Moacir Rauber acredita que tem "MUITAS RAZÕES PARA VIVER BEM!" porque "MELANCOLIA NÃO DÁ IBOPE". Também considera que a "DISCIPLINA É A LIBERDADE" que lhe permite fazer escolhas conscientes, levando-o a viver de forma a "QUE POSSA COMPARTILHAR TUDO COM OS PAIS E QUE TENHA ORGULHO DE CONTAR PARA OS FILHOS".
Estava a espera de minha carona para um evento. A pessoa que me viera buscar já passara duas vezes à minha frente e não me vira. Agora já me posicionava quase no meio da rua para que ela me visse. Telefono para ela que finalmente me vê. Rapidamente ela encosta o carro ao meu lado. Nesse exato momento também se aproxima de mim um senhor com seus mais de oitenta anos com quem já trocara palavras em outros dias que o vira por ali. Nós nos cumprimentamos e ele pergunta:
– Você quer ajuda?
– Não, não, obrigado…
Logo eu aponto para a motorista que estava desembarcando do carro e digo:
– Ela vai ajudar-me a carregar a minha cadeira de rodas…
Surge um brilho nos olhos daquele senhorzinho ao ver aquela mulher jovem e bonita que se aproxima de mim e saúda-me com um beijo na face. Ele exclama:
– A senhora vai para o céu!… Diz ele todo entusiasmado.
Nós nos entreolhamos sem saber exatamente o que pensar daquela fala. Ela, porém, responde:
– Que bom! Mas por que é que o senhor acha que eu vou para o céu?
– Mas ele não é seu marido?
– Não, ele não é meu marido. Nós somos amigos.
– Daí mesmo que a senhora vai para o céu… respondeu ele rapidamente.
Entretanto, pareceu-nos ver em seus olhos que agora ele estava um pouco baralhado, porque afinal talvez ela não fosse para o céu, deveria ter pensado. Ela não era casada com ele… Coitado. Deve continuar sozinho. Bom, uma mulher para se casar com um usuário de cadeira de rodas deve ser muito caridosa e são poucas as pessoas assim hoje em dia… e por aí afora devem ter ido os pensamentos daquele senhor. Imagine o dia que ele souber que sou casado há quase vinte anos e conhecer a minha esposa. Ela terá a aura de um anjo…
Acho que ele tem razão…
Porém, vale lembrar que você pode ir ao céu ou ao inferno com ou sem um usuário de cadeira de rodas na sua vida. Isso depende das escolhas de cada um!
Cada um se dá o presente de aniversário que quiser. Escolhi o meu. Para alguns, loucura. Para mim, um desafio. O que ganho com o presente? Aparentemente nada, mas também pode ser tudo. Afinal, qual é o presente? Tenho por hábito fazer aproximadamente 6km diários de remo ergômetro, um aparelho simulador de remo. É um exercício completo que exige disciplina e determinação, uma vez que ele é repetitivo e cansativo. Como presente de aniversário este ano resolvi dar-me o exercício diário multiplicado por quatro. Ao invés de fazer 6km faria 24,5km. Presente estranho? Sei lá. Tem gente que se dá um relógio, mas não sabe gerir o tempo. Tem gente que se dá férias, mas não desliga. Tem gente que se dá um carro, mas não tem necessidade. Também pode parecer estranho, não pode? Cada um com as suas escolhas… Veja o vídeo:
Por que quatro vezes mais? Nenhuma razão em especial, mas queria que fosse suficientemente duro para ser um desafio sem contudo ser impossível. Resta saber se foi possível…
Depois de ter parado o exercício pude rememorar o caminho percorrido. Cada etapa um desafio. O positivo podendo ser negativo e o negativo podendo ser positivo. Depende da perspectiva de cada um. Gravei o vídeo até o momento em que parei de remar. Ao olhar o vídeo vieram-me as lembranças que me fizeram entender o que havia acontecido. Das lembranças fiz algumas inferências que podem ser aplicadas a quase todas as situações que se vive, pelo menos a partir do meu ponto de vista. Identifiquei algumas fases que poderia encontrar em qualquer outro projeto no qual já tenha me envolvido. Pude fazer ilações com projetos bem sucedidos e também com os fracassados.
