De lado com Gabi…

A última semana foi especial. Um evento que havia sido organizado como palestra terminou como uma oficina com mais de duas horas de duração. Foi um grupo pequeno e notável. A interação foi boa. Os assuntos fluíram exatamente como a ideia principal: articular para fazer fluir. Ao término tive a sensação de que as pessoas haviam acrescentado algo nas suas vidas e eu, muito. Sempre acreditei que se aprende mais com aqueles que convivemos em ambientes de aprendizado do que, propriamente, com aqueles que se propõem a nos ensinar algo. Nesse dia, eu estava lá para ensinar, mas o aprendiz fui eu. Na viagem de retorno, encontrei uma pessoa que admiro por suas entrevistas inteligentes. Não quer dizer que eu concorde com todas as perguntas, abordagens e opiniões da apresentadora, mas a respeito pela autonomia de suas posições. Quase sempre, a imagem que faço das pessoas que somente vejo pela televisão me parece distorcida quando confrontada com a realidade. Não foi assim com Marília Gabriela. Para mim, ela realmente se parece com aquela mulher que vejo na TV. A voz nem se fala. Quando ela me cumprimentou ao sentar ao meu lado num trajeto de voo parecia que eu havia ligado a televisão. Ouvi-la sem eu estar em casa e ela na TV?
Incrível! Fiquei boquiaberto a viagem inteira.
Ao desembarcar desse voo fui direto ao hotel para me preparar para o próximo evento. Fiz o check-in e subi para o apartamento. O evento seria num auditório ao lado. Arrumei-me e desci. Ao sair do elevador e passar pelo saguão do hotel, vejo algumas pessoas entrando. Sou colorado desde sempre, por isso logo reconheci um grupo de torcedores do Internacional. Ôpa!, não eram torcedores. Eram os jogadores. Olhei mais uma vez e reconheci Juan, o zagueirão e Dida, o goleiro. Caramba, parecem tão normais em comparação com aqueles caras que vejo ou imagino no jogo… Ainda estava atordoado olhando meio de lado, mas segui em frente para a saída do hotel. Justamente na passagem da porta dei de cara com o Dalessandro. O craque do Inter!!! Um argentino guerreiro. Não desiste nunca! Eu saindo do hotel e ele entrando. Ficamos frente a frente. Uma pequena dúvida. Um impasse. Ele entraria ou eu sairia? Ele foi muito cortês, além de simpático, e deu-me a passagem. Passei rapidamente e desejei-lhe, Bom jogo!, pois sabia que jogariam logo mais no Beira-Rio. Ele, com aquele sotaque castelhano, respondeu¸ Obrigado!

Foi um dia diferente. Encontrei estrelas humanas, humildes e simpáticas. Quantos relatos que ouvimos de  encontros com estrelas humanas, arrogantes e antipáticas. Fiquei de lado com a Gabi e de frente com o Dalessandro e vi que somos todos iguais. Humildes ou arrogantes, simpáticos ou antipáticos depende do caráter de cada um, não da condição.

Sempre é a primeira vez…

Os eventos dos quais participo sempre me são um desafio. Posso até parecer tranquilo, mas não é bem assim. Cada evento é uma nova proposta. Sei que poderia falar exatamente o que falei no último evento, porque é a primeira vez para os que agora me ouvem. Não teria nenhum problema. A questão que a mim se põe é que eu sei que estou falando com pessoas diferentes, assim não me sentiria bem falando a mesma coisa. 

Por isso, para mim também sempre é a primeira vez. 

Dívida social

Não pode haver dívida social enquanto não se tiver consciência do cometimento de uma transgressão ou da violação de direitos. Ao cobrar dívidas sociais sobre costumes e tradições de um período em que não vivemos não estamos sendo justos, estamos sendo arrogantes. Com essa iniciativa nos colocamos como melhores do que aqueles que viveram o senso de justiça da sua época. E isso não é verdade! Nós não somos melhores nem piores, somos apenas diferentes. Porém, ao tomarmos consciência de que os nossos costumes violam direitos de outros aí sim a dívida começa. Trata-se de usar informações do passado presentes na nossa herança cultural para corrigir o nosso comportamento atual e deixar um legado com o nosso olhar de justiça.

Desse modo, basta que cada um faça a sua parte agora, pois com certeza o mundo será um pouco melhor hoje. O que cada um está fazendo agora para deixar um legado positivo? Eis a pergunta… E no futuro? Quem viver verá… Quem viver responderá se fomos justos ou não.

