Sutileza – como contar uma notícia ruim…

O sargento recebera a notícia de que a mãe do recruta Roberto falecera. Ele não sabia como dar a triste notícia da forma menos chocante. Pensou consigo mesmo, Como posso fazê-lo de forma sutil? Por fim teve uma ideia. Reuniu todos os recrutas no pátio, deixando-os alinhados lado a lado. Em forte e bom tom deu a ordem:
– Quem tem a mãe viva dê um passo à frente.
Quando os soldados começaram a se movimentar para cumprir a ordem o sargento complementou:
– Você não, Roberto…
Isso que é ser sutil…

O presídio e o sorvete…

Normalmente programamos um final de semana ou as férias para conhecer lugares bonitos, pitorescos, exóticos ou simplesmente diferentes que nos impactem. Pode ser uma linda paisagem nas montanhas ou uma bela praia no litoral. Um lindo por do sol no campo ou uma Catedral imponente numa cidade. Enfim, museus, teatros, cataratas, entre outras opções de turismo e lazer que nos fascinam. É algo importante e, quem puder, deve fazê-lo regularmente. Porém, não se pode fechar os olhos para a realidade humana, aquela que, na maioria das vezes, somente vemos pela TV, jornais ou sites de notícias. Pode-se surpreender com uma realidade que está ao nosso lado e não conhecemos. Na última sexta-feira fiz algo que me impactou de tal forma como há muito tempo não ocorria. Simplesmente sem comparação, porque  foi um choque de realidade. Na companhia de um amigo, viajamos 200km conversando sobre parentes, amizades e nossos “graves” problemas profissionais, assim como de algumas frustrações pela não realização de sonhos pessoais. “Ah!”, disse meu amigo, “Não posso esquecer de levar sorvete para casa hoje, senão o bicho pega…”. Não levá-lo seria um problema. Passamos mais de duas horas nessa conversação agradável e também choramingona. Finalmente havíamos chegado ao nosso destino. Estávamos em frente de uma Unidade Prisional. A psicóloga da unidade havia mantido contato comigo para avaliar a possibilidade de realizar uma palestra de cunho motivacional para todas as pessoas que trabalhavam na unidade. Mal sabíamos o que nos esperava.

O local onde o presídio estava construído era um pouco afastado da cidade. Avançamos por uma estradinha de terra que nos levava até ele. Chegamos devagarinho olhando para aquelas altas paredes. Mal rebocadas. Não pintadas, manchadas pela infiltração de água. Aquela cena já criou uma inquietação só de imaginar que o local estava cheio de gente. A princípio não vimos onde seria a parte administrativa. Eu, na minha santa ignorância acreditava que seria uma parte a parte da região onde ficavam os detentos. Não vimos nada que pudesse se parecer com isso. Circulamos por toda a extensão até um ponto onde vimos algumas janelas na altura de uma pessoa. Vimos gente circulando lá dentro. Vimos um portão de acesso. À sua frente algumas mulheres sentadas em alguns bancos de concreto. Imaginei que fossem pessoas que trabalhavam no local, talvez ajudantes de limpeza ou da cozinha. “Bom, a entrada deve ser ali mesmo..”, pensei. Estacionamos o carro e desembarcamos. Enquanto isso vi uma portinhola na enorme porta de metal se abrir, um rosto masculino aparecer e duas das mulheres que ali estavam sentadas, entraram. Restou uma última. Nós a cumprimentamos e indaguei:
Para falar com o pessoal do presídio, como faço?
– Acho que o senhor tem que tocar a campainha ali… Disse ela.

Tocamos a campainha. Minha apreensão inicial aumentou. Pareceu-me que meu peito ficava um pouco mais apertado. Eu estava para entrar num presídio real pela primeira vez na minha vida. Não seriam imagens da televisão. Não seriam joguinhos de bandidos e policiais. Eram pessoas que viviam, sentiam e trabalhavam com outras pessoas que viviam e sentiam, mas estavam ali detidas. Em seguida a portinhola se abriu e o agente penitenciário olhou para perguntar:
O que os senhores desejam?

A voz quase não saiu. Enrosquei-me todo para falar. Gaguejei. Finalmente articulei uma frase completa:
– Nós queremos falar com a psicóloga…
– Qual o motivo?

