Falar sobre segurança e motivação pode parecer díspar, porém, ao se analisar a questão com mais de cuidado, pode-se ver que os assuntos estão interligados.
A evolução dos aspectos tecnológicos para promover e assegurar a segurança tem sido crescente: ambientes de trabalho, veículos e casas mais seguras. Pode-se falar também em equipamentos e ferramentas de trabalho ergonomicamente pensados para serem mais confortáveis, produtivos e bem mais seguros. Contudo, tem algo que talvez não tenha acompanhado a evolução da tecnologia: o comportamento seguro.
O tema já era uma preocupação na pré-história, em que os pequenos grupos de humanos se preocupavam em estar protegidos contra predadores. As razões eram diversas, mas basicamente se tratava da luta pela sobrevivência da espécie. Não se falava em trabalho, mas das responsabilidades de cada um dentro do grupo. Se, num determinado momento, era minha a responsabilidade de manter vigiada a entrada da caverna, não havia discussão sobre isso. A vida do grupo todo estava em jogo. E a motivação para a segurança? Nada mais, nada menos do que a própria vida. Eis aí a motivação…
Passaram-se séculos e milênios e a segurança continua vinculada ao comportamento do indivíduo. Toda a evolução tecnológica pode oferecer suporte e possibilidade de proteção mais ampla, mas nada substitui o comportamento seguro das pessoas. E elas têm que ter motivação para esse fim: esse é o ponto!
Na palestra O impacto da superação na busca por resultados! vinculo conceitos de oportunidades, motivação e segurança nos diferentes ambientes de interação humana. Por meio da condução levo os espectadores à reflexão, como quando são confrontados com a pergunta, “Quanto vale a segurança para você?” Na pergunta os presentes podem avaliar o preço a ser pago ao não adotar os procedimentos de segurança previstos, em contrapartida com valor de se levar uma vida segura próxima aos seus companheiros de trabalho e familiares. A exposição é permeada por histórias que vivi ou presenciei como usuário de cadeira de rodas em consequência do não uso de equipamentos de proteção individual. Baseio a abordagem no conhecimento acadêmico e na experiência profissional acumulada, conectando-os com o direcionamento dado pela organização para construir uma palestra personalizada.
Por outro lado, mostro que ser usuário de cadeira de rodas desde os 20 anos não foi empecilho para que eu me desenvolvesse como pessoa e como profissional. Além disso, entre o trabalho e os estudos, encontrei tempo para ser atleta de Remo que me levou para a Seleção Brasileira, dando-me a oportunidade de participar em três campeonatos mundiais. Demonstro, com isso, que se vive numa fase da história da humanidade em que cada um pode ser aquilo que pretende ser! Inclusive permite que um usuário de cadeira de rodas possa ser um… bailarino de tango!!! É mais um momento de interação com a platéia.
Desse modo, procuro envolver a razão e a emoção em busca de um comportamento seguro que resulte em melhor qualidade de vida para os colaboradores e a uma maior competitividade para a organização.
Moacir Rauber tem mestrados em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade do Minho/Braga, Portugal (2010) e em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2003), Pós-Graduação em Teoría del Pensamiento Complejo pelo Instituto Superior António Ruiz de Montoya, Argentina (2001) e MBA em Marketing (1998), além de larga formação complementar. Possui experiência profissional nas áreas Administrativa, Gestão de Recursos Humanos, Vendas e Planejamento Estratégico. Também foi professor universitário em instituições do Paraná e Santa Catarina.
Ao acompanhar uma questão na internet sobre a transmissão do vírus da AIDS, li um comentário do pesquisador Edward Green que diz, “quando alguém usa uma tecnologia de redução de risco, frequentemente, perde o benefício correndo mais riscos do que aquele que não a usa”. A expressão se refere ao uso da camisinha ou do novo medicamento que previne, em parte, o contágio pelo vírus da AIDS. Acredito que se possa fazer um paralelo com a fala do pesquisador usando o mesmo princípio em ambiente organizacional ou doméstico quanto ao uso de tecnologias que nos protegem. O fato de usá-las pode nos dar a falsa impressão de sermos super homens, fazendo com que percamos o benefício do seu uso.
