sol e o tempo. O engenheiro, com a curiosidade de quem sempre quer aprender algo mais observou para depois indagar:

– No caminho para cá não vi nenhuma plantação de milho, feijão ou arroz. Aqui não dá milho?

O caboclo, com um ar desolado, responde:
– Dá não, senhor…
– E feijão não dá?, pergunta o engenheiro.
– Dá não, senhor…
– E arroz também não dá?

Obtém a mesma resposta. O engenheiro, cada vez mais intrigado, ainda experimenta:
– Mas então aqui não dá nada… Nem se plantar cebola, alho, pastagem ou outros tipos de plantas também não dá?

Nesse momento o caboclo se ajeita em sua cadeira, faz um muxoxo e diz:
– Ah bom, se planta daí dá…

Essa é uma das anedotas que rondam o interior brasileiro, mas a reflexão pode ser estendida para outras realidades. Muitos querem colher sem plantar. Daí não dá nada. Algo similar acontece com as pessoas que sonham ter uma “vida melhor”. Cada um com seu conceito para uma “vida melhor”, mas dificilmente a terão se não cuidarem da sua plantação. Não plantam. Não regam. Não colhem. Simples assim.

Não buscam conhecimento. Não aprendem. Não ensinam. Não agem. Somente vegetam. Não, não, nem isso, porque até para vegetar é preciso ação…

E você, quer colher o que? 

Como está cuidando da sua plantação? 

Ah, você pelo menos está plantando?

Falta acertar o preço…


Aquela turma de faculdade era bem diversa. Nela estudava a moça mais bonita e também o rapaz mais nerd.

Dando voz aos estereótipos a beleza dela se contrastava com a própria inteligência. Não que ela não a tivesse, mas talvez tenha sido levada a acreditar que os atributos físicos fossem mais importantes do que os da inteligência. Em suma, ela era linda, sabia que o era e fazia questão de exibir a sua beleza. Sempre que podia usava seu charme para obter vantagens. Podia ser para aumentar uma nota junto a um professor influenciável, quase sempre os há, ou para furar uma fila de rapazes numa lanchonete. Desfilava sua beleza e sua graça sabendo-se apreciada pelos olhares masculinos.

No outro extremo estava o nerd. Seguindo os padrões de beleza atuais a sua inteligência era muito, mas muito maior do que aquela. Ele sabia muito sobre todas as áreas de conhecimento exigidas no curso que faziam, além de ser um sujeito culto em geral. A timidez o impedia de desfilar a sua inteligência, além de inibi-lo nas frustradas tentativas de aproximação que fizera com as mulheres. Praticamente já desistira…

Naquele dia estava ele sentado na praça em frente da agência bancária. De repente aproxima-se a sua linda colega de curso e o cumprimenta. Eles começam uma conversa trivial. Logicamente quem mais conversa é ela, não ele… Ela com toda a sua graça e beleza desperta nele um desejo que ele sabe ser praticamente impossível de concretizar. A conversa avança para um terreno perigoso para ele… Falam de amores e de sexo. Ele enrubesce. Ela ri. Ele observa os transeuntes encabulado. Ela se diverte sabendo do impacto de sua beleza sobre o colega. Ele se irrita consigo mesmo. Ela o espicaça. 

Nisso ele vê um homem bem acima do peso com aproximadamente sessenta anos saindo do banco.  Poderia se dizer que não era nada bonito…, mas estava vestindo terno e carregando uma maleta de executivo. Na rua um motorista lhe abre a porta  de uma mercedes nova. O nerd observa lateralmente a sua colega que também via a cena… Então pergunta, Se aquele cara que entrou na mercedes te oferecesse um milhão de reais você faria sexo com ele? Ele ficou roxo na hora. Como pude falar isso? Se perguntou o nerd. Mas já estava feito… Ela ficou pensativa. Pôs o dedinho no queixo… Olhou diretamente para o nerd e respondeu, Hum, acho que sim. Que mal teria? Um enorme silêncio ocupou o espaço entre os dois. Ele ainda roxo… Ela continuou, É, eu faria sim… Mais um pouco de silêncio quando foi a vez dele olhar diretamente para ela e dizer, Eu tenho R$ 200,00. Você quer fazer sexo comigo? Ela se engasgou e avermelhou. Levantou-se de um salto, pôs as mãos na cintura e falou indignada, O que você acha que eu sou? Você tá louco? Vendo-a descontrolada daquele jeito, a partir de sua timidez ele conseguiu responder, O que você é nós já sabemos. Agora falta acertar o preço…