Não mate o burro…

O caipira tinha lá o seu burro que usava para fazer as tarefas do sítio, principalmente as mais pesadas. O burro nunca reclamava. Às vezes empacava, mas isso era o de menos. O que incomodava o caipira era que o burro comia, a seu ver, demais. Todo dia precisava de várias porções de farelo de milho, além de muito pasto. Um dia ele foi até a venda do povoado tomar a sua pinguinha e aproveitou para reclamar das despesas que o burro dava.  Ao seu lado, um desconhecido ouviu a conversa. Assim que teve a oportunidade comentou:
– Você sabia que eu tenho um jeito de ensinar um burro a viver sem comer?


O caipira fica todo interessado, mas desconfiado, responde:
– Credito não. Só vendo. Como pode isso?

O sujeito então explica:
– É verdade sim. Você pode ensinar o seu burro a não comer também.
– Como é que faço isso, sô?
– Você faz assim. Amanhã você dá a comida normal para o seu burro. No dia seguinte você dá um pouco menos. E assim você vai diminuindo até ele se acostumar a não comer mais nada. Bem fácil.

O caipira ainda meio desconfiado fala:
– Sei não…

O sujeito então mostra para o caipira um belo burro em frente a venda e diz:
– Tá vendo? Aquele burro bonito é meu. Já faz tempo que ele não come.

O caipira todo entusiasmado vai para casa. No dia seguinte começa a aplicar a nova técnica e diminui a ração do seu burro. Cada dia ele dá um pouco menos de comida para o seu burro. Por outro lado, o trabalho continua o mesmo. Assim segue o novo ritmo, dia após dia. O caipira fica contente porque a técnica está dando certo. O burro já quase não come mais nada. Um belo dia, porém, ao se levantar e ir até o curral ele vê o seu burro morto. Ficou desolado. Pensou consigo mesmo:
– Oh, burro, ocê morre logo agora que te ensinei a num comê nada…

 Pois é. Não há burro que possa viver sem comer. É obrigatório que ele se alimente todos os dias, dia após dia durante toda a sua vida. Com o nosso burro interior o processo é semelhante. Não o deixe morrer de inanição. Estimule-o todos os dias abrindo a sua mente. Amplie o seu conhecimento e as suas competências dia após dia. Quem já se acostumou a viver sem aprender nada de novo por muito tempo, provavelmente, já matou o seu burro intelectual há muito tempo, só ainda não percebeu.


Alimente o seu burro. Estimule-o. Diminua-o, mas não o mate, pois se você matá-lo ele se tornará onipresente.