Explico. Em tempos passados os carros não tinham cinto de segurança ou mesmo quando tinham nem sempre eram utilizados. Neste caso, dirigir a 60 ou 80km por hora poderia ser tão seguro ou inseguro quanto dirigir a 140km usando o cinto de segurança. Não é a a tecnologia isoladamente que aumenta a segurança, mas o seu uso aliado ao comportamento. A mesma ideia se aplica ao uso de capacetes e a condução de bicicletas e motocicletas. Os filtros solares, como nós os conhecemos, começaram a ser desenvolvidos durante a Segunda Guerra Mundial. Hoje grande parte da população não sai de suas casas sem antes usar um filtro solar adequado ao ambiente que se irá frequentar. Tem-se protetor de pele até para ficar em frente ao computador. Mas e antes de sua existência, como se fazia? Adotava-se o comportamento seguro. As pessoas usavam camisas de manga longa mesmo num dia de sol. Não porque gostassem, mas porque havia uma sabedoria popular que indicava que o uso de proteção era importante. Era o comportamento seguro.
Entendo que a tecnologia tem se desenvolvido rapidamente para nos oferecer mais segurança nos diferentes ambientes em que convivemos, desde que o nosso comportamento não seja temerário. Por isso, a ideia é que nos beneficiemos do desenvolvimento da tecnolgia para a redução de risco por meio da manutenção de princípios de comportamento seguro.
O processo de transformar uma simples ideia, um devaneio ou um sonho em algo palpável é interessante. O “Desafio Lagoa dos Patos” começou como uma brincadeira jogada por alguém num grupo… Poderia não ter tido nenhuma adesão. As pessoas que ali estavam poderiam simplesmente ter ouvido e não dado bola… A proposta poderia não ter colado, mas colou. Não sei por que… Alguém disse, “Que bacana!”. Outro acrescentou, “Quando poderíamos fazer?”. Mais alguém comentou, “Seria interessante, desde que fôssemos num grupo…”. Outros disseram, “Não contem comigo…”, mas a força daqueles que queriam começou a se aglutinar. Da fantasia inicial, a proposição começou a ganhar corpo. Ainda no campo das ideias foram questionadas as dificuldades e os obstáculos que adviriam da sua realização… Mas por outro lado, as possibilidades de usufruir, gozar e apreciar as paisagens de uma passeio feito em barco a remo por uma região quase inabitada eram estimulantes. Ficar em contato direto com a natureza por seis ou sete dias consecutivos nos proporcionava um contentamento antecipado. Assim, o campo das ideias passou para uma proposta real. Começamos a trabalhar com um percurso. Seriam 220km que poderiam ser cumpridos em seis dias sem um desgaste muito grande. A data proposta ficou entre o Natal e o Ano Novo, já que a maioria dos que se candidataram a cumprir com o desafio estariam de férias. Os recursos com relação a equipamentos, barcos, remos e outros essenciais existiam. Partimos para a ação e fizemos a primeira Indiada. Nela cumprimos um trajeto de 34km para avaliar as reais condições de que seria possível. Foi tranquilo e as imagens e paisagens nos deram a certeza de que continuaríamos na busca pela concretização do projeto.
Assim, fizemos a indiada 2!!!