A conversa seguiu até que eu tivesse dado as explicações do motivo da visita e que se tratava de um agendamento já feito. Ele pediu para que aguardássemos um pouco. Enquanto isso conversamos com aquela senhora que nos disse ser a primeira vez que estava ali no presídio. Viera acompanhar a filha que estava fazendo uma visita ao marido que estava preso. Disse-nos ela:
Meu genro é gente boa, mas às vezes ele apronta algumas…Continuou explicando os motivos da sua presença, assim como a de seu genro naquele local. Justificava-se para nós também para se justificar perante si, creio.

Nesse momento a porta se abriu. Meu amigo estava calado. Pensativo. Talvez lembrando do sorvete… Convidaram-nos a entrar. Passamos pelo vão do portão e nos deparamos com uma movimentação de pessoas que empurravam carrinhos para um lado e outro. Transportavam alimentos e também roupas. Era uma espécie de recepção, um mini hall de entrada de onde saiam diferentes pequenos corredores. Fiquei um pouco perdido, meio deslocado. Nisso se aproxima uma mulher jovem, alta e muito simpática para nos cumprimentar:
– Oi, você é o Moacir?
– Sim, sim. Você é a psicóloga com quem falei sobre um evento?
– Sim, sou eu, disse ela. Siga-me, venha até a minha sala.

Ela saiu caminhando rapidamente e nós a seguimos. Alguns corredores, portas, grades, pessoas, cozinha, barulho. Um calor infernal. Aquele foi o dia mais quente do verão. A temperatura se aproximava dos quarenta graus, mas a sensação térmica superava em muito a temperatura como resultado do ambiente fechado, pouca ventilação e muita umidade.

Um pouco depois ela abriu uma porta e estávamos no seu escritório. Uma salinha minúscula que acomodava a sua escrivaninha, um pequeno sofá para a visita, algumas prateleiras com livros e mais uma mesa. Pelo menos a sala estava com uma temperatura suportável, uma vez que tinha ar condicionado.

Ela acomodou-se atrás de sua escrivaninha, meu amigo no sofá e eu fiquei na minha cadeira. A expressão no rosto do meu amigo confirmava a minha própria sensação. Ele, assim como eu, estava chocado. Não há como descrever a sensação de apreensão, receio, temor ou simplesmente de aperto no peito, mas estava estampada em nossas caras.

Enquanto ela mexia em alguns papéis, ainda de forma um pouco acanhada constatei por meio de uma pergunta:
Mas vocês trabalham junto com os detentos…?
– Sim, disse ela exibindo um sorriso franco. Eu atendo os detentos aí onde vocês estão. Somente ontem fiz vinte atendimentos. Alguns deles vem algemados e outros sem nada.

Ela via em nossas caras que estávamos espantados. Foi a vez dela constatar, perguntando:
Vocês nunca entraram antes num presídio…?
– Não, nunca. Estou impressionado com o ambiente…
– É pesado, não é? Parece que as pessoas se sentem oprimidas… E continuou falando sobre algumas características e particularidades de se trabalhar numa unidade prisional.

Aquela psicóloga nos deu uma aula. Não havia nenhuma presunção em sua fala. Havia a descrição de fatos e sentimentos das pessoas que ali trabalham e compartilham as suas vidas com pessoas que ali pagam as suas penas. Percebeu-se a preocupação com os colegas de trabalho que atuam diretamente com os detentos, assim como com os próprios detentos. Tivemos uma aula de cidadania, de direito e de sensibilidade ao demonstrar que ela se importa com as pessoas.

Acho que o meu amigo já nem lembrava mais do sorvete…

Nós ficamos calados ouvindo e sentindo sobre uma realidade que não há como descrever num programa de televisão. Sentíamos o cheiro e ouvíamos os ruídos da prisão. Não existem palavras que possam expressar o que é estar lá.

Ela nos convidou para que visitássemos as alas em que os presos ficam. Comentou que o presídio foi construído para abrigar 117 pessoas, mas hoje contava com a presença de mais de 500. Aceitamos o convite. Ela manteve contato com o chefe do agentes penitenciários. Ele e ela gentilmente nos acompanharam. Um agente nos abre a porta. Outro observa. Sente-se a pressão nos seus gestos. Parece que sempre estão alerta, porque qualquer mudança de rotina pode ser o estopim para algo que possa fugir do controle. E nesse caso a vida está diretamente em jogo. Nós olhamos os presos. Do outro lado os presos também nos observam. Alguns curiosos. É comum eles verem pessoas passando por aqueles corredores, entre visitas, pastores e autoridades, mas não deve ser tão frequente que um usuário de cadeira de rodas circule por ali. Alguns sorriem e nos cumprimentam. Outros simplesmente permanecem isolados em seu mundo. Olhava para aqueles presos que exibiam aquela expressão de cidadãos comuns. Poderia ser um filho, um irmão ou um amigo. Eram gente como a gente.

