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Saber eu sei…

… mas não faço!
Em tempos de soluções rápidas para problemas complexos, muitos de nós, estamos aptos para compartilhar ditados, ensinamentos, regras e conselhos para resolver os problemas dos outros e do mundo. Muitas vezes, entretanto, não resolvemos os nossos problemas. Fui flagrado nessa situação outro dia. Pela enésima vez cometi o mesmo erro. Minha esposa, com certa ironia, perguntou-me:
– Você não aprendeu ainda?
Inteligentemente respondi:
– Aprender eu aprendi, mas ainda não faço…

Fiquei pensando, Aprendi? Se eu não faço então não aprendi… 

Posso até saber como não cometer determinado engano, mas ao repeti-lo quer dizer que não aprendi.

Competitividade, uma questão de respeito

Quando assisto a uma competição esportiva e vejo alguém fazendo corpo mole ou firulas desnecessárias fico incomodado. Muitas vezes isso pode ser visto em partidas de futebol quando uma equipe alcança uma vantagem folgada no placar. Nesse momento, aparece o jogador engraçadinho que começa a fazer embaixadinhas, a dar pedaladas ou a ensaiar jogadas mirabolantes que não têm o objetivo de facilitar o caminho até o gol ou de ampliar a possibilidade de defesa. Por que fico incomodado com isso? Porque quem faz isso desrespeita o competidor que está do outro lado, os colegas de equipe e os torcedores. Não interessa se o jogo está 0 a 0 ou se está 5 a 0. O jogador que está em campo deve dar o melhor de si, oferecendo ao adversário e aos colegas o respeito e ao público o espetáculo que ele procura. Fosse eu do outro lado preferiria perder um jogo por 5 ou 6 a 0 com os outros jogando tudo o que sabem jogar do que perder por menos dando-me conta de que eles estão menosprezando a minha equipe e a mim.

Numa organização não é diferente. Pode-se não estar numa competição, mas devemos ser competitivos. Devemos dar o melhor que temos a dar para ajudar a produzir com mais eficiência e eficácia aquilo a que nos propomos quando entramos na organização. Ser competitivo é uma questão de respeito para consigo mesmo, com os colegas, com a organização e com os consumidores.

Seres humanos, seres estranhos e o uso da água…

Você quer um local onde o uso racional da água não existe? 
Vá para um hotel de alto padrão. Um banho de uma pessoa consome água que daria para outras tantas o fazerem sem nenhum prejuízo da higiene. Vá então para o restaurante. Observe as pessoas tomarem o seu café da manhã num hotel. Elas entram e olham a oferta dos mais variados tipos de alimento. Pegam um prato e se servem de mamão. Comem o mamão. Deixam o prato na mesa. Pegam outro prato e se servem de abacaxi. Comem o abacaxi. Pegam outro prato e se servem de pão  de queijo. Comem o pão de queijo. Pegam outro prato para se servir mais alguma coisa. E assim a cena de repete. As pessoas que ali trabalham quase não conseguem repor os pratos limpos necessários para atender a demanda. Ao final do café da manhã cada hóspede usou uns tantos quantos pratos para fazer uma única refeição. Pratos que usam água para serem lavados. E os congressistas que participavam daquele congresso internacional sobre o uso racional da água estavam lá, lambuzando-se nos prazeres da boa comida desperdiçando água como nunca. E eu também…
O uso racional dos recursos naturais não é só uma tendência, é uma exigência fundamentada na constatação de que não há o suficiente para que se continue a usá-los da forma como os usamos.
Pode-se entender o uso desregrado que fazemos dos recursos naturais? Claro que sim. Os seres humanos têm uma história planetária de mais de uma centena de milhares de anos em que nunca ainda se havia descoberto o último rincão do planeta. De repente, nos últimos séculos, descobrimos que o planeta é finito e que os recursos também o são. Sabemos, mas ainda não internalizamos essa realidade para modificar nosso comportamento. Ainda não paramos de nos reproduzir e nem de aumentar o consumo de tudo que está disponível.
Pode-se condenar o uso desregrado que fazemos dos recursos naturais? Em algum momento terá que se começar e a tomada de consciência da finitude dos recursos naturais é um bom indicador. Em muitos casos, o discurso sobre a percepção da necessidade da mudança dos hábitos de consumo vem se alterando, mas a realidade ainda não é impactada por ele. Fala-se muito  no uso racional dos recursos naturais, bem como do desenvolvimento de modelos sustentáveis de vida, porém com pífios resultados práticos. Um dos itens em pauta, recorrentemente, é a água. Discorre-se, teoriza-se, fala-se e organizam-se eventos internacionais, nacionais e regionais para tratar do tema. Para a surpresa de poucos, mas para o deleite dos pensadores que apresentam dados e números insustentáveis sobre usar mal o recurso “água”, os eventos, em sua grande maioria, são realizados em modernos e chiques hotéis de alto padrão.
E esse é um exemplo mínimo, mas que mostra toda a nossa incongruência como seres humanos. Mas é certo que os congressistas daquele evento sobre o uso racional da água têm boas ideias para os outros implementarem. Sempre assim, não é?
Será que esses debatedores tomaram realmente consciência do discurso que alardeiam?