Sempre que precisar…

Ontem aconteceu um momento muito especial nesta minha ainda curta carreira de palestrante: um evento para pessoas que trabalham com pessoas com as quais não queremos mais viver. Como assim? É, tive a oportunidade de fazer uma palestra para pessoas que trabalham em unidades prisionais. Estiveram presentes agentes penitenciários, vigilantes, psicólogos, advogados, assistentes sociais, professores, voluntários e também a diretora de uma unidade prisional. Como falar de motivação e superação para quem trabalha com infratores?
Na verdade o simples exercício de atividade profissional em ambiente prisional é um exemplo real de aplicação de todos os conceitos e exemplos que se poderiam usar para descrever motivação e superação. Trabalhar num ambiente em que circulam aqueles que nós não queremos conosco requer muitas das competências esperadas para os profissionais do século 21. Há que se ser resiliente, porque a pressão é contínua. Há que se ter iniciativa, porque o inesperado é uma constante. Há que se saber trabalhar em equipe e ter desempenho, porque a própria vida pode estar em jogo. Certamente que existem problemas de relacionamento, de ambiente, de condições de trabalho, entre outras dificuldades inerentes à qualquer organização que se proponha a existir. Abordaria isso também, mas a principal ideia seria a de resgatar a importância do trabalho daqueles que trabalham em unidades prisionais, apesar da não valorização por nós, restante da sociedade.
Antes de iniciar o evento me perguntava: será que eles sabem da importância do próprio trabalho? Será que eles se dão conta da beleza do trabalho de evitar que crimes sejam cometidos? Talvez soubessem, mas me propus a realimentá-los com isso. Fiz questão de destacar a importância do trabalho e do propósito grandioso ao se dedicar a trabalhar com um público tão difícil. Cada apenado que não está nas ruas, potencialmente, deixa de cometer crimes. Você eu vivemos melhor por isso. Cada apenado que cumpre a sua pena e é ressocializado é um benefício para você e para mim. Essas são informações que não são divulgadas e não aparecem nas estatísticas. Ao considerar somente as estatísticas brasileiras divulgadas nós estamos entre os países mais violentos do mundo, com aproximadamente 26,5 homicídios por cada grupo de 100 mil habitantes; as estatísticas também mostram que de cada 100 apenados que cumpriram suas penas 70 retornam ao crime; e os noticiários mostram, constantemente, casos de corrupção no sistema penitenciário. Como esses dados são revelados, muitas vezes, parece que a culpa toda é do sistema prisional. Sabemos que não é. Eles trabalham com o resultado das nossas falhas como sociedade. O sistema prisional não é a causa. Ainda mais. As estatísticas e as notícias são dadas como se aquilo que ocorre no ambiente prisional fosse algo diferente da realidade em outros ambientes, o que também não é verdade. Assim como no ambiente político e profissional de qualquer área os trabalhadores do sistema prisional são um extrato da sociedade. Nem melhores, nem piores, apenas num ambiente diferente do qual nós queremos distância. Reforçando, o que as estatísticas não mostram e os noticiários não imaginam nem comentam são os crimes que deixam de ser cometidos porque infratores estão detidos e estão sob os cuidados de todos aqueles que trabalham no sistema prisional. Sobre isso pouco se fala.
Assim, o que me propus a fazer foi resgatar a importância do trabalho de quem trabalha no sistema prisional e, principalmente, agradecer. Agradeci por mim e por outras pessoas que concordam com esse ponto de vista. Esse foi o foco, porque dificilmente se vê alguém indo a uma penitenciária para parabenizar as pessoas que ali trabalham e cumprem o seu papel. Agradecer pelo trabalho que já fazem, apesar da nossa (sociedade) ausência. Gratidão por cada crime que não foi cometido porque ele estão lá, dia após dia, dedicando-se e colocando a própria vida em risco pela nossa (sociedade) omissão. Assim, a única coisa a ser feita por mim era dizer, Muito obrigado!
E foi uma noite incrível. Apesar de no início eu estar um pouco tenso pela responsabilidade de falar com um grupo tão especial, ao final do evento o ambiente estava completamente descontraído. Fotos. Conversa com um e com outro. Trocas de impressões e experiências. Um aprendizado real, pelo menos para mim. 
Na hora da despedida, por último, falei com a diretora, que disse:
Muito obrigado, Moacir, ficamos muitos felizes com a tua vinda. Sempre que precisar estamos à disposição…
No final da frase ela deu um sorriso meio maroto. Não me dei conta e respondi, sinceramente:
Não precisa agradecer. Se eu precisar…
Interrompi a fala. Logo o silêncio foi preenchido pela diretora, que com um grande sorriso, disse:

Espero que não precise.

Casa ou viagens?

Outro dia ouvi uma história interessante sobre sonhos, desejos e foco.
Uma mulher tinha um desejo muito forte de comprar ou construir a sua casa. Durante toda a sua vida havia morado de aluguel. Já não aguentava mais. Sempre que passava por uma casa que representava aquilo que imaginava para si mesma ficava admirando, Um dia ainda terei uma casa assim! Às vezes parava nas lojas de material de construção, perguntava os preços de diversos itens. Todos os dias trabalhava pensando nisso, embora jamais houvesse feito nada de concreto para esse fim.
Por outro lado, ela nutria um sonho desde a sua infância: conhecer o mundo. Viajar por todos os lugares. Cidades pequenas e grandes com museus, igrejas milenares e monumentos dos impérios de antigos povos. Paisagens naturais e exóticas como cachoeiras, savanas, estepes, cerrado ou florestas. Tudo lhe enchia a imaginação com as mais belas aventuras. Qualquer possibilidade de pegar a estrada a entusiasmava.

Por fim, quando ela juntou o desejo da casa própria e o sonho de conhecer o mundo ela encontrou o foco: comprou um motorhome!

Como surge a concorrência?

Como surge a concorrência?
Veja como são as coisas. Muitos gestores e empreendedores morrem de medo da concorrência, entretanto, muitas vezes, não respondem a uma pergunta: como ela surge? A concorrência surge pela necessidade de atendimento de diferentes mercados, pela criatividade dos empreendedores, pela substituição de produtos e serviços por alternativas às vezes sequer pensadas, pela replicação de modelos que dão certo e pelas oportunidades geradas nos modelos que não dão certo. Muitas boas ideias terminam por gerar mais concorrência do que resultados. Depende de como são geridas. Explicando um pouco mais. A concorrência pode surgir pelo mau atendimento aos consumidores que compram uma boa ideia presente num produto ou serviço. O mau atendimento pode estar na divulgação, na venda e na pós-venda.