Em que consistiu? Os intrépidos aventureiros, Oguener, Antônio, Wagner e eu partimos para marcar os pontos reais do trajeto a ser cumprido no final de ano. Percorremos 500km por terra para encontrar os pontos localizados pela internet como o provável percurso a ser feito todos os dias. Como o trajeto é na Costa Leste da Lagoa do Patos tivemos que cruzar a balsa entre Rio Grande-RS e São José do Norte-RS
A cidade de Rio Grande-RS ao fundo…
Um cavalo também fez a travessia…
O PONTO DE SAÍDA
Logo que cruzamos pegamos a BR-101, conhecida até a pouco anos como a Estrada do Inferno, porque dificilmente alguém transitava por ela sem que tivesse problemas. Nas chuvas ficavam atolados nos barreiros. Na seca ficavam atolados nos areais. Mas agora está tudo asfaltado. Uma rodovia muito bonita num terreno completamente plano. Percorremos 200km por ela até que chegamos a cidade de Mostardas-RS. Dali percorremos mais alguns quilômetros e encontramos nosso ponto de partida, a Praia de Caieiras…
Praia de Caieiras, local do primeiro acampamento…
Praia de Caieiras, aqui vai começar o desafio…
FINAL DO PRIMEIRO DIA
A proposta de percorrer aproximadamente 40km no primeiro nos levaria a um determinado ponto. Localizá-lo no google ou no GPS é muito fácil. Entretanto, chegar até ele de carro, a pé ou a cavalo é outra história. Nos embrenhamos por caminhos e estradas desconhecidas. Areia, terra, potreiros, fazendas, estradas e a ausência dela eram uma constante. Pessoas para as quais pedíamos informações diziam, “É logo ali. Pegue à esquerda lá perto do mato e vai embora…” Nós íamos embora, mas nunca chegávamos.
Depois de um bom tempo localizamos o ponto até onde pretendemos chegar ao final do primeiro dia… A paisagem garante que vai valer a pena olhar a Lagoa do Patos a partir de outro ângulo. De dentro pra fora, podendo aproveitar todos os detalhes que somente um passeio a remo permite…
Local do acampamento ao final do primeiro dia…
Completamente adaptado hehehe…
Local do acampamento ao final do primeiro dia…
Local do acampamento ao final do primeiro dia…
A paisagem é linda!!!
Local do acampamento ao final do primeiro dia…
A paisagem é linda!!!
A fome já havia batido. Mas como aventureiros precavidos que somos a comida estava garantida. Certamente que não havíamos levado talheres de prata ou louças de porcelana. Mas uma mesa de gabarito foi improvisada, uma mesa de gaudério, tchê!!!
Eu ainda estava embasbacado com as paisagens, envolvido com a lerdeza da locomoção em cadeira de rodas por aquelas paragens, quando olho e vejo o Antonio usando uma mesa oferecida pela natureza. Veja que beleza!!!
O Oguener a usou! O Wagner e eu também a usamos. Comemos muito bem….
Rimos mais ainda!!!
FINAL DO SEGUNDO DIA
O passo seguinte também foi um desafio. Para localizar onde acamparíamos ao final do segundo dia o GPS nos guiava em meio a floresta de pinus. Uma virada para à direita. Outra para à esquerda. Ficamos um bom tempo sem saber para onde ir. Para frente ou para trás…
A noção de localização em meio a uma floresta vai para o espaço…
O Antonio tentando dar uma mãozinha na orientação…
O Wagner tentando ver se já havíamos passado por ali…
É, né, Oguener, onde fui amarrar meu bode?
Perdidos…
Acho que é por aqui…
Por fim a recompensa… O encontro com a Lagoa dos Patos!
O local de nosso acampamento.
Ainda faltam alguns pontos a ser localizados. Será necessário uma próxima expedição. Provavelmente em julho…
Assim finalizamos nossa segunda indiada em busca da preparação do grande desafio que será realizado no final do ano. A ideia tomou corpo… Se é possível imaginar, muito provavelmente será possível fazer. Mas planejar e esmiuçar as alternativas é necessário. Isso porque…
Carnaval na Praça XV em Florianópolis. Circular entre a multidão é difícil até para um andante, imagine então para um cadeirante. Mas eu estava metido lá no meio, pois era minha primeira visita à cidade e eu não queria perder nada. Estava acompanhado pela minha esposa, meu irmão e um casal de amigos da cidade que nos havia convidado para assistir ao desfile das loucas ou algo do gênero. Um desfile de travecos. Certamente que também iríamos comer algo e tomar umas cervejas. Enquanto circulávamos procurávamos um lugar que fosse mais aconchegante e ao mesmo tempo nos permitisse assistir a tudo. Estava conduzindo minha cadeira, empurrando um pouco aqui, dando encontrões ali, pedindo licença por lá e assim seguíamos em grupo. De repente fui abordado por alguém que literalmente se jogou em meu colo. Fiquei de queixo caído, O que era isso? Era um baita de um travesti, que deu de dedo na minha cara e disse, olhando para minha esposa que estava logo atrás, Já contaste pra ela que já jogaste frescobol pelado comigo na praia?Isso falado com o típico sotaque de manezinho da ilha. E de um salto saiu correndo e gargalhando…