O agente penitenciário e a psicóloga nos explicam o funcionamento das alas. Mostram as salas de aula. As solitárias para aqueles que provocavam confusões. O pátio de tomar sol. As salas de inspeção para aqueles que trabalham fora da unidade, que são revistados antes de sair e também quando voltam para o presídio. São instalações pequenas ao se considerar a presença de tanta gente.

Passamos por vários agentes penitenciários. Encontramos um Policial Militar. Todos muito solícitos, porém sempre com a expressão de quem está alerta. E não há como ser diferente, porque também cruzamos com presos que estavam sendo retirados de suas celas para algum tratamento dentário ou médico. Aquela sensação de apreensão aumentava simplesmente ao imaginar que aquela pessoa ao meu lado era alguém que havia cometido um crime. Qual crime? O que o levara a cometer algo que não está dentro dos padrões estabelecidos pela sociedade? O que se passava pela sua cabeça naquele momento? Outros presos chegavam para a inspeção, pois retornavam de sua jornada de trabalho.

Assim terminamos a nossa visita pelo presídio. Para nós foi um tour. Uma visita impactante num local exótico. Assim que saíssemos dali retomaríamos a nossa rotina no nosso mundo, até certo ponto seguro. Mas ali, internamente a rotina continuaria. O trabalho é diário. Aqueles agentes penitenciários que estavam ali hoje, estiveram ontem e vão estar amanhã. Trata-se da vida daquelas pessoas. Será que eles, todos que trabalham na unidade prisional, tem a real noção da importância para os demais cidadãos do seu próprio trabalho?

Saímos dali e retornamos para a sala da psicóloga. Meu amigo e eu estávamos pálidos, transparentes. A sensação de estar num universo paralelo, cruel e perigoso onde os sonhos não existem e as frustrações são a única realidade era imperativa. Diante daquela situação nossos problemas eram inexistentes. As nossas frustrações eram mínimas. E poderíamos nos considerar plenamente realizados, porque tínhamos a possibilidade de ter sonhos.

Podíamos até pensar num sorvete…

A psicóloga nos confessou que a resposta para a pergunta sobre o reconhecimento da importância do trabalho de quem ali trabalha é quase que inexistente. O reconhecimento não acontece pela sociedade e também não pelos órgãos que são responsáveis pelo sistema prisional. Disse ela:
A direção tenta mostrar a importância do nosso trabalho, mas dificilmente você vai ver alguém chegar aqui e agradecer a essas pessoas pelo que fazem. Não vi nenhuma entidade, associação ou ONG fazer um agradecimento às pessoas que trabalham num presídio por ter recuperado uma pessoa. Muitos dos presos que por aqui passaram nunca mais retornaram, porque voltaram para a sociedade, se reintegraram e levam uma vida completamente normal. Mas o foco sempre recai sobre os reincidentes. Aqueles que vão e voltam…

E continuou:
Normalmente as notícias associam os agentes aos problemas e à corrupção existente no sistema. O nosso quadro de agentes é composto por pessoas boas… Muitos estão cheios de medos, agem de forma rude, mas é a forma de se proteger no ambiente que trabalham.

Ela ainda nos relatou situações incríveis como o valor das mercadorias entre os presos. Apesar de todo o controle o câmbio negro é uma realidade. Citou quanto vale um celular, um pacote de miojo, um chocolate ou outros produtos que entram no presídio. E como entram? Nas visitas dos familiares, dos amigos e dos advogados. Finalizou:
– A pressão sobre quem trabalha aqui é enorme e o reconhecimento mínimo. A questão salarial também é uma demanda, mas não é o principal.

Assim, retomamos o ponto do motivo da nossa visita ao presídio que era a busca por uma palestra de cunho motivacional para todos os que trabalham ali.

Encerrada a visita o caminho de volta com o meu amigo foi muito diferente. Inicialmente, estivemos em silêncio. Toda aquela nossa tagarelice sobre nossos problemas pessoais, familiares e profissionais se haviam dizimado. Nada se comparava àquela realidade que havíamos testemunhado. Sonhos? Sim, podemos tem qualquer um. É uma questão de escolha.

