A barraca e as estrelas…

Sherlock Holmes e seu fiel escudeiro Dr. Watson acamparam durante uma viagem. Depois de dormir por algumas horas Holmes acordou, cutucou Watson e perguntou:
– Olhe para cima e diga-me o que você está vendo, Watson?
– Hum… Eu vejo milhões de estrelas, Holmes…
– E o que você conclui disso, Watson?
Watson pensa por um momentos e responde:
Bem, sob o aspecto astronômico isso me mostra que existem milhões de galáxias e, potencialmente, bilhões de estrelas. Astrologicamente posso ve ver que Saturno está em leão. Quanto às horas posso deduzir que são 3h15 da madrugada. Meteorologicamente eu entendo que teremos um lindo dia amanhã. Teologicamente vejo nessa imensidão todo o poder de Deus e sinto toda a nossa insignificância…

Watson ficou em silêncio por alguns segundos e depois perguntou:
– E você, Holmes, o que você vê?
– Eu vejo que eles roubaram a nossa barraca, Watson…

Muitas vezes deixamos de ver o principal e o mais óbvio em nossos negócios, carreiras e funções, fixando-nos nas questões periféricas.


O que você conclui daquilo que vê a sua volta?


Extraída do livro: Plato and Platypus walk into a Bar… Understanding Philosophy – through jokes (Thomas Cathcart & Daniel Klein)

2014, ano de aguentar um tempo…


O ano velho acabou. O ano novo começou. E as piadas se repetem.

Muitas vezes comento que cadeirante e semáforo produzem situações inusitadas. E é verdade. Vejo um semáforo e logo me lembro das moedas que ganhei e mesmo do fato de ter cruzado a rua sem querer, empurrado pela ajuda que não pedi. Outra situação comum aos usuários de cadeira de rodas é a interação com bebuns. Não sei o que acontece, mas há uma atração fatal. Um bebum vê um cadeirante e já vai se aproximando…

Assim, começou o meu ano de 2014. Estávamos numa prainha simples, mas muito aconchegante. No dia 31 jantamos em casa no horário de sempre. Depois começamos nosso joguinho de baralho. O resto de 2013 parece que voou. Estávamos atrasados para a virada. Saímos rapidamente para acompanhar o show de fogos com amigos na areia da praia. Nada de fogos organizados. Apenas a ideia de ver o foguetório que subia das diversas casas que faziam a sua festa. Festa pública, feita pelo público, não com dinheiro público. Ainda estávamos a caminho e o foguetório aumentou. A virada já estava acontecendo. Não fomos até a areia. Ficamos por ali mesmo no calçadão da esquina. Estouramos o nosso espumante e nos cumprimentamos. Minha esposa. Meu pai. A esposa dele e a filha. Meu irmão, o filho e a esposa. Um grupinho ali no meio da rua. A alegria de estar na presença de pessoas importantes era verdadeira. Outros grupinhos se espalhavam pelas ruas. Muitas pessoas transitavam de um lado a outro. Todos curtindo a chegada de 2014. Passados alguns minutos resolvemos voltar para casa. Minha esposa e eu fomos um pouco na frente dos demais. Um cadeirante numa calçada bem feita pode ser bastante rápido. Mas nem sempre rápido o suficiente. Olhei para a direita e vi um sujeito caminhando em minha direção. Observando com mais cuidado, vi que ele fazia força para manter-se em equilíbrio. Só deu tempo para pensar, Lá vem um bêbado… Não deu outra. Ele chegou chegando e se apoiou no encosto da minha cadeira, disse:
Força companheiro, força. Minha mãe também tava nessa…
Ele já meio que se escorou no meu ombro. Logo senti o cheiro de álcool. Dei-lhe um tapinha nas costas e disse:
Feliz Ano Novo pra você também!
A resposta veio com a repetição da primeira frase:
Força companheiro, força. Minha mãe também tava nessa…
Educadamente, já que ele não me largava, respondi:
­– Sinto muito. O que aconteceu com a sua mãe?
Os olhos do meu novo amigo se encheram de lágrimas. Ele se ajoelhou ao meu lado e choramingando, entre cuspes e palavras engroladas, disse:
– Ela aguentou um tempo, mas depois morreu…
Minha esposa “ria que se acabava”. É, pensei, Bem-vindo a 2014!!!