Eu ainda estava todo atordoado sem saber o que dizer frente as gargalhadas dos demais. Seguimos nosso caminho e achamos um cantinho. Pedimos uma cerveja. Pedimos outra e assim foi. Mas cerveja provoca outras necessidades. Todos já haviam ido ao banheiro, menos eu. Comecei a ficar preocupado, porque somente via aqueles banheiros conhecidos como pipi móvel. A barraca onde estávamos não oferecia banheiros. Fui até outro lugar e nada. Dei mais uma volta e nenhum banheiro oferecia acesso. Meu irmão comigo. Eu já começava a entrar em desespero, porque já estava mais do que na hora de “descarregar a cerveja”. Não aguentava mais e nenhuma solução a vista. Vou ter que fazer o negócio aqui no meio da multidão. Que m…, eu pensava. De repente meu irmão viu, ao lado do pipi móvel, um balde com uma vassoura e um pano dentro. Ele apontou para o balde. Eu também o vi e falei, É esse mesmo! Passa pra cá… Meu irmão tirou a vassoura e o pano e alcançou-me o balde. Eu o pus entre as pernas e fiz xixi ali mesmo. Terminado o serviço, passei o balde para o meu irmão que o levaria ao banheiro. Nisso aproxima-se um homem esbravejando, Meu balde, meu balde… Seu sem vergonha, como você mija no meu balde? E se aproximou com a forte intenção de partir para a agressão. Logo formou-se um aglomerado de pessoas para segurá-lo. Eu e meu irmão lá parados com o balde na mão e a confusão feita. Alguém falou de chamar a polícia e o homem seguia transtornado gritando, Mas o cara mijou no meu balde… Meu irmão e eu fomos nos afastando devagarzinho. E o tumulto continuava. Alguns curiosos. Outros que haviam comprado a briga. A maioria bebuns. Mas todos ali em meio aquele alvoroço e a grande maioria sequer sabia do que se tratava. Pusemos o balde dentro do pipi móvel e terminamos nossa saída pela esquerda, de fininho, sem que ninguém nos visse…
Muitas pessoas ficam paralisadas frente as dúvidas, as incertezas ou as interrogações. Deveriam ficar felizes, porque somente estas podem oferecer alternativas ao levar o indivíduo para um processo de evolução constante. Quando se tem dúvidas, abrem-se possibilidades. Surgindo uma incerteza ela pode trazer consigo o benefício de que talvez seja uma oportunidade. Cada vez que se coloca uma questão face a uma situação a complexidade presente nas hipóteses, comuns aos seres humanos, revelam uma magnitude somente presente naqueles que duvidam. Desse modo, pesquisa, estudo e conhecimento podem minimizar as dúvidas, as incertezas e as interrogações, dando hipóteses inacessíveis para aqueles que tem certezas. O conhecimento não vai garantir certezas, mas sim novas dúvidas.
As certezas, sim, podem geram convicções, seguranças e verdades, que muitas vezes resultam na crença da infalibilidade humana, somente presente nos ignorantes que se comprazem na estupidez da própria certeza. Ignoram a própria ignorância, transformando-se em arrogantes presos as suas verdades. Estes já não veem mais possibilidades ou oportunidades, ficando literalmente paralisados na sua ignorância.
A reportagem “Uma questão de fibra” da revista Você SA, edição 166 – abr 2012, apontando a resiliência como a principal competência a ser exibida pelos profissionais da primeira metade do século 21 me chamou a atenção pelos contornos históricos que a envolvem. Isso porque considero que nossos avós e bisavós eram exemplos de resiliência, reforçados por uma firmeza emocional que beirava a obstinação. Portanto, era uma competência comum à grande maioria da população no passado. Por outro lado, nos dias atuais, grande parte das pessoas são exemplos de inconstância, de frouxidão e de volubilidade emocional que nos tem deixado fracos e dependentes. Perdemos parte de nossa competência de ser resilientes, por isso ela se tornou tão valorizada.