Não sei onde li ou se apenas ouvi este fato como uma piada. Também não tenho ideia de quais eram os personagens, mas a sua moral era mais ou menos esta.

Qual o seu preço? 

Quais os seus valores?

O homem raso…


Moacir Rauber
A tendência da horizontalidade nas organizações havia chegado muito antes na essência do homem moderno. O modelo administrativo que tem sido mais implementado e sugerido para alcançar as melhorias de produtividade exigidas pela alta competitividade de todos os setores de produção e comercialização é o da horizontalidade, com a conseqüente diminuição dos níveis hierárquicos. Deste modo as empresas se tornam planas, rasas e com poucos escalões. Porém, para chegar as organizações essa ideia já havia tomado forma na própria concepção do homem moderno que também se desverticalizou, tornou-se plano, superficial, raso, pouco profundo. 

Ao recuarmos no tempo, aproximadamente cem anos, a grande massa populacional dos países se concentrava nos campos, local de pouca tecnologia, no conceito moderno, mas de muito conhecimento. O homem, genericamente falando, era profundo e vertical, pois conhecia todo o processo de produção do qual dependia para subsistir no meio em que vivia. Poucos eram os insumos de que dependia sobre os quais ele não dominava a sua forma de produção. Com o incremento da tecnologia, do conceito moderno, esse mesmo homem começou a se horizontalizar, não dominando mais todas as partes do processo de produção. Deste modo, passou a comprar as partes que compunham o produto final de que precisava, dependendo então de outros produtores. Consequentemente, o homem rural, antes vertical, agora horizontal, perdeu competitividade e foi morar nas áreas metropolitanas. O ano de 2008 marca a história como sendo o primeiro ano em que a população urbana é maior do que a população rural. 

Certamente, muitos desses novos moradores urbanos ainda lembram das histórias contadas por seus pais e avós que descrevem uma vida que já não é mais possível. Uma vida com valores e conhecimentos profundos, personificando um homem completo, muito, mas muito diferente do homem despedaçado e em frangalhos que hoje perambula pelas áreas urbanas. Um homem sem raízes e sem profundidade, completamente raso.


Este texto foi publicado originalmente em:
http://harmoniaeequilibrio.blogspot.com.br/2008/05/raso-ou-profundo.html

Idade nem sempre é sinônimo de maturidade…

Moacir Rauber
As pessoas que tem alguma deficiência estão viajando cada vez mais. Isso é marca de uma evolução tremenda. Nos aeroportos, mesmo com alguns problemas de acessibilidade, cada vez mais se vê pessoas com diferentes tipos de deficiência. Usuários de cadeiras de rodas vítimas de acidentes ou adquiridas com a idade. Pessoas com deficiência auditiva por um motivo ou outro. Pessoas com deficiência visual da mesma forma. É um movimento como nunca visto na história da humanidade que pode significar a nossa humanização. Entretanto, ter alguma deficiência ou ter mais idade não necessariamente significa ser uma pessoa do bem ou ter maturidade.