O desafio vai ser aguentar um tempo…
Com alegria, entusiasmo,..

Depende de cada um!


Por que contamos histórias?

As histórias mostram como nós pensamos e como nós somos. Elas expressam como nós damos sentido a própria vida. Podemos chamá-las de esquemas, mapas cognitivos, modelos mentais, metáforas ou narrativas, tanto faz. O importante é que as histórias demonstram como nós explicamos o funcionamento das coisas, como tomamos decisões, como convencemos as pessoas e como nós entendemos o nosso lugar no mundo, definindo e ensinando os valores sociais.
Dra. Pamela Rutledge

Para que facilitar se eu posso complicar?

Havia terminado o trabalho. Restava-me emitir a nota fiscal, juntar as certidões que a acompanham e encaminhar a cobrança. Dei uma última olhada nos documentos e vi que a certidão municipal estava vencida. Terei que solicitar outra…, pensei. Menos mal que a prefeitura onde tenho a inscrição oferece o serviço online… Naquele momento eu estava a mais de 800km da minha cidade, mas a tecnologia resolveria o problema. Entrei no site e solicitei a certidão. Deveria ser negativa, mas saiu positiva. O que será que aconteceu? Imediatamente telefonei para o plantão fiscal da cidade e logo fui atendido:
– Boa tarde, em que posso ajudá-lo?
– Olha, fui solicitar uma certidão negativa online, mas ela acusa alguma pendência? Eu poderia saber do que se trata?

Passei as informações da empresa. A atendente respondeu:
– Não posso dar informações mais detalhadas, mas essa empresa não recolheu o ISS entre os meses de maio e dezembro de 2012.

Fiquei espantado, porque sempre recolhi os tributos religiosamente. Lembrei-me imediatamente de um amigo meu, coletor de impostos, que tinha pendurado um quadro sobre a sua escrivaninha com os dizeres:
Nada é tão garantido quanto os impostos e a morte!

Simples e verdadeiro. É plenamente justificável pagar impostos, mas pagar o mesmo duas vezes não é justo. Respondi:
– Estranho… Tenho todas as guias aqui comigo. Elas estão em pdf no meu computador. Poderia enviar por e-mail, assim você faria uma conferência…

Expliquei-lhe que eu estava longe da cidade e que se eu não apresentasse a certidão naquele dia o meu pagamento não seria realizado. Ela, gentil e ineficazmente, respondeu:
– Desculpe-me, mas nós não adotamos esse expediente de trabalho. O senhor terá que enviar alguém aqui com os comprovantes de pagamento para que nós analisemos o caso…

Não teve nada que eu alegasse ou dissesse que pudesse mudar as coisas. Tive que ligar para a minha cidade, falar com um amigo, enviar-lhe os comprovantes de pagamento dos impostos, pedir para ele os imprimisse e que fosse até o plantão fiscal da prefeitura. Ele foi, mas lamentavelmente naquele dia o responsável não estava lá. Faltavam 30 minutos para encerrar o expediente quando o meu amigo chegou na prefeitura, mas era uma sexta-feira… Perdi o prazo para receber o pagamento. Teria que esperar para o mês seguinte. Na segunda-feira pela manhã ele voltou a prefeitura. O atendente entrou no sistema e emitiu a certidão. Ele não precisou apresentar documento nenhum. Não havia mais pendência nenhuma. Entre sexta e segunda as pendências, que nunca existiram, desapareceram. Não sei o que aconteceu.

O que sei é que normalmente culpamos o sistema para tudo aquilo que não funciona. Mas não se trata do sistema. Falamos de pessoas. Era uma pessoa do outro lado da linha com quem eu havia falado. Provavelmente alguém com marido, filhos e amigos. Amigos que podem ser outros funcionários ou mesmo donos de pequenas ou grandes empresas. Pessoas que estão no sistema. As pessoas são o sistema. Você. Eu. Nós fazemos o sistema. Quantas vezes poderíamos resolver algo e não o fazemos? A tecnologia teria resolvido a situação. As pessoas não deixaram. Quantas vezes, o simples uso do bom senso pelas pessoas poderia agilizar, resolver e melhorar o sistema?