Quando comecei o projeto, por PRIMEIRO veio a empolgação de pensar, de criar e de me preparar para algo novo. Isso está presente em quase todas as atividades que fazemos. Quando nós temos uma ideia de negócio, de trabalho ou de lazer ficamos eufóricos e queremos logo sair fazendo. Quando tomamos uma decisão, que a princípio nos parece acertada, queremos implementá-la logo. Cuidado, pode ser a sua mente a lhe mentir… É importante agir, porém também é necessário planejar os passos, avaliar as vantagens, pesar as desvantagens e saber a fonte de recursos. Quais os impactos positivos e negativos que essa decisão terá em mim? Na minha família? Nos meus amigos? O quanto vale isso para mim? No meu caso, o desafio teria os seus impactos diretamente em mim. Terminá-lo seria uma vitória. Desistir seria um fracasso.
Treino todos os dias para a manutenção da minha saúde física e também mental (nem sempre funciona) o que faz com que eu desenvolva as habilidades necessárias para capacitar-me ao desafio. Serve como o planejamento, a avaliação e o desenvolvimento das capacidades exigidas. Quando me propus a remar 24,5km em duas etapas de 12,25km já vinha de um período ininterrupto de seis meses de treinos regulares de distâncias menores, com uma média diária um pouco acima de 6km. Para que fosse realmente um desafio me propus a quadruplicar a distância diária em duas etapas. Não seria fácil, mas também não seria impossível, segundo as minhas expectativas. Ainda teria que saber, O que a minha mente vai dizer disso? Dependeria das minhas condições físicas e também mentais. A primeira estava em dia. A segunda é variável e depende diretamente de nossa vontade. Como vontade é algo que dá e passa sempre estamos sujeitos a desistir no caminho. É aí que entra a mente que muitas vezes nos mente. Isso é replicável em qualquer área de nossas vidas. Muitas vezes temos todas as condições para fazê-lo, mas desistimos porque a nossa resistência mental não permite. A nossa mente nos mente inculcando em nós desculpas para não seguir em frente. Porém, temos que lembrar que nós não somos nossa mente e a resiliência, que é a capacidade de nos mantermos firmes ainda que em situações difíceis, está ligada a nossa determinação e não à mente. Por isso, quando quero algo tenho que preparar-me para esse fim, desenvolvendo habilidades específicas, como a resistência física ou o conhecimento técnico, e também as competências transversais, como a resiliência. Com toda a certeza quem está preparado tem mais “sorte”.
Em SEGUNDO lugar veio a execução. Começar tendo em mente que a meta está muito além dos primeiros passos. Dar início de uma maneira gradativa para encontrar o ritmo adequado sabendo que se trata de um desafio de resistência e não de força. Fazer os primeiros movimentos de forma cadenciada e com força controlada para ter resistência física até o final. Tenho que controlar o meu entusiasmo… pensava. Ainda assim, a sensação de que se tratava de um exercício fácil me veio a mente. Depois das primeiras vinte ou trinta remadas pensei que realmente não seria um verdadeiro desafio, pois o cumpriria tranquilamente. A mente me dizia, Vamos lá, Moacir, acelera que terminamos antes… A sensação perdurou pelos primeiros cinco minutos, ainda que prudentemente não tenha aumentado o ritmo contrariando a minha mente. Eu estava no controle da situação. Muitas vezes, o excesso de confiança nos leva a cometer erros crassos na realização de nossos projetos. Nos lançamos em algo com tamanha empolgação que consumimos toda a nossa energia no início do projeto. Continuei no ritmo que havia estabelecido que seguiria. Eis a importância de um planejamento. Eu sabia que havia um limite na cadência e também na força aplicada para percorrer uma distância mais longa, ainda que tudo me dissesse para acelerar. A mente voltava a me dizer, Vai fundo, Moacir. Isso aqui está fácil! Mais uma vez resisti a tentação e continuei a seguir o plano. Cadência e constância. Força controlada… voltei a pensar. Uma guerra entre mim e minha mente começava a ser travada.