O choque fora imenso. O alívio era enorme. Ainda assim saímos da unidade prisional com uma sensação positiva. Constatamos que existem pessoas que fazem a diferença. Nós estivemos com uma delas. 

Também entendemos que as nossas vidas eram incrivelmente lindas. Chegamos na casa do meu amigo:
Cadê o sorvete? 

Apareceu a sua mulher na maior aflição. E ela não estava brincando. Aquilo era um problema. Nós nos entreolhamos e caímos na gargalhada. Quem estava preocupado com um sorvete naquelas alturas? A esposa dele não entendeu nada, fez beicinho, virou as costas e entrou na casa.

O meu amigo falou:
Lembra que minha esposa pediu um pote de sorvete? Cara, esqueci completamente…
– Sim, sim. Entra no carro e vamos buscar o sorvete…

Rimos de nossa própria mesquinhez. Perto do que vimos nada seria problema. O problema é que a esposa do meu amigo não presenciou a mesma realidade. Para ela, naquele momento, o marido aparecer sem o sorvete em casa era um grande problema.

Somos seres humanos… Somos seres estranhos, não somos?

Previsão equivocada…

Em 1904, o Marechal Ferdinand Foch, professor de Estratégia da Ecole Superiere de Guerre afirmou que “os aviões são brinquedos interessantes, mas não tem valor militar”.

Veja o que nós já fizemos com os aviões. 

O uso, para o bem ou para o mal,  daquilo que criamos, temos ou fazemos depende de cada um. 
Depende de nós…

Curiosidade causa fila…

Saindo de Tubarão em direção a Laguna vi, à minha direita, a placa dizendo CURIOSIDADE CAUSA FILA! Mantenha a velocidade 60kmSim, li e até concordei. Juro, mas juro por Deus que não fui curioso. Não olhei para lado nenhum. Mesmo assim, de repente, a fila parou. Estancou. Não nos mexemos por mais de 30 minutos. Eu olhava para aquela placa e sentia a acusação. Tá vendo, quem mandou ser curioso? 
Entendo que muitas pessoas ao verem uma movimentação anormal tendem a reduzir a velocidade para observar o que está acontecendo. Logo atrás da placa pode-se ver toda a obra da futura ponte sobre o canal Laranjeiras. Obra essa que deveria ter sido a primeira a ser iniciada para que pudesse ter sido concluída juntamente com as pistas que já foram duplicadas. Mas não no Brasil. Aqui se faz primeiro o que é mais fácil e rápido para depois se fazer o que é mais difícil e demorado. Para se fazer como deveria ser feito teria que ter sido planejado. Ah, mas daí não dá, né? Fica bem mais fácil colocar uma placa dizendo que a curiosidade causa fila ao invés de admitir que incompetência é que nos causa transtornos. 
Ainda por cima saí com a sensação de que a culpa era minha e de quem passa por ali. Quem manda querer usar uma rodovia em pleno domingo… Fique em casa, oras! Talvez se eu, pelo menos, tivesse fechado os olhos a fila teria andado… desaparecido… Sei lá!

De que lado você está 3?


Ouvia com atenção o meu amigo:
– Quando entrei naquela empresa, no primeiro ano eu fazia tudo que me pediam. Na verdade, eu fazia mais… Sempre estava disposto a ajudar e a colaborar. Acabei vendo que as coisas aconteciam. Era muito bacana isso! Estava sendo fácil o caminho para melhorar lá dentro. Lembro que cheguei a aceitar as responsabilidades de um cargo sem receber nada a mais. Depois veio o aumento de salário. Fiquei muito orgulhoso disso! Outra hora também me ofereci para participar de um grupo voluntário que prestava serviços num bairro afastado. Eram atividades bacanas. Eu era solteiro e não tinha muitos compromissos sociais. Até foi numa dessas horas que eu conheci a minha esposa. Eu fazia aquilo porque gostava e acreditava… Um dia, um cara que havia sido meu encarregado chegou e me disse, “Você é um puxa-saco!”. Juro que não entendi direito, mas me senti pressionado, como se estivesse fazendo alguma trairagem. Senti como se ele não gostasse de ver que eu estava bem na empresa. Parecia que eu estava do lado errado… Não me lembro exatamente como aconteceu, mas as coisas mudaram. Quando me dei conta eu estava junto daquele mesmo grupo. Para a empresa fazia só o que me pediam. Saí dos grupos voluntários. Não ajudava mais os outros. Só criticava e reclamava que faltavam as coisas. Terminei saindo da empresa o que foi uma das grandes burradas que fiz na vida…
E seguiu contando outras histórias resultado de uma escolha feita há trinta anos.