Filhos, não há bônus sem ônus…

Tem me deixado estupefato o comportamento de um sem número de pais com relação aos filhos. Com certeza não só a mim…

É impressionante como muitos pais querem ter filhos, literalmente no sentido de possuir, para deles usufruir o que há de melhor. A alegria de receber um abraço espontâneo. A felicidade de vê-los brincar com um brinquedo dado. O contentamento com as conquistas diárias resultado da observação dos próprios comportamentos. A satisfação com o sorriso genuíno ao entender algo novo aprendido com os pais. O orgulho de ver refletido nos filhos tantas das características também exibidas. Porém, muito mais me impressiona o quanto esses mesmos pais se esquivam do ônus do seu papel. A força para corrigir uma postura errada frente a uma situação. A coragem para negar um dos tantos brinquedos ofertados coibindo os excessos. O caráter para manter um bom comportamento para que os filhos copiem bons hábitos. A flexibilidade de continuar aprendendo para com isso também ensinar os filhos. A humildade para reconhecer que um filho seu também tem as suas limitações. E o entendimento de que as más companhias dos filhos dos outros pode muito bem ter entre elas um filho meu…

Por isso, muito, mas muito mais importante do que ter filhos é necessário que as pessoas se preocupem em ser pais.

Desfrutar do bônus responsabilizando-se pelo ônus!

Quanto custa a bola?

Responda rápido: um bastão e uma bola custam R$ 1,10. O bastão custa R$ 1,00 a mais do que a bola. Quanto custa a bola?

A resposta que vem a mente nos parece óbvia e segura: R$ 0,10…

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…para a bola e, consequentemente, R$ 1,00 para o bastão, não é? Mas pense um pouco mais… Se a bola custasse R$ 0,10 para que o bastão custasse R$ 1,00 a mais do que ela o total da compra deveria ser R$ 1,20. Nós somos levados a dar uma resposta rápida e intuitiva para um problema aparentemente simples. A intuição, neste caso, nos levou a um erro simplório para uma questão fácil. Quantas vezes isso pode nos acontecer em decisões pessoais e profissionais, muitas vezes envolvendo questões bem mais complexas?

A facilidade com que nos satisfazemos com a primeira resposta que vem a mente nos leva a parar de pensar. É a preguiça intelectual que nos paralisa. Tivéssemos investido um pouco mais de tempo e fugido da resposta intuitiva dando fundamento aos argumentos com certeza teríamos evitado o erro. A pergunta é sobre a diferença entre os valores de cada um dos objetos. Por isso, se o total dos dois objeto é de R$ 1,10 e o bastão custou R$ 1,00 a mais do que a bola a resposta não pode ser R$ 0,10. A resposta é que a bola custou R$ 0,05 e o bastão R$ 1,05, certo? Faça as contas: a soma dos dois itens perfaz R$ 1,10. Fazendo-se a subtração chega-se a diferença de R$ 1,00, indagação presente no enunciado da questão.

O que fazer para evitar as respostas fáceis da intuição? Fugir da preguiça intelecutal presente na forma como tratamos a maioria das questões é um caminho. Porém, muitas vezes isso é bem mais difícil do que parece. Sabe-se que para se empenhar intelectualmente em algo é requerido esforço, concentração e foco. Essas características revelam pessoas alertas, criativas e que não se satisfazem com respostas superficialmente atraentes. Lamentavelmente são a minoria…

E você, faz parte da minoria ou da maioria? A pergunta é para você, porque me deu uma preguiça de responder…

Kahneman, Daniel (2011). Rápido e devagar: duas formas de pensar.

Bom apetite!

Goldfinger, um senhor inglês, está num cruzeiro. Na primeira noite ao jantar ele senta ao lado de um francês, Sr. Fallaux, que levanta seu copo numa saudação e diz:

– Bon appetit!

Goldfinger também levanta seu copo e responde:
– Goldfinger!

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E assim prosseguem os encontros janta após janta quase durante toda a viagem. Um dia o garçom não consegue mais ver a mesma cena e explica para o senhor Goldfinger:
– “Bon appetit” em francês quer dizer o mesmo que “tenha uma boa refeição!”