Naquele dia embarquei em São Paulo com destino a Florianópolis. Como de praxe as gestantes, mulheres com bebês, pessoas com mais idade e pessoas com alguma dificuldade na mobilidade são tratados como prioridades. Assim, quando abre o portão de embarque eu já me aproximo para não atrasar os outros. Cheguei próximo a atendente da companhia e vi uma senhora muito elegante também usando uma cadeira. Fiquei ao lado dela. Ela me olhou e fez aquela pergunta indiscreta: O que foi com as suas pernas? Fiquei meio sem jeito e respondi que fora um acidente, mas que já estava tudo bem. Logicamente que ela não se contentou com uma resposta tão simples. Fez mais algumas perguntas sem esperar uma resposta, porque na verdade ela estava quereno falar da desgraça dela e desandou a falar de suas desventuras e de seu sofrimento. Ela estava usando a cadeira temporariamente para resolver um problema que lhe surgira na perna. Não duvido que estivesse sofrendo, mas não também não estava a fim de ouvir toda aquela ladainha. Por sorte logo o embarque começou. Chegando até a aeronave o comissário perguntou qual era a poltrona. Ela disse, É a 2C, mas eu vou ficar aqui na primeira… O rapaz, educadamente, tentou demovê-la dizendo que a poltrona seria ocupada por uma senhora com bebê. Ela retrucou, Eu vou ficar aqui, ela que sente para trás. Se for o caso darei luz a uma criança… e gargalhou. Eu me acomodei ao lado. Logo começou o embarque dos demais. Chegou a dona do assento com uma criança de colo. Ela olhou para a senhora e disse de uma forma bem educada, Essa poltrona é minha…A senhora idosa somente virou a cara de lado e respondeu, Sente na detrás. É muito difícil para que eu me mova… E fechou a cara. Aquela mãe ficou sem saber como reagir dirigindo-se até a poltrona de trás que é menos espaçosa. Acomodou-se com a criança e não disse mais nada. A senhora idosa todo prosa disse que ela não daria lugar porque os outros teriam que se virar como ela. 

A viagem de cinquenta minutos transcorreu sem que ninguém falasse nada. Creio eu que todos estavam em choque pelo comportamento completamente egoísta daquela senhora idosa. Onde estaria a tão falada maturidade que chega com os anos vividos? Onde estaria a bondade que normalmente se vê nas feições das pessoas com mais idade? Certamente não estava com aquela senhora. E não havia nada em sua conduta que pudesse indicar alguma alteração de personalidade em função da idade avançada. Pareceu-nos que ela sempre fora assim…

Aterrissamos em Florianópolis. Logo que a porta se abriu a distinta senhora já se havia posto em pé. O comissário se aproximou pedindo para que ela se sentasse e aguardasse até que a cadeira de rodas chegasse para que ela pudesse descer com segurança e conforto. Ela retrucou, Não. Vou descer agora! O comissário mais uma vez em vão tentou demovê-la da ideia. Lá foi a senhora capengando pelas escadas abaixo, exigindo que o comissário a auxiliasse. A lerdeza com que ela desceu as escadas fez com que mais de 150 passageiros se acotovelassem as suas costas. Mas ela não estava nem aí… Mais uma vez fiquei estarrecido com a falta de sensibilidade daquela senhora. É comum que as prioridades entrem primeiro e saiam por último, principalmente quando se tem mobilidade reduzida. É uma questão de bom senso.

Por isso digo que idade avançada nem sempre é sinônimo de maturidade, assim como pessoa com deficiência não necessariamente é tradução bondade. Quando escrevi o texto Mas ele é cego… recebi inúmeros comentários com diferentes observações. Um deles falava sobre o coração ser a única linguagem de um cego e indagava-me se eu já havia experimentado tal sensação. Posso até concordar que seja uma das linguagens, mas não a única, assim como não acredito que o fato de ser cego, usuário de cadeira de rodas, surdo ou pessoa com outro tipo de deficiência seja indicativo de bom coração. Acredito que maturidade e bondade são resultados da construção do caráter, não tendo ligação direta com a idade ou com a condição física. O coração, da mesma forma, pode sentir coisas boas e outras nem tanto assim, dependendo do caráter de cada um saber o que fazer com isso.