Normalmente, os grupos, dentro de qualquer organização, que se preocupam mais em criticar do que em fazer simplesmente não conseguem ver as pessoas competentes fazendo o que deve ser feito, principalmente nos momentos de escassez de recursos. Frustram-se ao ver que os outros usam a sua criatividade, o seu entusiasmo e a sua iniciativa para ver os problemas, encontrar e propor soluções. Por isso, não deixe que os frustrados frustem as suas iniciativas. Não faça trairagem com você mesmo.
Lembrar que uma organização não tem lados pode ser uma boa escolha. Lembrar que se você está numa organização foi porque escolheu estar também ajuda a que não nos entreguemos ao conformismo, ao derrotismo e ao vitimismo. Não deixe que os vitimistas o levem para o lado deles, porque quando você se coloca no papel de vítima ainda assim você é o protagonista…

Por isso a pergunta: de que lado você está? Nas organizações não há lados, pois existem objetivos comuns e individuais que estão no centro das atividades. Quando você perceber que está indo para um lado, aproveite, pule e saia da organização. Assim você não se prejudica e nem aos colegas de trabalho que não tem nada a ver com isso. Ter esse entendimento é fundamental para que se construa uma organização leal e competitiva.

Lembre-se: 

O trabalho faz parte da nossa vida e nela não há lados, porque nós sempre estamos no centro dela.

O extrativismo na gestão de pessoas – o final de uma era

O passado é uma fonte constante de informação. Para melhor ou para pior cada um decide. Sempre que olhamos para trás vemos de onde viemos, como vivíamos e o que fazíamos, mas nem sempre conseguimos com isso saber para onde vamos, como viveremos ou o que faremos. A questão de que o passado nem sempre indica para onde vamos fica evidente no exemplo da previsão do peru.

Talvez ele devesse ter conversado com alguém…


Ao somente analisar dados de seu passado ele jamais poderia imaginar que o sujeito que lhe alimenta o ano inteiro é o mesmo que vai lhe cortar a cabeça na véspera do Natal. Assim, o passado é fonte de informação, mas temos que analisá-lo criticamente para poder extrair dele referências para o presente e o futuro. Na nossa relação com o meio ambiente, ao analisarmos o passado e também o presente, aprendemos o que não devemos fazer. Mantínhamos, com os recursos naturais, a ideia da sua inesgotabilidade adotando o extrativismo predatório como regra. Assim, nos relacionamos durante muito tempo que nos mostrou o contrário: os recursos são finitos quando não são bem usados. Inclusive, essa percepção chegou tarde demais para algumas espécies animais e vegetais. Hoje, entretanto, entendemos que a nossa relação com o meio ambiente pode e deve ser de um extrativismo sustentável. Experiências mostram que se pode usufruir de tudo o que uma floresta produz, preservando-a. Pode-se conviver extraindo do meio ambiente aquilo que nós, como seres humanos, precisamos para sobreviver, desde que estejamos dispostos a devolver o que ele também precisa para se manter. Na gestão de pessoas ocorre algo semelhante. Muitas organizações adotaram, e outras ainda mantém, uma postura de extrativismo predatório na gestão das pessoas que as compõem. Preocupavam-se ou preocupam-se em apenas extrair das pessoas tudo o que possa melhorar a produtividade e a competitividade. Certamente não é a forma mais inteligente de convívio, assim como não o era com o meio ambiente.


Na gestão de pessoas o passado também nos serve de referência para saber o que não se deve fazer, embora alguns insistam em viver no passado. Lembrando a história do peru, organizações que não se adaptarem as mudanças terão o pescoço cortado. Entre as mudanças está a migração de um modelo de gestão de pessoas baseada no extrativismo predatório para um modelo sustentável. Basta olhar para o passado e perceber que as mudanças estão ocorrendo rapidamente em termos históricos. Lembrar que há 200 anos cobrava-se que os jovens de até dezesseis anos trabalhassem dezesseis horas por dia; que a idade mínima para se iniciar na rotina do trabalho era de nove anos; e que não havia descanso semanal, muito menos remunerado, hoje pode nos parecer perverso. Naquela época era natural. Pensava-se tão somente na produção em detrimento da segurança, da saúde e da remuneração das pessoas que compunham aquela organização. Era o modelo de extrativismo predatório na gestão de pessoas. Extraía-se. Sugava-se. Tirava-se. Nada se retribuía. Não se entendia que pessoas saudáveis e bem remuneradas são parte da equação perfeita para que a competitividade e a produtividade tenham sentido, como preconizado num modelo de extrativismo sustentável. Porém, cabe lembrar que ainda hoje muitas organizações não fogem tanto assim dessa realidade. Preocupam-se em implementar programas de qualificação e de avaliação de desempenho dos indivíduos com relação a organização, sem efetivamente se importar com o que a organização está devolvendo aos indivíduos. Continuam num modelo de extrativismo predatório, sugando a energia, abduzindo a alma e arrancando os sonhos das pessoas.