Golfinger fica encabulado e ansioso para chegar o novo encontro com o francês e se redimir de seus erros anteriores. Assim que o senhor Fallaux chega à mesa, antes que ele fale algo, Golfinger levanta o copo e com um sorriso diz:
– Bon appetit!

O francês retribui o sorriso e responde:
Goldfinger!

Ao tomar o mundo sempre sob o nosso prisma podemos cometer grandes equívocos. Histórias, em que os personagens têm agendas diversas, fornecem analogias engraçadas de como as estruturas linguísticas diferentes atrapalham a comunicação.

E todos nós somos diferentes, não somos?


Extraída do livro: Plato and Platypus walk into a Bar… Understanding Philosophy – through jokes (Thomas Cathcart & Daniel Klein) 

2014: um ano para desistir…


No final de 2013 recebi um e-mail marcante. Nele, uma pessoa relatou que estava prestes a desistir da própria vida por causa de uma grande frustração amorosa. Disse-me que depois de muitos anos de convívio havia entendido que aquela não era a pessoa ideal para ela. Porém, passados alguns meses do rompimento por ela provocado entendeu que sim, aquela era a pessoa da sua vida. Ao tentar retomar o relacionamento a outra pessoa já não mais a queria. Fez uma tentativa. Fez duas. Fez três. A resposta era sempre a mesma: não. A pessoa começou a entrar em desespero, porque havia perdido quem mais amava e não havia sabido reconhecer no tempo certo. Não queria desistir da outra pessoa, mas passou a querer desistir de viver. Pensava em suicídio.

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Depois de muito cogitar resolveu que aquele seria o dia. E assim, saiu para cumprir com o seu intento. Antes, passou na casa de uma amiga, apenas com o intuito de se despedir, mas sem revelar a sua verdadeira intenção ou o seu destino final. Na conversa surgiu o livro Olhe mais uma vez! Em cada situação novas oportunidades que a amiga sugeriu para leitura. A pessoa aceitou o empréstimo por educação, afinal nada faria com que ela mudasse de ideia. No caminho para o seu calvário a pessoa leu, aleatoriamente, uma passagem. Na leitura dessa passagem entendeu uma mensagem e ocorreu uma mudança. Sim, ela não desistiria da vida. Ela desistiria da outra pessoa…

Depois de passar a tarde sentada frente ao penhasco de onde resolvera se precipitar para acabar com o seu tormento, a pessoa voltou para casa, ainda triste, entretanto convicta. Nada mais a faria desistir da vida. Ela desistiria dos projetos que não deram certo. O relacionamento que ela interrompera era um projeto que já não chegaria a um bom termo, pois se esgotara. Assim, desistir dele era algo inteligente. Principalmente porque a pessoa em questão entendeu que ela não queria a outra pessoa pelo que ela era, mas ela a queria como a imaginara. Desse modo, não se tratava de desistir de uma pessoa, tratava-se de lhe dar o direito à escolha e de desenvolver o seu próprio projeto com outras pessoas. Feliz daqueles que conseguem se manter conectados em projetos com objetivos comuns e num nível de interdependência pessoal que os permita fazer parte de algo importante. Não digo de grandioso, mas de relevante para os envolvidos.

Por isso, 2014 será um ano para desistir de hábitos e costumes perniciosos para quem os têm, assim como para aqueles que estão a sua volta. Entende-se que desistir significa renovar, pois como podemos mudar sem abandonar velhas práticas? Também será um ano para desistir de projetos mal elaborados. Será um ano para desistir de planos sem foco. Será um ano para desistir do egoísmo de acreditar que tudo gira em torno do próprio umbigo. Sim, escrevo o que escrevo porque também tenho uma lista de coisas para desistir em 2014. Portanto, se as pessoas aprenderem a desistir de projetos sem futuro, também as organizações o farão. E são elas que, muitas vezes, continuam a investir fortunas em projetos fadados ao fracasso, simplesmente por um egocentrismo das pessoas que os elaboraram.

Não há nada de mal em desistir, porque desistir também pode ser um ato de sabedoria.

Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito. (Machado de Assis)

Somos únicos. Somos múltiplos.