Nos cinco minutos seguintes a sensação de segurança e confiança da facilidade de concluir o desafio começou a diminuir, ao visualizar que se haviam passado apenas 10 minutos dos mais de 60 que teria pela frente. Isso também me mostrava que eu apenas cumprira 2km dos mais de 12km que compunham a etapa. Um sinal de alerta se acendera em mim, Cuidado, você recém começou… Consegui fazer uma boa leitura da realidade. Estava plenamente no comando das ações. Quando cheguei aos 3km eu lembrava a cada movimento que eu precisava de oxigênio e que deveria manter a cadência dos movimentos e também da respiração sem diminuir nem aumentar o ritmo. Percorrer longas distâncias requer muito mais disciplina do que ímpeto, assim como requer muito mais cadência e constância do que força e agressividade. Na nossa vida também podemos ver tais reflexos. Com disciplina, cadência e constância constroem-se grandes projetos. Era isso que o alerta me dizia. Foi o último momento de trégua. A guerra explodiria por completo logo em seguida. A mente me atacaria duramente.
Num TERCEIRO momento a mente passou a mentir-me descaradamente. Sim, é exatamente isso. Pode parecer estranho e temos a ideia de que nós somos a nossa mente, mas não somos. Nós podemos gerir ou ser geridos pela nossa mente. Muitas pessoas viciadas em pensamentos negativos ou mesmo em comentários pejorativos sobre tudo e sobre todos, revelam aqueles em que a mente está no comando. É muito mais fácil criticar do que fazer. É muito mais fácil responsabilizar os outros do que assumir as próprias responsabilidades sobre as escolhas feitas. É muito mais fácil desistir do que seguir em frente numa atividade que de repente lhe parece rotineira, exaustiva e sem um objetivo claro. E nesse momento em que remava por volta dos 4km a mente me dizia, O que você ganha com isso? Você já está a mais de 20 minutos nessa atividade repetitiva e cansativa para que? As mensagens encontravam eco num corpo que já mostrava sinais de cansaço. O desconforto era sentido em cada movimento feito ou era isto também imaginação? Claro que era um truque da minha mente. Lembrei-me, Eu faço mais do que isso todos os dias e não me canso. É um truque da minha mente… Voltei ao comando das ações, ajeitei-me na cadeira e segui em frente. Essas provocações e enganações na avaliação da realidade feitas pela mente nos são enviadas a cada instante sempre que nos deparamos com uma suposta dificuldade. Como as mudanças são constantes a vontade muda com os pensamentos. E quando não os dominamos a mente os domina.
Muitas pessoas acreditam que 5 minutos é pouco tempo. Diria sinceramente para repensarem a situação e avaliar novamente. Cinco minutos é tempo suficiente para se mudar de ideia e desistir de um projeto construído ao longo de meses ou de anos. Num momento em que se deixa de dominar a mente pode-se jogar por terra todo um planejamento já feito, todos os recursos investidos e todos os sonhos acalentados durante uma vida. Isso voltava-me com força agora que ultrapassava a barreira dos 6km. Eu queria pensar que já havia feito quase a metade, mas a minha mente insistia em me dizer que ainda faltava mais da metade. Uma pequena mudança de perspectiva que nos faz lembrar a metáfora do copo meio cheio ou meio vazio. Observar a quantidade de suor que se acumulava em meus braços e na testa, escorrendo-me nos olhos e provocando ardência, parecia dar toda a razão para a mente. Olhava no chão ao lado do aparelho e via a poça de suor que também confirmava aquilo que a mente queria sugerir, Desista, Moacir. Você não vai ganhar nada com isso… e eu procurava desbaratar tais pensamentos lembrando que realmente poderia não ganhar nada, mas o desistir faria eu perder muito. Agora já passava dos 7km remados e nesse caso, não perder para a minha mente era ganhar e muito. Representava uma vitória pessoal de disciplina, de determinação e de força de vontade que facilmente poderia ser aplicada em outras situações de vida. A mente transforma o complexo em complicado e cabe a nós inverter o processo. Complicado é aquilo difícil de se desenrascar, mas complexo é a situação que nos oferece inúmeras alternativas, ainda que nenhuma delas seja fácil. Esse é o caminho que devemos buscar. As situações podem ser difíceis, mas se nós a olharmos entendendo a sua complexidade podem-se tirar delas oportunidades.