Quando será que todos nós, simples mortais, tomaremos consciência dessa realidade?

Somos seres humanos. Somos ou não somos seres estranhos?

Por que as perguntas são tão importantes?

Quem pode responder? Creio ser um bom começo cada um elaborar e responder para si uma boa pergunta, O que te move?
Outro dia conversava com um amigo, diretor de uma grande empresa. Ele, que não tem nem 30 anos, já demonstrava o cansaço e estresse cada vez mais comuns na vida de jovens executivos. Ao falar de sua posição e da rapidez com que a ela chegou o orgulho era evidente. Falar de resultados também fazia com que os seus olhos brilhassem. Mas por que tamanho cansaço?, perguntei. Qual a razão de tanto estresse?, foi outra pergunta que naturalmente surgiu na conversa. As perguntas não tinham a intenção de causar sofrimento nem dor, mas eu sabia que elas tinham a capacidade de fazer com que ele se questionasse sobre isso. A razão é simples. As perguntas têm a natural função de estimular a que se pense em respostas, sendo um caminho para se encontrar soluções. Porém, o grande desafio é fazê-las ou se autoquestionar corretamente. Caso se parta de uma pergunta mal formulada, acaba-se por resolver um problema errado.
A conversa entre nós prosseguiu. O jovem executivo levantou algumas hipóteses sobre o cansaço e estresse. Diferentes estudos revelam que o autoquestionamento proporciona impulsos mais duradouros na busca por respostas. Mas até o momento, as questões haviam sido postas por mim. Mesmo assim, elas estavam produzindo resultados. Era visível que as perguntas feitas estavam sendo processadas com muita profundidade. O espírito e a alma do executivo estavam presentes no processo. Por isso, as perguntas são cada vez mais importantes na capacidade de mover os outros e a si mesmo. Fica evidente que encontrar o problema adequado é que fará com que se chegue a uma solução apropriada, porque as ferramentas tecnológicas e humanas, provavelmente, existem para que se tenha uma boa resposta.
Nessa toada, a nossa conversa prosseguia. Foi quando lhe fiz mais uma pergunta, Mas o que te move? O jovem executivo mexeu-se nervosamente em sua cadeira. Comentou sobre a vida diferente que levam alguns de seus melhores amigos de infância e juventude. Por fim, respondeu se questionando, Será que vale a pena? Será que está valendo a pena?, repetiu. Caramba, disse ele, essa pergunta vou me fazer todos os dias ao levantar… e os seus olhos brilhavam genuinamente felizes. Pensei com os meus botões, Grande pergunta… Chegou cedo a ela!

Tem gente que termina os seus dias sem se perguntar o que realmente os move. Muitas vezes, terminam a vida sem se perguntar, Valeu a pena ter vivido?. Respondê-la dá uma dimensão da importância das perguntas.

Deu na Globo…

…sou contra!
Ouvir alguém dizer “Tenho por princípio ser contra o que a Globo noticia…” chega a ser deprimente, principalmente sendo a frase pronunciada por uma pessoa instruída.

É quase a mesma situação quando ouço, O BBB é o fim da picada!”. A mim, particularmente, ele não incomoda porque não o assisto. Portanto, para mim não é nada.

É quase a mesma situação quando ouço, “A programação da TV brasileira é uma porcaria…”. Pode até ser, mas se a audiência existe por que não seria? 

A programação, com BBBs e outras atrações, somente existe porque audiência tem. Muitos até poderiam argumentar, “Não há opção…”, o que se caracteriza como a mentira dos preguiçosos. Por que não trocar de canal? Por que não desligar? Por que não ler um livro? 

Por fim, afirmar que se é contra algo somente porque foi veiculado em determinado canal chega a dar pena. Isso quer dizer que se for noticiado que “Houve um maremoto na China”, que “A gasolina teve um aumento…” ou que “Há uma previsão de fortes chuvas para a tarde de hoje…” a pessoa é contra porque vai contra os seus princípios acreditar naquilo que é noticiado naquele canal.