Por gerações e gerações as pessoas foram criadas de uma forma em que se tornavam naturalmente resilientes. Ter fibra era uma questão de honra, de rijeza e de caráter. A gestão das emoções era uma prerrogativa para se adentrar no mundo dos adultos. Saber aquilo que se queria e o preço a ser pago para que se pudesse alcançar, respeitando as regras e os mais velhos, fazia parte da educação dos jovens de quase todas as gerações. Saber que havia um tempo de preparação e de espera era parte do jogo e todos estavam aptos para aguentar. A resiliência fazia parte da formação dos indivíduos que nasciam, cresciam, tinham o compromisso social de formar família e a ela sustentar. Não dispunham de telefone, internet, celulares ou outros meios sofisticados de comunicação. Tinham em mente a clareza daquilo que queriam. Faziam os planos, os projetos e se lançavam para aventuras além mar, lembrando dos milhões de pessoas que cruzaram o Atlântico em busca de uma vida melhor para os seus descendentes. Viagens de meses rumo a um destino incerto. A grande maioria sabia que jamais voltaria a ver aqueles que deixaram para trás, entre eles pais, tios, primos e amigos. Aqui no Brasil pode-se citar como exemplo os colonizadores saídos do Rio Grande do Sul que se embrenhavam pelos sertões do Brasil sem contar com nenhum apoio tecnológico ou de infra-estrutura. Do nordeste os milhares que saíam de suas terras em direção as grandes cidades do sudeste, sem a mínima noção do que significava viver numa metrópole. Planejavam com os recursos que tinham, partiam e faziam aquilo que deveria ser feito em busca dos objetivos traçados. Muitos certamente não alcançaram o que se propuseram, mas fibra jamais lhes faltava. Eram naturalmente resilientes.
Nesse cenário pode-se facilmente identificar os nove fatores que compõem a resiliência na escala da FGV, presentes na reportagem da Você SA, que são a
autoeficácia, a competência social, a empatia, a flexibilidade mental, a tenacidade, a solução de problemas, a proatividade, a temperança e o otimismo.
Ao falar de autoeficácia esses desbravadores detinham grande capacidade de organização, planejamento e execução. Sem o uso de GPS ou guias Quatro-Rodas percorriam milhares de quilômetros em estradas de terra batida em busca do sonho. Eram altamente proativos e solucionavam problemas que sequer poderiam imaginar que enfrentariam, não tendo a menor possibilidade de recorrer a psicoterapeutas para solucionar eventuais crises existenciais. Era fazer ou fazer.
A competência social também lhes era natural, uma vez que havia uma rede de apoio e interdependência entre aqueles que buscavam novos horizontes. Não bastava que um alcançasse a terra prometida, era fundamental que todos que partiram lá chegassem, porque a derrocada de um poderia significar a de todos. Assim, num núcleo que dispunha de poucos recursos todos tinham que contribuir e receber ajuda de forma integrada. Não havia a possibilidade de envolver-se em projetos sociais para desenvolver a “escuta empática” ou a “escuta ativa”. Exibir essas competências era necessário por uma simples questão de sobrevivência. Aqui também se pode incluir a competência conhecida como empatia, entendida como a habilidade de compreender o outro a partir dos seus modelos mentais. Essa competência, que envolvia respeito e a abertura no convívio entre as pessoas do grupo, era obrigatório que a tivessem. Naquele tempo essa competência era conhecida simplesmente como “educação”. Todas essas competências e habilidades eram passadas de pai para filho, porque grande parte da população não tinha acesso a livros ou sequer sabiam ler. Identifica-se nesse mesmo ponto a flexibilidade mental, que abarca a tolerância e a criatividade. Como não seriam tolerantes os integrantes de um grupo que saía numa viagem de 60 ou 90 dias do Rio Grande do Sul com destino a uma terra inexplorada no interior do Paraná ou do Mato Grosso, de Rondônia ou do Acre lá pelos idos de 1940 ou 1950? Não havia a mínima possibilidade de desenvolver a flexibilidade mental em cursos de yoga ou outra técnica oriental. Havia a necessidade da convivência pacífica num ambiente limitado e muitas vezes hostil.