Na barreira dos 8km mais uma investida da mente sobre a minha vontade. Agora com toda a força. Ela olhou para o cronômetro e disse-me, Olha aí, você tem mais de 20min pela frente. Você acha realmente que vai aguentar? A vontade de parar de fazer aqueles movimentos era enorme. Realmente não vale a pena… pensei. Moacir, o que você está fazendo? Para com isso. Para quê? Foi nesse momento que dei uma remada com mais força e… desisti. Parei… A minha mente vencia a guerra contra a minha força de vontade. Escutei o som do remoergômetro perder potência, porque já era momento de começar um novo movimento, mas eu havia desistido. Fim de conversa. A minha mente dizia, É um desafio muito grande para você, Moacir. Não seja bobo, desiste e pronto… Eu sabia que o prazer de desistir seria imediato, mas as consequências seriam duradouras. As consequências?Ai, ai, ai, as consequências… pensei. Sim, desistir qualquer idiota pode… foi o pensamento seguinte, uma frase que já disse uma centena de vezes. Foi nesse momento que recobrei a lucidez ao relembrar daquilo que me havia proposto fazer. Ninguém me havia obrigado a fazê-lo, eu é que havia escolhido fazê-lo. Por isso, respondi para mim mesmo e para minha mente, Sim, eu vou aguentar. Não vou desistir. Vou continuar porque eu quero continuar, eu posso e eu consigo … e nessa luta minha com a minha mente retomei os movimentos de um remoergômetro que quase parara. Foi somente um segundo, mas o importante é que eu não parei.
Um QUARTO momento do desafio foi a reta final da distância a ser percorrida. Ao ultrapassar a barreira dos 9km com todas as dificuldades conversacionais tidas anteriormente com a minha mente vi que a meta estava próxima. Havia vencido a batalha mental com a minha mente. Dei-me conta que realmente a capacidade física estava como deveria estar para a distância percorrida. O cansaço existia, mas era esperado. Nada tão exaustivo que pudesse ter tido alguma razão para em algum momento da prova querer ter desistido. Como pode que havia me passado a possibilidade de desistir pela cabeça? O pensamento agora era esse. Vi a marca dos 10km surgir no visor do aparelho e um estado de euforia quase tomou conta de mim. Fiz alguns movimentos mais fortes e mais rápidos, entretanto lembrei-me que a prova ainda não estava concluída. Teria pelo menos 10 longos minutos pela frente. Era a mente indo ao outro extremo. Ela também nos pode desestabilizar pela positividade sem medir as consequências. O excesso de confiança tal qual no início da jornada pode comprometer um projeto no seu final. Ao vislumbrar a meta tão próxima, nós podemos cometer o erro de pensar que nada mais nos pode deter. A arrogância pr trás do excesso de confiança pode ter um preço alto. Contive-me. Mantive a cadência e a constância. Nada de acelerar o ritmo. Equilíbrio é o caminho, consegui pensar. E foi o que fiz. Foi com essa segurança que entrei no último quilômetro a ser remado. Um pouco mais de cinco minutos e teria concluído o meu desafio. Cansado? Sim. Olhei para o visor e faltavam 100m. Agora sim… e aumentei o ritmo para terminar o desafio com a certeza de quem dá o sprint final rumo a conquista. Satisfeito? Imensamente. Realizado? Completamente.