Estive na cidade de Marechal Cândido Rondon, Oeste do Paraná, e vi como pode nascer um concorrente a partir do mau atendimento nos serviços de pós-venda. Tenho acompanhado com muito interesse o surgimento do impressionante mercado das impressoras 3D. Elas se propõem a imprimir de tudo, como pequenas peças personalizadas, objetos domésticos de uso diário, brinquedos, comidas com formatos exóticos, protótipos perfeitos antes da produção em massa, enfim, permitem imprimir criações customizadas de qualquer ideia. Caso seja possível imaginar deve ser possível imprimir. Essa é a ideia. E o mercado potencial é tão grande que existem especialistas de mercado que definem as impressoras 3D como fábricas individuais e que não está longe o dia em que cada pessoa terá uma dessas pequenas fábricas em casa. Os países desenvolvidos saíram na frente nesse mercado. Estados Unidos e Inglaterra produzem impressoras 3D de alta qualidade. Porém nem tudo é perfeito. Uma empresa em Marechal Cândido Rondon importou uma impressora 3D para fins de produzir protótipos industriais de peças caras antes de fazer o molde final. O equipamento chegou. A ansiedade era grande. Começaram os testes. A ideia era boa, mas o equipamento nem tanto. Muitas dúvidas de uso. Tentativas de contato com a empresa produtora foram em vão. Ocorreu a quebra de uma peça. Várias novas tentativas de contato para a sua reposição. Nada feito. Nem contato, nem solução. O atendimento pós-venda se mostrou inexistente. Isso gerou a busca por soluções internamente. Assim, produziram uma peça para substituir aquela quebrada. Esmiuçaram a máquina. Dissecaram todas as partes. Entenderam todo o processo. Qual foi o resultado? Se era possível produzir uma peça seria possível produzir a impressora inteira… Foi assim que os antes clientes e importadores das máquinas de impressão 3D criaram um nova empresa de produção de máquinas de impressão 3D (http://impressora3dcloner.com.br/). Aproveitaram todas as boas ideias presentes no produto importado, aperfeiçoaram e eliminaram as falhas encontradas. Por fim, lançaram um novo produto com características similares, porém muito superior e mais barato, além de oferecer um serviço pós-venda preocupado com o consumidor. Eis aí um exemplo real de como surgem os concorrentes pelo mau atendimento dos clientes.

Muitas empresas ainda pensam naquilo que têm a oferecer para os potenciais clientes sem se preocupar com aquilo que eles realmente querem ou precisam. Onde a sua organização se enquadra?
E mais, como a sua organização tem atendido os clientes? As estratégias de divulgação estão dimensionadas ao público pretendido? Os canais de venda e a forma de atendimento são adequadas aos seus clientes? O serviço de pós-venda funciona para o cliente?

Quais os cuidados que a sua organização tem para não criar os seus concorrentes pelo mau atendimento?

Quais as comparações que você faz?

Muitas vezes, pode-se analisar melhor as coisas quando se pode compará-las, porque então se consegue identificar certas características únicas. Comparar é uma maneira de ver as coisas isoladamente. Assim, para se obter a clareza que se necessita para identificar um problema, depende-se do contraste para ampliar os aspectos de diferenciação que podem influenciar na tarefa de persuasão e na capacidade de mover os outros. Pode-se ver mais facilmente um ponto preto num fundo branco. Mas tem uma pergunta importante a ser feita: compará-las a que?
O enquadramento Menos é Mais
Num experimento realizado com uma tenda de venda de geleias foram exploradas duas situações. Na primeira, os vendedores ofereciam vinte diferentes tipos de sabores de geleia. Na segunda, os vendedores ofereciam apenas seis tipos. Depois de trabalhar durante uma semana com cada situação eles obtiveram dados reveladores. Mais clientes pararam na tenda que oferecia vinte sabores de geleia, porém apenas 3% compraram. Na segunda tenda, com a oferta de apenas seis sabores, 30% fizeram compras. Em muitas circunstâncias acrescentar algo pode diminuir o valor.
Por isso, num mundo saturado de informações, opções e alternativas a clareza na oferta dos produtos e serviços é tão importante. Enquadrar as opções das pessoas de uma maneira que restrinja as alternativas pode ajudá-las a clarificar a escolha. Em resumo: menos pode ser mais!

Como está a sua oferta?

No próximo post a comparação baseada na experiência.
Extraído de Pink, Daniel (2013). To sell is human. Chapter 6.

Somos únicos. Somos múltiplos.