No meu ponto de vista, não me deixo pautar pela notícia ter sido veiculada neste ou naquele canal. Jamais daria tamanho poder aos outros sobre o que eu penso!


De lado com Gabi…

A última semana foi especial. Um evento que havia sido organizado como palestra terminou como uma oficina com mais de duas horas de duração. Foi um grupo pequeno e notável. A interação foi boa. Os assuntos fluíram exatamente como a ideia principal: articular para fazer fluir. Ao término tive a sensação de que as pessoas haviam acrescentado algo nas suas vidas e eu, muito. Sempre acreditei que se aprende mais com aqueles que convivemos em ambientes de aprendizado do que, propriamente, com aqueles que se propõem a nos ensinar algo. Nesse dia, eu estava lá para ensinar, mas o aprendiz fui eu. Na viagem de retorno, encontrei uma pessoa que admiro por suas entrevistas inteligentes. Não quer dizer que eu concorde com todas as perguntas, abordagens e opiniões da apresentadora, mas a respeito pela autonomia de suas posições. Quase sempre, a imagem que faço das pessoas que somente vejo pela televisão me parece distorcida quando confrontada com a realidade. Não foi assim com Marília Gabriela. Para mim, ela realmente se parece com aquela mulher que vejo na TV. A voz nem se fala. Quando ela me cumprimentou ao sentar ao meu lado num trajeto de voo parecia que eu havia ligado a televisão. Ouvi-la sem eu estar em casa e ela na TV?
Incrível! Fiquei boquiaberto a viagem inteira.
Ao desembarcar desse voo fui direto ao hotel para me preparar para o próximo evento. Fiz o check-in e subi para o apartamento. O evento seria num auditório ao lado. Arrumei-me e desci. Ao sair do elevador e passar pelo saguão do hotel, vejo algumas pessoas entrando. Sou colorado desde sempre, por isso logo reconheci um grupo de torcedores do Internacional. Ôpa!, não eram torcedores. Eram os jogadores. Olhei mais uma vez e reconheci Juan, o zagueirão e Dida, o goleiro. Caramba, parecem tão normais em comparação com aqueles caras que vejo ou imagino no jogo… Ainda estava atordoado olhando meio de lado, mas segui em frente para a saída do hotel. Justamente na passagem da porta dei de cara com o Dalessandro. O craque do Inter!!! Um argentino guerreiro. Não desiste nunca! Eu saindo do hotel e ele entrando. Ficamos frente a frente. Uma pequena dúvida. Um impasse. Ele entraria ou eu sairia? Ele foi muito cortês, além de simpático, e deu-me a passagem. Passei rapidamente e desejei-lhe, Bom jogo!, pois sabia que jogariam logo mais no Beira-Rio. Ele, com aquele sotaque castelhano, respondeu¸ Obrigado!

Foi um dia diferente. Encontrei estrelas humanas, humildes e simpáticas. Quantos relatos que ouvimos de  encontros com estrelas humanas, arrogantes e antipáticas. Fiquei de lado com a Gabi e de frente com o Dalessandro e vi que somos todos iguais. Humildes ou arrogantes, simpáticos ou antipáticos depende do caráter de cada um, não da condição.

Sempre é a primeira vez…

Os eventos dos quais participo sempre me são um desafio. Posso até parecer tranquilo, mas não é bem assim. Cada evento é uma nova proposta. Sei que poderia falar exatamente o que falei no último evento, porque é a primeira vez para os que agora me ouvem. Não teria nenhum problema. A questão que a mim se põe é que eu sei que estou falando com pessoas diferentes, assim não me sentiria bem falando a mesma coisa. 

Por isso, para mim também sempre é a primeira vez. 

Dívida social

Não pode haver dívida social enquanto não se tiver consciência do cometimento de uma transgressão ou da violação de direitos. Ao cobrar dívidas sociais sobre costumes e tradições de um período em que não vivemos não estamos sendo justos, estamos sendo arrogantes. Com essa iniciativa nos colocamos como melhores do que aqueles que viveram o senso de justiça da sua época. E isso não é verdade! Nós não somos melhores nem piores, somos apenas diferentes. Porém, ao tomarmos consciência de que os nossos costumes violam direitos de outros aí sim a dívida começa. Trata-se de usar informações do passado presentes na nossa herança cultural para corrigir o nosso comportamento atual e deixar um legado com o nosso olhar de justiça.

Desse modo, basta que cada um faça a sua parte agora, pois com certeza o mundo será um pouco melhor hoje. O que cada um está fazendo agora para deixar um legado positivo? Eis a pergunta… E no futuro? Quem viver verá… Quem viver responderá se fomos justos ou não.