O que eu ganhei? O meu respeito por mim mesmo e a certeza de que é possível dominar a mente, mudar os pensamentos e, consequentemente os rumos da própria vida. Por isso, quem realmente quer, pode e consegue!
Olhamos para à direita e ali estava o majestoso hotel onde teríamos uma reunião com o nosso contato. Deu uma sensação de alívio, porque a cidade era desconhecida e o trânsito caótico e nós chegávamos ao local com trinta minutos de antecedência. Ufa! pensei e logo exclamei:
– Não nos perdemos mais! Sorrindo feliz da vida para a Maria Alice que conduzia o veículo.
Porém, estávamos nos fundos do hotel. Avançamos um pouco para contornar a rua e chegar na entrada principal, entretanto a rua estava interrompida. Bem, teremos que dar a volta, pensamos. Foi o que fizemos. Retornamos pela rua que havíamos chegado, mas não poderíamos dobrar à esquerda para ir em direção ao lado onde deveria estar a porta principal do hotel, porque o sentido da rua não o permitia. Dobramos à direita e acreditávamos que apenas teríamos que dar uma volta um pouco maior, mas logo estaríamos no hotel. Por via das dúvidas reprogramei o GPS e lá fomos nós. Contornamos uma esquina e tivemos que avançar um pouco mais. Fomos até a próxima rua e finalmente pudemos entrar na avenida na qual deveria estar a entrada principal do hotel. Para nossa surpresa, a avenida estava uma confusão. A pista do lado do hotel era um canteiro de obras. Seguimos devagarinho e vimos uma passagem por entre os buracos e as obras e conseguimos entrar no pátio do magnífico hotel. O GPS acusava uma pequena diferença de localização, mas não havia dúvidas de que estávamos no nosso destino. Os GPSs também erram, pensei.
Conversamos com o recepcionista e dissemos que terímos uma reunião com um cliente deles. Ele nos abriu a garagem e deixamos o carro das dependências do hotel. Aproximei-me da recepção e perguntei:
– Tenho uma reunião com … e dei-lhe o nome.
O rapaz olhou a lista de hóspedes e disse que não havia ninguém com esse nome. Estranho, muito estranho, pensei. Mas nós combinamos às 17h nesse hotel… Ainda faltavam alguns minutos e então perguntei:
– Podemos aguardar aqui no café do hotel?
O rapaz de forma muito solícita disse que sim. A Maria Alice e eu dirigimo-nos ao café, porém ela estava um pouco desconfiada de que algo não estava bem. Enquanto eu buscava uma mesa a Maria Alice dirigiu-se ao balcão do café e perguntou o nome do hotel. Ela rapidamente voltou até mim e disse:
– Estamos no hotel errado.
– Como?
– Não é esse o nosso hotel. Ele está um pouco mais abaixo e está com a entrada interrompida.
Saímos para buscar o carro na garagem e fomos em busca do hotel outra vez. Não nos perdemos mais, pensei eu um pouco irritado com a situação. A partir de agora começávamos a estar atrasados. Demos uma volta enorme para poder encontrar um acesso ao hotel. Não conseguimos nada. Nesse momento tocou o meu telefone. Era o cliente preocupado em saber o porquê do nosso atraso. Expliquei-lhe. Víamos o hotel ao longe, mas não conseguíamos achar um caminho até ele. Finalmente, voltamos ao ponto de partida. Os fundos do hotel. Paramos ali mesmo. A rua estava interrompida, mas a calçada não. Assim, desembarquei, dei a volta em toda a quadra e fui encontrar-me com o cliente, agora já com vinte minutos de atraso.