Como mudar essa realidade? Com respeito. Sim, aplicar no convívio pessoal, social e organizacional o que está por detrás do conceito da palavra respeito, independentemente da posição familiar, do status ou do nível hierárquico. Entende-se por respeito o ato ou a ação de respeitar, revelados pelo sentimento de tratar o outro com grande atenção e profunda deferência (Dicionário Aurélio). Deferência pela história, integridade e sonhos do outro. Como fazer isso? Entendendo e assimilando que cada indivíduo é o centro do seu universo e não há nada mais importante para cada ser humano do que ele próprio. Pouco importa se é pai, mãe, irmão ou filho na relação. Não faz diferença ser de classe social baixa, média ou alta. Não é relevante ser o jardineiro, o eletricista, o engenheiro, o faxineiro ou o diretor na organização. É essencial saber que para cada pessoa, em primeiro lugar, vem e deve vir a própria pessoa. Não há nada de errado nisso. É simplesmente natural. Perceber isso é o primeiro passo a caminho de agir com respeito. Pode-se agir com respeito por ser bom, o que é ótimo para todos. Pode-se agir com respeito para ser bom, o que é bom para todos. Mas não é só isso… Pode-se agir com respeito por ser bom ou para ser bom o que na verdade é muito melhor para quem assim age ou assim o é. Não se trata, em absoluto, de ser utópico. Esse comportamento revela inteligência que resultará em organizações mais produtivas e mais competitivas porque compostas por pessoas que estão dispostas a dar o melhor de si com a certeza de ter o retorno esperado. Nesse ambiente, o indivíduo que não se comportar dessa maneira estará faltando com o respeito para com os seus colegas e para com a organização. Automaticamente ele deixará o meio. 

Com isso em mente consegue-se, pelo menos, aplicar o extrativismo sustentável na gestão de pessoas. Melhor ainda… Talvez se possa ultrapassar a concepção do extrativismo, que carrega a conotação de sugar e tirar. Ao gerir pessoas tendo como premissa o respeito pode-se avançar para um modelo que envolva as pessoas, dando-lhes as oportunidades que procuram. Desse modo, as pessoas vão retribuir espontaneamente o que elas têm para dar, entrando numa era de gestão de pessoas feita por pessoas e para pessoas. 

A senhora e o gato…

Uma senhora bem idosa e muito pobre vivia em sua casa com o seu único amigo, um gato. Uma noite a luz acabou e ela sabia que era porque não havia conseguido pagar a conta. Assim, ela pegou uma velha lamparina a óleo do seu tempo de criança para ter luz. Esfregou-a com a intenção de limpá-la. Para a sua surpresa apareceu um gênio que lhe concedeu o direito a fazer três pedidos. Ela, toda feliz, disse:
Primeiro, eu quero ser tão rica que jamais precise me preocupar com dinheiro. Segundo, quero voltar a ser linda como eu era quando tinha vinte anos. E por último, quero que você transforme o meu gato num príncipe jovem e lindo…

O gênio se concentrou, apareceu uma fumaceira e puff. Assim que a nuvem de fumaça desapareceu a velha senhora estava rodeada por uma pilha de moedas de ouro que não acabava mais. Olhou no espelho em frente e se viu linda como o fora em sua juventude. Olhou para o lado e viu um belo jovem que caminhava em sua direção. Ele olhou-a nos olhos e falou:
Garanto que agora você está arrependida por ter me levado ao veterinário para fazer aquela pequena cirurgia…

Pode ser de pouco valor para um, mas pode ser de inestimável valor para o outro. Entender isso é fundamental para desenvolver o respeito, por si e pelos outros.





Anedota extraída:

Somos únicos. Somos múltiplos.