Nesse cenário a flexibilidade cruzava-se diretamente com a tenacidade, que é a capacidade de conviver em situações consideradas adversas. Trata-se de um quesito em que não há como questionar o que aquelas pessoas aguentaram. Dias, semanas, meses, anos e muitas vezes uma vida sem notícias das pessoas queridas. Hoje, os pais entram em parafuso se não conseguem falar diariamente com seus filhos, tenham eles 2, 5, 20 ou 50 anos de idade. Os filhos piram se não podem dar uma ligadinha para o papai ou para a mamãe. Como falar de tenacidade com pessoas que tem tamanha dependência emocional? Como esperar que essas pessoas aguentem o tranco de um projeto ousado? Sim, os nossos avós e bisavós eram tenazes e também criativos para solucionar problemas, outra das habilidades integrantes da competência chamada de resiliência. Eles viviam num ambiente estranho e adverso em que as condições mudavam constantemente e não tinham como consultar a internet para ver a previsão do tempo para o dia ou para a semana seguinte. Eles se desenrascavam dos problemas com aquilo que dispunham, pois eram autosuficientes na solução dos seus problemas. Jogar xadrez para aprender a desenvolver estratégias? Era uma possibilidade, pois a paciência para tanto eles tinham. Porém, há que considerar que as estratégias estavam em suas cabeças, não nos notebooks, tablets ou no São Google.
Nessa sequência a proatividade era intrínseca a essas pessoas, pois se não a tivessem sequer se atreveriam a sair de suas casas. Não havia um processo de coaching para buscar um colinho ou uma segurança que lhes faltasse. O coaching deles era a própria vida. Isso tudo associado a temperança e ao otimismo. Temperança para não perder o equilíbrio emocional frente as adversidades diárias de um ambiente novo. Otimismo não precisava ser descrito para aqueles aventureiros. Eles simplesmente acreditavam naquilo a que se propunham.
Depois das décadas de 1950, 1960 e 1970 a tecnologia foi aparecendo, a comunicação foi sendo facilitada, os recursos se tornaram abundantes e as mudanças na gestão da emoção das pessoas foi acontencendo. Toda essa parafernália comunicativa deveria simplesmente servir como suporte para estreitarmos as nossas relações, fortificando-nos emocionalmente. Entretanto, em parte elas assumiram o controle ditando as regras daquilo que fazemos com nossas emoções. Enfraquecemos emocionalmente. Algo que nós queríamos já não podia mais ser para amanhã, tinha que ser para ontem. Passamos a não aguentar sequer a ideia de não ter aquilo que desejamos. Não conseguimos mais conviver com o fracasso.
Não estou defendendo que se volte no tempo, nem que aquele fosse um mundo melhor daquele de que dispomos hoje. Sei que aquelas gerações tinham seus modelos mentais que à vezes dificultavam certas ações e aceitações que para nós hoje são fundamentais. Apenas estou dizendo que se podem usar exemplos, comportamentos e conhecimentos do passado para estruturar melhor nosso presente e garantir nosso futuro. Olhar para as competências naturais daqueles milhões de pessoas que largaram tudo, cruzaram os oceanos em busca de um sonho, enfrentaram dificuldades, persistiram e aprender com eles. Lembrar-se e usar a história para aprender, sem desmerecer fatos que podem nos ajudar. Porque hoje, muitas vezes minimizam-se as dificuldades que nossos antepassados viveram e exacerbam-se as nossas. Fala-se que nunca se sofreu tamanha pressão profissional como nos dias de hoje. Sim, a pressão é real, mas no passado ela também existiu. Ela podia ser diferente, mas não menos dura, porque sequer se tinha a liberdade para que se pudesse ser aquilo que se quisesse ser. Muito diferente de hoje em cada um pode ser e fazer o que quiser de sua vida. Isso também me leva a afirmar que em certas situações enfraquecemos emocionalmente, sim. Resultado das facilidades de que dispomos. Quando não conseguimos dormir imediatamente tomamos uma pílula e está feito. Quando nos sentimos um pouco desanimados tomamos um estimulante e estamos a mil. Quando pensamos que nos ofenderam acionamos a justiça. E assim seguimos numa infindável busca para ter tudo à mão na hora, sempre.