No caminho de retorno a Maria Alice e eu ríamos do momento em que chegamos em que eu disse, Não nos perdemos mais!, mas nos perdemos. Às vezes, a certeza de que já alcançamos algo ou de que já conquistamos o nosso prêmio nos induz ao erro. A convicção de que uma pessoa, um amigo, um amor ou um cliente já foi conquistado faz com que não lhe dediquemos a devida atenção e o percamos, ainda que nos pareça impossível acontecer. O convencimento de que algo nos pertence, seja por mérito ou como direito adquirido, não existe. Tudo é uma construção. Nós estamos constantemente em obras. As pessoas com as quais convivemos também. Alguns mudam a fachada. Outros reformam a parte interior. E nós, nas nossas relações, temos que estar atentos e perceber como os outros estão se construindo, sabendo que isso é um processo inevitável, porque nós também o fazemos. Se não nos dermos conta que todos nós estamos constantemente em obras, podemos perder a porta de acesso àqueles que nos são mais caros.
Todos conhecemos indivíduos que, apenas com a força da sua personalidade, conseguem transformar situações desesperadas em desafios a superar. Esta capacidade de perseverar apesar dos obstáculos e fracassos é a qualidade que mais admiramos nos outros, e muito justamente; é talvez a característica mais importante, não só para vencer na vida, como para dela desfrutar.
Texto extraído do livro Fluir de Mihaly Csikszentmihalyi (1990, p. 47).
“Em certos momentos da história, as culturas partiam do princípio que uma pessoa não era completamente humana se não soubesse controlar os seus pensamentos e os seus sentimentos. Na China de Confúcio, na antiga Esparta, na Roma republicana, nas primeiras colónias de peregrinos da Nova Inglaterra e na alta sociedade inglesa da época vitoriana as pessoas eram responsabilizadas pelo domínio severo das suas emoções. Quem se abandonasse à autocomiseração, e permitisse que as suas acções fossem ditadas mais pelo instinto do que pela reflexão, perdia o direito a ser aceite como membro da comunidade. Noutros períodos históricos, como o que vivemos actualmente, a capacidade de autocontrole não é muito valorizada e os que tentam alcançá-la são considerados ridículos, ‘excêntrico’, ou fora ‘da onda’. Mas, sejam quais forem os ditames da moda, aparentemente os que levam a sério o domínio do que acontece na mente, vivem uma vida mais feliz.”
Texto extraído do livro Fluir de Mihaly Csikszentmihalyi (1990, p. 46)
Realmente ainda tem um longo caminho para sermos completamente humanos…
Após o almoço, o anfitrião todo orgulhoso observa os convidados saboreando o prato oferecido. Ele sabia muito bem que os convidados tinham hábitos alimentares muito diferentes, mas fez questão de recebê-los com um prato típico da sua região e da sua cultura. Quando viu que todos estavam servidos e a expressões denotavam que haviam gostado, indagou:
– E então, gostaram?
– Sim, estava excelente! Respondeu um.
– Nossa, nunca imaginaria que pudesse ser tão bom! Respondeu outro.
Certamente que os elogios encheram o anfitrião de orgulho. Agradeceu os comentários e fez outra pergunta:
– E na terra de vocês, qual é o prato típico?
Os convidados se entreolharam até que um comentou:
– A comida do dia a dia é o tradicional feijão e arroz, com um pedaço de carne e saladas. Essa é a combinação mais tradicional… e continuaram falando sobre a cultura gastronômica de sua região.
O dono da casa então ofereceu:
– Vocês gostariam de preparar uma refeição típica durante esta semana? Acredito que possamos encontrar todos os ingredientes que vocês precisam…
E assim foi combinado o almoço agora com a comida típica dos visitantes numa integração de culturas e costumes alimentícios complementares. Não se estava dizendo que uma era melhor do que a outra, apenas que eram diferentes.