Certamente que se hoje temos condições para conversar com quem gostamos todos os dias, ótimo. Mas que isso não seja empecilho para que não participemos de um projeto ou que não aproveitemos uma oportunidade que muito gostaríamos, frustrando-nos como pessoas e como profissionais, inclusive atingindo aqueles mais próximos que tanto quisemos preservar. Essas são algumas razões porque a resiliência, ou a falta dela, tem sido de tamanha importância. Por isso, as vezes penso que nós temos que deixar de ser frouxos e aproveitar a melhor fase da história da humanidade para viver bem e fazer com que os outros possam viver melhor ainda. Seja aquilo que vocé quer ser. Escolha, vá atrás e pague o preço. Você estará ajudando a construir um mundo melhor. E ainda assim, se você não aguentar a pressão para dipustar o posto de diretor da empresa, peça demissão e vá pescar!!! Isso também é uma questão de fibra. Afinal, é você quem decide a sua vida…
E você? Como está a sua competência de resiliência? Pense, critique, escreva…
Para quem mora na região sul a palavra “indiada” tem um sentido muito particular, pois trata-se de uma aventura, uma andança ou uma proeza. E no último domingo nós fizemos uma verdadeira indiada…
Com quantas remadas se faz uma indiada? Olha, isso eu não sei, mas que entre quatro amigos se pode fazer isso é certo. Foi o que fizemos no último domingo num passeio de 34 quilômetros pelo Arroio Pelotas.
Antônio, ciclista, remador, um Prof. Pardal com seus 58 anos.
Oguener, técnico de remo e um apaixonado pelo esporte e por “otras cositas más” com seus 30 anos.
Wagner, 17 anos, muita curiosidade e sempre disposto a encarar um aventura mais.
Moacir, um usuário de cadeira de rodas, 45 anos, sempre disposto a continuar conhecendo as maravilhas do mundo.
Começamos cedo, num domingo com muita neblina, mas com previsão para um dia maravilhoso.
Previsão confirmada!!!
Começamos de madrugada…
O Antônio garantiu a iluminação!
Arrumando uma mochila para levar na “indiada”…
O Oguener preparando a “máquina”…
Pegando a “estrada” às 7h…
A neblina dava um toque de beleza invernal!!!
O Antônio cruzando sob a ponte do Arroio Pelotas
Oguener aproveitando a paisagem…
As tão faladas Charqueadas de Pelotas!
Para não dizer que ninguém nos viu…
Lindas fotos!
Obra de arte do fotógrafo Wagner…
Outra foto maravilhosa daquilo que vimos
Chamaram-me de “caracol”. Não sei por que…
Qualquer semelhança é mera coincidência…
Remadas…
… e paisagens…
… de tirar o fôlego!
A cada curva… Lá vão os remadores!
Tá aí o fotógrafo da primeira parte da jornada…
É o “cabeça de Wagner”
Um foto com o sobrinho!
Quem vê até pensa que sabe remar…
Mas o bom é que sabe mesmo!!!
Lá vai o “Gary”!!!
Os barcos atracados para o almoço!
E assim fizemos nossos 34km de passeio pelo Arroio Pelotas!
Os textos que tenho escrito até aqui tem mostrado parte do meu comportamento frente a diversas situações, principalmente as adversas. Quase todas mostram um sujeito centrado, que consegue manter o equilíbrio e o autocontrole, fazendo com que fatos complicados pareçam, até certo ponto, simples. Fica parecendo que um usuário de cadeira de rodas, neste caso eu, seja um super-homem no quesito de controlar as ações resultantes das emoções surgidas no calor de situações que, muitas vezes, fogem ao nosso controle. Entretanto, tenho que revelar que o buraco é mais embaixo. Muito mais embaixo. Na verdade o autocontrole apresentado nem sempre é verdadeiro… Isso ficou evidente numa questão pontual de trânsito. Sou motorista. Dirigi e dirijo em cidades, rodovias, picadas, estradas rurais ou qualquer outro lugar como qualquer um. Pensei que conseguia controlar a transformação que acomete a tantos motoristas o simples fato de entrar num carro e sentar-se atrás do volante. Muitos deles sentem-se o máximo, os donos do poder. Grande engano…
Outro dia estava dirigindo pelas ruas da cidade onde moro. Sabia exatamente onde queria ir. Tudo tranquilo. Passei em frente a um local onde há uma vaga exclusiva para pessoas com deficiência física. Estava ocupada. E, provavelmente, o dono do carro a usava de forma irregular. Esse julgamento me veio a cabeça porque o carro não estava identificado e se tratava de uma camioneta. Segui em frente agora meio irritado, pensando besteiras, tipo, Deveria dar uma lição nesse cara… Mas eu estava em cima da hora, quase atrasado para o meu compromisso. Não tem jeito. Terei que deixar o carro na garagem e pagar estacionamento. Que porcaria! Pensei… Minhas emoções já haviam mudado. O sujeito tranquilo já não estava mais atrás do volante. Mesmo assim, segui a velocidade do trânsito e continuava conversando com minha esposa. Parei num semáforo na pista da esquerda, pois teria que dobrar na esquina. Liguei a seta e fiquei esperando. Olho no retrovisor. Vejo alguém chegando e freando bem próximo à traseira do meu carro. Pelo retrovisor identifico uma mulher com um olhar atarantado. Eu a vi e também vi que ela me vira. Os olhares se cruzaram e o sentimento não foi boa coisa. O sinal abriu, eu arranquei e dobrei à esquerda. Ela também arrancou e quase avançou sobre mim. Logo após virar à esquina a garagem também ficava à esquerda. Assim, a seta do carro mal havia desligado, tornei a ligá-la para poder entrar no estacionamento. A mulher colada na minha traseira. Não pude entrar imediatamente no estacionamento porque vinham pedestres pela calçada. Tive que parar para esperar. A mulher quase bateu na traseira. Pelo retrovisor eu a vi gesticulando. Olhar transtornado. Ela deu marcha a ré. Começou a gritar. A irritação minha também subiu. Vendo que ela me via fiz um sinal nas têmporas indagando se ela era maluca. Ela arrancou e parou ao lado do meu carro e gritou, Sai da frente, ô boca aberta! Aquilo foi a gota d’água… Puxei o freio de mão. Peguei um porrete que estava ao lado do assento do motorista, desci do carro e avancei até aquela senhora. Golpeei o vidro partindo-o em mil pedaços. Puxei-a pelo colarinho e berrei, Quem a senhora pensa que é? Não está vendo que eu quero entrar no estacionamento? Não está vendo que tem pedestres na calçada? Dei-lhe um soco na cara arrebentado-lhe o nariz. Ao ver o sangue escorrendo voltei a mim… Na verdade não desci do carro, mas apenas porque não pude. Após o grito em que ela me chamou de “boca aberta” somente pude vê-la desaparecer numa velocidade superior a permitida naquele local. Fiquei lieralmente de boca aberta e pensei, Ainda bem que não posso caminhar, porque senão realmente teria feito isso.
Fui protegido pela minha deficiência. Mas o meu monstro interno estava ofegante. Carreguei-o durante vários dias. Volta e meia lembrava do semblante daquela mulher que ainda provocava-me irritação.
Por isso, parabéns a todos os motoristas caminhantes educados!!!
No dia seguinte a uma palestra numa cidade na qual nunca havia estado antes saí do hotel para comprar uma pilha para microfone. Havia um supermercado na quadra ao lado. Cruzei a rua. Eu, um cadeirante, junto com os outros pedestres. Tudo quase normal. Quando estava para entrar no mercado uma senhora me aborda e diz, Ei, você não mora no Jardim da Flores?Pelo que entendi ela se referia a um bairro da cidade. Respondi-lhe que não, que não era da cidade. Olha, mas eu tenho certeza que o vi por lá domingo à tarde. Eu nunca me esqueço de uma pessoa…E ela seguiu em frente. Eu dei risada, porque certamente ela viu a cadeira e não viu a pessoa.
E você, consegue ver a pessoa por trás da fachada?