Acredito que esse seja o caminho para que a humanidade caminhe rumo a sua trajetória planetária em que chegaremos ao ponto de ser um único povo, sem diferenças culturais que nos criem atritos, conflitos e guerras. Pra isso, o respeito deve ser o propulsor da efetiva integração. Se ainda hoje temos tantas questões que provocam hostilidades e divergências é o resultado da intolerância de um para com o outro. Muitas vezes pode ser a arrogância de acreditar que os meus hábitos são melhores do que os seus. E não é isso. Sabe-se que os hábitos e costumes que cada povo desenvolveu durante milênios tiveram a sua razão de ser e funcionaram, tanto que os povos aqui chegaram. Hábitos e costumes que fundamentavam uma cultura baseavam-se nas habilidades e no conhecimento de que cada povo dispunha. Eram hábitos que seguiam as características ambientais de cada região. Sabe-se que os povos que viveram e se desenvolveram em climas mais frios tinham estratégias de sobrevivência diferentes daqueles que surgiram em regiões mais quentes. Naturalmente também os hábitos alimentares eram diferentes, porque cada povo dependia diretamente daquilo que o ambiente oferecia. Hoje essa dependência direta dos produtos da região são bem menos importantes. Por isso as pessoas passaram a experimentar, a integrar e a modificar os hábitos alimentares. Na grande maioria dos casos não se fala mais em questão de sobrevivência individual e da espécie quando se escolhe o que se vai comer, mas faz-se as escolhas alimentares por gosto.
Por isso, da próxima vez que você viajar não deixe a sua cultura em casa. Leve-a consigo, mas respeite a cultura local. E se você realmente quiser comer feijão onde ele não é a comida principal, leve-o. Desse modo você poderá saboreá-lo e, quem sabe, oferecer uma iguaria para os anfitriões.
Aquele grupo de pessoas passariam juntos as próximas duas semanas daquelas férias de verão. Eram amigos e também alguns eram parentes. Alguns estavam com as suas esposas e filhos. A casa de praia era muito simples, mas estava bem próxima do mar. Algumas pessoas já haviam chegado no dia anterior, mas a maior parte do grupo recém havia chegado e já era hora do almoço. O anfitrião estava todo feliz em poder receber aquelas pessoas que lhe eram tão especiais. Entre um “bom dia” para cá e outro para lá ele conseguiu chamar a atenção de todos para anunciar que o almoço daquele dia estava pronto. Começou dizendo:
– Aqui tem caipirinhas e a cerveja cada um pega a sua. O almoço também está pronto hoje fui eu que fiz. Teremos macarrão ao molho pesto acompanhado de saladas. Amanhã será a vez de outro fazer o almoço…
Terminou fazendo um gracejo, uma saudação e pegou uma caipirinha. Provavelmente, esperava uma saudação de retorno pelas boas-vindas e pelo almoço na mesa. Eram esses os comentários que se escutavam a partir do murmúrio geral das pessoas. Porém, de repente ouviu-se uma voz fina e estridente vinda de alguém que estava na varanda que disse:
– É? Só tem macarrão? Mas eu quero feijão…
Inicialmente acreditou-se tratar de uma brincadeira, mas logos as conversas cessaram. As pessoas pararam. E a voz repetiu:
– Eu como feijão todo o dia e eu quero comer feijão hoje também…
O clima que estava muito bom para veraneio, azedou na hora. É que as palavras proferidas e a exigência feita não eram de brincadeira e não tinham origens num criança mimada. Elas foram feitas pela mulher de um dos integrantes do grupo que pela primeira vez participava dos festejos com aqueles quase familiares. A forma como foram ditas as palavras revelava que se tratava de uma exigência real. Naquele momento ninguém falou mais nada. Podia-se ouvir o barulho das ondas…
Logicamente que a história do feijão é ilustrativa, mas revela o comportamento de muitas pessoas que saem de suas cidades, de suas regiões e de seus países para outros lugares. Alguns vão a passeio, outros vão temporariamente e outros ainda mudam-se em definitivo para novos lugares, querendo reproduzir integralmente os velhos hábitos e introduzir ali a sua cultura. Nada contra levar parte de seus costumes e deles ter orgulho. Entretanto, ao entrar em contato com as outras culturas há que se ter a mente aberta para saber que se os outros assim o fazem é porque eles acreditam ser a melhor forma de fazê-lo. É dizer que se o anfitrião come macarrão também eu vou comer, porque se eu julgar que aquele almoço não é bom o suficiente para mim não deveria ter ido até a casa dele.
Eis o ponto: caso você sempre queira comer feijão… É melhor ficar em casa.